<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Encruzilhadas]]></title><description><![CDATA[Espaço de reflexão onde se defende a centralidade da relação entre os alunos e o conhecimento culturalmente validado como o desafio nuclear da Escola, o qual determina o empoderamento humano dos discentes e a afirmação profissional dos docentes.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ghFf!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F542030fc-14c2-474c-b563-512dbc701157_1200x1200.png</url><title>Encruzilhadas</title><link>https://encruzilhadas.pt</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 18 Sep 2026 07:30:25 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://encruzilhadas.pt/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Rui Trindade]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Rui Trindade]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Rui Trindade]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Rui Trindade]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[A exigência como condição educativa]]></title><description><![CDATA[Ando a colecionar coment&#225;rios e an&#225;lises sobre os resultados dos alunos portugueses no PISA 2025.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/a-exigencia-como-condicao-educativa</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/a-exigencia-como-condicao-educativa</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 11 Sep 2026 07:14:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5cb7e2a1-8ffa-4732-8b05-8c5a98016b73_400x400.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Ando a colecionar coment&#225;rios e an&#225;lises sobre os resultados dos alunos portugueses no PISA 2025. Enquanto isso, decidi partilhar convosco excertos de uma reflex&#227;o que Meireiu produz, no livro &#171;Carta a um jovem professor&#187;, sobre a exig&#234;ncia como condi&#231;&#227;o educativa. Vale a pena ler, num tempo em que a falta de exig&#234;ncia e de rigor sobre este e outros assuntos come&#231;a a constituir-se como a imagem de marca do nosso presente. Um tempo onde uma mentira repetida mil vezes se pode transformar numa verdade.</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>&#8220;Pois a quest&#227;o est&#225; justamente na exig&#234;ncia: o dossi&#234; sobre os rastaf&#225;ris, o painel sobre os efeitos especiais ou a exposi&#231;&#227;o sobre Harry Potter podem ser uma maneira de abandonar os alunos &#224; mediocridade medi&#225;tica e de exclu&#237;-los de toda a verdadeira cultura... Isso acontece, sem d&#250;vida, quando se permite a apresenta&#231;&#227;o de um simulacro de pesquisa pessoal ou em grupo, quando se transforma a sala de aula num local de exibi&#231;&#227;o para alguns animadores eficazes, e se assiste ao espet&#225;culo limitando-se a avali&#225;-lo, como c&#250;mplice ou acusador.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Mas n&#227;o acontece quando se acompanha os alunos mais de perto e de maneira mais exigente, &#224; espreita de quest&#245;es que se colocam e de poss&#237;veis aberturas culturais, atento a esses pequenos detalhes de &#171;forma&#187; que &#233; t&#227;o comum considerar como secund&#225;rios... &#201; preciso utilizar um vocabul&#225;rio preciso e formar frases corretas. &#201; preciso fazer um apanhado hist&#243;rico para compreender bem. &#201; preciso estruturar o discurso, utilizar argumentos de peso e exemplos pertinentes para se fazer entender. &#201; preciso, de facto, que a menor palavra, a menor express&#227;o, o menor gesto sejam comandados por um imperativo absoluto de qualidade.</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>(...). A qualidade aqui n&#227;o &#233; de modo nenhum, justamente, &#171;uma qualidade&#187; suplementar, uma dimens&#227;o estranha &#224; &#171;natureza das coisas&#187; que viria a somar-se &#224;s cria&#231;&#245;es dos homens. A qualidade &#233; a intencionalidade do ato levada &#224; incandesc&#234;ncia, quando o que se faz alcan&#231;a uma tal perfei&#231;&#227;o que isso se imp&#245;e como uma evid&#234;ncia. A qualidade &#233; o gesto exato, preciso, de onde se exclui quase tudo. O gesto em si que se basta a si mesmo. O movimento do bailarino, a frase do escritor, a pincelada do pintor, a manipula&#231;&#227;o do cientista, o c&#225;lculo do matem&#225;tico, assim como o giro do parafuso do mec&#226;nico (...).</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>Existe algo de fundamental para mim num tal reconhecimento, algo que acabei transformando no vetor das nossas atividades profissionais: </span><strong><span>qualquer atividade humana, desde que seja trabalhada como um exig&#234;ncia m&#225;xima, comporta toda a intelig&#234;ncia humana</span></strong><span>. (...)</span></em></p><p style="text-align: justify;"><em><span>E foi assim que cheguei, indiretamente e de certo modo a contragosto, ao nosso of&#237;cio de professor. Pois, independentemente de ensinarmos franc&#234;s ou tecnologia, culin&#225;ria ou f&#237;sica, conatbilidade ou biologia, eletricidade ou letras cl&#225;ssicas, somos antes de tudo portadores dessa exig&#234;ncia de qualidade sem a qual nenhuma das nossas disciplinas e nenhum saber humano jamais se constituiriam&#8221; (Meirieu, 2006, p. 53 - 55).</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>Acabem-se, por isso, com discuss&#245;es est&#233;reis e in&#250;teis sobre a exig&#234;ncia como condi&#231;&#227;o educativa a respeitar nalgumas disciplinas, defende Meirieu. &#201; que a</span></p><p style="text-align: justify;"><em><span>&#8220;exig&#234;ncia transcende tudo isso. Ser exigente em tudo e nos menores detalhes, e basta. Exigente em rela&#231;&#227;o a mim tanto quanto aos alunos. Exigente nas tarefas mais banais e quotidianas assim como nos momentos mais excecionais e ritualizados. Exigente no trabalho para o qual tentamos motivar os nossos alunos do mesmo modo que nas atividades que eles escolhem livremente (...) (idem, p. 55).</span></em></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; que, ao contr&#225;rio do que alguns propagandeiam, n&#227;o &#233; a sele&#231;&#227;o acad&#233;mica que constitui o principal crit&#233;rio para aferir uma a&#231;&#227;o educativa exigente. A exig&#234;ncia &#233; outra coisa. &#201; ela que nos permite afirmar que o of&#237;cio de professor vale a pena, quando contribui para que os seus alunos possam ser o que ainda n&#227;o s&#227;o.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Meirieu, Philippe (2006). </span><em><span>Carta a um jovem professor</span></em><span>. Porto Alegre: Artmed.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Cesário Silva]]></title><description><![CDATA[O Ces&#225;rio morreu ontem.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/cesario-silva</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/cesario-silva</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Tue, 08 Sep 2026 11:56:27 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fbde0fba-3433-472c-ba49-4277cd794200_701x436.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O Ces&#225;rio morreu ontem. Tra&#237;do pelo seu cora&#231;&#227;o imenso. Pertence ao n&#250;mero daqueles que fisicamente nos deixam de forma cruelmente prematura. Era o diretor do Agrupamento de Escolas da Marinha Grande Poente, desde 2014, onde quotidianamente, nos mostrava a todos como as escolas podem e devem ser espa&#231;os democr&#225;ticos. Espa&#231;os onde os professores participam, de forma aut&#234;ntica e implicada, nos projetos e iniciativas que lhes dizem respeito. Espa&#231;os onde as aprendizagens dos alunos se v&#227;o conjugando com uma forma&#231;&#227;o inclusiva, rigorosa e exigente. Espa&#231;os onde as fam&#237;lias s&#227;o desejadas e t&#234;m uma palavra a dizer sobre a escolas dos seus educandos. O seu legado &#233; enorme. &#201; um legado de esperan&#231;a, consequente e sustentada numa organiza&#231;&#227;o pensada para suscitar o di&#225;logo e a participa&#231;&#227;o democr&#225;tica. Um legado que nos mostra que uma outra escola &#233; poss&#237;vel. Um legado que nos ajuda a ser melhores do que aquilo que j&#225; somos. Obrigado, Ces&#225;rio!</p><p></p><p></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Escola do Magistério Primário do Porto: 50 anos depois]]></title><description><![CDATA[Faz, neste outubro, 50 anos que entrei, entr&#225;mos, na Escola do Magist&#233;rio Prim&#225;rio do Porto (EMPP).]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/escola-do-magisterio-primario-do</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/escola-do-magisterio-primario-do</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 04 Sep 2026 08:54:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/d0e5db2d-d204-4821-8e2c-8d5a71c8ac13_480x360.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Faz, neste outubro, 50 anos que entrei, entr&#225;mos, na Escola do Magist&#233;rio Prim&#225;rio do Porto (EMPP). Foi em 1976 que, depois de termos sido aprovados nos exames de acesso, a&#237; fomos admitido para frequentar o Curso de Professor do Ensino Prim&#225;rio, o qual, a partir do ano letivo anterior, tinha passado a ter a dura&#231;&#227;o de tr&#234;s anos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; sobre essa escola que quero escrever e que convido outros a partilhar, neste blogue, os seus escritos. Se temos &#224; nossa disposi&#231;&#227;o textos, de natureza acad&#233;mica, onde se reflete, entre outras coisas, tanto sobre a especificidades e o potencial dos projetos de forma&#231;&#227;o que tiveram lugar nas escolas do Magist&#233;rio Prim&#225;rio no per&#237;odo subsequente ao 25 de abril de 1974, parece-me que faltam os textos das pessoas que viveram na primeira pessoa, de corpo e alma, o que n&#243;s todos ali pudemos viver e aprender.