<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Encruzilhadas]]></title><description><![CDATA[Espaço de reflexão onde se defende a centralidade da relação entre os alunos e o conhecimento culturalmente validado como o desafio nuclear da Escola, o qual determina o empoderamento humano dos discentes e a afirmação profissional dos docentes.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ghFf!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F542030fc-14c2-474c-b563-512dbc701157_1200x1200.png</url><title>Encruzilhadas</title><link>https://encruzilhadas.pt</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Mon, 02 Nov 2026 10:20:28 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://encruzilhadas.pt/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Rui Trindade]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Rui Trindade]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Rui Trindade]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Rui Trindade]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[PISA 2025: Cultura organizaciona e participação dos professores]]></title><description><![CDATA[Na sequ&#234;ncia da reflex&#227;o que tenho vindo a partilhar sobre a rela&#231;&#227;o entre a a&#231;&#227;o pol&#237;tica de Jo&#227;o Costa e os resultados no PISA 2025, chegou o momento de abordar uma das vulnerabilidades do Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular (PAFC): a aus&#234;ncia de medidas capazes de contrariar as pr&#225;ticas de gest&#227;o burocr&#225;tica e taylorizada das escolas.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/pisa-2025-cultura-organizaciona-e</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/pisa-2025-cultura-organizaciona-e</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 31 Oct 2026 10:48:01 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/19bb82e9-070d-4854-9bee-fb8c791313cd_500x280.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na sequ&#234;ncia da reflex&#227;o que tenho vindo a partilhar sobre a rela&#231;&#227;o entre a a&#231;&#227;o pol&#237;tica de Jo&#227;o Costa e os resultados no PISA 2025, chegou o momento de abordar uma das vulnerabilidades do Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular (PAFC): a aus&#234;ncia de medidas capazes de contrariar as pr&#225;ticas de gest&#227;o burocr&#225;tica e taylorizada das escolas.</p><p style="text-align: justify;">Importa come&#231;ar por reconhecer que estamos perante um desafio pol&#237;tico dos mais complexos e dif&#237;ceis de protagonizar quer porque o efeito das medidas que se possam tomar s&#243; ter&#225; impacto a longo prazo, quer porque h&#225; uma dist&#226;ncia incomensur&#225;rel entre a decis&#227;o pol&#237;tica de contribuir para a constru&#231;&#227;o de culturas organizacionais de pendor democr&#225;tico e o modo como essas decis&#245;es se repercutem no terreno.</p><p style="text-align: justify;">Este &#233; um assunto sobre o qual me limito a propor constata&#231;&#245;es. N&#227;o me pe&#231;am para desenhar propostas porque me falta reflex&#227;o sobre o assunto, capacidade para analisar, de forma aprofundada e pertinente, os estudos produzidos, bem como o envolvimento em projetos de investiga&#231;&#227;o e de interven&#231;&#227;o que me concedessem experi&#234;ncia e saberes &#250;teis para o fazer. O que sei &#233; que h&#225; uma contradi&#231;&#227;o insan&#225;vel entre o desenvolvimento de um projeto cujos pilares assentam na autonomia e flexibilidade curriculares como condi&#231;&#227;o que exige obrigatoriamente a participa&#231;&#227;o dos atores educativos e um programa de gest&#227;o das escolas onde as decis&#245;es s&#227;o da responsabilidade exclusiva de alguns, sendo a execu&#231;&#227;o da responsabilidade de quase todos.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o se podendo afirmar que Jo&#227;o Costa desprezou esta vari&#225;vel, pode considerar-se, apenas, que privilegiou as decis&#245;es relacionadas com as transforma&#231;&#245;es curriculares e pedag&#243;gicas, entendendo-as como as decis&#245;es determinantes da sua a&#231;&#227;o pol&#237;tica. Creio que acreditava que a dimens&#227;o curricular e pedag&#243;gica estimularia, s&#243; por si, a participa&#231;&#227;o dos atores educativos, e em particular a dos professores, como objetivo institucional estrat&#233;gico. Se houve agrupamentos e escolas onde se criou este tipo de sinergias entre aquela dimens&#227;o e este objetivo, e seria importante estudar em que condi&#231;&#245;es &#233; que um tal fen&#243;meno se tornou poss&#237;vel, o que se verificou &#233; que isso nem sempre aconteceu e, pior ainda, acabou por constituir-se como condi&#231;&#227;o para legitimar solu&#231;&#245;es organizacionais de pendor autocr&#225;tico. Neste caso, nalgumas escolas parecia acreditar-se que, em nome de um prop&#243;sito desej&#225;vel, seria poss&#237;vel legitimar a imposi&#231;&#227;o de um conjunto de mudan&#231;as que as dire&#231;&#245;es dessas escolas consideravam ser as mudan&#231;as necess&#225;rias.</p><p style="text-align: justify;">Sem pretender extrair conclus&#245;es precipitadas sobre a rela&#231;&#227;o entre este fen&#243;meno e os resultados do PISA 2015, vale a pena, referir, no entanto, que um projeto de educa&#231;&#227;o escolar mais ambicioso e exigente, como aquele que o PAFC corporizava, n&#227;o poderia ser feito contra os professores. Uma tal afirma&#231;&#227;o n&#227;o significa que eu defenda uma atitude de espera passiva ou que n&#227;o admita a possibilidade de introduzir constrangimentos institucionais como parte inevit&#225;vel de uma estrat&#233;gia de mudan&#231;a, o que considero &#233; que &#233; necess&#225;rio ser t&#227;o prudente quanto clarividente, de forma a que o registo da imposi&#231;&#227;o de medidas e projetos n&#227;o se torne no registo hegem&#243;nico. Se estimular a participa&#231;&#227;o e o di&#225;logo &#233; dif&#237;cil, gera conflitos e suscita tens&#245;es, &#233; inevit&#225;vel, no entanto, que isso aconte&#231;a, enquanto condi&#231;&#227;o de transforma&#231;&#227;o dos projetos curriculares e pedag&#243;gicos que visam transformar as nossas escolas em espa&#231;os de empoderamento culturalmente significativo. Tamb&#233;m aqui &#233; necess&#225;rio ser-se capaz de identificar prioridades claras e pertinentes e adequar os ritmos da mudan&#231;a, dado que, tal como se defende para os alunos, o ponto de partida &#233; sempre o que cada docente sabe e se mostra capaz de fazer, enquanto condi&#231;&#227;o necess&#225;ria para que possam vir a ser o que ainda n&#227;o s&#227;o e a fazer o que ainda n&#227;o se julgam capazes de realizar.</p><p style="text-align: justify;">E, mais uma vez, nos defrontamos com a tens&#227;o entre o tempo educativo e o tempo pol&#237;tico, dado que, no caso da constru&#231;&#227;o de culturas organizacionais que impliquem a participa&#231;&#227;o dos atores educativos na concetualiza&#231;&#227;o e execu&#231;&#227;o dos projetos, o tempo educativo tende a ser uma vari&#225;vel que nos remete para o dom&#237;nio dos longos prazos.</p><p style="text-align: justify;">Finalmente, h&#225; que n&#227;o esquecer, tamb&#233;m, que a disponibilidade dos professores para enfrentarem os desafios e as exig&#234;ncias com que o PAFC os confrontava foi posta em causa, de uma forma definitiva, com a obstina&#231;&#227;o do primeiro-ministro, Ant&#243;nio Costa, e do ministro das Finan&#231;as, Fernando Medina, quando recusaram a reivindica&#231;&#227;o dos docentes portugueses, colocados nas escolas do continente, relacionada com a contagem do tempo de servi&#231;o congelado durante o governo de Passos Coelho por imposi&#231;&#227;o da troika. Todos nos lembramos do clima de crispa&#231;&#227;o que se gerou e do efeito desmobilizador que um tal clima gerou, o que, ao degradar a rela&#231;&#227;o dos professores com o ministro Jo&#227;o Costa, acabou por conduzir &#224; descredibiliza&#231;&#227;o do seu projeto de transforma&#231;&#227;o da Escola portuguesa.</p><p style="text-align: justify;">O pr&#243;ximo texto, o antepen&#250;ltimo, debru&#231;ar-se-&#225; sobre o que, neste blogue, tenho vindo a denunciar por deriva processualista. Trata-se de um fen&#243;meno do qual s&#243; me apercebi por conta do meu pr&#243;prio envolvimento no PAFC e, enquanto, presidente, durante mais de 8 anos, do Conselho Cient&#237;fico-Pedag&#243;gico da Forma&#231;&#227;o Cont&#237;nua (CCPFC). Um fen&#243;meno sobre o qual, na minha perspetiva, vale a pena refletir, enquanto exerc&#237;cio necess&#225;rio para pensar o presente e futuro da Escola.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[PISA 2025: João Costa e a tensão entre tempo educativo e tempo político]]></title><description><![CDATA[Na continua&#231;&#227;o da prometida reflex&#227;o sobre as responsabilidades de Jo&#227;o Costa (JC) nos resultados do PISA 2025, abordei, no texto anterior, as potencialidades do projeto de transforma&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica pelo qual foi o principal respons&#225;vel quer enquanto Secret&#225;rio de Estado, quer enquanto Ministro da Educa&#231;&#227;o, tendo-se deslocado para este texto a respostas a uma quest&#227;o decisiva: Como &#233; que se passou das inten&#231;&#245;es &#224; concretiza&#231;&#227;o do projeto?]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/pisa-2025-joao-costa-e-a-tensao-entre</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/pisa-2025-joao-costa-e-a-tensao-entre</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 23 Oct 2026 17:21:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/12d062f4-ed8a-48be-a530-311ce60e3745_414x483.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na continua&#231;&#227;o da prometida reflex&#227;o sobre as responsabilidades de Jo&#227;o Costa (JC) nos resultados do PISA 2025, abordei, no texto anterior, as potencialidades do projeto de transforma&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica pelo qual foi o principal respons&#225;vel quer enquanto Secret&#225;rio de Estado, quer enquanto Ministro da Educa&#231;&#227;o, tendo-se deslocado para este texto a respostas a uma quest&#227;o decisiva: Como &#233; que se passou das inten&#231;&#245;es &#224; concretiza&#231;&#227;o do projeto? +</p><p style="text-align: justify;">Ser&#225; esta a quest&#227;o que orienta a reflex&#227;o que pretendo partilhar, defendendo, desde logo, que, apesar das suas ambi&#231;&#245;es e potencialidades, um tal projeto, n&#227;o tinha condi&#231;&#245;es para poder vir a ser concretizado, uma vez que, como no-lo lembra Ant&#243;nio Teodoro (2026), o tempo educativo &#233; sempre mais longo que o tempo pol&#237;tico. Isto n&#227;o significa que n&#227;o haja um legado, ao qual seria importante conferir visibilidade atrav&#233;s de estudos atentos e criteriosos quer sobre o que se fez, e faz, nalgumas escolas, quer sobre alguns dos projetos mais promissores que a&#237; se continuam a desenvolver ou quer, ainda, sobre o trabalho que alguns professores v&#227;o realizando. Reconhecer uma tal possibilidade n&#227;o significa que n&#227;o se tenha de considerar que o projeto de JC acabou por ser, tamb&#233;m, um projeto inacabado, quer porque, entre outras raz&#245;es a considerar e face &#224;s ambi&#231;&#245;es que alimentava, n&#227;o usufruiu do tempo que seria necess&#225;rio para se consolidar. Para al&#233;m disso, as op&#231;&#245;es do primeiro-ministro Ant&#243;nio Costa e do ministro das Finan&#231;as, Fernando Medina, ao impedirem a contabiliza&#231;&#227;o do tempo de servi&#231;o docente, subtra&#237;do durante o per&#237;odo em que Portugal esteve sob o dom&#237;nio da troika, contribu&#237;ram, e de forma decisiva, para obstaculizar o desenvolvimento da rela&#231;&#227;o entre os docentes e o projeto em causa. Finalmente, houve duas raz&#245;es que, neste &#226;mbito, tiveram igualmente um efeito inibidor. Falo da pouca aten&#231;&#227;o que se prestou ao desenvolvimento de uma cultura organizacional das escolas capaz de assegurar a participa&#231;&#227;o e mobiliza&#231;&#227;o dos professores na afirma&#231;&#227;o local do projeto, falo, tamb&#233;m, do problema curricular e pedag&#243;gico incontorn&#225;vel que se foi revelando &#224; medida que o projeto se desenvolvia, o qual tenho vindo a designar por deriva processualista.</p><p style="text-align: justify;">Neste texto irei abordar, apenas, a problem&#225;tica da rela&#231;&#227;o entre as transforma&#231;&#245;es curriculares e pedag&#243;gicas substantivas que JC desejava implementar e o tempo educativo que seria necess&#225;rio para que tais transforma&#231;&#245;es pudessem frutificar. Da&#237; que comece por propor a quest&#227;o com a qual Ant&#243;nio Teodoro (2026) nos confronta: &#8220;quanto tempo demora uma educa&#231;&#227;o mudar?&#8221; (p. 84).</p><p style="text-align: justify;">Todos sabemos que estamos perante uma pergunta que n&#227;o admite respostas perent&#243;rias, assim como sabemos que sendo expect&#225;vel que num mandato de 4 anos um governo possa propor medidas educativas pertinentes, n&#227;o &#233; expect&#225;vel que os resultados mais importantes, decorrentes da ado&#231;&#227;o de tais medidas, possam ser &#8220;apresentados pelo governo que as iniciou&#8221; (idem, p. 85). De igual modo, tamb&#233;m &#233; expect&#225;vel que um determinado ciclo governativo seja precedido de um outro, subordinado a outras vis&#245;es pol&#237;ticas e marcado por decis&#245;es que se definem mais pela rutura do que pela continuidade. Mesmo que se estabelecessem consensos sobre o modo como se responde a quest&#245;es t&#227;o prementes como aquelas que se relacionam com o modo &#8220;como queremos combater as desigualdades que condicionam as aprendizagens?&#8221; (ibidem) ou &#8220;que conhecimento queremos garantir a todos?&#8221; (ibidem) ou, ainda, &#8220;que professores queremos atrair para a profiss&#227;o?&#8221; (ibidem), nem assim se poderia encurtar o tempo educativo necess&#225;rio para promover mudan&#231;as substantivas, j&#225; que, recorde-se, o tempo educativo n&#227;o &#233; um tempo circunscrito, apenas, ao tempo dos decisores pol&#237;ticos.</p><p style="text-align: justify;">Diria que esta &#233; uma reflex&#227;o decisiva para se reconhecer, em primeiro lugar, que &#8220;as mudan&#231;as educativas s&#227;o processos sist&#233;micos. Os seus efeitos acumulam-se, cruzam-se e, muitas vezes, s&#243; se tornam vis&#237;veis quando j&#225; n&#227;o &#233; poss&#237;vel atribu&#237;-los a quem tomou a decis&#227;o final&#8221; (ibidem), o que significa que estamos perante uma dificuldade estrutural da democracia, a de que &#8220;o tempo da pol&#237;tica &#233; curto; o tempo da educa&#231;&#227;o &#233; longo&#8221; (ibidem). Trata-se, ent&#227;o, de uma reflex&#227;o decisiva porque nem sempre a vari&#225;vel tempo &#233; suficientemente valorizada como uma vari&#225;vel a gerir de forma consequente.</p><p style="text-align: justify;">Uma das principais v&#237;timas do modo apressado como o PAFC se desenvolveu foi o Projeto de Monitoriza&#231;&#227;o, Acompanhamento e Investiga&#231;&#227;o em Avalia&#231;&#227;o Pedag&#243;gica, o t&#227;o discutido projeto MAIA. Sendo um projeto decisivo para que a avalia&#231;&#227;o das aprendizagens dos alunos pudesse constituir uma opera&#231;&#227;o, concomitantemente, rigorosa e pedagogicamente pertinente, transformou-se, em muitos agrupamentos escolares, num pesadelo burocr&#225;tico e distante dos objetivos pretendidos, justamente porque, ao n&#227;o se ter em conta as exig&#234;ncias do mesmo, se desvalorizou, entre outras coisas, a sua dimens&#227;o temporal. &#201; que um projeto como o MAIA exigia uma transforma&#231;&#227;o t&#227;o profunda nas conce&#231;&#245;es e pr&#225;ticas dos professores que n&#227;o poderia ter sido desenvolvido como um projeto de &#226;mbito nacional. Teria de ter sido um projeto-piloto, dada a sua dimens&#227;o experimental e a necessidade de se obterem resultados e afinarem procedimentos que pudessem ser partilhados. Demoraria mais tempo, mas permitiria, por um lado, que se criassem as condi&#231;&#245;es necess&#225;rias tanto para uma potencial transforma&#231;&#227;o das conce&#231;&#245;es e das pr&#225;ticas dos formandos, como para se consolidarem reflex&#245;es e procedimentos.