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Celebrar os 50 anos da nossa entrada na EMPP pode ser, assim, o pretexto para evocarmos as nossas pr&#243;prias experi&#234;ncias como estudantes. N&#227;o &#233; uma manifesta&#231;&#227;o nost&#225;lgica, idealizadora de um passado que se efabula, que pretendo recriar. &#201; antes um exerc&#237;cio de reflex&#227;o sobre as escolas vocacionadas para promover a forma&#231;&#227;o inicial de professores, onde &#233; necess&#225;rio cuidar do modo como se ensina e, igualmente, do modo como se permite que os estudantes, futuros docentes, possam aprender e terem oportunidade de viver experi&#234;ncias pessoais e sociais significativas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; verdade que os tempos s&#227;o outros. S&#227;o outros, tamb&#233;m, os desafios e as exig&#234;ncias, mas h&#225; dimens&#245;es formativas &#224;s quais conv&#233;m prestar aten&#231;&#227;o. &#201; neste &#226;mbito que a experi&#234;ncia que vivemos, h&#225; 50 anos, pode ser valiosa para discutir algumas dessas dimens&#245;es, conferindo-lhes visibilidade e pertin&#234;ncia.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Eu comprometo-me a come&#231;ar. N&#227;o sei se come&#231;arei pela luta contra a Helena Ara&#250;jo ou se recordo o espa&#231;o de forma&#231;&#227;o que fomos criando no caf&#233; Cors&#225;rio. N&#227;o sei, ainda, se me atrevo a falar de hist&#243;rias sobre desgostos de amor, sobre processos disciplinares ou sobre o estatuto do &#171;&#193;gua leva o regadinho&#187; no nosso quotidiano. N&#227;o sei. H&#225; hist&#243;rias do est&#225;gio, hist&#243;rias de noites de estudo, hist&#243;rias tr&#225;gico-c&#243;micas e hist&#243;rias de solidariedade. Todas elas, por alguma raz&#227;o, inolvid&#225;veis. H&#225; hist&#243;rias incr&#237;veis sobre lutas e projetos que as associa&#231;&#245;es de estudantes das diferentes escolas do Magist&#233;rio Prim&#225;rio empreenderam. Hist&#243;rias de acontecimentos que contribu&#237;ram, de algum modo, para ser quem somos porque, em larga medida, o fizemos juntos, convictamente, e, muitas vezes, de forma refletida. A nossa inquieta&#231;&#227;o era uma for&#231;a t&#227;o incomensur&#225;vel quanto solid&#225;ria, porque acredit&#225;vamos, como cantava Zeca Afonso, que pod&#237;amos ser os cantores daquele Sol de ver&#227;o que se ergueria tamb&#233;m por via da for&#231;a das nossas convic&#231;&#245;es e a&#231;&#245;es. Mais do que saber se cumprimos o prometido, interessa-me saber que o desejo de o fazer nos animou a ir mais longe, n&#227;o esperando que algu&#233;m fizesse por n&#243;s, o que n&#243;s sab&#237;amos que s&#243; n&#243;s poder&#237;amos fazer.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Por isso &#233; que na placa de metal que afixamos no &#225;trio principal da Escola (hoje Escola Superior de M&#250;sica e Artes do Espet&#225;culo), recorremos ao refr&#227;o do Coro da Primavera para o dizer, 25 anos depois de termos partido daquele porto seguro.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Apesar de tudo, das ilus&#245;es, das desilus&#245;es e do que cada foi construindo, vale a pena falar desse tempo, enquanto pretexto e condi&#231;&#227;o para pensar o presente e os desafios com que este nos confronta.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Aguardo, por isso, os textos de todos aqueles e aquelas que quiserem partilhar comigo, neste blogue, os seus testemunhos sobre os anos vividos na Escola do Magist&#233;rio Prim&#225;rio do Porto. Enviem-mos, por favor, para o e-mail: </span><em><strong><span>trindade@fpce.up.pt</span></strong></em><span>.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ser&#225;, assim, a partir de 6 de fevereiro de 2027 que neste blogue, com as nossas hist&#243;rias, iremos comemorar os 50 anos da nossa entrada na EMPP.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Bichos da seda]]></title><description><![CDATA[Cr&#243;nica de uma escola na d&#233;cada de 80]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/bichos-da-seda-b83</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/bichos-da-seda-b83</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 28 Aug 2026 10:08:12 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/704dd47c-49d2-4138-8109-45041f29a8b3_560x348.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>A Lurdes &#233; que os arranjara. N&#227;o sab&#237;amos como ela os tinha conseguido. Anunciara na &#250;ltima reuni&#227;o que se estiv&#233;ssemos interessados em ter bichos-da-seda nas nossas salas, algu&#233;m lhos daria. H&#225; j&#225; h&#225; uns meses que trabalh&#225;vamos juntos. De estranhos pass&#225;ramos rapidamente a c&#250;mplices, fruto dos desafios do quotidiano que t&#237;nhamos come&#231;ado a partilhar por obra e gra&#231;a de um concurso t&#227;o cego quanto surdo. &#201;ramos, assim, herdeiros de uma escola mal afamada, onde as pessoas que nos recebiam eram aquelas que tinham sido a&#237; colocadas antes de n&#243;s. Do ano anterior permaneciam, somente, as duas auxiliares de a&#231;&#227;o educativa, o invent&#225;rio ratado e a sala incendiada que, logo na entrada, n&#227;o augurava nada de bom. As informa&#231;&#245;es escasseavam na justa propor&#231;&#227;o dos boatos que se amontoavam. Quem eram os outros que se sentavam &#224; volta daquela mesa ? De onde vinham?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O panorama n&#227;o era dos mais animadores. Um dia algu&#233;m perguntou se est&#225;vamos interessados em pegar aquele touro pelos cornos ou se prefer&#237;amos optar, antes, pela estrat&#233;gia silenciosa do atestado m&#233;dico an&#243;nimo e discreto. Entre a milit&#226;ncia de alguns, a resigna&#231;&#227;o de uns tantos e o aguenta-te &#224; bronca dos restantes decidimos fazer-nos &#224; vida e tentar a sorte. Foi assim que tudo come&#231;ou. Aprendemos a enfrentar, como nossos, alguns dos problemas dos outros. Come&#231;amos a construir pequenos projetos em comum. Os dias n&#227;o se tinham tornado mais f&#225;ceis, mas a C&#226;mara prometera reconstruir a sala e os olhares de soslaio dos habitantes do bairro foram-se tornando um pouco mais af&#225;veis. A chegada dos bichos-da-seda foi assim mais uma daquelas surpresas com que, por vezes, tent&#225;vamos cativar os nossos alunos. &#211; professor, o que &#233; que comem os bichos ? Folhas de amoreira. O Picas trouxera algumas, mas a bicharada, por qualquer raz&#227;o, n&#227;o as comera. Tinha acontecido o mesmo em todas as salas. Porqu&#234; ? Ningu&#233;m sabia responder. Procurou-se numa enciclop&#233;dia, inquiriu-se em tudo o que era s&#237;tio e as respostas eram sempre as mesmas. Folhas de amoreira. &#211; Lurdes, j&#225; perguntaste na Sociedade Protetora dos Animais ? E os bichinhos tantos dias sem comer, &#243; professora... O que &#233; que pod&#237;amos fazer ? A resposta acabou por aparecer. Por acaso. Surgiu num telefonema onde o drama dos bichos-da-seda foi falado. Onde &#233; que voc&#234;s v&#227;o buscar as folhas de amoreira ? Finalmente, algu&#233;m tinha feito a pergunta certa. A pergunta que levou o Mocho, o Pedras e o Cardinal a subir &#224;s amoreiras de Marechal Gomes da Costa e a transformar aquela manh&#227; primaveril num momento outonal, s&#250;bito e breve, com o ch&#227;o inundado por aquelas folhas preciosas que durante alguns dias confund&#237;ramos com a folhagem das amoras silvestres que t&#237;nhamos andado a desbastar num morro junto da escola. Os bichos-da-seda salvaram-se. Vimo-los construir os seus casulos. Esperamos pacientemente pelas borboletas. Houve quem fizesse observa&#231;&#245;es di&#225;rias e as registasse. Houve quem aproveitasse para lan&#231;ar projetos de pesquisa v&#225;rios sobre a vida animal. Houve quem nada fizesse, deixando os mi&#250;dos usufruir, conforme lhes aprouvesse, da companhia daqueles pequenos seres que lhes entraram, um dia, pela porta dentro. Houve tamb&#233;m quem nada fizesse por n&#227;o saber o que podia fazer ou at&#233; por n&#227;o o querer fazer. Aquela escola era, afinal, uma escola. N&#227;o era um para&#237;so, apesar de por l&#225; haver alguns anjos bardinas que um dia voaram em contraven&#231;&#227;o sobre as &#225;rvores sumptuosas de uma avenida da cidade, em nome de uma preocupa&#231;&#227;o inesperada com uns quantos bichos-da-seda. Rasteiros e feios.</span></p><p style="text-align: right;"><strong><span>Ariana Cosme</span></strong><em><span> e </span></em><strong><span>Rui Trindade</span></strong><span> (a </span><em><span>P&#225;gina da educa&#231;&#227;o</span></em><span>, n&#186; 123, Ano 12, Maio de 2003)</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Ó pai, conheces o António Torrado?]]></title><description><![CDATA[[Este texto foi escrito h&#225; muito tempo.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-pai-conheces-o-antonio-torrado</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-pai-conheces-o-antonio-torrado</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 22 Aug 2026 09:47:45 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/55a4f047-abb2-491c-9f12-8199dc5dc007_375x533.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong><span>[Este texto foi escrito h&#225; muito tempo. Se o recuperamos &#233; porque fala de um tempo em que, por n&#227;o haver educa&#231;&#227;o pr&#233;-escolar neste pa&#237;s para todas as crian&#231;as que, hoje, s&#227;o homens e mulheres na casa dos trinta anos, o pa&#237;s oferecia menos oportunidades do que oferece hoje &#224;queles que aqui nascem ou &#224;queles que tem de acolher. Recuperamos este texto quer porque a mem&#243;ria &#233; curta, quer porque o pessimismo militante &#233; uma arma contra a democracia]</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>&#211; Pai, conheces o Ant&#243;nio Torrado? Foi com esta pergunta ao jantar que o Jo&#227;o come&#231;ou por nos surpreender nesse dia. E como n&#227;o deve ter obtido uma resposta imediata, insistiu:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Conheces ?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Conhe&#231;o. E tu ?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Conhecemos hoje. A Ana Maria leu uma hist&#243;ria dele.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o nos lembramos do modo como a conversa prosseguiu. Sabemos apenas que ela se iniciou, porque, num pequeno jardim-de-inf&#226;ncia de Gondomar, uma educadora permitiu que algumas crian&#231;as, com quatro anos de idade, tivessem aprendido a conhecer um escritor atrav&#233;s da leitura de um dos seus livros. Not&#225;vel trabalho este, num pa&#237;s resignado ao peso dos muit&#237;ssimo por cento daqueles que n&#227;o foram capazes de evocar o nome de um &#250;nico escritor portugu&#234;s face &#224;s solicita&#231;&#245;es de uma sondagem encomendada por uma cadeia televisiva. Not&#225;vel trabalho tamb&#233;m, pelo exemplo que constitui para quem continua a n&#227;o entender que os textos s&#227;o apenas pretextos para nos encontrarmos, por vezes at&#233; para nos inquietarmos, com n&#243;s pr&#243;prios e com os outros, contribuindo a seu modo para aprendermos a assumir uma presen&#231;a curiosa e interessada face ao mundo em que vivemos. Not&#225;vel trabalho, finalmente, porque realizado num jardim-de-inf&#226;ncia p&#250;blico que, a exemplo de muitos outros jardins-de-inf&#226;ncia p&#250;blicos, consegue ir proporcionando respostas educativas de qualidade &#224; for&#231;a dos golpes de criatividade e do esp&#237;rito de miss&#227;o das educadoras que nele trabalham.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; por isso, por estas e por outras raz&#245;es, que n&#227;o podemos deixar de considerar o Jo&#227;o Guilherme como um menino privilegiado quando passa todos os dias o port&#227;o verde da escola.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Um privilegiado acidental, diga-se de passagem, que s&#243; o &#233; porque algu&#233;m desistiu, deixando uma vaga em aberto que foi por ele preenchida.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E se ele n&#227;o tivesse entrado ? A sua vida seria certamente mais pobre, apesar de todo o amor e do carinho da Fernanda, dos in&#250;meros brinquedos que possui ou da enorme disponibilidade que os av&#243;s t&#234;m para o aturar. Se n&#227;o fosse o jardim-de-inf&#226;ncia como &#233; que ele teria aprendido a alegria de ver todas as manh&#227;s o Bruno, o Rafael, a Ana Catarina e o Rog&#233;rio? Quem o espevitaria a explicar porque &#233; que no domingo s&#243; havia portistas no mundo? Quando &#233; que viveria a sua primeira experi&#234;ncia democr&#225;tica, ao definir com os colegas as regras a aplicar na sala? Quando &#233; que aprenderia a partilhar os jogos e os v&#237;deos que de vez em quando leva na mochila ? Quando &#233; que se interessaria pelo nome daquele bicho que no Jardim Zool&#243;gico da Maia mais parecia um porco, embora fosse um javali?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O Jo&#227;o &#233;, portanto, um privilegiado, ao contr&#225;rio de milhares de outras crian&#231;as que em Portugal ainda n&#227;o tiveram a oportunidade de viver num jardim-de-inf&#226;ncia experi&#234;ncias de vida t&#227;o significativas e desafiantes como aquelas que o nosso filho tem vindo a poder usufruir. Experi&#234;ncias estas que, por as considerarmos t&#227;o decisivas, nos obrigam a pensar at&#233; que ponto um modelo de interven&#231;&#227;o educativa pr&#243;ximo daquele que temos vindo a abordar, n&#227;o poderia constituir uma fonte de inspira&#231;&#227;o pedag&#243;gica para os contextos educativos dos n&#237;veis subsequentes. Possivelmente, evitar-se-ia trucidar os Lus&#237;adas e a aprendizagem de coisas t&#227;o patetas como aquelas que um de n&#243;s encontrou num livro de inicia&#231;&#227;o &#224; leitura, actualmente &#224; venda no mercado, que se permite prop&#244;r frases t&#227;o inanarr&#225;veis como estas que se citam apenas para amostra: &#8216;O le&#227;o Leote comeu a tulipa&#8217;, &#8216;O Jaime beija a jib&#243;ia&#8217;. Possivelmente, os mi&#250;dos passariam a conhecer o euro e a preparar-se para o fim do escudo, sem se esperar pela aprova&#231;&#227;o de programas que o exigissem ou pela edi&#231;&#227;o de manuais escolares que o propusessem. Provavelmente a educa&#231;&#227;o escolar adquiriria um outro sentido e talvez fosse poss&#237;vel ter esta conversa com a nossa filha mais velha que se encontra a frequentar o 9&#186; ano:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Gostaste do texto que escrevi sobre Timor ? - perguntar-nos-ia a Tatiana.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- &#201; para a &#193;rea-Escola ? - inquiriria ent&#227;o um de n&#243;s.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- N&#227;o, &#233; para discutir na aula de Hist&#243;ria.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sobre a aprendizagem de uma língua estrangeira]]></title><description><![CDATA[&#8220;As aulas de l&#237;ngua, atualmente, s&#227;o est&#250;pidas&#8221; - quem afirma isto &#233; R.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/sobre-a-aprendizagem-de-uma-lingua</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/sobre-a-aprendizagem-de-uma-lingua</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 14 Aug 2026 10:07:32 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/597db5fc-0570-4b46-976c-77f7add55664_523x382.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>&#8220;As aulas de l&#237;ngua, atualmente, s&#227;o est&#250;pidas&#8221; - quem afirma isto &#233; R. Sckank, um especialista americano na &#225;rea da aprendizagem, numa entrevista que concedeu a Ricardo Felner, publicado na revista &#171;S&#225;bado&#187; em 15 de abril de 2020.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Schank conta que a sua filha frequentou uma escola francesa durante um ano, em Paris, quando a sua fam&#237;lia esteve a viver em Fran&#231;a. Foi nessa escola que a menina, cuja l&#237;ngua materna era o ingl&#234;s, acabou por ser classificada com um B na disciplina hom&#243;nima, enquanto muitos dos seus colegas franceses obtiveram o desejado A.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Perante uma tal situa&#231;&#227;o, Schank sentiu-se na obriga&#231;&#227;o de perguntar &#224; filha: &#8220;Porque &#233; que n&#227;o conseguiste ter um A a Ingl&#234;s?&#8221;</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Porque n&#227;o sei gram&#225;tica&#8221;.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Já lhe dei uns abanões]]></title><description><![CDATA[A miudagem come&#231;ava a sair.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/ja-lhe-dei-uns-abanoes</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/ja-lhe-dei-uns-abanoes</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 07 Aug 2026 12:52:57 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e79f7ecf-64f6-45a6-add1-a1bc7c817456_392x242.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>A miudagem come&#231;ava a sair. Eu arrumava as minhas coisas.</span></p><p><span>- Posso entrar, Sr. Professor?</span></p><p><span>Olhei, e num canto da porta aberta, vi um rosto desconhecido.</span></p><p><span>- Sou o pai do Manel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O Manel era um daqueles putos traquinas que nos m&#243;i a paci&#234;ncia, mesmo sem querer. O que nele mais me incomodava era o modo violento como se relacionava com os colegas, sobretudo nos intervalos. J&#225; t&#237;nhamos tido v&#225;rias conversas sobre o assunto na Assembleia de Turma, mas o rapaz, mesmo que prometesse este mundo e o outro, era de pavio curto. Foi na sequ&#234;ncia de uma dessas crises que a Laura, prima e vizinha, tinha ido contar a cena &#224; m&#227;e. Que eu me tinha zangado, que ele andava &#224; porrada por tudo e por nada, que toda a gente fazia queixa dele.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No dia seguinte, logo de manh&#227;zinha, tinha a progenitora &#224; minha espera.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Sr. Professor, estou aqui para lhe dizer que esse meu filho s&#243; l&#225; vai &#224; porrada. N&#227;o lhas poupe que ele &#233; manhoso.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O mo&#231;o tinha os seus defeitos. Atirar a pedra e esconder a m&#227;o n&#227;o era um deles, mas n&#227;o valia a pena continuar a conversa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Passei a ter uma presen&#231;a mais ass&#237;dua no recreio. Passei a arbitrar os jogos de futebol e a coisa melhorou, sobretudo porque, mais do que o apito, o meu calma tonitruante l&#225; conseguia ter um efeito suficientemente dissuasor.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Passei, por isso, a ser o &#250;nico professor de plant&#227;o no recreio, o que, confesso, me come&#231;ou a cansar. Em nome da pedagogia, nem lanchava, nem conversava. O que fazer?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Acabei por nomear tr&#234;s &#225;rbitros, para poder tr&#234;s intervalos descansado. Um deles foi o Manel. Arranjei cart&#245;es para cada um deles e discutimos como &#233; que eles deviam ser usados. Se tivessem de usar um cart&#227;o vermelho tinham de me ir chamar, o pequeno truque que inventei para inibir a amostragem do dito.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O meu espanto foi quando no jornal de Parede, na coluna do &#171;Gosto&#187;, apareceu escrito que o Manel era o melhor &#225;rbitro da sala. Melhor do que eu pr&#243;prio, explicava o autor da frase, porque comigo todos se portavam bem por ser eu o professor. Com ele, era diferente, portavam-se bem porque ele era justo. Dos tr&#234;s era o que menos gostava de mostrar cart&#245;es amarelos e quando mostrava explicava porque o tinha feito,</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi na sequ&#234;ncia deste acontecimento que, transbordando de entusiasmo ma&#231;arico, lhe disse que gostava de falar com o pai dele.