</p><p style="text-align: justify;">Diria que este tipo de racioc&#237;nio se poderia aplicar, igualmente, aos Dom&#237;nios de Articula&#231;&#227;o Curricular (DAC), os quais, ap&#243;s o tempo de entusiasmo inicial, deixaram de ser objeto de aten&#231;&#227;o, de discuss&#245;es p&#250;blicas e de forma&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">A forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores foi outra das v&#237;timas da necessidade de se promoverem transforma&#231;&#245;es apressadas, no momento em que a Dire&#231;&#227;o-Geral da Educa&#231;&#227;o passou a ter um excesso de protagonismo como entidade proponente de cursos e de oficinas no dom&#237;nio da forma&#231;&#227;o acreditada. S&#243; a pressa em promover a mudan&#231;a desejada &#233; que poder&#225; explicar uma tal estrat&#233;gia, a qual contribuiu para alienar os professores e as respetivas escolas da defini&#231;&#227;o dos projetos de forma&#231;&#227;o que lhes dizem respeito, correndo-se o risco, ainda, de circunscrever a rela&#231;&#227;o desses professores com a forma&#231;&#227;o cont&#237;nua a uma obriga&#231;&#227;o relacionada, apenas, com a sua progress&#227;o na carreira.</p><p style="text-align: justify;">Num balan&#231;o provis&#243;rio, considero que pode ter havido, algumas vezes, um excesso de voluntarismo na gest&#227;o da rela&#231;&#227;o entre o tempo pol&#237;tico e o tempo educativo necess&#225;rio &#224;s transforma&#231;&#245;es pretendidas, sem que, com uma tal afirma&#231;&#227;o, pretenda desconsiderar o facto de Jo&#227;o Costa ter assumido decis&#245;es fundamentais para que as escolas portuguesas se possam assumir como espa&#231;os de forma&#231;&#227;o cultural e pessoal dos alunos, aut&#234;nticos, exigentes, rigorosos e pertinentes. Refiro-me &#224; racionalidade subjacente &#224; arquitetura do D.L. 55/2018, ao v&#237;nculo que se estabelece entre este e o D.L. 54/2018, &#224; cria&#231;&#227;o de condi&#231;&#245;es para que as escolas que estivessem em condi&#231;&#245;es de ser curricular e pedagogicamente mais ousadas o pudessem ser ou &#224; import&#226;ncia do investimento na publica&#231;&#227;o de documentos t&#227;o relevantes, como foi o caso do Perfil dos Alunos &#224; Sa&#237;da da Escolaridade Obrigat&#243;ria ou aqueles que se relacionam com as Aprendizagens Essenciais. Tamb&#233;m n&#227;o se pode desvalorizar outras decis&#245;es que, sem a mesma visibilidade, foram decis&#245;es pertinentes, como &#233; o caso da import&#226;ncia estrat&#233;gica do Projeto-Piloto de Inova&#231;&#227;o Pedag&#243;gica (PPIP), o qual permitiu que alguns agrupamentos escolares pudessem ter tentado outros caminhos no dom&#237;nio da gest&#227;o institucional, curricular e pedag&#243;gica que, hoje, nos permitem usufruir de um legado que nos pode ajudar a pensar outras possibilidades de desenvolver projetos de educa&#231;&#227;o escolar subordinados a outros pressupostos e compromissos.</p><p style="text-align: justify;">Ser&#225; que isto foi suficiente? N&#227;o, ainda que fosse necess&#225;rio t&#234;-lo feito. Se &#233; verdade que as mudan&#231;as desejadas na Escola portuguesa, dependem da ado&#231;&#227;o de pol&#237;ticas educativas congruentes com as mesmas, sabe-se, no entanto, que dependem, tamb&#233;m, do modo como os atores educativos que no terreno se envolvem nas mesmas e como &#233; que se envolvem. Da&#237; que seja necess&#225;rio enfrentar uma outra quest&#227;o: At&#233; que ponto, no espa&#231;o de decis&#227;o pol&#237;tica que cabe ao Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o gerir, se criaram as condi&#231;&#245;es organizacionais necess&#225;rias para suportar aquelas mudan&#231;as em cada <em>agrupamento</em> ou escola n&#227;o-agrupada?</p><p style="text-align: justify;">Ser&#225; esta a pergunta que ir&#225; orientar a reflex&#227;o que pretendo partilhar no pr&#243;ximo texto a publicar neste blogue.</p><p style="text-align: justify;">Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</p><p style="text-align: justify;">Teodoro, Ant&#243;nio (2026). O tempo longo da educa&#231;&#227;o. Revista Vis&#227;o n&#186; 1752 (de 1.10.2026 a 7.10.2026), 82 &#8211; 85.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[PISA 2025: Sobre as responsabilidades de João Costa]]></title><description><![CDATA[S&#227;o v&#225;rios os comentadores que t&#234;m vindo a atribuir a Jo&#227;o Costa a responsabilidade pela quebra dos resultados dos estudantes portugueses nas provas do PISA 2025, tendo o pr&#243;prio referido a necessidade de &#8220;ser preciso assumir os resultados (a n&#237;vel anal&#237;tico e tamb&#233;m politicamente quando temos ou tivemos, como eu, responsabilidades no sistema educativo)&#8221; (Costa, 2026).]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/pisa-2025-sobre-as-responsabilidades</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/pisa-2025-sobre-as-responsabilidades</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 16 Oct 2026 14:12:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ffd564f1-4a1f-4d7a-a2ff-f5d45010676c_678x452.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>S&#227;o v&#225;rios os comentadores que t&#234;m vindo a atribuir a Jo&#227;o Costa a responsabilidade pela quebra dos resultados dos estudantes portugueses nas provas do PISA 2025, tendo o pr&#243;prio referido a necessidade de &#8220;ser preciso assumir os resultados (a n&#237;vel anal&#237;tico e tamb&#233;m politicamente quando temos ou tivemos, como eu, responsabilidades no sistema educativo)&#8221; (Costa, 2026). Sem negar que, enquanto ex-secret&#225;rio de Estado e ex-ministro da Educa&#231;&#227;o, a assun&#231;&#227;o das suas responsabilidades implica que tenha de apontar o dedo para si antes de o apontar aos outros, n&#227;o deixando de considerar que uma tal atitude passa por &#8220;n&#227;o nos demitirmos de analisar os dados com rigor e exig&#234;ncia, e contribuir para uma reflex&#227;o coletiva para a invers&#227;o desta tend&#234;ncia&#8221; (idem).</p><p style="text-align: justify;">Dito isto, importa perguntar o que &#233; que a a&#231;&#227;o governativa de Jo&#227;o Costa teve a ver com os resultados obtidos no PISA 2015?</p><p style="text-align: justify;">Proporei a minha pr&#243;pria resposta para esta quest&#227;o, a qual est&#225; longe de poder ser entendida como uma quest&#227;o isenta de dificuldades, quanto mais n&#227;o seja porque os resultados do PISA n&#227;o podem ser objeto de leituras simplistas e lineares. Ant&#243;nio Teodoro sobre este assunto, e enquanto investigador principal de um estudo sobre a evolu&#231;&#227;o dos resultados do PISA, entre 2000 e 2018, afirma, de forma clara, que &#8220;n&#227;o encontr&#225;mos evid&#234;ncia que permitisse atribuir a melhoria dos resultados a uma pol&#237;tica educativa espec&#237;fica&#8221; (Teodoro, 2026, p. 85). Apesar de ser necess&#225;rio ter em conta tal conclus&#227;o, n&#227;o se pode recusar a possibilidade de os resultados do PISA poderem ser relacionados com as medidas de pol&#237;tica educativa, seja aquelas que contribu&#237;ram para que o desempenho dos estudantes evidenciasse atitudes e a&#231;&#245;es desej&#225;veis, seja aquelas que tiveram efeitos contr&#225;rios.</p><p style="text-align: justify;">No caso da reflex&#227;o sobre as responsabilidades de Jo&#227;o Costa (JC) come&#231;o por contextualizar a sua a&#231;&#227;o como Secret&#225;rio de Estado que, inspirado no projeto dinamizado pela OCDE: <em>The future of education and skills &#8211; Education 2030: The future we want</em> (OECD, 2018), arranca com o Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular (PAFC), o qual culmina com a promulga&#231;&#227;o do DL 55/2028, e igualmente do DL 54/2018. Dois documentos jur&#237;dicos estruturantes da a&#231;&#227;o pol&#237;tica de JC que n&#227;o podem ser dissociados nem do Perfil dos Alunos &#224; Sa&#237;da da Escolaridade Obrigat&#243;ria, nem das Aprendizagens Essenciais referentes a cada uma das &#225;reas curriculares que integram os planos de estudo do Ensino B&#225;sico e do Ensino Secund&#225;rio, nem, finalmente, da Estrat&#233;gia Nacional de Educa&#231;&#227;o para a Cidadania.</p><p style="text-align: justify;">Analisando as decis&#245;es de JC, do ponto de vista da racionalidade educativa subjacente ao PISA, diria que estamos perante uma rela&#231;&#227;o congruente, uma vez que, conv&#233;m n&#227;o esquecer, as provas do PISA, mais do que avaliares se os estudantes dominam conhecimentos, avaliam, sobretudo, como &#233; que os estudantes o mobilizam, interpelam e utilizam para pensar e agir. Tendo em conta aquela racionalidade, a qual decorre da valoriza&#231;&#227;o da literacia em Leitura, da literacia em Ci&#234;ncias e da literacia em Matem&#225;tica, sinto-me perplexo com as cr&#237;ticas daqueles que se situam no campo instrucionista. Se estes desprezam o desenvolvimento da literacia como objetivo curricular e pedag&#243;gico, por via da desvaloriza&#231;&#227;o das compet&#234;ncias enquanto refer&#234;ncia nuclear do trabalho educativo a realizar nas escolas, n&#227;o se compreende porque raz&#227;o valorizam tanto os resultados do PISA e reivindicam, para si (mesmo que de forma abusiva), que os resultados de 2015 se deveram &#224; a&#231;&#227;o pol&#237;tica do ministro Nuno Crato. O que seria expect&#225;vel &#233; que se distanciassem deste programa e dos seus resultados, dado que o que o PISA avalia contraria os objetivos das perspetivas curriculares e pedag&#243;gicas conservadoras. Basta comparar o anexo 2, do Relat&#243;rio Nacional sobre o PISA 2025, para se constatar a incongru&#234;ncia manifesta que se pode estabelecer entre o programa educacional conservador e os descritores relativos ao n&#237;vel de profici&#234;ncia em Ci&#234;ncias (entre as p&#225;ginas 121 e 131), a Leitura (entre as p&#225;ginas 132 e 135) ou a Matem&#225;tica (entre as p&#225;ginas 136 e 138) que se utilizam como crit&#233;rios de avalia&#231;&#227;o do PISA 2015.</p><p style="text-align: justify;">Para quem se enquadra e defende um programa educativo conservador n&#227;o &#233; tanto o desenvolvimento das compet&#234;ncias que deve constituir a preocupa&#231;&#227;o dos professores, mas a reprodu&#231;&#227;o da informa&#231;&#227;o (confundida, neste caso, com o conhecimento) que estes dever&#227;o transmitir. Foi em oposi&#231;&#227;o a esta abordagem que JC avan&#231;ou com o PAFC, recusando, entre outras coisas, a vis&#227;o epistemol&#243;gica autorit&#225;ria acerca do conhecimento que carateriza a abordagem conservadora, bem como a leitura deficit&#225;ria e paternalista que, neste &#226;mbito, se produz sobre o estatuto dos estudantes, o que acaba por explicar quer a recusa da prescritividade do curr&#237;culo centralizado, quer as pr&#225;ticas e as estrat&#233;gias de ensino sequencialmente formatadas, quer, ainda, a conce&#231;&#227;o seletiva de avalia&#231;&#227;o que naquela abordagem se defende.</p><p style="text-align: justify;">Em alternativa, JC, socorrendo-se do projeto da OCDE, elege tanto a no&#231;&#227;o de compet&#234;ncia como o novo eixo curricular a respeitar, como cria as condi&#231;&#245;es jur&#237;dicas que suportem pr&#225;ticas de gest&#227;o curricular mais flex&#237;veis, em fun&#231;&#227;o das quais se transforme a rela&#231;&#227;o dos alunos com o conhecimento culturalmente validado, de forma a que a sua apropria&#231;&#227;o se converta numa oportunidade de desenvolvimento dos mais diversos tipos de compet&#234;ncias. Deste modo, os alunos passam a ser entendidos como atores educativos que deixam de ser vistos em fun&#231;&#227;o da sua incompet&#234;ncia e ignor&#226;ncia, para se assumirem como participantes ativos no projeto de educa&#231;&#227;o que lhes diz respeito, o qual se inicia a partir do reconhecimento daquilo que pensam, daquilo que j&#225; sabem e daquilo que fazem, de forma a serem interpelados e a interpelarem-se, a confrontarem-se com outras fontes de informa&#231;&#227;o e outras perspetiva, para poderem vir a ser o que ainda n&#227;o s&#227;o. Deste modo, &#233; o confronto que os estudantes estabelecem com o conhecimento culturalmente validado, e o trabalho intencional que os professores produzem neste &#226;mbito, que permite o desenvolvimento daquelas compet&#234;ncias.</p><p style="text-align: justify;">Ser&#225; de acordo com estes pressupostos que se afirma a dimens&#227;o inclusiva do projeto de JC, a qual exige uma rutura com a gram&#225;tica escolar vigente, alicer&#231;ada no modo de ensino simult&#226;neo. Mais do que transmitir informa&#231;&#227;o para ser reproduzida pelos estudantes, enquanto a&#231;&#227;o pedag&#243;gica dominante, os professores passam a propor desafios culturais pertinentes, porque epistemologicamente fundamentados, estabelecem regras, assim como fornecem os diversos tipos de recursos e de apoios que s&#227;o necess&#225;rios para que os alunos aprendam, monitorizando, avaliando e tomando decis&#245;es curriculares e pedag&#243;gicas consequentes</p><p style="text-align: justify;">Como se constata, e ao contr&#225;rio da acusa&#231;&#227;o dos setores mais conservadores, o projeto de JC, mais do que desvalorizar o conhecimento culturalmente validado, visa redefinir o seu estatuto, enquanto componente que se articula com as capacidades e as atitudes a desenvolver, de forma a configurar-se, assim, a no&#231;&#227;o de compet&#234;ncia. Trata-se de uma abordagem que pode ser melhor compreendida atrav&#233;s da leitura do livro, da autoria de Jo&#227;o Costa e de Jo&#227;o Couvaneiro (2019), intitulado <em>Conhecimentos vs. Compet&#234;ncias: Uma dicotomia disparatada na educa&#231;&#227;o</em>. Uma obra onde os autores defendem, de forma clara, que &#8220;quem quer compet&#234;ncias tamb&#233;m quer conhecimento, mas a rec&#237;proca nem sempre &#233; verdadeira, o que torna mais relevante discutir o que seria o aluno sem compet&#234;ncias&#8221; (p. 37). A resposta encontra-se, de algum modo, patente no desempenho dos estudantes portugueses nas provas do PISA.</p><p style="text-align: justify;">Ser&#225; no pr&#243;ximo texto que refletirei sobre as vulnerabilidades do PAFC, ap&#243;s ter acabado de abordar, neste texto, algumas das suas dimens&#245;es mais promissoras. O meu prop&#243;sito &#233; claro: visa constituir-se como um contributo para pensar sobre o presente e o futuro da Escola, de forma a desenharem-se as alternativas que &#233; necess&#225;rio construir para que esta se afirme como um contexto educativo culturalmente empoderador.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias</strong></p><p style="text-align: justify;">Costa, Jo&#227;o (2026). Um contributo para ler os resultados do PISA, sem facilitar nem desresponsabilizar. Seman&#225;rio <em>Expresso</em>, 09. 09. 2026.</p><p style="text-align: justify;">Costa, Jo&#227;o; &amp; Couvaneiro, Jo&#227;o (2019). <em>Conhecimentos vs. Compet&#234;ncias: Uma dicotomia disparatada na educa&#231;&#227;o. </em>Lisboa: Guerra &amp; Paz.</p><p style="text-align: justify;">Crato, Nuno (2024). <em>Aprender</em>. Lisboa: Funda&#231;&#227;o Francisco Manuel dos Santos.</p><p style="text-align: justify;">OECD (2018) <em>The future of education and skills &#8211; Education 2030: The future we want</em>. Paris: OECD.</p><p style="text-align: justify;">Teodoro, Ant&#243;nio (2026). O tempo longo da educa&#231;&#227;o. Revista <em>Vis&#227;o</em>, n&#186; 1752, 82 &#8211; 85.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[PISA 2025: E agora?]]></title><description><![CDATA[Preocupa-me tanto o desempenho dos alunos portugueses nas provas do PISA 2025, como muitos das an&#225;lises que jornais, r&#225;dios e televis&#245;es foram difundindo sobre um tal desempenho, o que evidencia, mais uma vez, como um dos problemas mais prementes da educa&#231;&#227;o escolar, em Portugal, decorre, tamb&#233;m, do modo como se reflete sobre a Escola, as suas finalidades e os seus desafios.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/pisa-2025-e-agora</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/pisa-2025-e-agora</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 09 Oct 2026 12:25:10 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/14bc3c84-7063-4d01-8cd9-e4aa13489f1c_704x435.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Preocupa-me tanto o desempenho dos alunos portugueses nas provas do PISA 2025, como muitos das an&#225;lises que jornais, r&#225;dios e televis&#245;es foram difundindo sobre um tal desempenho, o que evidencia, mais uma vez, como um dos problemas mais prementes da educa&#231;&#227;o escolar, em Portugal, decorre, tamb&#233;m, do modo como se reflete sobre a Escola, as suas finalidades e os seus desafios.</p><p style="text-align: justify;">Muitas dessas an&#225;lises s&#227;o equ&#237;vocas e carecem de rigor quando confundem as provas do PISA com exames internacionais que visam avaliar a conformidade ou o desvio dos estudantes face aos objetivos curriculares prescritos. &#201; que as provas do PISA n&#227;o avaliam conhecimentos, <em>tout court</em>, mas as capacidades dos estudantes com 15 anos de idade &#8220;para aplicar e relacionar esses conhecimentos e compet&#234;ncias em contextos do quotidiano, tanto dentro, como fora, do contexto escolar&#8221; (Serr&#227;o et al., 2026, p. 15). Em cada ciclo do PISA, as provas a realizar centram-<br>-se invariavelmente nos dom&#237;nios das Ci&#234;ncias, da Leitura e da Matem&#225;tica, privilegiando-se &#224; vez um destes dom&#237;nios. Em 2025, foi o das Ci&#234;ncias., tendo-se atribu&#237;do, neste &#226;mbito e de forma in&#233;dita, uma aten&#231;&#227;o especial a temas relacionados com o ambiente. Assim, para al&#233;m deste dom&#237;nio, as provas debru&#231;aram-se, como sempre, sobre a Leitura e a Matem&#225;tica e, ainda, sobre a Aprendizagem no Mundo Digital, como, opcionalmente, sobre o Ingl&#234;s, aferindo-se, neste caso, quer a leitura, quer a compreens&#227;o e a produ&#231;&#227;o orais (idem). Cada aluno teve de realizar &#8220;um teste cognitivo com a dura&#231;&#227;o de 120 minutos, dividido em duas partes de 60 minutos cada, seguido de um question&#225;rio de contexto com cerca de 35 minutos&#8221; (idem, p. 19). Refere o relat&#243;rio nacional que, &#8220;para se obter informa&#231;&#227;o adicional relativamente ao ambiente escolar foi igualmente aplicado um question&#225;rio aos diretores de todas as escolas participantes&#8221; (idem, p. 17).</p><p style="text-align: justify;">Um outro problema das an&#225;lises p&#250;blicas que se produziram sobre o PISA 2025 t&#234;m a ver com a omiss&#227;o de dados relevantes, quando, por exemplo, se ignora que os resultados nas provas de Ci&#234;ncias n&#227;o permitem compara&#231;&#245;es com as provas realizadas no passado.</p><p style="text-align: justify;">Outra omiss&#227;o relevante de muitas dessas an&#225;lises tem a ver com o facto de n&#227;o se valorizar o peso do ano modal nos resultados obtidos pelos estudantes portugueses. Em Portugal, esse ano &#233; o 10&#186; ano e se este pressuposto se cumprisse os resultados seriam significativamente melhores. &#201; verdade que ter&#237;amos de estabelecer compara&#231;&#245;es com as provas realizadas anteriormente, de forma a determinar como &#233; que o peso deste fator interferiu no desempenho dos estudantes, mas n&#227;o deixa de ser relevante que este exerc&#237;cio n&#227;o tenha sido realizado pelos defensores da teoria da cat&#225;strofe. Tamb&#233;m se estranha que se tenha ignorado o que afirmou Paulo Santiago, chefe da divis&#227;o da Assessoria e Implementa&#231;&#227;o de Pol&#237;ticas da Dire&#231;&#227;o da Educa&#231;&#227;o e Compet&#234;ncias da OCDE, no Teatro Thalia, em Lisboa, no dia 29 de setembro de 2026, na apresenta&#231;&#227;o p&#250;blica do relat&#243;rio &#171;Educational at a Glance 2026&#187;. Tendo em conta a sua interven&#231;&#227;o (</p><div id="youtube2-xhJ3DVARpD8" class="youtube-wrap" data-attrs="{&quot;videoId&quot;:&quot;xhJ3DVARpD8&quot;,&quot;startTime&quot;:null,&quot;endTime&quot;:null}" data-component-name="Youtube2ToDOM"><div class="youtube-inner"><iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/xhJ3DVARpD8?rel=0&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;enablejsapi=0" frameborder="0" loading="lazy" gesture="media" allow="autoplay; fullscreen" allowautoplay="true" allowfullscreen="true" width="728" height="409"></iframe></div></div><p style="text-align: justify;">), pergunta-se porque n&#227;o houve refer&#234;ncias ao nexo que o mesmo estabeleceu entre os resultados excecionais dos pa&#237;ses asi&#225;ticos e o treino espec&#237;fico, em termos de avalia&#231;&#227;o, a que os alunos desses pa&#237;ses s&#227;o sujeitos com o prop&#243;sito de obter tais resultados?</p><p style="text-align: justify;">Havendo outras vulnerabilidades a considerar que marcam as an&#225;lises dos resultados do PISA 2025, nomeadamente aquelas que t&#234;m a ver com as vari&#225;veis do contexto, relacionadas como o peso dos alunos migrantes, o envelhecimento da classe docente ou o clima de crispa&#231;&#227;o que afetou o funcionamento das escolas portuguesas, creio que a maior lacuna de um n&#250;mero significativo daquelas an&#225;lises &#233; denunciada por Francisco Miranda Rodrigues, quando nos lembra que os resultados em quest&#227;o &#8220;dizem-nos onde estamos e como evolu&#237;mos; n&#227;o dizem, por si, por que raz&#227;o cheg&#225;mos aqui&#8221; (P&#250;blico, 14.09. 2026). Mesmo que, como refere Ant&#243;nio Guerreiro (2026), os resultados do PISA n&#227;o permitam construir &#8220;um retrato completo de irrepreens&#237;vel do estado das coisas da educa&#231;&#227;o&#8221; (P&#250;blico, 18.09.26), de forma a que &#8220;todas as altera&#231;&#245;es a fazer devam ser determinadas pelo PISA&#8221; (ibidem), &#233; necess&#225;rio ter em conta aquela advert&#234;ncia e, igualmente, uma outra, proposta por Ant&#243;nio Teodoro (2026), que nos lembra que &#8220;os resultados do PISA n&#227;o dizem, por si pr&#243;prios, qual &#233; a sua causa nem qual &#233; a pol&#237;tica adequada para o resolver. Diagnosticar n&#227;o &#233; explicar. E explicar n&#227;o &#233; ainda decidir&#8221; (P&#250;blico, 10.09.2026).</p><p style="text-align: justify;">&#201; na tentativa de contribuir para a reflex&#227;o sobre as raz&#245;es porque os resultados foram o que foram que escrevo este texto, come&#231;ando por enfrentar uma primeira quest&#227;o decisiva: ser&#225; que os resultados obtidos pelos estudantes portugueses, em 2015, nas provas do PISA, se devem &#224;s pol&#237;ticas educativas da responsabilidade de Nuno Crato?</p><p style="text-align: justify;">Trata-se de uma quest&#227;o que se justifica quando, por um lado, se constata que estamos perante os melhores resultados obtidos, em Portugal, naquelas provas e, por outro, quando se atribui &#224;quelas pol&#237;ticas a raz&#227;o que explica um tal sucesso (Buescu, 2026; Crato, 2024; Sanches, 2026). Se fosse verdade, comprovar-se-ia que os curr&#237;culos prescritos e estandartizados, o ensino formatado em sequ&#234;ncias de conte&#250;dos invariantes e a avalia&#231;&#227;o seletiva seriam a solu&#231;&#227;o para lidar com o alegado atraso educativo portugu&#234;s que os resultados do PISA, em 2025, teriam revelado.</p><p style="text-align: justify;">O problema &#233; que estamos perante uma narrativa desonesta, que eu pr&#243;prio j&#225; tinha denunciado neste blogue, a prop&#243;sito das alega&#231;&#245;es de Nuno Crato (2024) no livro &#171;Aprender&#187;, tal como, agora, o fizeram Jo&#227;o Costa (Expresso, de 09. 09. 2026), Daniel Oliveira (Expresso, 17. 09.2026), Ant&#243;nio Guerreiro (P&#250;blico, 18.09.2026) e Nuno Serra (P&#250;blico, 21.09.2026). O que se constata &#233; que os alunos que realizaram as provas do PISA em 2015 s&#243; &#171;beneficiaram&#187; muito parcialmente das duas medidas que s&#227;o invocadas para explicar o sucesso das pol&#237;ticas dinamizadas por Nuno Crato (NC): a promulga&#231;&#227;o das Metas Curriculares e a ado&#231;&#227;o dos exames do 4&#186; e do 6&#186; ano de escolaridade. Esta gera&#231;&#227;o de estudantes n&#227;o realizou os exames do 4&#186; ano, em 2014, ainda que a maioria tenha realizado os exames do 6&#186; ano. No caso das Metas Curriculares, e porque estas s&#243; foram efetivamente implementadas quando a gera&#231;&#227;o em causa se encontrava no 8&#186; ano, verifica-se que a sua influ&#234;ncia n&#227;o &#233; significativa, dado que s&#243; um ou dois anos antes das provas PISA de 2015 se realizarem &#233; que uma tal medida curricular foi adotada (Oliveira, 2006). Serra (2026) recorre mesmo a um estudo de Maria Jo&#227;o Gouveia (FCUL) para assinalar, &#8220;no caso da Matem&#225;tica, que cerca de 88% dos alunos envolvidos n&#227;o tinham sido abrangidos pelas Metas Curriculares que Nuno Crato fixou para a disciplina&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">Perante estes dados, verifica-se que n&#227;o se pode relacionar os resultados nas provas do PISA em 2015 com as medidas implementadas por Nuno Crato. Mais grave ainda &#233; quando se constata que, &#8220;em fevereiro de 2016, tr&#234;s meses depois do seu governo cair, sem qualquer possibilidade de haver algum efeito do novo governo&#8221; (Oliveira, 2016) se aplica, em Portugal, o PIRLS, o estudo internacional que avalia o desempenho da leitura dos estudantes do 4&#186; ano de escolaridade, tendo este estudantes (os primeiros a frequentar o 1&#186; Ciclo sob a &#233;gide das Metas Curriculares) obtido piores resultados (528 pontos) do que aqueles que haviam realizado as provas anteriores (541 pontos.</p><p style="text-align: justify;">&#201; perante esta cronologia dos factos que se come&#231;a por perguntar porque &#233; que as medidas de NC s&#227;o vistas como a raz&#227;o do sucesso das provas do PISA em 2015. Num livro publicado em 2024, Crato responde a esta d&#250;vida, considerando que se limitou a prosseguir e a aprofundar o que j&#225; vinha sendo feito desde 2002, quando, na sua opini&#227;o, se iniciou o per&#237;odo mais promissor do sistema educativo portugu&#234;s, plasmado nos resultados do PISA de 2009. Seria um argumento inatac&#225;vel se Crato n&#227;o tivesse publicado, em 2006, a obra intitulada<em> &#171;O &#8216;Eduqu&#234;s&#8217; em discurso directo: Uma cr&#237;tica da pedagogia rom&#226;ntica e construtivista&#187;</em> (Crato, 2006), onde, o que agora considera ter sido o per&#237;odo de ouro da Escola portuguesa, era visto como a sua &#171;d&#233;cada perdida&#187;.</p><p style="text-align: justify;">E o que dizer da involu&#231;&#227;o dos resultados do PISA em 2018, depois de 3 anos de governa&#231;&#227;o em que NC esteve &#224; frente do Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o? Porque &#233; que os resultados de 2015 s&#227;o da responsabilidade de Crato e os de 2018 n&#227;o s&#227;o da responsabilidade de ningu&#233;m? Ser&#225; que os resultados de 2018 j&#225; s&#227;o da responsabilidade de Jo&#227;o Costa, depois do chamado governo da geringon&#231;a ter entrado em fun&#231;&#245;es dois anos antes e ainda n&#227;o terem sido promulgados os decretos-lei n&#186; 54 e 55 e n&#227;o se ter universalizado o Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular (PAFC)?</p><p style="text-align: justify;">Mais do que um mal-entendido, estamos perante uma manifesta&#231;&#227;o de desonestidade que visa instrumentalizar os resultados do PISA de 2015 como pedra angular da argumenta&#231;&#227;o que se constr&#243;i para reabilitar e impor a abordagem pedag&#243;gica instrucionista como a &#250;nica resposta poss&#237;vel para salvar a Escola portuguesa.</p><p style="text-align: justify;">Independentemente das cr&#237;ticas &#224; narrativa redentora dos resultados de 2025 que os setores curriculares e pedag&#243;gicos mais conservadores t&#234;m vindo a propagandear, mais importante do que isso &#233; a necessidade de discutir se faz sentido estabelecer um nexo entre os resultados do PISA 2025 e as pol&#237;ticas educativas que foram implementadas nos anos de governa&#231;&#227;o que ocorreram sob a responsabilidade de Ant&#243;nio Costa, entre 2016 e o in&#237;cio de 2024. Ser&#225; esse o tema dos pr&#243;ximos textos a publicar neste blogue, de forma a tentar contribuir para a &#250;nica discuss&#227;o que interessa promover: a de saber como &#233; que a escola portuguesa se pode afirmar como um contexto culturalmente empoderador e preocupado com a afirma&#231;&#227;o da intelig&#234;ncia e da humanidade de cada um e de todos os seus alunos.</p><p style="text-align: justify;">PS: Ontem, dia 8 de outubro de 2026, Nuno Crato escreveu no &#171;P&#250;blico&#187; um artigo, &#171;Para al&#233;m do PISA (1)&#187;, que visa mais defender-se das contradi&#231;&#245;es de que tem sido acusado do que em pensar o futuro do sistema educativo portugu&#234;s, como diz ser a sua inten&#231;&#227;o. N&#227;o fa&#231;o mais coment&#225;rios do que aqueles que fiz neste texto, apenas afirmo que mantenho tudo o que escrevi, at&#233; porque j&#225; o havia escrito neste blogue (entre 31 de maio e 19 de junho de 2025), a prop&#243;sito da publica&#231;&#227;o do livro &#171;Aprender&#187; (Crato, 2024).</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Buescu, Jorge (2026). PISA: Cr&#243;nica de uma morte anunciada. Jornal <em>P&#250;blico</em>, 12.09.2026.</p><p style="text-align: justify;">Costa, Jo&#227;o (2026). Um contributo para ler os resultados do PISA, sem facilitar nem desresponsabilizar. <em>Seman&#225;rio Expresso</em>, 09.09.2026.</p><p style="text-align: justify;">Crato, Nuno (2024). <em>Aprender</em>. Lisboa: Funda&#231;&#227;o Francisco Manuel dos Santos.</p><p style="text-align: justify;">Crato, Nuno (2006). <em>O &#8216;Eduqu&#234;s&#8217; em discurso directo: Uma cr&#237;tica da pedagogia rom&#226;ntica e construtivista</em>. Lisboa: Gradiva.</p><p style="text-align: justify;">Guerreiro, Ant&#243;nio (2026). O PISA como religi&#227;o. Jornal <em>P&#250;blico</em>, 18.09.2026.</p><p style="text-align: justify;">Oliveira, Daniel (2026). Make the school great again. Seman&#225;rio <em>Expresso</em>, 17.09.2026.</p><p style="text-align: justify;">Rodrigues, Francisco Martins (2026). PISA 2025: O perigo das verdades pela metade. Jornal <em>P&#250;blico</em>, 14.09.20.</p><p style="text-align: justify;">Sanches, Pedro Gomes (2026). O voo da coruja. Seman&#225;rio <em>Expresso,</em> 10.09.2026.</p><p style="text-align: justify;">Serra, Nuno (2026). Onde est&#227;o, afinal, os &#8216;alunos de Crato&#8217;. Jornal <em>P&#250;blico</em>, 21.06.2026.</p><p style="text-align: justify;">Serr&#227;o, Anabela; &amp; Duarte, Alexandra (2026). PISA 2025 &#8211; Portugal: Relat&#243;rio Nacional. Lisboa: EduQA, I.P.</p><p style="text-align: justify;">Teodoro, Ant&#243;nio (2026). As li&#231;&#245;es e os riscos do PISA 2025. Jornal <em>P&#250;blico</em>, 10.06.2026.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Brevíssimo apontamento sobre a autoridade docente]]></title><description><![CDATA[Perante as dificuldades dos professores em lidarem com os problemas comportamentais e a m&#225;-educa&#231;&#227;o dos alunos nas salas de aula, quantas vezes n&#227;o ouvimos proclamar que a solu&#231;&#227;o para o problema passaria pelo refor&#231;o da autoridade docente.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/brevissimo-apontamento-sobre-a-autoridade</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/brevissimo-apontamento-sobre-a-autoridade</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 03 Oct 2026 08:55:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4981bfa4-317f-471f-bb9e-fb5452916588_554x554.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Perante as dificuldades dos professores em lidarem com os problemas comportamentais e a m&#225;-educa&#231;&#227;o dos alunos nas salas de aula, quantas vezes n&#227;o ouvimos proclamar que a solu&#231;&#227;o para o problema passaria pelo refor&#231;o da autoridade docente. Imagino que esta seria uma reivindica&#231;&#227;o dirigida para o Ministro da Educa&#231;&#227;o, como se o reconhecimento da autoridade pouco ou nada tivesse a ver com o que se passa nas escolas e nas salas de aula. Como se o reconhecimento da autoridade fosse como que um reconhecimento autom&#225;tico, assegurado, apenas, pela lei, sem se ter em conta o modo como cada ator educativo contribui para que os estudantes e as fam&#237;lias reconhe&#231;am o poder da Escola e dos professores.</p><p style="text-align: justify;">J&#225; houve um tempo, neste pa&#237;s, em que isso foi assim. Felizmente, deixou de ser, mas... A vida em sociedades democr&#225;ticas tem os seus custos. &#201; mais exigente, sob todos os aspetos, n&#227;o havendo lugar nem para solu&#231;&#245;es perfeita, nem para solu&#231;&#245;es sem custos e sem dor.</p><p style="text-align: justify;">Reconhe&#231;o que este &#233; um assunto dif&#237;cil e que merecia um debate p&#250;blico mais aprofundado e mais produtivo. Um debate onde sejamos confrontados com o que nos diz respeito e aquilo que diz respeito a outros. Creio mesmo que o maior obst&#225;culo a transpor tem a ver com a dificuldade em compreendermos se somos parte da solu&#231;&#227;o ou do problema.</p><p style="text-align: justify;">Uma outra dificuldade do debate relaciona-se com necessidade de balizar algumas impossibilidades, nomeadamente aquela a que se refere Meirieu (2006) quando escrevia que n&#243;s os professores n&#227;o devemos exercer <em>&#8220;a nossa autoridade para saciarmos um desejo de poder, mas porque a cremos necess&#225;ria para que o mundo seja melhor e para que os nossos filhos sejam mais solid&#225;rios e mais felizes nele. A nossa autoridade s&#243; &#233; leg&#237;tima se permitir aos nossos filhos e &#224;s nossas filhas descobrir, no quotidiano, o que lhes &#233; prometido no seio do mesmo, mesmo aquilo que lhes &#233; proibido. O que, no fim de contas, tem um &#250;nico objetivo: ajud&#225;-los a livrarem-se de qualquer forma de tirania&#8221;</em> (p. 297).