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Ele que me diga quando &#233; que pode vir falar comigo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E o pai, como j&#225; o anunciei, l&#225; veio, come&#231;ando a conversa por me perguntar o que &#233; que ele tinha deito desta vez. Contei-lhe a descoberta que queria partilhar com ele.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Ainda bem, Sr. Professor. Quando lhe disse que me queria ver, j&#225; lhe dei uns aban&#245;es.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sorriu e concluiu:</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- N&#227;o se preocupe, com ele s&#243; se perdem as que caem fora.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Moral da hist&#243;ria:</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>A partir desse dia, quando queria falar com algu&#233;m da fam&#237;lia dos meus alunos passei-o a fazer por escrito, explicando porque precis&#225;vamos de reunir.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Unicórnios]]></title><description><![CDATA[Ainda o 47&#186; Congresso do Movimento da Escola Moderna (MEM)]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/unicornios</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/unicornios</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 31 Jul 2026 10:28:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/49274ae7-859f-435f-8e4f-fbfc06281d7e_738x369.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Os unic&#243;rnios n&#227;o existem, mas eu gosto de os desenhar&#8221;. Este foi o textos, escrito por um aluno no 1&#186; ano de escolaridade, que nos foi apresentado pela Lurdes Castro e a Rita Pacheco, no decurso da comunica&#231;&#227;o que partilharam sobre escrita e leitura, no 47&#186; Congresso do MEM. Uma comunica&#231;&#227;o que &#233; o corol&#225;rio do trabalho que aquelas duas professoras do 1&#186; Ciclo do Ensino B&#225;sico realizaram nas respetivas turmas, envolvendo-se num processo que conduziu a horas de partilha c&#250;mplice e reflex&#227;o exigente que foram acontecendo, para al&#233;m da componente letiva e n&#227;o-letiva que ambas deveriam cumprir.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No ano letivo que agora finda, tanto a Rita como a Lurdes, por trabalharem com crian&#231;as do 1&#186; ano de escolaridade, decidiram envolver-se num projeto de alfabetiza&#231;&#227;o subordinado aos pressupostos de um modelo interativo da apropria&#231;&#227;o da linguagem escrita. Um modelo que se carateriza por recusar as pr&#225;ticas mecanicistas e artificiais de ensino da leitura e da escrita, opondo, em alternativa, a utiliza&#231;&#227;o da escrita como instrumento de comunica&#231;&#227;o t&#227;o aut&#234;ntica quanto plaus&#237;vel e, concomitantemente, como condi&#231;&#227;o da aprendizagem do princ&#237;pio alfab&#233;tico, o qual pressup&#245;e o desenvolvimento, entre outras coisas, da consci&#234;ncia fonol&#243;gica e da consci&#234;ncia fon&#233;mica, da ortografia e das regras da sintaxe. Dito de um outro modo, enquanto para as pr&#225;ticas tradicionais de ensino, o desenvolvimento da literacia, a ser considerada, &#233; um objetivo posterior ao do encerramento da fase da alfabetiza&#231;&#227;o, para o modelo interativo, que a investigadora brasileira Silvia Colello (2010) designa como modelo dial&#243;gico discursivo, a literacia &#233; uma preocupa&#231;&#227;o transversal e constante, desde o momento em que os come&#231;am a escrever as novidades que lhes s&#227;o relatadas, oralmente, pelos seus alunos. Inicia-se assim um percurso em que as crian&#231;as come&#231;am a compreender que a escrita &#233; uma representa&#231;&#227;o da fala e, igualmente, a compreender que atrav&#233;s da escrita descobrem outro modo de comunicar, o qual, ao longo das atividades de escrita e de leitura que ir&#227;o realizar, lhes permitir&#225; aceder a outros modos de pensar e de se relacionar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; neste contexto que surgiu o texto dos unic&#243;rnios com que abro as portas deste texto. Um texto que, para al&#233;m de ser esteticamente estimulante, nos mostra como a Escola para se afirmar como um espa&#231;o de cultura e humanidade n&#227;o pode encerrar os alunos em momentos t&#227;o insensatos e cretinos como s&#227;o aqueles em que &#171;O xerife Xuxu beija a gib&#243;ia&#187; ou em que &#171;O pap&#225; papa a tia&#187;, ou vice-versa, e tudo o que mais houver para papar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Conhecemos as raz&#245;es porque isto acontece, as quais, conv&#233;m recordar, nada t&#234;m a ver com as raz&#245;es hist&#243;rico-epistemol&#243;gicas que justificaram que a escrita se universalizasse nas nossas sociedades. &#201; por via da cren&#231;a que as crian&#231;as n&#227;o s&#227;o capazes, a cren&#231;a que os transforma em alunos a serem resgatados da sua ignor&#226;ncia e incompet&#234;ncia pela a&#231;&#227;o educativa estruturada dos seus professores, que se justifica que tudo comece num </span><em><span>pop&#243;</span></em><span> ou numa </span><em><span>pua</span></em><span>.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nos &#250;ltimos tempos, os argumentos, para continuar a fazer o mesmo, s&#227;o mais sofisticados. Hoje, a raz&#227;o mais utilizada, que um certo cognitivismo tem vindo a difundir, &#233; a import&#226;ncia estrat&#233;gica do desenvolvimento da consci&#234;ncia fonol&#243;gica, em fun&#231;&#227;o do qual se prop&#245;em programas de treino que assentam em dois princ&#237;pios, tidos por pedag&#243;gicos: o primeiro &#233; que se deve evoluir do mais simples para o mais complexo e o segundo que valoriza a ludicidade e o jogo como forma de encontrar um sentido para atividades que n&#227;o t&#234;m de ter qualquer sentido comunicativo ou cultural. &#201; por isso que Ana C. Silva prop&#245;e, para que ocorra o desenvolvimento da consci&#234;ncia fonol&#243;gica, enquanto etapa pr&#233;via da aprendizagem da leitura: (i) jogos de rimas; (ii) jogos de segmenta&#231;&#227;o sil&#225;bica; (iii) jogos de identifica&#231;&#227;o de palavras que partilham a s&#237;laba incial; (iv) jogos de manipula&#231;&#227;o; (v) jogos de s&#237;ntese fon&#233;mica; (vi) jogos de segmenta&#231;&#227;o fon&#233;mica e (vii) jogos de manipula&#231;&#227;o fon&#233;mica (idem). Os textos vir&#227;o depois.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao contr&#225;rio, para a Lurdes e para a Rita, os textos est&#227;o sempre presentes, mesmo antes das crian&#231;as saberem ler ou escrever, o que n&#227;o significa, contudo, que isso signifique que se desvalorize a import&#226;ncia da consci&#234;ncia fonol&#243;gica. S&#243; que, neste caso, o seu desenvolvimento est&#225; presente n&#227;o como o objeto de uma atividade dissociada da leitura e da escrita aut&#234;ntica e culturalmente significativa de textos produzidos pelas crian&#231;as, mas como resultado do processo de reflex&#227;o a que estes s&#227;o submetidos quando os alunos assinalam, nas palavras, as s&#237;labas que as comp&#245;em de forma invariante, quando descobrem as palavras escondidas (se</span><strong><span>mana</span></strong><span>), quando constroem, na sequ&#234;ncia de tudo isto, quadros sil&#225;bicos que passar&#227;o a usar, escrevendo ou recriando palavras.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Os unic&#243;rnios n&#227;o existem, mas eu gosto de os desenhar&#8221; &#233; mais do que um texto empolgante. &#201; o resultado de um trabalho intencionalmente pensado e realizado para que os meninos aprendam-a-escrever-e-a-ler, atrav&#233;s de pr&#225;ticas de comunica&#231;&#227;o dial&#243;gicas e funcionais, e n&#227;o por via do treino mec&#226;nico que, em nome da efici&#234;ncia, adia a intelig&#234;ncia, a comunica&#231;&#227;o, a cultura e o humano. &#201; que, como nos mostraram a Lurdes e a Rita, escreve-se e l&#234;-se em fun&#231;&#227;o da necessidade de comunicarmos e de nos constituirmos como sujeitos. N&#243;s os adultos e elas, as crian&#231;as, mesmo que no 1&#186; ano de escolaridade.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Colello, Silvia M. Gasparian (2010). Alfabetiza&#231;&#227;o e letramento: o que ser&#225; que ser&#225;? In Leite, S&#233;rgio; Colello, Silvia; Arantes, Val&#233;ria (Aut.), </span><em><span>Alfabetiza&#231;&#227;o e letramento: Pontos e contrapontos</span></em><span> (75 &#8211; 127). S. Paulo: Summus Editorial.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Silva, Ana Cristina (2021). Consci&#234;ncia fonol&#243;gica e conhecimento das letra. In Alves, Rui; Leite, Isabel (Ed.). </span><em><span>Alfabetiza&#231;&#227;o baseada na Ci&#234;ncia: Manual do Curso ABC (</span></em><span>219 - 243</span><em><span>). </span></em><span>Bras&#237;lia: CAPES.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Utopias]]></title><description><![CDATA[Sobre o 47&#186; Congresso do Movimento da Escola Moderna (MEM)]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/utopias</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/utopias</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 25 Jul 2026 08:48:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/36c55853-0cf9-49d3-8cff-dc10995147e6_565x308.