</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Meirieu, Philippe (2006). <em>O mundo n&#227;o &#233; um brinquedo</em>. Porto: Edi&#231;&#245;es ASA.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Escola e a busca da verdade]]></title><description><![CDATA[No tempo onde as perce&#231;&#245;es subjetivas e as pr&#243;prias mentiras tendem a adquirir uma respeitabilidade inquietante, vale a pena continuar a recorrer a Meirieu (2006) e ler um excerto da sua autoria sobre a Escola como institui&#231;&#227;o da busca da verdade.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/a-escola-e-a-busca-da-verdade</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/a-escola-e-a-busca-da-verdade</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 25 Sep 2026 17:53:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3db91222-35aa-4686-b9c2-cbef63d07973_284x284.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>No tempo onde as perce&#231;&#245;es subjetivas e as pr&#243;prias mentiras tendem a adquirir uma respeitabilidade inquietante, vale a pena continuar a recorrer a Meirieu (2006) e ler um excerto da sua autoria sobre a Escola como institui&#231;&#227;o da busca da verdade.</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;&#201; preciso, de facto, aprender que &#171;as coisas&#187; existem e que &#171;elas s&#227;o o que s&#227;o&#187;. N&#227;o podemos impor-lhes os nossos caprichos. Aprender &#233; respeitar o texto e n&#227;o faz&#234;-lo dizer o contr&#225;rio ou algo diferente do que ele diz. Adotar um procedimento cient&#237;fico &#233; tentar ver aquilo em que n&#227;o t&#237;nhamos pensado e n&#227;o descartar factos que desmentem as nossas hip&#243;teses e limitar-se a considerar o detalhe menor. Fazer uma pesquisa documental &#233; buscar informa&#231;&#245;es sem descartar aquelas que poderiam desestabilizar-nos, &#233; verificar as fontes e desconfiar de interpreta&#231;&#245;es apressadas... &#201; assim que se manifesta no quotidiano das pr&#225;ticas mais banais da sala de aula, a dif&#237;cil, por&#233;m essencial, distin&#231;&#227;o entre o <strong>saber</strong> e o <strong>crer</strong>, entre o dado que se imp&#245;e a todos e o que prov&#233;m da opini&#227;o de cada um (...).</em></p><p style="text-align: justify;"><em>&#201; assim que se instala progressivamente no centro da sala de aula uma conduta que faz da exig&#234;ncia de precis&#227;o, de justeza, de rigor e de verdade a regra expl&#237;cita do trabalho coletivo. Aqui, n&#227;o &#233; quem grita mais alto que tem raz&#227;o, mas quem demonstra melhor. N&#227;o &#233; a intimida&#231;&#227;o que predomina, mas a argumenta&#231;&#227;o. N&#227;o &#233; o espetacular que triunfa, mas a autenticidade de uma palavra que liberta e que re&#250;ne as pessoas. Seja em tecnologia, em l&#237;nguas, em artes pl&#225;sticas, em mec&#226;nica ou em administra&#231;&#227;o, a mesma exig&#234;ncia de faz sentir: ser claro, o m&#225;ximo poss&#237;vel, o mais pr&#243;ximo poss&#237;vel&#8221; (Meirieu, 2006, p. 70 - 71).</em></p><p style="text-align: justify;">Nada tendo contra a &#225;rea de Cidadania e Desenvolvimento (CD), defendo que n&#227;o se pode circunscrever a esta &#225;rea a responsabilidade por contribuir para a educa&#231;&#227;o cidad&#227; dos estudantes. Esta ou &#233; assumida como um compromisso de todas as &#225;reas curriculares ou ser&#225; um fracasso, mesmo que os projetos em CD fossem concebidos e realizados com a qualidade que se exige. O desenvolvimento do pensamento cr&#237;tico, da autonomia solid&#225;ria, da coopera&#231;&#227;o e da alteridade ou a assun&#231;&#227;o de compromissos c&#237;vicos dizem respeito a cada docente, sem que isso signifique que deixe de ter de assumir as suas responsabilidades curriculares, mas que as assuma em fun&#231;&#227;o do modo como se desafia, como se exige, como se interpela, como se congrega, como se apoia, como se oferece outras oportunidades e outras possibilidades dos alunos pensarem e agirem. Tudo depende tamb&#233;m do que se avalia e do modo como se avalia.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Meirieu, Philippe (2006). <em>Carta a um jovem professor</em>. Porto Alegre: Artmed.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Escola e Democracia]]></title><description><![CDATA[A rela&#231;&#227;o entre Escola e Democracia &#233; outra das problem&#225;ticas que Meirieu (2006) aborda no seu livro &#171;Carta a um jovem professor&#187;.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/escola-e-democracia</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/escola-e-democracia</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 18 Sep 2026 11:02:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/3a1c8e74-b9c2-4356-98bc-b986ea91e4f8_502x537.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>A rela&#231;&#227;o entre Escola e Democracia &#233; outra das problem&#225;ticas que Meirieu (2006) aborda no seu livro &#171;Carta a um jovem professor&#187;. E f&#225;-lo de forma clara, come&#231;ando por reconhecer uma situa&#231;&#227;o dram&#225;tica: a de que as escolas se preocupam mais com a possibilidade dos seus alunos serem capazes de participar num debate cient&#237;fico do que em condi&#231;&#245;es de contribu&#237;rem para a constru&#231;&#227;o de uma sociedade democr&#225;tica.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Recusando que estejamos perante prop&#243;sitos incompat&#237;veis e defendendo eu que a participa&#231;&#227;o capaz e consequente num debate cient&#237;fico &#233; um contributo fundamental de uma educa&#231;&#227;o democr&#225;tica, vale a pena refletir sobre o que o pedagogo franc&#234;s diz sobre este assunto, at&#233; porque, na verdade, valoriza a cumplicidade que acabei de referir entre aqueles dois prop&#243;sitos. Para Meirieu</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>&#8220;n&#227;o &#233; um paradoxo menor da nossa modernidade o desinteresse pelas democracias na sua perenidade. Enquanto que os regimes totalit&#225;rios, seja qual for a sua ideologia de refer&#234;ncia, consagram uma energia consider&#225;vel a inculcar nas crian&#231;as o catecismo que garante a sua submiss&#227;o futura, as democracias contentam-se em injetar uma hora de educa&#231;&#227;o c&#237;vica, aqui ou ali, com t&#227;o pouca convic&#231;&#227;o que todos admitem, &#224; boca pequena, que ela pode ser deixada de lado na primeira oportunidade. Assim, parece que nos resignamos ao culto do individualismo, &#224; supress&#227;o das regras da vida coletiva e ao dom&#237;nio dos comunitarismos...&#8221; (idem, p. 73).</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>Como se ver&#225;, para Meirieu, a solu&#231;&#227;o para o problema com o qual nos confronta nem passa por dedicar mais tempo &#224; educa&#231;&#227;o c&#237;vica nas escolas nem se resolve impondo de modo autorit&#225;rio os princ&#237;pios da vida em democracia. Para ele, a Escola pode assumir um papel significativo, desde que leve a s&#233;rio</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>&#8220;um duplo trabalho; por um lado, o de ajudar cada aluno a </span><strong><span>escapar de todas as formas de tribalismo</span></strong><span> que imponham a conformidade &#224; norma e impe&#231;am qualquer liberdade de pensamento; por outro, o de ensinar cada um, permanentemente, </span><strong><span>a descentrar-se das suas preocupa&#231;&#245;es imediatas e dos seus interesses pessoais para se associar a outros e caminhar no sentido do universal</span></strong><span>&#8221; (ibidem).</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>Isto &#233;, fazendo com que a cidadania nas escolas se concretize quando, sem acrescentar nada &#224;s oportunidades educativas que a&#237; j&#225; s&#227;o oferecidas, o que passa por aprender a &#8220;considerar o ponto de vista dos outros para construir, progressivamente, saberes objetivos&#8221; (idem, p. 75), que, como Meirieu (idem) reconhece, corresponde a uma etapa do desenvolvimento da crian&#231;a que &#233;, ao mesmo tempo, intelectual, social e pol&#237;tica. Trata-se de uma maneira de contribuir para que cada estudante aprenda a abordar os desafios que tem pela frente, integrando &#8220;outros, al&#233;m de si mesmo e do seu grupo de origem&#8221; (ibidem). Este &#233;, para Meirieu, &#8220;o in&#237;cio do processo de cria&#231;&#227;o do bem comum que constitui o princ&#237;pio da delibera&#231;&#227;o democr&#225;tica&#8221; (ibidem). &#201; assim que</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>&#8220;a Escola pode, ou deve, levar o aluno a realizar descentra&#231;&#245;es sucessivas para que se perceba e se compreenda progressivamente como membro de coletivos cada vez mais amplos. Ir &#224; Escola &#233; livrar-se desse atavismo egoc&#234;ntrico t&#227;o arraigado: &#233; passar do seu capricho ou do seu interesse para uma decis&#227;o elaborada num pequeno grupo; da considera&#231;&#227;o da vontade de um grupo para a de uma sala de aula, da sala de aula &#224; escola, da escola ao bairro, do bairro &#224; cidade, da cidade ao pa&#237;s, do pa&#237;s &#224; humanidade. E isso &#233; efetivamente poss&#237;vel no dia a dia: num trabalho de grupo, perceber como um outro aluno compreende as instru&#231;&#245;es j&#225; &#233; uma primeira etapa. Levar em conta as suas obje&#231;&#245;es e modificar a sua proposi&#231;&#227;o numa corre&#231;&#227;o coletiva de um exerc&#237;cio, &#233; uma forma de renunciar &#224; omnipot&#234;ncia e afastar as suas veleidades narc&#237;sicas. Enfrentar-se na resolu&#231;&#227;o comum de um problema aceitando opini&#245;es contradit&#243;rias e procurando n&#227;o recusar nenhuma delas &#233; uma outra maneira de subir mais um degrau na considera&#231;&#227;o do coletivo. Participar num projeto onde se poder&#225; deparar com o ponto de vista de pessoas at&#233; ent&#227;o ignoradas, descobrir que a considera&#231;&#227;o das diferen&#231;as pode ser geradora de progresso para cada um e para todos &#233; ter acesso ao pr&#243;prio sentido da aspira&#231;&#227;o democr&#225;tica. E n&#243;s temos a possibilidade de tornar esse procedimento ainda mais vis&#237;vel e eficaz organizando, desde a creche at&#233; ao &#250;ltimo ano do Ensino Secund&#225;rio (...), em que cada um possa expressar o seu ponto de vista sobre uma quest&#227;o referente &#224; organiza&#231;&#227;o do trabalho coletivo - da maneira de enfileirar os pinc&#233;is depois do atelier de pintura &#224; maneira de rever a prova de filosofia! &#201; assim que um aluno se forma para se tornar cidad&#227;o (...)&#8221;</span></em><span> (idem, p. 75-76).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E, por isso, Meirieu refor&#231;a a ideia de que a educa&#231;&#227;o para a cidadania n&#227;o &#233; um projeto que deva ser estranho &#224; miss&#227;o e &#224;s aspira&#231;&#245;es dos professores, desde que estes n&#227;o se contentem </span><em><span>&#8220;em ensinar a minoria de alunos que j&#225; conhece o gosto de saber&#8221;</span></em><span> (idem, p. 79).</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Meirieu, Philippe (2006). </span><em><span>Carta a um jovem professor</span></em><span>. Porto Alegre: Artmed.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A exigência como condição educativa]]></title><description><![CDATA[Ando a colecionar coment&#225;rios e an&#225;lises sobre os resultados dos alunos portugueses no PISA 2025.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/a-exigencia-como-condicao-educativa</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/a-exigencia-como-condicao-educativa</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 11 Sep 2026 07:14:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5cb7e2a1-8ffa-4732-8b05-8c5a98016b73_400x400.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Ando a colecionar coment&#225;rios e an&#225;lises sobre os resultados dos alunos portugueses no PISA 2025. Enquanto isso, decidi partilhar convosco excertos de uma reflex&#227;o que Meireiu produz, no livro &#171;Carta a um jovem professor&#187;, sobre a exig&#234;ncia como condi&#231;&#227;o educativa. Vale a pena ler, num tempo em que a falta de exig&#234;ncia e de rigor sobre este e outros assuntos come&#231;a a constituir-se como a imagem de marca do nosso presente. Um tempo onde uma mentira repetida mil vezes se pode transformar numa verdade.</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>&#8220;Pois a quest&#227;o est&#225; justamente na exig&#234;ncia: o dossi&#234; sobre os rastaf&#225;ris, o painel sobre os efeitos especiais ou a exposi&#231;&#227;o sobre Harry Potter podem ser uma maneira de abandonar os alunos &#224; mediocridade medi&#225;tica e de exclu&#237;-los de toda a verdadeira cultura... Isso acontece, sem d&#250;vida, quando se permite a apresenta&#231;&#227;o de um simulacro de pesquisa pessoal ou em grupo, quando se transforma a sala de aula num local de exibi&#231;&#227;o para alguns animadores eficazes, e se assiste ao espet&#225;culo limitando-se a avali&#225;-lo, como c&#250;mplice ou acusador.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Mas n&#227;o acontece quando se acompanha os alunos mais de perto e de maneira mais exigente, &#224; espreita de quest&#245;es que se colocam e de poss&#237;veis aberturas culturais, atento a esses pequenos detalhes de &#171;forma&#187; que &#233; t&#227;o comum considerar como secund&#225;rios... &#201; preciso utilizar um vocabul&#225;rio preciso e formar frases corretas. &#201; preciso fazer um apanhado hist&#243;rico para compreender bem. &#201; preciso estruturar o discurso, utilizar argumentos de peso e exemplos pertinentes para se fazer entender. &#201; preciso, de facto, que a menor palavra, a menor express&#227;o, o menor gesto sejam comandados por um imperativo absoluto de qualidade.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>(...). A qualidade aqui n&#227;o &#233; de modo nenhum, justamente, &#171;uma qualidade&#187; suplementar, uma dimens&#227;o estranha &#224; &#171;natureza das coisas&#187; que viria a somar-se &#224;s cria&#231;&#245;es dos homens. A qualidade &#233; a intencionalidade do ato levada &#224; incandesc&#234;ncia, quando o que se faz alcan&#231;a uma tal perfei&#231;&#227;o que isso se imp&#245;e como uma evid&#234;ncia. A qualidade &#233; o gesto exato, preciso, de onde se exclui quase tudo. O gesto em si que se basta a si mesmo. O movimento do bailarino, a frase do escritor, a pincelada do pintor, a manipula&#231;&#227;o do cientista, o c&#225;lculo do matem&#225;tico, assim como o giro do parafuso do mec&#226;nico (...).</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Existe algo de fundamental para mim num tal reconhecimento, algo que acabei transformando no vetor das nossas atividades profissionais: </span><strong><span>qualquer atividade humana, desde que seja trabalhada como um exig&#234;ncia m&#225;xima, comporta toda a intelig&#234;ncia humana</span></strong><span>. (...)</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>E foi assim que cheguei, indiretamente e de certo modo a contragosto, ao nosso of&#237;cio de professor. Pois, independentemente de ensinarmos franc&#234;s ou tecnologia, culin&#225;ria ou f&#237;sica, conatbilidade ou biologia, eletricidade ou letras cl&#225;ssicas, somos antes de tudo portadores dessa exig&#234;ncia de qualidade sem a qual nenhuma das nossas disciplinas e nenhum saber humano jamais se constituiriam&#8221; (Meirieu, 2006, p. 53 - 55).</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>Acabem-se, por isso, com discuss&#245;es est&#233;reis e in&#250;teis sobre a exig&#234;ncia como condi&#231;&#227;o educativa a respeitar nalgumas disciplinas, defende Meirieu. &#201; que a</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>&#8220;exig&#234;ncia transcende tudo isso. Ser exigente em tudo e nos menores detalhes, e basta. Exigente em rela&#231;&#227;o a mim tanto quanto aos alunos. Exigente nas tarefas mais banais e quotidianas assim como nos momentos mais excecionais e ritualizados. Exigente no trabalho para o qual tentamos motivar os nossos alunos do mesmo modo que nas atividades que eles escolhem livremente (...) (idem, p. 55).</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; que, ao contr&#225;rio do que alguns propagandeiam, n&#227;o &#233; a sele&#231;&#227;o acad&#233;mica que constitui o principal crit&#233;rio para aferir uma a&#231;&#227;o educativa exigente. A exig&#234;ncia &#233; outra coisa. &#201; ela que nos permite afirmar que o of&#237;cio de professor vale a pena, quando contribui para que os seus alunos possam ser o que ainda n&#227;o s&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Meirieu, Philippe (2006). </span><em><span>Carta a um jovem professor</span></em><span>. Porto Alegre: Artmed.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Cesário Silva]]></title><description><![CDATA[O Ces&#225;rio morreu ontem.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/cesario-silva</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/cesario-silva</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Tue, 08 Sep 2026 11:56:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fbde0fba-3433-472c-ba49-4277cd794200_701x436.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O Ces&#225;rio morreu ontem. Tra&#237;do pelo seu cora&#231;&#227;o imenso. Pertence ao n&#250;mero daqueles que fisicamente nos deixam de forma cruelmente prematura. Era o diretor do Agrupamento de Escolas da Marinha Grande Poente, desde 2014, onde quotidianamente, nos mostrava a todos como as escolas podem e devem ser espa&#231;os democr&#225;ticos. Espa&#231;os onde os professores participam, de forma aut&#234;ntica e implicada, nos projetos e iniciativas que lhes dizem respeito. Espa&#231;os onde as aprendizagens dos alunos se v&#227;o conjugando com uma forma&#231;&#227;o inclusiva, rigorosa e exigente. Espa&#231;os onde as fam&#237;lias s&#227;o desejadas e t&#234;m uma palavra a dizer sobre a escolas dos seus educandos. O seu legado &#233; enorme. &#201; um legado de esperan&#231;a, consequente e sustentada numa organiza&#231;&#227;o pensada para suscitar o di&#225;logo e a participa&#231;&#227;o democr&#225;tica. Um legado que nos mostra que uma outra escola &#233; poss&#237;vel. Um legado que nos ajuda a ser melhores do que aquilo que j&#225; somos. Obrigado, Ces&#225;rio!</p><p></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Escola do Magistério Primário do Porto: 50 anos depois]]></title><description><![CDATA[Faz, neste outubro, 50 anos que entrei, entr&#225;mos, na Escola do Magist&#233;rio Prim&#225;rio do Porto (EMPP).]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/escola-do-magisterio-primario-do</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/escola-do-magisterio-primario-do</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 04 Sep 2026 08:54:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d0e5db2d-d204-4821-8e2c-8d5a71c8ac13_480x360.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Faz, neste outubro, 50 anos que entrei, entr&#225;mos, na Escola do Magist&#233;rio Prim&#225;rio do Porto (EMPP). Foi em 1976 que, depois de termos sido aprovados nos exames de acesso, a&#237; fomos admitido para frequentar o Curso de Professor do Ensino Prim&#225;rio, o qual, a partir do ano letivo anterior, tinha passado a ter a dura&#231;&#227;o de tr&#234;s anos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; sobre essa escola que quero escrever e que convido outros a partilhar, neste blogue, os seus escritos. Se temos &#224; nossa disposi&#231;&#227;o textos, de natureza acad&#233;mica, onde se reflete, entre outras coisas, tanto sobre a especificidades e o potencial dos projetos de forma&#231;&#227;o que tiveram lugar nas escolas do Magist&#233;rio Prim&#225;rio no per&#237;odo subsequente ao 25 de abril de 1974, parece-me que faltam os textos das pessoas que viveram na primeira pessoa, de corpo e alma, o que n&#243;s todos ali pudemos viver e aprender.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Celebrar os 50 anos da nossa entrada na EMPP pode ser, assim, o pretexto para evocarmos as nossas pr&#243;prias experi&#234;ncias como estudantes. N&#227;o &#233; uma manifesta&#231;&#227;o nost&#225;lgica, idealizadora de um passado que se efabula, que pretendo recriar. &#201; antes um exerc&#237;cio de reflex&#227;o sobre as escolas vocacionadas para promover a forma&#231;&#227;o inicial de professores, onde &#233; necess&#225;rio cuidar do modo como se ensina e, igualmente, do modo como se permite que os estudantes, futuros docentes, possam aprender e terem oportunidade de viver experi&#234;ncias pessoais e sociais significativas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; verdade que os tempos s&#227;o outros. S&#227;o outros, tamb&#233;m, os desafios e as exig&#234;ncias, mas h&#225; dimens&#245;es formativas &#224;s quais conv&#233;m prestar aten&#231;&#227;o. &#201; neste &#226;mbito que a experi&#234;ncia que vivemos, h&#225; 50 anos, pode ser valiosa para discutir algumas dessas dimens&#245;es, conferindo-lhes visibilidade e pertin&#234;ncia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Eu comprometo-me a come&#231;ar. N&#227;o sei se come&#231;arei pela luta contra a Helena Ara&#250;jo ou se recordo o espa&#231;o de forma&#231;&#227;o que fomos criando no caf&#233; Cors&#225;rio. N&#227;o sei, ainda, se me atrevo a falar de hist&#243;rias sobre desgostos de amor, sobre processos disciplinares ou sobre o estatuto do &#171;&#193;gua leva o regadinho&#187; no nosso quotidiano. N&#227;o sei. H&#225; hist&#243;rias do est&#225;gio, hist&#243;rias de noites de estudo, hist&#243;rias tr&#225;gico-c&#243;micas e hist&#243;rias de solidariedade. Todas elas, por alguma raz&#227;o, inolvid&#225;veis. H&#225; hist&#243;rias incr&#237;veis sobre lutas e projetos que as associa&#231;&#245;es de estudantes das diferentes escolas do Magist&#233;rio Prim&#225;rio empreenderam. Hist&#243;rias de acontecimentos que contribu&#237;ram, de algum modo, para ser quem somos porque, em larga medida, o fizemos juntos, convictamente, e, muitas vezes, de forma refletida. A nossa inquieta&#231;&#227;o era uma for&#231;a t&#227;o incomensur&#225;vel quanto solid&#225;ria, porque acredit&#225;vamos, como cantava Zeca Afonso, que pod&#237;amos ser os cantores daquele Sol de ver&#227;o que se ergueria tamb&#233;m por via da for&#231;a das nossas convic&#231;&#245;es e a&#231;&#245;es. Mais do que saber se cumprimos o prometido, interessa-me saber que o desejo de o fazer nos animou a ir mais longe, n&#227;o esperando que algu&#233;m fizesse por n&#243;s, o que n&#243;s sab&#237;amos que s&#243; n&#243;s poder&#237;amos fazer.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Por isso &#233; que na placa de metal que afixamos no &#225;trio principal da Escola (hoje Escola Superior de M&#250;sica e Artes do Espet&#225;culo), recorremos ao refr&#227;o do Coro da Primavera para o dizer, 25 anos depois de termos partido daquele porto seguro.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Apesar de tudo, das ilus&#245;es, das desilus&#245;es e do que cada foi construindo, vale a pena falar desse tempo, enquanto pretexto e condi&#231;&#227;o para pensar o presente e os desafios com que este nos confronta.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Aguardo, por isso, os textos de todos aqueles e aquelas que quiserem partilhar comigo, neste blogue, os seus testemunhos sobre os anos vividos na Escola do Magist&#233;rio Prim&#225;rio do Porto. Enviem-mos, por favor, para o e-mail: </span><em><strong><span>trindade@fpce.up.pt</span></strong></em><span>.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ser&#225;, assim, a partir de 6 de fevereiro de 2027 que neste blogue, com as nossas hist&#243;rias, iremos comemorar os 50 anos da nossa entrada na EMPP.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Bichos da seda]]></title><description><![CDATA[Cr&#243;nica de uma escola na d&#233;cada de 80]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/bichos-da-seda-b83</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/bichos-da-seda-b83</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 28 Aug 2026 10:08:12 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/704dd47c-49d2-4138-8109-45041f29a8b3_560x348.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>A Lurdes &#233; que os arranjara. N&#227;o sab&#237;amos como ela os tinha conseguido. Anunciara na &#250;ltima reuni&#227;o que se estiv&#233;ssemos interessados em ter bichos-da-seda nas nossas salas, algu&#233;m lhos daria. H&#225; j&#225; h&#225; uns meses que trabalh&#225;vamos juntos. De estranhos pass&#225;ramos rapidamente a c&#250;mplices, fruto dos desafios do quotidiano que t&#237;nhamos come&#231;ado a partilhar por obra e gra&#231;a de um concurso t&#227;o cego quanto surdo. &#201;ramos, assim, herdeiros de uma escola mal afamada, onde as pessoas que nos recebiam eram aquelas que tinham sido a&#237; colocadas antes de n&#243;s. Do ano anterior permaneciam, somente, as duas auxiliares de a&#231;&#227;o educativa, o invent&#225;rio ratado e a sala incendiada que, logo na entrada, n&#227;o augurava nada de bom. As informa&#231;&#245;es escasseavam na justa propor&#231;&#227;o dos boatos que se amontoavam. Quem eram os outros que se sentavam &#224; volta daquela mesa ? De onde vinham?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O panorama n&#227;o era dos mais animadores. Um dia algu&#233;m perguntou se est&#225;vamos interessados em pegar aquele touro pelos cornos ou se prefer&#237;amos optar, antes, pela estrat&#233;gia silenciosa do atestado m&#233;dico an&#243;nimo e discreto. Entre a milit&#226;ncia de alguns, a resigna&#231;&#227;o de uns tantos e o aguenta-te &#224; bronca dos restantes decidimos fazer-nos &#224; vida e tentar a sorte. Foi assim que tudo come&#231;ou. Aprendemos a enfrentar, como nossos, alguns dos problemas dos outros. Come&#231;amos a construir pequenos projetos em comum. Os dias n&#227;o se tinham tornado mais f&#225;ceis, mas a C&#226;mara prometera reconstruir a sala e os olhares de soslaio dos habitantes do bairro foram-se tornando um pouco mais af&#225;veis. A chegada dos bichos-da-seda foi assim mais uma daquelas surpresas com que, por vezes, tent&#225;vamos cativar os nossos alunos. &#211; professor, o que &#233; que comem os bichos ? Folhas de amoreira. O Picas trouxera algumas, mas a bicharada, por qualquer raz&#227;o, n&#227;o as comera. Tinha acontecido o mesmo em todas as salas. Porqu&#234; ? Ningu&#233;m sabia responder. Procurou-se numa enciclop&#233;dia, inquiriu-se em tudo o que era s&#237;tio e as respostas eram sempre as mesmas. Folhas de amoreira. &#211; Lurdes, j&#225; perguntaste na Sociedade Protetora dos Animais ? E os bichinhos tantos dias sem comer, &#243; professora... O que &#233; que pod&#237;amos fazer ? A resposta acabou por aparecer. Por acaso. Surgiu num telefonema onde o drama dos bichos-da-seda foi falado. Onde &#233; que voc&#234;s v&#227;o buscar as folhas de amoreira ? Finalmente, algu&#233;m tinha feito a pergunta certa. A pergunta que levou o Mocho, o Pedras e o Cardinal a subir &#224;s amoreiras de Marechal Gomes da Costa e a transformar aquela manh&#227; primaveril num momento outonal, s&#250;bito e breve, com o ch&#227;o inundado por aquelas folhas preciosas que durante alguns dias confund&#237;ramos com a folhagem das amoras silvestres que t&#237;nhamos andado a desbastar num morro junto da escola. Os bichos-da-seda salvaram-se. Vimo-los construir os seus casulos. Esperamos pacientemente pelas borboletas. Houve quem fizesse observa&#231;&#245;es di&#225;rias e as registasse. Houve quem aproveitasse para lan&#231;ar projetos de pesquisa v&#225;rios sobre a vida animal. Houve quem nada fizesse, deixando os mi&#250;dos usufruir, conforme lhes aprouvesse, da companhia daqueles pequenos seres que lhes entraram, um dia, pela porta dentro. Houve tamb&#233;m quem nada fizesse por n&#227;o saber o que podia fazer ou at&#233; por n&#227;o o querer fazer. Aquela escola era, afinal, uma escola. N&#227;o era um para&#237;so, apesar de por l&#225; haver alguns anjos bardinas que um dia voaram em contraven&#231;&#227;o sobre as &#225;rvores sumptuosas de uma avenida da cidade, em nome de uma preocupa&#231;&#227;o inesperada com uns quantos bichos-da-seda. Rasteiros e feios.</span></p><p style="text-align: right;"><strong><span>Ariana Cosme</span></strong><em><span> e </span></em><strong><span>Rui Trindade</span></strong><span> (a </span><em><span>P&#225;gina da educa&#231;&#227;o</span></em><span>, n&#186; 123, Ano 12, Maio de 2003)</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ó pai, conheces o António Torrado?]]></title><description><![CDATA[[Este texto foi escrito h&#225; muito tempo.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-pai-conheces-o-antonio-torrado</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-pai-conheces-o-antonio-torrado</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 22 Aug 2026 09:47:45 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/55a4f047-abb2-491c-9f12-8199dc5dc007_375x533.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong><span>[Este texto foi escrito h&#225; muito tempo. Se o recuperamos &#233; porque fala de um tempo em que, por n&#227;o haver educa&#231;&#227;o pr&#233;-escolar neste pa&#237;s para todas as crian&#231;as que, hoje, s&#227;o homens e mulheres na casa dos trinta anos, o pa&#237;s oferecia menos oportunidades do que oferece hoje &#224;queles que aqui nascem ou &#224;queles que tem de acolher. Recuperamos este texto quer porque a mem&#243;ria &#233; curta, quer porque o pessimismo militante &#233; uma arma contra a democracia]</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>&#211; Pai, conheces o Ant&#243;nio Torrado? Foi com esta pergunta ao jantar que o Jo&#227;o come&#231;ou por nos surpreender nesse dia. E como n&#227;o deve ter obtido uma resposta imediata, insistiu:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Conheces ?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Conhe&#231;o. E tu ?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Conhecemos hoje. A Ana Maria leu uma hist&#243;ria dele.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o nos lembramos do modo como a conversa prosseguiu. Sabemos apenas que ela se iniciou, porque, num pequeno jardim-de-inf&#226;ncia de Gondomar, uma educadora permitiu que algumas crian&#231;as, com quatro anos de idade, tivessem aprendido a conhecer um escritor atrav&#233;s da leitura de um dos seus livros. Not&#225;vel trabalho este, num pa&#237;s resignado ao peso dos muit&#237;ssimo por cento daqueles que n&#227;o foram capazes de evocar o nome de um &#250;nico escritor portugu&#234;s face &#224;s solicita&#231;&#245;es de uma sondagem encomendada por uma cadeia televisiva. Not&#225;vel trabalho tamb&#233;m, pelo exemplo que constitui para quem continua a n&#227;o entender que os textos s&#227;o apenas pretextos para nos encontrarmos, por vezes at&#233; para nos inquietarmos, com n&#243;s pr&#243;prios e com os outros, contribuindo a seu modo para aprendermos a assumir uma presen&#231;a curiosa e interessada face ao mundo em que vivemos. Not&#225;vel trabalho, finalmente, porque realizado num jardim-de-inf&#226;ncia p&#250;blico que, a exemplo de muitos outros jardins-de-inf&#226;ncia p&#250;blicos, consegue ir proporcionando respostas educativas de qualidade &#224; for&#231;a dos golpes de criatividade e do esp&#237;rito de miss&#227;o das educadoras que nele trabalham.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; por isso, por estas e por outras raz&#245;es, que n&#227;o podemos deixar de considerar o Jo&#227;o Guilherme como um menino privilegiado quando passa todos os dias o port&#227;o verde da escola.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Um privilegiado acidental, diga-se de passagem, que s&#243; o &#233; porque algu&#233;m desistiu, deixando uma vaga em aberto que foi por ele preenchida.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E se ele n&#227;o tivesse entrado ? A sua vida seria certamente mais pobre, apesar de todo o amor e do carinho da Fernanda, dos in&#250;meros brinquedos que possui ou da enorme disponibilidade que os av&#243;s t&#234;m para o aturar. Se n&#227;o fosse o jardim-de-inf&#226;ncia como &#233; que ele teria aprendido a alegria de ver todas as manh&#227;s o Bruno, o Rafael, a Ana Catarina e o Rog&#233;rio? Quem o espevitaria a explicar porque &#233; que no domingo s&#243; havia portistas no mundo? Quando &#233; que viveria a sua primeira experi&#234;ncia democr&#225;tica, ao definir com os colegas as regras a aplicar na sala? Quando &#233; que aprenderia a partilhar os jogos e os v&#237;deos que de vez em quando leva na mochila ? Quando &#233; que se interessaria pelo nome daquele bicho que no Jardim Zool&#243;gico da Maia mais parecia um porco, embora fosse um javali?