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Sei que envelhe&#231;o &#224; medida que vou perdendo as ilus&#245;es, ainda que saiba que, sem elas, a minha vida teria sido mais pobre e menos significativa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o teria sido professor cooperante na Guin&#233;-Bissau. N&#227;o teria adiado o meu retorno &#224; escola para trabalhar no Projeto de Luta contra a Pobreza, na Zona Hist&#243;rica do Porto. N&#227;o me teria envolvido em projetos que, no fim, nos deixaram a todos com uma m&#227;o cheia de nada e outra com coisa nenhuma.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Valeu a pena?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o fa&#231;o ideia. A &#250;nica coisa que estou certo e seguro &#233; que sem ilus&#245;es n&#227;o teria vivido o que vivi e, por isso, n&#227;o seria a pessoa que sou hoje. Sem ilus&#245;es n&#227;o teria estado envolvido noutras iniciativas que, ao contr&#225;rio daquelas que mencionei atr&#225;s, foram gratificantes e alimentaram a minha esperan&#231;a sobre outras possibilidades de sermos professores e de contribuir para pensar a Escola como um espa&#231;o culturalmente significativo e empoderador em termos pessoais e sociais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No balan&#231;o de tudo isto, algumas vezes sinto-me ressacado. 46 anos depois de ter iniciado a minha atividade como professor do Ensino Prim&#225;rio, no dia 18 de janeiro de 1980, numa Telescola, em Sande - Marco de Canaveses, olho em retrospetiva. Estou &#224; porta da aposenta&#231;&#227;o e percebo quer que as utopias levam tempo a ser alcan&#231;adas, quer que foi necess&#225;rio ter aprendido a distinguir as utopias das quimeras ou, mais urgente do que isso, a distinguir as utopias das distopias.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Neste momento, com as utopias que me restam, vou ter de me habituar &#224; ideia que n&#227;o verei a sua concretiza&#231;&#227;o, isto se algum dia isso vier a acontecer. Mesmo assim n&#227;o me possa queixar. Assisti ao fim de uma longa ditadura, ao fim da guerra colonial, &#224; n&#227;o aceita&#231;&#227;o do analfabetismo massivo e, entre outras coisas, &#224; n&#227;o aceita&#231;&#227;o silenciosa do machismo e da homofobia, apesar de saber o longo caminho que ainda nos resta percorrer para que uma tal recusa possa pertencer, definitivamente, &#224;s nossas mem&#243;rias mais dolorosas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sem utopias ou n&#227;o haver&#225; futuro (n&#227;o nos esque&#231;amos das altera&#231;&#245;es clim&#225;ticas) ou o futuro ser&#225; algo que n&#227;o desejamos que seja vivido pelos nossos filhos e netos. &#201; em nome de tudo isto que defendo veementemente que as utopias n&#227;o podem ser enterradas. S&#243; que aceitar isso, pode implicar o risco de ter de viver com uma ressaca de vez em quando, tendo de enfrentar desilus&#245;es e resistir &#224; vontade de desistir, persistindo n&#227;o como um cavaleiro andante, mas no &#226;mbito de coletivos, maiores ou menores, que tomam decis&#245;es, avaliam o que fazem ou refletem sobre os desafios e as respostas que decidiram enfrentar, de forma sustentada e consequente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para mim, que estive no &#250;ltimo congresso do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM), o congresso em que esta associa&#231;&#227;o de professores e outros profissionais de educa&#231;&#227;o comemorou os seus 60 anos de exist&#234;ncia, esse &#233; um dos maiores legados do movimento. A concretiza&#231;&#227;o do projeto de uma Escola Democr&#225;tica, porque culturalmente significativa e inclusiva, &#233; uma possibilidade porque a clarifica&#231;&#227;o dos pressupostos que alicer&#231;am um tal projeto, as exig&#234;ncias do mesmo e as solu&#231;&#245;es que se v&#227;o implementando est&#225; dependente da coopera&#231;&#227;o que se vai estabelecendo entre os membros do MEM.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Diria que o modelo pedag&#243;gico deste movimento, bem como as inciativas que as suas associadas e associados v&#227;o desenvolvendo para o implementar s&#227;o a linha do horizonte que permite definir os termos de uma utopia educativa que s&#243; o &#233; porque a dimens&#227;o cultural do trabalho educativo nas escolas continua a ser pobre quando se recusa estabelecer um encontro entre a intelig&#234;ncia e os saberes dos alunos e o conhecimento culturalmente validado, enquanto ponto de partida daquele trabalho educativo. Em salas de aula onde continua a prevalecer, apesar das novas roupagens, o modo de ensino simult&#226;neo, a emula&#231;&#227;o geradora da competi&#231;&#227;o entre alunos ou uma abordagem seletiva do processo de avalia&#231;&#227;o, o trabalho daquelas e daqueles que se encontram vinculados ao MEM evidencia os azimutes da utopia curricular e pedag&#243;gica que, na minha opini&#227;o, temos de continuar a perseguir.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E para se compreender melhor o que quero dizer, limito-me a partilhar, apenas, um momento &#250;nico a que pude assistir numa excelente comunica&#231;&#227;o produzida por uma professora do 1&#186; ciclo, B&#225;rbara Giraldes, que no fim da mesma apresenta um pequeno v&#237;deo. Neste, as crian&#231;as do seu 1&#186; ano explicam &#224;s fam&#237;lias como aprenderam a escrever e a ler. Passo a passo, descreveram as etapas que foram vivendo, recorrendo aos textos que redigiram e ao trabalho que realizaram sobre estes textos e a partir destes textos, identificando o que foram aprendendo e realizando ao longo de todo este processo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; em momentos assim que a minha esperan&#231;a renasce e que, apesar das ressacas, bendigo as utopias.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Centros de Formação de Associação de Escolas (CFAE): O que fazer?]]></title><description><![CDATA[Com a den&#250;ncia dos estrangulamentos da a&#231;&#227;o dos CFAE, o tema dos dois &#250;ltimos textos publicados neste blogue, pretendi evidenciar, sobretudo, que estas entidades podiam, e podem, assumir um papel mais relevante no sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua em Portugal e, deste modo, protagonizar um papel mais decisivo no processo de dignifica&#231;&#227;o e valoriza&#231;&#227;o tanto da Escola P&#250;blica como da profiss&#227;o docente.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/centros-de-formacao-de-associacao</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/centros-de-formacao-de-associacao</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 17 Jul 2026 09:48:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4a24110e-3400-4330-90d5-37fe27c0f89d_213x295.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Com a den&#250;ncia dos estrangulamentos da a&#231;&#227;o dos CFAE, o tema dos dois &#250;ltimos textos publicados neste blogue, pretendi evidenciar, sobretudo, que estas entidades podiam, e podem, assumir um papel mais relevante no sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua em Portugal e, deste modo, protagonizar um papel mais decisivo no processo de dignifica&#231;&#227;o e valoriza&#231;&#227;o tanto da Escola P&#250;blica como da profiss&#227;o docente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Se &#233; necess&#225;rio reconhecer que a possibilidade de associar a forma&#231;&#227;o cont&#237;nua &#224; concretiza&#231;&#227;o dos projetos educativos e dos planos de atividades das escola &#233; um desafio a longo prazo e dif&#237;cil de concretizar, mesmo que se desenvolvam pol&#237;ticas educativas que o estimulem, &#233; necess&#225;rio reconhecer, no entanto, que a participa&#231;&#227;o dos CFAE como parceiros do MECI na defini&#231;&#227;o dos programas de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua &#233; n&#227;o s&#243; uma op&#231;&#227;o poss&#237;vel como uma op&#231;&#227;o desej&#225;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o se pode negar ao Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o a possibilidade de intervir, atrav&#233;s da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, no sistema educativo portugu&#234;s, exige-se, no entanto, que essa interven&#231;&#227;o se concretize, por um lado, de forma t&#227;o criteriosa, quanto sustentada e, por outro, que ocorra atrav&#233;s do envolvimento dos CFAE no &#226;mbito do processo de concetualiza&#231;&#227;o dos programas, de forma que estas entidades formadoras deixem de ficar circunscritas ao papel de executores dos mesmos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ser&#225; que uma tal op&#231;&#227;o inviabilizaria a concretiza&#231;&#227;o de programas como, por exemplo, o da capacita&#231;&#227;o digital de docentes? N&#227;o necessariamente, ainda que a estrat&#233;gia adotada tivesse de assumir outros contornos. N&#227;o pretendo p&#244;r em causa a interven&#231;&#227;o de especialistas ou desvalorizar a interven&#231;&#227;o que a extinta Dire&#231;&#227;o-Geral da Educa&#231;&#227;o (DGE) assumiu no &#226;mbito desse processo, o que pergunto &#233; porque &#233; que esta entidade, em vez de submeter diretamente a a&#231;&#227;o ao CCPFC, n&#227;o deixou que essa tarefa fosse assumida pelos CFAE? Porque &#233; que n&#227;o se limitou a redigir um documento onde fundamentaria a import&#226;ncia e as raz&#245;es que a conduziram a assumir uma tal iniciativa, onde explicitaria os objetivos que orientavam a mesma e onde faria recomenda&#231;&#245;es metodol&#243;gicas que pudessem servir de refer&#234;ncia &#224;s entidades formadoras, para que estas produzissem as suas propostas de forma&#231;&#227;o? Porque &#233; que a DGE n&#227;o assumiu o papel de consultora e, sobretudo, o papel de avaliadora do impacto da a&#231;&#227;o que, na verdade, n&#227;o foi da responsabilidade de ningu&#233;m? Em vez de uma interven&#231;&#227;o assente numa parceria a desenvolver com os CFAE, a DGE optou por centralizar a conce&#231;&#227;o do programa de