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O Jo&#227;o &#233;, portanto, um privilegiado, ao contr&#225;rio de milhares de outras crian&#231;as que em Portugal ainda n&#227;o tiveram a oportunidade de viver num jardim-de-inf&#226;ncia experi&#234;ncias de vida t&#227;o significativas e desafiantes como aquelas que o nosso filho tem vindo a poder usufruir. Experi&#234;ncias estas que, por as considerarmos t&#227;o decisivas, nos obrigam a pensar at&#233; que ponto um modelo de interven&#231;&#227;o educativa pr&#243;ximo daquele que temos vindo a abordar, n&#227;o poderia constituir uma fonte de inspira&#231;&#227;o pedag&#243;gica para os contextos educativos dos n&#237;veis subsequentes. Possivelmente, evitar-se-ia trucidar os Lus&#237;adas e a aprendizagem de coisas t&#227;o patetas como aquelas que um de n&#243;s encontrou num livro de inicia&#231;&#227;o &#224; leitura, actualmente &#224; venda no mercado, que se permite prop&#244;r frases t&#227;o inanarr&#225;veis como estas que se citam apenas para amostra: &#8216;O le&#227;o Leote comeu a tulipa&#8217;, &#8216;O Jaime beija a jib&#243;ia&#8217;. Possivelmente, os mi&#250;dos passariam a conhecer o euro e a preparar-se para o fim do escudo, sem se esperar pela aprova&#231;&#227;o de programas que o exigissem ou pela edi&#231;&#227;o de manuais escolares que o propusessem. Provavelmente a educa&#231;&#227;o escolar adquiriria um outro sentido e talvez fosse poss&#237;vel ter esta conversa com a nossa filha mais velha que se encontra a frequentar o 9&#186; ano:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Gostaste do texto que escrevi sobre Timor ? - perguntar-nos-ia a Tatiana.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- &#201; para a &#193;rea-Escola ? - inquiriria ent&#227;o um de n&#243;s.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- N&#227;o, &#233; para discutir na aula de Hist&#243;ria.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sobre a aprendizagem de uma língua estrangeira]]></title><description><![CDATA[&#8220;As aulas de l&#237;ngua, atualmente, s&#227;o est&#250;pidas&#8221; - quem afirma isto &#233; R.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/sobre-a-aprendizagem-de-uma-lingua</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/sobre-a-aprendizagem-de-uma-lingua</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 14 Aug 2026 10:07:32 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/597db5fc-0570-4b46-976c-77f7add55664_523x382.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>&#8220;As aulas de l&#237;ngua, atualmente, s&#227;o est&#250;pidas&#8221; - quem afirma isto &#233; R. Sckank, um especialista americano na &#225;rea da aprendizagem, numa entrevista que concedeu a Ricardo Felner, publicado na revista &#171;S&#225;bado&#187; em 15 de abril de 2020.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Schank conta que a sua filha frequentou uma escola francesa durante um ano, em Paris, quando a sua fam&#237;lia esteve a viver em Fran&#231;a. Foi nessa escola que a menina, cuja l&#237;ngua materna era o ingl&#234;s, acabou por ser classificada com um B na disciplina hom&#243;nima, enquanto muitos dos seus colegas franceses obtiveram o desejado A.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Perante uma tal situa&#231;&#227;o, Schank sentiu-se na obriga&#231;&#227;o de perguntar &#224; filha: &#8220;Porque &#233; que n&#227;o conseguiste ter um A a Ingl&#234;s?&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Porque n&#227;o sei gram&#225;tica&#8221;.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Já lhe dei uns abanões]]></title><description><![CDATA[A miudagem come&#231;ava a sair.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/ja-lhe-dei-uns-abanoes</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/ja-lhe-dei-uns-abanoes</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 07 Aug 2026 12:52:57 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e79f7ecf-64f6-45a6-add1-a1bc7c817456_392x242.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>A miudagem come&#231;ava a sair. Eu arrumava as minhas coisas.</span></p><p><span>- Posso entrar, Sr. Professor?</span></p><p><span>Olhei, e num canto da porta aberta, vi um rosto desconhecido.</span></p><p><span>- Sou o pai do Manel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O Manel era um daqueles putos traquinas que nos m&#243;i a paci&#234;ncia, mesmo sem querer. O que nele mais me incomodava era o modo violento como se relacionava com os colegas, sobretudo nos intervalos. J&#225; t&#237;nhamos tido v&#225;rias conversas sobre o assunto na Assembleia de Turma, mas o rapaz, mesmo que prometesse este mundo e o outro, era de pavio curto. Foi na sequ&#234;ncia de uma dessas crises que a Laura, prima e vizinha, tinha ido contar a cena &#224; m&#227;e. Que eu me tinha zangado, que ele andava &#224; porrada por tudo e por nada, que toda a gente fazia queixa dele.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No dia seguinte, logo de manh&#227;zinha, tinha a progenitora &#224; minha espera.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Sr. Professor, estou aqui para lhe dizer que esse meu filho s&#243; l&#225; vai &#224; porrada. N&#227;o lhas poupe que ele &#233; manhoso.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O mo&#231;o tinha os seus defeitos. Atirar a pedra e esconder a m&#227;o n&#227;o era um deles, mas n&#227;o valia a pena continuar a conversa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Passei a ter uma presen&#231;a mais ass&#237;dua no recreio. Passei a arbitrar os jogos de futebol e a coisa melhorou, sobretudo porque, mais do que o apito, o meu calma tonitruante l&#225; conseguia ter um efeito suficientemente dissuasor.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Passei, por isso, a ser o &#250;nico professor de plant&#227;o no recreio, o que, confesso, me come&#231;ou a cansar. Em nome da pedagogia, nem lanchava, nem conversava. O que fazer?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Acabei por nomear tr&#234;s &#225;rbitros, para poder tr&#234;s intervalos descansado. Um deles foi o Manel. Arranjei cart&#245;es para cada um deles e discutimos como &#233; que eles deviam ser usados. Se tivessem de usar um cart&#227;o vermelho tinham de me ir chamar, o pequeno truque que inventei para inibir a amostragem do dito.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O meu espanto foi quando no jornal de Parede, na coluna do &#171;Gosto&#187;, apareceu escrito que o Manel era o melhor &#225;rbitro da sala. Melhor do que eu pr&#243;prio, explicava o autor da frase, porque comigo todos se portavam bem por ser eu o professor. Com ele, era diferente, portavam-se bem porque ele era justo. Dos tr&#234;s era o que menos gostava de mostrar cart&#245;es amarelos e quando mostrava explicava porque o tinha feito,</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi na sequ&#234;ncia deste acontecimento que, transbordando de entusiasmo ma&#231;arico, lhe disse que gostava de falar com o pai dele.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Ele que me diga quando &#233; que pode vir falar comigo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E o pai, como j&#225; o anunciei, l&#225; veio, come&#231;ando a conversa por me perguntar o que &#233; que ele tinha deito desta vez. Contei-lhe a descoberta que queria partilhar com ele.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Ainda bem, Sr. Professor. Quando lhe disse que me queria ver, j&#225; lhe dei uns aban&#245;es.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sorriu e concluiu:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- N&#227;o se preocupe, com ele s&#243; se perdem as que caem fora.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Moral da hist&#243;ria:</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>A partir desse dia, quando queria falar com algu&#233;m da fam&#237;lia dos meus alunos passei-o a fazer por escrito, explicando porque precis&#225;vamos de reunir.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Unicórnios]]></title><description><![CDATA[Ainda o 47&#186; Congresso do Movimento da Escola Moderna (MEM)]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/unicornios</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/unicornios</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 31 Jul 2026 10:28:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/49274ae7-859f-435f-8e4f-fbfc06281d7e_738x369.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Os unic&#243;rnios n&#227;o existem, mas eu gosto de os desenhar&#8221;. Este foi o textos, escrito por um aluno no 1&#186; ano de escolaridade, que nos foi apresentado pela Lurdes Castro e a Rita Pacheco, no decurso da comunica&#231;&#227;o que partilharam sobre escrita e leitura, no 47&#186; Congresso do MEM. Uma comunica&#231;&#227;o que &#233; o corol&#225;rio do trabalho que aquelas duas professoras do 1&#186; Ciclo do Ensino B&#225;sico realizaram nas respetivas turmas, envolvendo-se num processo que conduziu a horas de partilha c&#250;mplice e reflex&#227;o exigente que foram acontecendo, para al&#233;m da componente letiva e n&#227;o-letiva que ambas deveriam cumprir.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No ano letivo que agora finda, tanto a Rita como a Lurdes, por trabalharem com crian&#231;as do 1&#186; ano de escolaridade, decidiram envolver-se num projeto de alfabetiza&#231;&#227;o subordinado aos pressupostos de um modelo interativo da apropria&#231;&#227;o da linguagem escrita. Um modelo que se carateriza por recusar as pr&#225;ticas mecanicistas e artificiais de ensino da leitura e da escrita, opondo, em alternativa, a utiliza&#231;&#227;o da escrita como instrumento de comunica&#231;&#227;o t&#227;o aut&#234;ntica quanto plaus&#237;vel e, concomitantemente, como condi&#231;&#227;o da aprendizagem do princ&#237;pio alfab&#233;tico, o qual pressup&#245;e o desenvolvimento, entre outras coisas, da consci&#234;ncia fonol&#243;gica e da consci&#234;ncia fon&#233;mica, da ortografia e das regras da sintaxe. Dito de um outro modo, enquanto para as pr&#225;ticas tradicionais de ensino, o desenvolvimento da literacia, a ser considerada, &#233; um objetivo posterior ao do encerramento da fase da alfabetiza&#231;&#227;o, para o modelo interativo, que a investigadora brasileira Silvia Colello (2010) designa como modelo dial&#243;gico discursivo, a literacia &#233; uma preocupa&#231;&#227;o transversal e constante, desde o momento em que os come&#231;am a escrever as novidades que lhes s&#227;o relatadas, oralmente, pelos seus alunos. Inicia-se assim um percurso em que as crian&#231;as come&#231;am a compreender que a escrita &#233; uma representa&#231;&#227;o da fala e, igualmente, a compreender que atrav&#233;s da escrita descobrem outro modo de comunicar, o qual, ao longo das atividades de escrita e de leitura que ir&#227;o realizar, lhes permitir&#225; aceder a outros modos de pensar e de se relacionar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; neste contexto que surgiu o texto dos unic&#243;rnios com que abro as portas deste texto. Um texto que, para al&#233;m de ser esteticamente estimulante, nos mostra como a Escola para se afirmar como um espa&#231;o de cultura e humanidade n&#227;o pode encerrar os alunos em momentos t&#227;o insensatos e cretinos como s&#227;o aqueles em que &#171;O xerife Xuxu beija a gib&#243;ia&#187; ou em que &#171;O pap&#225; papa a tia&#187;, ou vice-versa, e tudo o que mais houver para papar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Conhecemos as raz&#245;es porque isto acontece, as quais, conv&#233;m recordar, nada t&#234;m a ver com as raz&#245;es hist&#243;rico-epistemol&#243;gicas que justificaram que a escrita se universalizasse nas nossas sociedades. &#201; por via da cren&#231;a que as crian&#231;as n&#227;o s&#227;o capazes, a cren&#231;a que os transforma em alunos a serem resgatados da sua ignor&#226;ncia e incompet&#234;ncia pela a&#231;&#227;o educativa estruturada dos seus professores, que se justifica que tudo comece num </span><em><span>pop&#243;</span></em><span> ou numa </span><em><span>pua</span></em><span>.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nos &#250;ltimos tempos, os argumentos, para continuar a fazer o mesmo, s&#227;o mais sofisticados. Hoje, a raz&#227;o mais utilizada, que um certo cognitivismo tem vindo a difundir, &#233; a import&#226;ncia estrat&#233;gica do desenvolvimento da consci&#234;ncia fonol&#243;gica, em fun&#231;&#227;o do qual se prop&#245;em programas de treino que assentam em dois princ&#237;pios, tidos por pedag&#243;gicos: o primeiro &#233; que se deve evoluir do mais simples para o mais complexo e o segundo que valoriza a ludicidade e o jogo como forma de encontrar um sentido para atividades que n&#227;o t&#234;m de ter qualquer sentido comunicativo ou cultural. &#201; por isso que Ana C. Silva prop&#245;e, para que ocorra o desenvolvimento da consci&#234;ncia fonol&#243;gica, enquanto etapa pr&#233;via da aprendizagem da leitura: (i) jogos de rimas; (ii) jogos de segmenta&#231;&#227;o sil&#225;bica; (iii) jogos de identifica&#231;&#227;o de palavras que partilham a s&#237;laba incial; (iv) jogos de manipula&#231;&#227;o; (v) jogos de s&#237;ntese fon&#233;mica; (vi) jogos de segmenta&#231;&#227;o fon&#233;mica e (vii) jogos de manipula&#231;&#227;o fon&#233;mica (idem). Os textos vir&#227;o depois.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao contr&#225;rio, para a Lurdes e para a Rita, os textos est&#227;o sempre presentes, mesmo antes das crian&#231;as saberem ler ou escrever, o que n&#227;o significa, contudo, que isso signifique que se desvalorize a import&#226;ncia da consci&#234;ncia fonol&#243;gica. S&#243; que, neste caso, o seu desenvolvimento est&#225; presente n&#227;o como o objeto de uma atividade dissociada da leitura e da escrita aut&#234;ntica e culturalmente significativa de textos produzidos pelas crian&#231;as, mas como resultado do processo de reflex&#227;o a que estes s&#227;o submetidos quando os alunos assinalam, nas palavras, as s&#237;labas que as comp&#245;em de forma invariante, quando descobrem as palavras escondidas (se</span><strong><span>mana</span></strong><span>), quando constroem, na sequ&#234;ncia de tudo isto, quadros sil&#225;bicos que passar&#227;o a usar, escrevendo ou recriando palavras.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Os unic&#243;rnios n&#227;o existem, mas eu gosto de os desenhar&#8221; &#233; mais do que um texto empolgante. &#201; o resultado de um trabalho intencionalmente pensado e realizado para que os meninos aprendam-a-escrever-e-a-ler, atrav&#233;s de pr&#225;ticas de comunica&#231;&#227;o dial&#243;gicas e funcionais, e n&#227;o por via do treino mec&#226;nico que, em nome da efici&#234;ncia, adia a intelig&#234;ncia, a comunica&#231;&#227;o, a cultura e o humano. &#201; que, como nos mostraram a Lurdes e a Rita, escreve-se e l&#234;-se em fun&#231;&#227;o da necessidade de comunicarmos e de nos constituirmos como sujeitos. N&#243;s os adultos e elas, as crian&#231;as, mesmo que no 1&#186; ano de escolaridade.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Colello, Silvia M. Gasparian (2010). Alfabetiza&#231;&#227;o e letramento: o que ser&#225; que ser&#225;? In Leite, S&#233;rgio; Colello, Silvia; Arantes, Val&#233;ria (Aut.), </span><em><span>Alfabetiza&#231;&#227;o e letramento: Pontos e contrapontos</span></em><span> (75 &#8211; 127). S. Paulo: Summus Editorial.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Silva, Ana Cristina (2021). Consci&#234;ncia fonol&#243;gica e conhecimento das letra. In Alves, Rui; Leite, Isabel (Ed.). </span><em><span>Alfabetiza&#231;&#227;o baseada na Ci&#234;ncia: Manual do Curso ABC (</span></em><span>219 - 243</span><em><span>). </span></em><span>Bras&#237;lia: CAPES.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Utopias]]></title><description><![CDATA[Sobre o 47&#186; Congresso do Movimento da Escola Moderna (MEM)]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/utopias</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/utopias</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 25 Jul 2026 08:48:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/36c55853-0cf9-49d3-8cff-dc10995147e6_565x308.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Sei que envelhe&#231;o &#224; medida que vou perdendo as ilus&#245;es, ainda que saiba que, sem elas, a minha vida teria sido mais pobre e menos significativa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o teria sido professor cooperante na Guin&#233;-Bissau. N&#227;o teria adiado o meu retorno &#224; escola para trabalhar no Projeto de Luta contra a Pobreza, na Zona Hist&#243;rica do Porto. N&#227;o me teria envolvido em projetos que, no fim, nos deixaram a todos com uma m&#227;o cheia de nada e outra com coisa nenhuma.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Valeu a pena?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o fa&#231;o ideia. A &#250;nica coisa que estou certo e seguro &#233; que sem ilus&#245;es n&#227;o teria vivido o que vivi e, por isso, n&#227;o seria a pessoa que sou hoje. Sem ilus&#245;es n&#227;o teria estado envolvido noutras iniciativas que, ao contr&#225;rio daquelas que mencionei atr&#225;s, foram gratificantes e alimentaram a minha esperan&#231;a sobre outras possibilidades de sermos professores e de contribuir para pensar a Escola como um espa&#231;o culturalmente significativo e empoderador em termos pessoais e sociais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No balan&#231;o de tudo isto, algumas vezes sinto-me ressacado. 46 anos depois de ter iniciado a minha atividade como professor do Ensino Prim&#225;rio, no dia 18 de janeiro de 1980, numa Telescola, em Sande - Marco de Canaveses, olho em retrospetiva. Estou &#224; porta da aposenta&#231;&#227;o e percebo quer que as utopias levam tempo a ser alcan&#231;adas, quer que foi necess&#225;rio ter aprendido a distinguir as utopias das quimeras ou, mais urgente do que isso, a distinguir as utopias das distopias.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Neste momento, com as utopias que me restam, vou ter de me habituar &#224; ideia que n&#227;o verei a sua concretiza&#231;&#227;o, isto se algum dia isso vier a acontecer. Mesmo assim n&#227;o me possa queixar. Assisti ao fim de uma longa ditadura, ao fim da guerra colonial, &#224; n&#227;o aceita&#231;&#227;o do analfabetismo massivo e, entre outras coisas, &#224; n&#227;o aceita&#231;&#227;o silenciosa do machismo e da homofobia, apesar de saber o longo caminho que ainda nos resta percorrer para que uma tal recusa possa pertencer, definitivamente, &#224;s nossas mem&#243;rias mais dolorosas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sem utopias ou n&#227;o haver&#225; futuro (n&#227;o nos esque&#231;amos das altera&#231;&#245;es clim&#225;ticas) ou o futuro ser&#225; algo que n&#227;o desejamos que seja vivido pelos nossos filhos e netos. &#201; em nome de tudo isto que defendo veementemente que as utopias n&#227;o podem ser enterradas. S&#243; que aceitar isso, pode implicar o risco de ter de viver com uma ressaca de vez em quando, tendo de enfrentar desilus&#245;es e resistir &#224; vontade de desistir, persistindo n&#227;o como um cavaleiro andante, mas no &#226;mbito de coletivos, maiores ou menores, que tomam decis&#245;es, avaliam o que fazem ou refletem sobre os desafios e as respostas que decidiram enfrentar, de forma sustentada e consequente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para mim, que estive no &#250;ltimo congresso do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM), o congresso em que esta associa&#231;&#227;o de professores e outros profissionais de educa&#231;&#227;o comemorou os seus 60 anos de exist&#234;ncia, esse &#233; um dos maiores legados do movimento. A concretiza&#231;&#227;o do projeto de uma Escola Democr&#225;tica, porque culturalmente significativa e inclusiva, &#233; uma possibilidade porque a clarifica&#231;&#227;o dos pressupostos que alicer&#231;am um tal projeto, as exig&#234;ncias do mesmo e as solu&#231;&#245;es que se v&#227;o implementando est&#225; dependente da coopera&#231;&#227;o que se vai estabelecendo entre os membros do MEM.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Diria que o modelo pedag&#243;gico deste movimento, bem como as inciativas que as suas associadas e associados v&#227;o desenvolvendo para o implementar s&#227;o a linha do horizonte que permite definir os termos de uma utopia educativa que s&#243; o &#233; porque a dimens&#227;o cultural do trabalho educativo nas escolas continua a ser pobre quando se recusa estabelecer um encontro entre a intelig&#234;ncia e os saberes dos alunos e o conhecimento culturalmente validado, enquanto ponto de partida daquele trabalho educativo. Em salas de aula onde continua a prevalecer, apesar das novas roupagens, o modo de ensino simult&#226;neo, a emula&#231;&#227;o geradora da competi&#231;&#227;o entre alunos ou uma abordagem seletiva do processo de avalia&#231;&#227;o, o trabalho daquelas e daqueles que se encontram vinculados ao MEM evidencia os azimutes da utopia curricular e pedag&#243;gica que, na minha opini&#227;o, temos de continuar a perseguir.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E para se compreender melhor o que quero dizer, limito-me a partilhar, apenas, um momento &#250;nico a que pude assistir numa excelente comunica&#231;&#227;o produzida por uma professora do 1&#186; ciclo, B&#225;rbara Giraldes, que no fim da mesma apresenta um pequeno v&#237;deo. Neste, as crian&#231;as do seu 1&#186; ano explicam &#224;s fam&#237;lias como aprenderam a escrever e a ler. Passo a passo, descreveram as etapas que foram vivendo, recorrendo aos textos que redigiram e ao trabalho que realizaram sobre estes textos e a partir destes textos, identificando o que foram aprendendo e realizando ao longo de todo este processo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; em momentos assim que a minha esperan&#231;a renasce e que, apesar das ressacas, bendigo as utopias.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Centros de Formação de Associação de Escolas (CFAE): O que fazer?]]></title><description><![CDATA[Com a den&#250;ncia dos estrangulamentos da a&#231;&#227;o dos CFAE, o tema dos dois &#250;ltimos textos publicados neste blogue, pretendi evidenciar, sobretudo, que estas entidades podiam, e podem, assumir um papel mais relevante no sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua em Portugal e, deste modo, protagonizar um papel mais decisivo no processo de dignifica&#231;&#227;o e valoriza&#231;&#227;o tanto da Escola P&#250;blica como da profiss&#227;o docente.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/centros-de-formacao-de-associacao</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/centros-de-formacao-de-associacao</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 17 Jul 2026 09:48:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4a24110e-3400-4330-90d5-37fe27c0f89d_213x295.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Com a den&#250;ncia dos estrangulamentos da a&#231;&#227;o dos CFAE, o tema dos dois &#250;ltimos textos publicados neste blogue, pretendi evidenciar, sobretudo, que estas entidades podiam, e podem, assumir um papel mais relevante no sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua em Portugal e, deste modo, protagonizar um papel mais decisivo no processo de dignifica&#231;&#227;o e valoriza&#231;&#227;o tanto da Escola P&#250;blica como da profiss&#227;o docente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Se &#233; necess&#225;rio reconhecer que a possibilidade de associar a forma&#231;&#227;o cont&#237;nua &#224; concretiza&#231;&#227;o dos projetos educativos e dos planos de atividades das escola &#233; um desafio a longo prazo e dif&#237;cil de concretizar, mesmo que se desenvolvam pol&#237;ticas educativas que o estimulem, &#233; necess&#225;rio reconhecer, no entanto, que a participa&#231;&#227;o dos CFAE como parceiros do MECI na defini&#231;&#227;o dos programas de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua &#233; n&#227;o s&#243; uma op&#231;&#227;o poss&#237;vel como uma op&#231;&#227;o desej&#225;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o se pode negar ao Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o a possibilidade de intervir, atrav&#233;s da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, no sistema educativo portugu&#234;s, exige-se, no entanto, que essa interven&#231;&#227;o se concretize, por um lado, de forma t&#227;o criteriosa, quanto sustentada e, por outro, que ocorra atrav&#233;s do envolvimento dos CFAE no &#226;mbito do processo de concetualiza&#231;&#227;o dos programas, de forma que estas entidades formadoras deixem de ficar circunscritas ao papel de executores dos mesmos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ser&#225; que uma tal op&#231;&#227;o inviabilizaria a concretiza&#231;&#227;o de programas como, por exemplo, o da capacita&#231;&#227;o digital de docentes? N&#227;o necessariamente, ainda que a estrat&#233;gia adotada tivesse de assumir outros contornos. N&#227;o pretendo p&#244;r em causa a interven&#231;&#227;o de especialistas ou desvalorizar a interven&#231;&#227;o que a extinta Dire&#231;&#227;o-Geral da Educa&#231;&#227;o (DGE) assumiu no &#226;mbito desse processo, o que pergunto &#233; porque &#233; que esta entidade, em vez de submeter diretamente a a&#231;&#227;o ao CCPFC, n&#227;o deixou que essa tarefa fosse assumida pelos CFAE? Porque &#233; que n&#227;o se limitou a redigir um documento onde fundamentaria a import&#226;ncia e as raz&#245;es que a conduziram a assumir uma tal iniciativa, onde explicitaria os objetivos que orientavam a mesma e onde faria recomenda&#231;&#245;es metodol&#243;gicas que pudessem servir de refer&#234;ncia &#224;s entidades formadoras, para que estas produzissem as suas propostas de forma&#231;&#227;o? Porque &#233; que a DGE n&#227;o assumiu o papel de consultora e, sobretudo, o papel de avaliadora do impacto da a&#231;&#227;o que, na verdade, n&#227;o foi da responsabilidade de ningu&#233;m? Em vez de uma interven&#231;&#227;o assente numa parceria a desenvolver com os CFAE, a DGE optou por centralizar a conce&#231;&#227;o do programa de forma&#231;&#227;o e atribuiu aos centros de forma&#231;&#227;o a responsabilidade por o executar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Confrontando as duas op&#231;&#245;es em presen&#231;a e avaliando os riscos e vantagens de cada uma delas, diria que a op&#231;&#227;o centralista permite, na verdade, uma resposta massiva e mais expedita ao n&#237;vel da concretiza&#231;&#227;o dos programas de forma&#231;&#227;o. Em contrapartida, confronta os CFAE com dificuldades s&#233;rias ao n&#237;vel do recrutamento dos formadores, para al&#233;m de n&#227;o poder considerar, tanto quanto seria necess&#225;rio, as especificidades dos formandos e dos contextos de forma&#231;&#227;o. Se &#233; verdade que a sua efici&#234;ncia depende do modo como exerce a tutela sobre os CFAE, pode considerar-se que esta &#233;, igualmente, a sua maior vulnerabilidade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A outra estrat&#233;gia formativa, a de atribuir aos CFAE um papel na concetualiza&#231;&#227;o das a&#231;&#245;es, tendo os seus riscos, n&#227;o deixa, na verdade, de possibilitar o desenvolvimento de iniciativas em larga escala, permitindo, para al&#233;m disso, subverter a l&#243;gica homogeneizadora das a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o, decorrente do facto destas serem da responsabilidade exclusiva da Administra&#231;&#227;o Central. Ainda que o n&#250;mero de a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o e de formandos possa diminuir, uma tal estrat&#233;gia pode potenciar, no entanto, o desenvolvimento de rela&#231;&#245;es mais significativas entre as a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o, os contextos de trabalho e os docentes, potenciando-se, deste modo, o impacto do programa de forma&#231;&#227;o. A gest&#227;o dos formadores passa a assumir, igualmente, outros contornos. &#201; que na op&#231;&#227;o massiva de forma&#231;&#227;o, esta vari&#225;vel tende a ser menorizada em fun&#231;&#227;o da necessidade de realizar as a&#231;&#245;es, tendendo as entidades formadoras n&#227;o a procurar os formadores adequados, mas a tentar encontrar os formadores dispon&#237;veis.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Se no caso do programa de Capacita&#231;&#227;o Digital n&#227;o houve problema de maior em encontrar formadores acreditados (o que n&#227;o significa que tenham sido os formadores desejados), esta problem&#225;tica, noutras situa&#231;&#245;es, pode adquirir contornos dram&#225;ticos, como foi o caso, por exemplo, das 30 a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o concebidas e disseminadas pela DGE, relacionadas com a atualiza&#231;&#227;o e o aprofundamento cient&#237;fico-did&#225;tico quer das Orienta&#231;&#245;es Curriculares da Educa&#231;&#227;o Pr&#233;-Escolar quer dos programas das disciplinas (com exce&#231;&#227;o da Matem&#225;tica) que integram os planos de estudo em vigor no sistema educativo portugu&#234;s, desde o Ensino B&#225;sico ao Ensino Secund&#225;rio.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Neste &#226;mbito, o recurso &#224; forma&#231;&#227;o em cascata &#233; uma &#250;ltima problem&#225;tica que &#233; necess&#225;rio abordar, enquanto expediente utilizado pelos minist&#233;rios da educa&#231;&#227;o para massificar as iniciativas formadoras. Sendo uma possibilidade, &#233; necess&#225;rio, contudo, refletir sobre os riscos de uma tal op&#231;&#227;o, sobretudo quando sabemos que h&#225; uma dist&#226;ncia, algumas vezes, incomensur&#225;vel em termos da qualidade da forma&#231;&#227;o, entre o momento da forma&#231;&#227;o de formadores e o momento posterior em que estes passam a trabalhar com os respetivos formandos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nos &#250;ltimos tempos, o exemplo maior dos efeitos nefastos desta op&#231;&#227;o teve a ver com o projeto MAIA que foi amplamente penalizada pelos efeitos da forma&#231;&#227;o em cascata. Uma op&#231;&#227;o que, neste caso, se justificou pela necessidade de apressar a transforma&#231;&#227;o das pr&#225;ticas de avalia&#231;&#227;o pedag&#243;gica das aprendizagens dos professores portugueses, confundindo-se urg&#234;ncia com pressa. Apesar da qualidade e da pertin&#234;ncia daquele projeto, o mesmo acabou por gerar veementes rea&#231;&#245;es de oposi&#231;&#227;o que se explicam quer com a pr&#243;pria amplitude dos desafios curriculares e pedag&#243;gicos em presen&#231;a, quer com a ambi&#231;&#227;o desmedida de uma iniciativa que deveria ter sido desenvolvida como um projeto-piloto circunscrito e n&#227;o como um projeto com a amplitude que o mesmo, sabemo-lo hoje, n&#227;o poderia ter.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em conclus&#227;o, na forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores, &#233; a transforma&#231;&#227;o da rela&#231;&#227;o entre o Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o e os CFAE que, neste momento, deve constituir a principal preocupa&#231;&#227;o dos decisores pol&#237;ticos e dos diretores daquelas entidades. &#201; que as vantagens em transitar de uma l&#243;gica da tutela para uma l&#243;gica de parceria s&#227;o in&#250;meras, seja do ponto de vista do impacto das a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, seja do ponto de vista do empoderamento daqueles CFAE, os quais, importa reconhecer, exprimem uma das dimens&#245;es mais saud&#225;veis e promissoras do sistema educativo portugu&#234;s.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os Centros de Formação da Associação de Escolas (CFAE) e as suas zonas de estrangulamento (II)]]></title><description><![CDATA[No &#250;ltimo texto publicado neste blogue, aleguei que uma primeira zona de estrangulamento do sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua dizia respeito ao modo como a estrat&#233;gia de financiamento dos CFAE constitu&#237;a um instrumento utilizado pelos governos para transformar estas entidades em executores dos programas de forma&#231;&#227;o concebidos pela Administra&#231;&#227;o Central.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/os-centros-de-formacao-da-associacao-9b3</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/os-centros-de-formacao-da-associacao-9b3</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 10 Jul 2026 21:23:37 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e37a5460-d0b9-4126-93e9-1933b0d31cb1_3060x4080.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>No &#250;ltimo texto publicado neste blogue, aleguei que uma primeira zona de estrangulamento do sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua dizia respeito ao modo como a estrat&#233;gia de financiamento dos CFAE constitu&#237;a um instrumento utilizado pelos governos para transformar estas entidades em executores dos programas de forma&#231;&#227;o concebidos pela Administra&#231;&#227;o Central. Desde 1992, quando se come&#231;aram a formar os CFAE, esta &#233;, ali&#225;s, uma situa&#231;&#227;o que foi denunciada por todos aqueles que, nessa &#233;poca, realizaram estudos sobre essa tem&#225;tica (Can&#225;rio, 1994; Correia, Caramelo &amp; Vaz, 1997; Barroso &amp; Can&#225;rio, 1999; Silva, 2001).