forma&#231;&#227;o e atribuiu aos centros de forma&#231;&#227;o a responsabilidade por o executar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Confrontando as duas op&#231;&#245;es em presen&#231;a e avaliando os riscos e vantagens de cada uma delas, diria que a op&#231;&#227;o centralista permite, na verdade, uma resposta massiva e mais expedita ao n&#237;vel da concretiza&#231;&#227;o dos programas de forma&#231;&#227;o. Em contrapartida, confronta os CFAE com dificuldades s&#233;rias ao n&#237;vel do recrutamento dos formadores, para al&#233;m de n&#227;o poder considerar, tanto quanto seria necess&#225;rio, as especificidades dos formandos e dos contextos de forma&#231;&#227;o. Se &#233; verdade que a sua efici&#234;ncia depende do modo como exerce a tutela sobre os CFAE, pode considerar-se que esta &#233;, igualmente, a sua maior vulnerabilidade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A outra estrat&#233;gia formativa, a de atribuir aos CFAE um papel na concetualiza&#231;&#227;o das a&#231;&#245;es, tendo os seus riscos, n&#227;o deixa, na verdade, de possibilitar o desenvolvimento de iniciativas em larga escala, permitindo, para al&#233;m disso, subverter a l&#243;gica homogeneizadora das a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o, decorrente do facto destas serem da responsabilidade exclusiva da Administra&#231;&#227;o Central. Ainda que o n&#250;mero de a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o e de formandos possa diminuir, uma tal estrat&#233;gia pode potenciar, no entanto, o desenvolvimento de rela&#231;&#245;es mais significativas entre as a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o, os contextos de trabalho e os docentes, potenciando-se, deste modo, o impacto do programa de forma&#231;&#227;o. A gest&#227;o dos formadores passa a assumir, igualmente, outros contornos. &#201; que na op&#231;&#227;o massiva de forma&#231;&#227;o, esta vari&#225;vel tende a ser menorizada em fun&#231;&#227;o da necessidade de realizar as a&#231;&#245;es, tendendo as entidades formadoras n&#227;o a procurar os formadores adequados, mas a tentar encontrar os formadores dispon&#237;veis.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Se no caso do programa de Capacita&#231;&#227;o Digital n&#227;o houve problema de maior em encontrar formadores acreditados (o que n&#227;o significa que tenham sido os formadores desejados), esta problem&#225;tica, noutras situa&#231;&#245;es, pode adquirir contornos dram&#225;ticos, como foi o caso, por exemplo, das 30 a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o concebidas e disseminadas pela DGE, relacionadas com a atualiza&#231;&#227;o e o aprofundamento cient&#237;fico-did&#225;tico quer das Orienta&#231;&#245;es Curriculares da Educa&#231;&#227;o Pr&#233;-Escolar quer dos programas das disciplinas (com exce&#231;&#227;o da Matem&#225;tica) que integram os planos de estudo em vigor no sistema educativo portugu&#234;s, desde o Ensino B&#225;sico ao Ensino Secund&#225;rio.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Neste &#226;mbito, o recurso &#224; forma&#231;&#227;o em cascata &#233; uma &#250;ltima problem&#225;tica que &#233; necess&#225;rio abordar, enquanto expediente utilizado pelos minist&#233;rios da educa&#231;&#227;o para massificar as iniciativas formadoras. Sendo uma possibilidade, &#233; necess&#225;rio, contudo, refletir sobre os riscos de uma tal op&#231;&#227;o, sobretudo quando sabemos que h&#225; uma dist&#226;ncia, algumas vezes, incomensur&#225;vel em termos da qualidade da forma&#231;&#227;o, entre o momento da forma&#231;&#227;o de formadores e o momento posterior em que estes passam a trabalhar com os respetivos formandos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nos &#250;ltimos tempos, o exemplo maior dos efeitos nefastos desta op&#231;&#227;o teve a ver com o projeto MAIA que foi amplamente penalizada pelos efeitos da forma&#231;&#227;o em cascata. Uma op&#231;&#227;o que, neste caso, se justificou pela necessidade de apressar a transforma&#231;&#227;o das pr&#225;ticas de avalia&#231;&#227;o pedag&#243;gica das aprendizagens dos professores portugueses, confundindo-se urg&#234;ncia com pressa. Apesar da qualidade e da pertin&#234;ncia daquele projeto, o mesmo acabou por gerar veementes rea&#231;&#245;es de oposi&#231;&#227;o que se explicam quer com a pr&#243;pria amplitude dos desafios curriculares e pedag&#243;gicos em presen&#231;a, quer com a ambi&#231;&#227;o desmedida de uma iniciativa que deveria ter sido desenvolvida como um projeto-piloto circunscrito e n&#227;o como um projeto com a amplitude que o mesmo, sabemo-lo hoje, n&#227;o poderia ter.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em conclus&#227;o, na forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores, &#233; a transforma&#231;&#227;o da rela&#231;&#227;o entre o Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o e os CFAE que, neste momento, deve constituir a principal preocupa&#231;&#227;o dos decisores pol&#237;ticos e dos diretores daquelas entidades. &#201; que as vantagens em transitar de uma l&#243;gica da tutela para uma l&#243;gica de parceria s&#227;o in&#250;meras, seja do ponto de vista do impacto das a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, seja do ponto de vista do empoderamento daqueles CFAE, os quais, importa reconhecer, exprimem uma das dimens&#245;es mais saud&#225;veis e promissoras do sistema educativo portugu&#234;s.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os Centros de Formação da Associação de Escolas (CFAE) e as suas zonas de estrangulamento (II)]]></title><description><![CDATA[No &#250;ltimo texto publicado neste blogue, aleguei que uma primeira zona de estrangulamento do sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua dizia respeito ao modo como a estrat&#233;gia de financiamento dos CFAE constitu&#237;a um instrumento utilizado pelos governos para transformar estas entidades em executores dos programas de forma&#231;&#227;o concebidos pela Administra&#231;&#227;o Central.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/os-centros-de-formacao-da-associacao-9b3</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/os-centros-de-formacao-da-associacao-9b3</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 10 Jul 2026 21:23:37 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e37a5460-d0b9-4126-93e9-1933b0d31cb1_3060x4080.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>No &#250;ltimo texto publicado neste blogue, aleguei que uma primeira zona de estrangulamento do sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua dizia respeito ao modo como a estrat&#233;gia de financiamento dos CFAE constitu&#237;a um instrumento utilizado pelos governos para transformar estas entidades em executores dos programas de forma&#231;&#227;o concebidos pela Administra&#231;&#227;o Central. Desde 1992, quando se come&#231;aram a formar os CFAE, esta &#233;, ali&#225;s, uma situa&#231;&#227;o que foi denunciada por todos aqueles que, nessa &#233;poca, realizaram estudos sobre essa tem&#225;tica (Can&#225;rio, 1994; Correia, Caramelo &amp; Vaz, 1997; Barroso &amp; Can&#225;rio, 1999; Silva, 2001).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tal como referi, tamb&#233;m nesse texto, nem os governos do PS, entre 2016 e 2014, alteraram essa estrat&#233;gia, mesmo que tenham sido respons&#225;veis por um dos projetos de pol&#237;tica educativa mais ambiciosos, consequentes e relevantes, relacionado com a autonomia das escolas para, de forma aut&#243;noma, tomarem decis&#245;es curriculares e, neste &#226;mbito, desenvolverem iniciativas educativas singulares. Por isso &#233; que considerei que est&#225;vamos perante uma contradi&#231;&#227;o e um paradoxo. Se as escolas passaram a ter uma maior margem de manobra para tomar decis&#245;es, ent&#227;o porque &#233; que o mesmo princ&#237;pio n&#227;o se aplicou aos CFAE, no dom&#237;nio da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tentando compreender o que estava em jogo, perguntei o que poderia explicar a atitude da j&#225; extinta DGE face aos centros de forma&#231;&#227;o. A necessidade de acelerar, por via da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, a transforma&#231;&#227;o pela qual o Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o ansiava? A desconfian&#231;a face &#224; capacidade dos CFAE assumirem um papel central no processo? A tentativa de condicionar o impacto da l&#243;gica de consumo que poderia afetar as a&#231;&#245;es concebidas por estas entidades, por via da press&#227;o a que alegadamente estes poderiam estar sujeitos para ajustar a sua oferta formativa &#224; progress&#227;o dos docentes na carreira?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>As raz&#245;es podem ser diversas para explicar o peso que a DGE foi assumindo na configura&#231;&#227;o de a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua que foram sendo concretizadas, em larga medida, pelos CFAE. Deixo para depois a discuss&#227;o sobre o que se poderia ter feito, de forma a discutir n&#227;o tanto a urg&#234;ncia do Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o ou a sua eventual desconfian&#231;a face aos centros de forma&#231;&#227;o, mas o do v&#237;nculo existente entre forma&#231;&#227;o cont&#237;nua e progress&#227;o na carreira, porque, na minha perspetiva, esta &#233; a segunda zona de estrangulamento dos CFAE. Trata-se do sintoma de um problema que &#233; necess&#225;rio enfrentar: o da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua se encontrar dissociada, em geral, dos projetos educativos das escolas, dos seus planos de atividades ou dos seus planos de melhoria.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Enquanto isso acontecer, n&#227;o ser&#225; a mudan&#231;a de legisla&#231;&#227;o, no sentido de alterar aquele v&#237;nculo, que ir&#225; produzir qualquer efeito. O que &#233; necess&#225;rio reconhecer &#233; que o desafio que se tem pela frente &#233; enorme e arriscado porque implica, na verdade, a transforma&#231;&#227;o da cultura organizacional das escolas, transitando-se de uma cultura organizacional taylorista e burocr&#225;tica para um outro tipo de cultura organizacional que permita e estimule a participa&#231;&#227;o dos professores nas decis&#245;es que t&#234;m a ver com as iniciativas educativas que lhes dizem respeito.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sem esta transforma&#231;&#227;o, a forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores continuar&#225; a depender da progress&#227;o da carreira, do voluntarismo de alguns professores ou da implementa&#231;&#227;o de projetos pontuais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Do ponto de vista dos CFAE, criam-se as condi&#231;&#245;es para que estas entidades possam ser o que ainda n&#227;o s&#227;o: inst&#226;ncias respons&#225;veis pela dinamiza&#231;&#227;o local de forma&#231;&#227;o e desenvolvimento profissional dos professores relacionados com um dado territ&#243;rio, a partir das sinergias que podem estabelecer com as escolas associadas. Criam-se as condi&#231;&#245;es para que a rela&#231;&#227;o entre os CFAE e a Administra&#231;&#227;o Central se liberte da atual l&#243;gica da tutela para se desenvolver como uma l&#243;gica de partenariado. Criam-se as condi&#231;&#245;es, finalmente, para que a forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores passe a estar vinculada &#224; avalia&#231;&#227;o de desempenho docente e n&#227;o diretamente &#224; progress&#227;o na carreira.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que sei &#233; que os CFAE t&#234;m uma estrutura e um potencial que lhes permite enfrentar este desafio, do qual depende tanto a credibiliza&#231;&#227;o e dignifica&#231;&#227;o da Escola P&#250;blica, em Portugal, como da pr&#243;pria profiss&#227;o docente.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Can&#225;rio, Rui (1994). Centros de Forma&#231;&#227;o de Associa&#231;&#245;es de Escolas: Que futuro? In Amiguinho, Ab&#237;lio; &amp; Can&#225;rio, Rui (Org.), </span><em><span>Escolas e mudan&#231;a: O papel dos Centros de Forma&#231;&#227;o</span></em><span>. Lisboa: Educa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Correia, Jos&#233; Alberto; Caramelo, Jo&#227;o; Vaz, Henrique (1997). </span><em><span>Forma&#231;&#227;o de Professores: Estudo Tem&#225;tico.</span></em><span> Porto: FPCEUP (texto policopiado).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Barroso, Jo&#227;o; &amp; Can&#225;rio, Rui (1999). </span><em><span>Centros de Forma&#231;&#227;o das Associa&#231;&#245;es de Escolas: Das experi&#234;ncias &#224;s realidades</span></em><span>. Lisboa: IIE.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Silva, Manuel Ant&#243;nio da (2001). </span><em><span>Os diretores dos Centros de Forma&#231;&#227;o das Associa&#231;&#245;es de Escolas.</span></em><span> Lisboa: IIE.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Contestação e democracia]]></title><description><![CDATA[Falemos de contesta&#231;&#227;o.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/contestacao-e-democracia</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/contestacao-e-democracia</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 08 Jul 2026 19:45:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a50e50ba-ace3-4bf9-911f-e50acd549790_300x300.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Falemos de contesta&#231;&#227;o. Durante muito tempo tendia a associar o ato de contestar a um ato de generosidade pol&#237;tica, esquecendo-me, por exemplo, da exist&#234;ncia das contesta&#231;&#245;es de natureza anti-democr&#225;tica, talvez por serem minorit&#225;rias ou silenciosas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Como sabemos isso mudou, tal como o triste epis&#243;dio que op&#244;s o capit&#227;o da sele&#231;&#227;o nacional de futebol, Kylian Mbapp&#233;, &#224; deputada paraguaia Celeste Amarilla, t&#227;o bem ilustra.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tudo come&#231;ou no fim do jogo de futebol entre a Fran&#231;a e o Paraguai que a sele&#231;&#227;o gaulesa venceu, depois de um jogo muito tenso, marcado pela dureza e as provoca&#231;&#245;es dos jogadores paraguaios, o que levou os franceses a recusarem cumprimentar os advers&#225;rios no fim do jogo e Mbapp&#233; a afirmar que a sua equipa tamb&#233;m sabia jogar sujo. Foi na sequ&#234;ncia destes epis&#243;dios que Celeste Amarilla acusou o capit&#227;o da sele&#231;&#227;o francesa de n&#227;o passar de um camaron&#234;s colonizado, a tentar fazer-se passar por franc&#234;s, um ressentido, novo rico, prepotente, feio e inculto que, para al&#233;m disso, n&#227;o sabia escrever, j&#225; que a coisa mais instru&#237;da que ouviu tinham sido os chimpanz&#233;s. Se a resposta de Mbapp&#233; n&#227;o se fez esperar, acusando a deputada de ser racista e uma mulher desprez&#237;vel, indigna do cargo que ocupava, a resposta de Celeste tamb&#233;m n&#227;o, amea&#231;ando-o com o tribunal porque as palavras dele configuravam uma situa&#231;&#227;o de viol&#234;ncia de g&#233;nero, um crime que devia ser punido.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Perante tamanha desfa&#231;atez, o que dizer? O que far&#225; o Partido Liberal Radical Aut&#234;ntico pelo qual foi eleita para o Parlamento paraguaio? Tendo em conta que estamos perante um partido que combateu o regime brutal do ditador Stroessner e que hoje constitui um dos pilares do regime democr&#225;tico no Paraguai, penso que a expuls&#227;o seria a medida mais congruente. N&#227;o sei se o far&#225;. O que sei, e o que me preocupa, &#233; n&#227;o desconhecer que haver&#225; sempre quem me possa acusar de, atrav&#233;s deste texto, desrespeitar a liberdade de express&#227;o e de pensamento. O que sei, e o que me preocupa, &#233; ver uma racista, ao ser acusada daquilo que efetivamente &#233;, alegar que foi v&#237;tima de viol&#234;ncia de g&#233;nero.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O problema &#233; que a viol&#234;ncia de g&#233;nero existe. Trata-se de um fen&#243;meno social end&#233;mico que tem e deve ser combatido, seja quando ela se faz sentir nas ruas e nas casas deste pa&#237;s e deste mundo, seja quando &#233; invocada para sustentar aleivosias e mentiras. Na primeira situa&#231;&#227;o, a viol&#234;ncia gera uma situa&#231;&#227;o humanamente intoler&#225;vel, enquanto na segunda, a viol&#234;ncia consubstancia-se na instrumentaliza&#231;&#227;o de uma den&#250;ncia t&#227;o c&#237;nica quanto hip&#243;crita. As duas configuram um atentado &#224; vida que seria suposto viver em sociedades que se afirmam como democr&#225;ticas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Moral da hist&#243;ria: A contesta&#231;&#227;o, nem sempre corresponde a um ato atrav&#233;s do qual se busca mais dignidade, justi&#231;a e democracia. Por isso, temos de ser criteriosos e, quando isso &#233; necess&#225;rio, necessitamos de ter coragem para denunciar e contestar a contesta&#231;&#227;o.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os Centros de Formação da Associação de Escolas (CFAE) e as suas zonas de estrangulamento]]></title><description><![CDATA[No passado dia 1 de julho, a Sec&#231;&#227;o da Forma&#231;&#227;o Cont&#237;nua de Profissionais da Educa&#231;&#227;o, da Sociedade Portuguesa de Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o (SPCE), em conjunto com os membros do grupo que dinamiza o projeto Mem&#243;rias dos CFAE, organizou um col&#243;quio intitulado &#171;Forma&#231;&#227;o Cont&#237;nua: Percursos, reflex&#245;es e desafios&#187;, o qual teve lugar no audit&#243;rio do Museu do Mar&#237;timo de &#205;lhavo.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/os-centros-de-formacao-da-associacao</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/os-centros-de-formacao-da-associacao</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 04 Jul 2026 13:45:28 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/38b22fc0-3c9a-43c0-a6d5-de5734ab5630_704x1000.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>No passado dia 1 de julho, a Sec&#231;&#227;o da Forma&#231;&#227;o Cont&#237;nua de Profissionais da Educa&#231;&#227;o, da Sociedade Portuguesa de Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o (SPCE), em conjunto com os membros do grupo que dinamiza o projeto Mem&#243;rias dos CFAE, organizou um col&#243;quio intitulado &#171;Forma&#231;&#227;o Cont&#237;nua: Percursos, reflex&#245;es e desafios&#187;, o qual teve lugar no audit&#243;rio do Museu do Mar&#237;timo de &#205;lhavo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi numa jornada onde se abordaram assuntos decisivos que, por insufici&#234;ncia de espa&#231;o, n&#227;o vou comentar neste texto, sentindo, apenas, a necessidade de afirmar que reforcei a minha cren&#231;a que os CFAE constituem uma das zonas mais saud&#225;veis do nosso sistema educativo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Dito isto, e aproveitando a interven&#231;&#227;o que partilhei, vou-me ficar pela discuss&#227;o sobre as zonas de estrangulamento que, hoje, afetam a a&#231;&#227;o dos CFAE. Uma dessas zonas diz respeito &#224; l&#243;gica e estrat&#233;gia de financiamento das atividades dos centros de forma&#231;&#227;o, sendo ela que justifica a reda&#231;&#227;o deste texto.