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tal como referi, tamb&#233;m nesse texto, nem os governos do PS, entre 2016 e 2014, alteraram essa estrat&#233;gia, mesmo que tenham sido respons&#225;veis por um dos projetos de pol&#237;tica educativa mais ambiciosos, consequentes e relevantes, relacionado com a autonomia das escolas para, de forma aut&#243;noma, tomarem decis&#245;es curriculares e, neste &#226;mbito, desenvolverem iniciativas educativas singulares. Por isso &#233; que considerei que est&#225;vamos perante uma contradi&#231;&#227;o e um paradoxo. Se as escolas passaram a ter uma maior margem de manobra para tomar decis&#245;es, ent&#227;o porque &#233; que o mesmo princ&#237;pio n&#227;o se aplicou aos CFAE, no dom&#237;nio da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tentando compreender o que estava em jogo, perguntei o que poderia explicar a atitude da j&#225; extinta DGE face aos centros de forma&#231;&#227;o. A necessidade de acelerar, por via da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, a transforma&#231;&#227;o pela qual o Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o ansiava? A desconfian&#231;a face &#224; capacidade dos CFAE assumirem um papel central no processo? A tentativa de condicionar o impacto da l&#243;gica de consumo que poderia afetar as a&#231;&#245;es concebidas por estas entidades, por via da press&#227;o a que alegadamente estes poderiam estar sujeitos para ajustar a sua oferta formativa &#224; progress&#227;o dos docentes na carreira?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>As raz&#245;es podem ser diversas para explicar o peso que a DGE foi assumindo na configura&#231;&#227;o de a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua que foram sendo concretizadas, em larga medida, pelos CFAE. Deixo para depois a discuss&#227;o sobre o que se poderia ter feito, de forma a discutir n&#227;o tanto a urg&#234;ncia do Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o ou a sua eventual desconfian&#231;a face aos centros de forma&#231;&#227;o, mas o do v&#237;nculo existente entre forma&#231;&#227;o cont&#237;nua e progress&#227;o na carreira, porque, na minha perspetiva, esta &#233; a segunda zona de estrangulamento dos CFAE. Trata-se do sintoma de um problema que &#233; necess&#225;rio enfrentar: o da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua se encontrar dissociada, em geral, dos projetos educativos das escolas, dos seus planos de atividades ou dos seus planos de melhoria.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Enquanto isso acontecer, n&#227;o ser&#225; a mudan&#231;a de legisla&#231;&#227;o, no sentido de alterar aquele v&#237;nculo, que ir&#225; produzir qualquer efeito. O que &#233; necess&#225;rio reconhecer &#233; que o desafio que se tem pela frente &#233; enorme e arriscado porque implica, na verdade, a transforma&#231;&#227;o da cultura organizacional das escolas, transitando-se de uma cultura organizacional taylorista e burocr&#225;tica para um outro tipo de cultura organizacional que permita e estimule a participa&#231;&#227;o dos professores nas decis&#245;es que t&#234;m a ver com as iniciativas educativas que lhes dizem respeito.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sem esta transforma&#231;&#227;o, a forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores continuar&#225; a depender da progress&#227;o da carreira, do voluntarismo de alguns professores ou da implementa&#231;&#227;o de projetos pontuais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Do ponto de vista dos CFAE, criam-se as condi&#231;&#245;es para que estas entidades possam ser o que ainda n&#227;o s&#227;o: inst&#226;ncias respons&#225;veis pela dinamiza&#231;&#227;o local de forma&#231;&#227;o e desenvolvimento profissional dos professores relacionados com um dado territ&#243;rio, a partir das sinergias que podem estabelecer com as escolas associadas. Criam-se as condi&#231;&#245;es para que a rela&#231;&#227;o entre os CFAE e a Administra&#231;&#227;o Central se liberte da atual l&#243;gica da tutela para se desenvolver como uma l&#243;gica de partenariado. Criam-se as condi&#231;&#245;es, finalmente, para que a forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores passe a estar vinculada &#224; avalia&#231;&#227;o de desempenho docente e n&#227;o diretamente &#224; progress&#227;o na carreira.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que sei &#233; que os CFAE t&#234;m uma estrutura e um potencial que lhes permite enfrentar este desafio, do qual depende tanto a credibiliza&#231;&#227;o e dignifica&#231;&#227;o da Escola P&#250;blica, em Portugal, como da pr&#243;pria profiss&#227;o docente.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Can&#225;rio, Rui (1994). Centros de Forma&#231;&#227;o de Associa&#231;&#245;es de Escolas: Que futuro? In Amiguinho, Ab&#237;lio; &amp; Can&#225;rio, Rui (Org.), </span><em><span>Escolas e mudan&#231;a: O papel dos Centros de Forma&#231;&#227;o</span></em><span>. Lisboa: Educa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Correia, Jos&#233; Alberto; Caramelo, Jo&#227;o; Vaz, Henrique (1997). </span><em><span>Forma&#231;&#227;o de Professores: Estudo Tem&#225;tico.</span></em><span> Porto: FPCEUP (texto policopiado).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Barroso, Jo&#227;o; &amp; Can&#225;rio, Rui (1999). </span><em><span>Centros de Forma&#231;&#227;o das Associa&#231;&#245;es de Escolas: Das experi&#234;ncias &#224;s realidades</span></em><span>. Lisboa: IIE.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Silva, Manuel Ant&#243;nio da (2001). </span><em><span>Os diretores dos Centros de Forma&#231;&#227;o das Associa&#231;&#245;es de Escolas.</span></em><span> Lisboa: IIE.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Contestação e democracia]]></title><description><![CDATA[Falemos de contesta&#231;&#227;o.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/contestacao-e-democracia</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/contestacao-e-democracia</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 08 Jul 2026 19:45:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a50e50ba-ace3-4bf9-911f-e50acd549790_300x300.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Falemos de contesta&#231;&#227;o. Durante muito tempo tendia a associar o ato de contestar a um ato de generosidade pol&#237;tica, esquecendo-me, por exemplo, da exist&#234;ncia das contesta&#231;&#245;es de natureza anti-democr&#225;tica, talvez por serem minorit&#225;rias ou silenciosas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Como sabemos isso mudou, tal como o triste epis&#243;dio que op&#244;s o capit&#227;o da sele&#231;&#227;o nacional de futebol, Kylian Mbapp&#233;, &#224; deputada paraguaia Celeste Amarilla, t&#227;o bem ilustra.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tudo come&#231;ou no fim do jogo de futebol entre a Fran&#231;a e o Paraguai que a sele&#231;&#227;o gaulesa venceu, depois de um jogo muito tenso, marcado pela dureza e as provoca&#231;&#245;es dos jogadores paraguaios, o que levou os franceses a recusarem cumprimentar os advers&#225;rios no fim do jogo e Mbapp&#233; a afirmar que a sua equipa tamb&#233;m sabia jogar sujo. Foi na sequ&#234;ncia destes epis&#243;dios que Celeste Amarilla acusou o capit&#227;o da sele&#231;&#227;o francesa de n&#227;o passar de um camaron&#234;s colonizado, a tentar fazer-se passar por franc&#234;s, um ressentido, novo rico, prepotente, feio e inculto que, para al&#233;m disso, n&#227;o sabia escrever, j&#225; que a coisa mais instru&#237;da que ouviu tinham sido os chimpanz&#233;s. Se a resposta de Mbapp&#233; n&#227;o se fez esperar, acusando a deputada de ser racista e uma mulher desprez&#237;vel, indigna do cargo que ocupava, a resposta de Celeste tamb&#233;m n&#227;o, amea&#231;ando-o com o tribunal porque as palavras dele configuravam uma situa&#231;&#227;o de viol&#234;ncia de g&#233;nero, um crime que devia ser punido.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Perante tamanha desfa&#231;atez, o que dizer? O que far&#225; o Partido Liberal Radical Aut&#234;ntico pelo qual foi eleita para o Parlamento paraguaio? Tendo em conta que estamos perante um partido que combateu o regime brutal do ditador Stroessner e que hoje constitui um dos pilares do regime democr&#225;tico no Paraguai, penso que a expuls&#227;o seria a medida mais congruente. N&#227;o sei se o far&#225;. O que sei, e o que me preocupa, &#233; n&#227;o desconhecer que haver&#225; sempre quem me possa acusar de, atrav&#233;s deste texto, desrespeitar a liberdade de express&#227;o e de pensamento. O que sei, e o que me preocupa, &#233; ver uma racista, ao ser acusada daquilo que efetivamente &#233;, alegar que foi v&#237;tima de viol&#234;ncia de g&#233;nero.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O problema &#233; que a viol&#234;ncia de g&#233;nero existe. Trata-se de um fen&#243;meno social end&#233;mico que tem e deve ser combatido, seja quando ela se faz sentir nas ruas e nas casas deste pa&#237;s e deste mundo, seja quando &#233; invocada para sustentar aleivosias e mentiras. Na primeira situa&#231;&#227;o, a viol&#234;ncia gera uma situa&#231;&#227;o humanamente intoler&#225;vel, enquanto na segunda, a viol&#234;ncia consubstancia-se na instrumentaliza&#231;&#227;o de uma den&#250;ncia t&#227;o c&#237;nica quanto hip&#243;crita. As duas configuram um atentado &#224; vida que seria suposto viver em sociedades que se afirmam como democr&#225;ticas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Moral da hist&#243;ria: A contesta&#231;&#227;o, nem sempre corresponde a um ato atrav&#233;s do qual se busca mais dignidade, justi&#231;a e democracia. Por isso, temos de ser criteriosos e, quando isso &#233; necess&#225;rio, necessitamos de ter coragem para denunciar e contestar a contesta&#231;&#227;o.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os Centros de Formação da Associação de Escolas (CFAE) e as suas zonas de estrangulamento]]></title><description><![CDATA[No passado dia 1 de julho, a Sec&#231;&#227;o da Forma&#231;&#227;o Cont&#237;nua de Profissionais da Educa&#231;&#227;o, da Sociedade Portuguesa de Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o (SPCE), em conjunto com os membros do grupo que dinamiza o projeto Mem&#243;rias dos CFAE, organizou um col&#243;quio intitulado &#171;Forma&#231;&#227;o Cont&#237;nua: Percursos, reflex&#245;es e desafios&#187;, o qual teve lugar no audit&#243;rio do Museu do Mar&#237;timo de &#205;lhavo.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/os-centros-de-formacao-da-associacao</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/os-centros-de-formacao-da-associacao</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 04 Jul 2026 13:45:28 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/38b22fc0-3c9a-43c0-a6d5-de5734ab5630_704x1000.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>No passado dia 1 de julho, a Sec&#231;&#227;o da Forma&#231;&#227;o Cont&#237;nua de Profissionais da Educa&#231;&#227;o, da Sociedade Portuguesa de Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o (SPCE), em conjunto com os membros do grupo que dinamiza o projeto Mem&#243;rias dos CFAE, organizou um col&#243;quio intitulado &#171;Forma&#231;&#227;o Cont&#237;nua: Percursos, reflex&#245;es e desafios&#187;, o qual teve lugar no audit&#243;rio do Museu do Mar&#237;timo de &#205;lhavo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi numa jornada onde se abordaram assuntos decisivos que, por insufici&#234;ncia de espa&#231;o, n&#227;o vou comentar neste texto, sentindo, apenas, a necessidade de afirmar que reforcei a minha cren&#231;a que os CFAE constituem uma das zonas mais saud&#225;veis do nosso sistema educativo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Dito isto, e aproveitando a interven&#231;&#227;o que partilhei, vou-me ficar pela discuss&#227;o sobre as zonas de estrangulamento que, hoje, afetam a a&#231;&#227;o dos CFAE. Uma dessas zonas diz respeito &#224; l&#243;gica e estrat&#233;gia de financiamento das atividades dos centros de forma&#231;&#227;o, sendo ela que justifica a reda&#231;&#227;o deste texto.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Na minha interven&#231;&#227;o, sobre a an&#225;lise da literatura acad&#233;mica que foi produzida na d&#233;cada de 90 (logo ap&#243;s a promulga&#231;&#227;o, em 1992, do primeiro Regime Jur&#237;dico que regulava a forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores) a problem&#225;tica do financiamento era, para os autores das obras analisadas (Can&#225;rio, 1994; Correia, Caramelo &amp; Vaz, 1997; Barroso &amp; Can&#225;rio, 1999; Silva, 2001; Estrela, 2001), uma problem&#225;tica recorrente. Todos eles referiam estarmos perante um paradoxo: o da cria&#231;&#227;o dos CFAES corresponder a uma decis&#227;o que alegadamente visa incentivar o associativismo docente e promover a descentraliza&#231;&#227;o territorial e funcional da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, ainda que, por via da estrat&#233;gia de financiamento adotada, a atividade daquelas entidades acabe por ser tutelada pela Administra&#231;&#227;o Central.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que &#233; relevante, como objeto de an&#225;lise, &#233; que a l&#243;gica tutelar dessa estrat&#233;gia se perpetuou, mesmo quando, a partir de 2016, atrav&#233;s do Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular, se assumiram decis&#245;es pol&#237;ticas consequentes, com a promulga&#231;&#227;o dos decreto-lei 54/2018 e 55/2018. Pela primeira vez na hist&#243;ria do sistema educativo portugu&#234;s oferecia-se a possibilidade dos agrupamentos escolares e as escolas n&#227;o agrupadas gerirem o curr&#237;culo de forma aut&#243;noma e contextualizada. Porque &#233; que os CFAE n&#227;o beneficiaram de uma autonomia equivalente, assumindo-se, a partir de determinado momento, como executores dos programas de forma&#231;&#227;o concebidos pela Dire&#231;&#227;o-Geral de Educa&#231;&#227;o?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mais do que produzir uma acusa&#231;&#227;o, interessa-me, sobretudo, chamar a aten&#231;&#227;o para esta alegada contradi&#231;&#227;o pol&#237;tica, enquanto express&#227;o da dificuldade da administra&#231;&#227;o central superar a sua desconfian&#231;a face &#224; capacidade dos professores se poderem assumir como protagonistas, neste caso, das iniciativas de forma&#231;&#227;o que lhes dizem respeito.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Poderia a DGE assumir uma outra postura, sabendo os riscos que iria correr, num sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua onde as necessidades de progress&#227;o na carreira inquinam o potencial transformadora da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ser&#225; no pr&#243;ximo texto que tentarei responder a esta quest&#227;o, discutindo uma das outras zonas de estrangulamento do sistema portugu&#234;s de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, aquela que diz respeito &#224; dissocia&#231;&#227;o entre as iniciativas formativas e os projetos e planos de interven&#231;&#227;o que se desenham nas escolas.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Can&#225;rio, Rui (1994). Centros de Forma&#231;&#227;o de Associa&#231;&#245;es de Escolas: Que futuro? In Amiguinho, Ab&#237;lio; &amp; Can&#225;rio, Rui (Org.), </span><em><span>Escolas e mudan&#231;a: O papel dos Centros de Forma&#231;&#227;o</span></em><span>. Lisboa: Educa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Correia, Jos&#233; Alberto; Caramelo, Jo&#227;o; Vaz, Henrique (1997). </span><em><span>Forma&#231;&#227;o de Professores: Estudo Tem&#225;tico.</span></em><span> Porto: FPCEUP (texto policopiado).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Barroso, Jo&#227;o; &amp; Can&#225;rio, Rui (1999). </span><em><span>Centros de Forma&#231;&#227;o das Associa&#231;&#245;es de Escolas: Das experi&#234;ncias &#224;s realidades</span></em><span>. Lisboa: IIE.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Silva, Manuel Ant&#243;nio da (2001). </span><em><span>Os diretores dos Centros de Forma&#231;&#227;o das Associa&#231;&#245;es de Escolas.</span></em><span> Lisboa: IIE.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Estrela, Maria Teresa (2001). Realidade e perspetivas da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores. </span><em><span>Revista Portuguesa de Educa&#231;&#227;o</span></em><span>, 14 (1), 27-48.</span></p>]]></content:encoded></item></channel></rss>