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Na minha interven&#231;&#227;o, sobre a an&#225;lise da literatura acad&#233;mica que foi produzida na d&#233;cada de 90 (logo ap&#243;s a promulga&#231;&#227;o, em 1992, do primeiro Regime Jur&#237;dico que regulava a forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores) a problem&#225;tica do financiamento era, para os autores das obras analisadas (Can&#225;rio, 1994; Correia, Caramelo &amp; Vaz, 1997; Barroso &amp; Can&#225;rio, 1999; Silva, 2001; Estrela, 2001), uma problem&#225;tica recorrente. Todos eles referiam estarmos perante um paradoxo: o da cria&#231;&#227;o dos CFAES corresponder a uma decis&#227;o que alegadamente visa incentivar o associativismo docente e promover a descentraliza&#231;&#227;o territorial e funcional da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, ainda que, por via da estrat&#233;gia de financiamento adotada, a atividade daquelas entidades acabe por ser tutelada pela Administra&#231;&#227;o Central.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que &#233; relevante, como objeto de an&#225;lise, &#233; que a l&#243;gica tutelar dessa estrat&#233;gia se perpetuou, mesmo quando, a partir de 2016, atrav&#233;s do Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular, se assumiram decis&#245;es pol&#237;ticas consequentes, com a promulga&#231;&#227;o dos decreto-lei 54/2018 e 55/2018. Pela primeira vez na hist&#243;ria do sistema educativo portugu&#234;s oferecia-se a possibilidade dos agrupamentos escolares e as escolas n&#227;o agrupadas gerirem o curr&#237;culo de forma aut&#243;noma e contextualizada. Porque &#233; que os CFAE n&#227;o beneficiaram de uma autonomia equivalente, assumindo-se, a partir de determinado momento, como executores dos programas de forma&#231;&#227;o concebidos pela Dire&#231;&#227;o-Geral de Educa&#231;&#227;o?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mais do que produzir uma acusa&#231;&#227;o, interessa-me, sobretudo, chamar a aten&#231;&#227;o para esta alegada contradi&#231;&#227;o pol&#237;tica, enquanto express&#227;o da dificuldade da administra&#231;&#227;o central superar a sua desconfian&#231;a face &#224; capacidade dos professores se poderem assumir como protagonistas, neste caso, das iniciativas de forma&#231;&#227;o que lhes dizem respeito.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Poderia a DGE assumir uma outra postura, sabendo os riscos que iria correr, num sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua onde as necessidades de progress&#227;o na carreira inquinam o potencial transformadora da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ser&#225; no pr&#243;ximo texto que tentarei responder a esta quest&#227;o, discutindo uma das outras zonas de estrangulamento do sistema portugu&#234;s de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, aquela que diz respeito &#224; dissocia&#231;&#227;o entre as iniciativas formativas e os projetos e planos de interven&#231;&#227;o que se desenham nas escolas.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Can&#225;rio, Rui (1994). Centros de Forma&#231;&#227;o de Associa&#231;&#245;es de Escolas: Que futuro? In Amiguinho, Ab&#237;lio; &amp; Can&#225;rio, Rui (Org.), </span><em><span>Escolas e mudan&#231;a: O papel dos Centros de Forma&#231;&#227;o</span></em><span>. Lisboa: Educa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Correia, Jos&#233; Alberto; Caramelo, Jo&#227;o; Vaz, Henrique (1997). </span><em><span>Forma&#231;&#227;o de Professores: Estudo Tem&#225;tico.</span></em><span> Porto: FPCEUP (texto policopiado).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Barroso, Jo&#227;o; &amp; Can&#225;rio, Rui (1999). </span><em><span>Centros de Forma&#231;&#227;o das Associa&#231;&#245;es de Escolas: Das experi&#234;ncias &#224;s realidades</span></em><span>. Lisboa: IIE.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Silva, Manuel Ant&#243;nio da (2001). </span><em><span>Os diretores dos Centros de Forma&#231;&#227;o das Associa&#231;&#245;es de Escolas.</span></em><span> Lisboa: IIE.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Estrela, Maria Teresa (2001). Realidade e perspetivas da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores. </span><em><span>Revista Portuguesa de Educa&#231;&#227;o</span></em><span>, 14 (1), 27-48.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Magda]]></title><description><![CDATA[- &#211; st&#244;r, eu quero aprender, mas n&#227;o percebo nada do que est&#225; pr&#8217;a&#237; a dizer?]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/magda</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/magda</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 27 Jun 2026 10:52:20 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ade0f7c3-7b39-4d85-b29e-f57617a7456d_250x148.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>- &#211; st&#244;r, eu quero aprender, mas n&#227;o percebo nada do que est&#225; pr&#8217;a&#237; a dizer?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Era a Magda, em todo o seu esplendor. Usava a verdade de forma habilidosa, para mostrar que n&#227;o estava para ali virada. Jo&#227;o, o explicador, sorria. Lembrava-se, provavelmente, dos primeiros encontros em que o n&#227;o me chateie que isso n&#227;o &#233; para mim, ainda estava longe daquele eu quero aprender. Valesse o que valesse, a muralha tinha sido derrubada, ainda que...</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Ouve Magda, tu n&#227;o sabes em que continente estamos?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Continente, o qu&#234;? Eu fa&#231;o compras na loja da Laurinha.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sa&#237; a correr do espa&#231;o que partilh&#225;vamos para poder rir a bandeiras despregadas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o sei como &#233; que a hist&#243;ria acabou. Sabia que aquela rapariga, com 14 anos de idade, era o pilar de uma casa. Fazia os biscates a fazer limpezas ou a ajudar no mercado da S&#233;. Era ela que tentava impor os limites, sabe-se l&#225; como, aos dois irm&#227;os mais novos. Mais uma mulher que n&#227;o tivera tempo para ser menina.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tudo isto j&#225; foi h&#225; muito tempo. Aconteceu nos fins da d&#233;cada de 90, na minha saudosa &#171;Casa do Rio&#187;. Um espa&#231;o que criamos para, entre outras, responder &#224; indiferen&#231;a que as escolas nutriam por este tipo de alunos. A escola obrigat&#243;ria terminava no 9&#186; ano. N&#227;o havia teipes, nem preocupa&#231;&#245;es com medidas de natureza socioeducativa. Da&#237; para c&#225;, muita coisa mudou. Se n&#227;o me custa reconhecer que a vida dos professores &#233;, hoje, mais dura, importa lembrar que isso n&#227;o se deve s&#243; &#224; populariza&#231;&#227;o das redes sociais, dos equ&#237;vocos existenciais e educativos do que Byung-Chul Han (2014) designa por sociedade do cansa&#231;o ou at&#233; da erup&#231;&#227;o do mundo das p&#243;s-verdades. Hoje, colocamo-nos perante novos desafios nas escolas e isso pressup&#245;em, tamb&#233;m, novas exig&#234;ncias. Se estas nem sempre s&#227;o compat&#237;veis com os recursos de que dispomos, e sobre a forma como gerimos tais recursos, h&#225; uma coisa que eu sei, a de que n&#227;o podemos desistir, a de termos de contar uns com os outros para n&#227;o desistir e a de termos de reivindicar, de forma expl&#237;cita e clara, as condi&#231;&#245;es necess&#225;rias para n&#227;o desistirmos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Aprendi isto, nesse tempo de trabalho na &#171;Casa do Rio&#187; em que o Jo&#227;o, o jovem professor atr&#225;s referido que apoiava a Magda nos seus estudos, ainda que tivesse a energia necess&#225;ria e vivesse o seu trabalho com o encantamento de quem acredita que pode fazer a diferen&#231;a, nunca esteve sozinho a fazer o que fazia. Havia quem o apoiasse, quem o animasse, quem lhe propusesse outras solu&#231;&#245;es ou quem reconhecesse o seu valor e profissionalismo. Havia, afinal, cumplicidade e condi&#231;&#245;es para que esta cumplicidade crescesse e se afirmasse.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Han, Byung-Chul (2014). </span><em><span>A sociedade do cansa&#231;o</span></em><span>. Lisboa: Rel&#243;gio D&#8217;&#193;gua.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Bibó S. João]]></title><description><![CDATA[A v&#233;spera de S.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/bibo-s-joao</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/bibo-s-joao</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Tue, 23 Jun 2026 11:48:25 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7e821721-31aa-4eb0-b57a-08210ec292c1_270x400.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A v&#233;spera de S. Jo&#227;o, a noite dita mais longa, &#233; um tempo de mangericos, de alhos porro, de cidreira, de sardinhas que se conjugam em fun&#231;&#227;o da palavra fraternidade. &#201; tamb&#233;m o tempo das quadras. Bib&#243; S. Jo&#227;o!!!  </p><p></p><p><span>Mais um ano S. Jo&#227;o,</span></p><p><span>Motivo pr&#8217;a tantas quadras,</span></p><p><span>Para textos e partilhas</span></p><p><span>Neste nosso Encruzilhadas.</span></p><p></p><p><span>H&#225; tanto para contar,</span></p><p><span>H&#225; tanto h&#225; para dizer,</span></p><p><span>H&#225; tanto para ouvir,</span></p><p><span>H&#225; tanto para aprender.</span></p><p></p><p><span>N&#227;o perder a esperan&#231;a,</span></p><p><span>&#201; um desejo decente,</span></p><p><span>Sabendo que na nossa voz</span></p><p><span>H&#225; a voz de muita gente.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A pretexto de um «Sábado Pedagógico»]]></title><description><![CDATA[Estive hoje, como havia anunciado, no &#171;S&#225;bado Pedag&#243;gico&#187; do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM) que teve lugar na Faculdade de Psicologia e de Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o da Universidade do Porto.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/a-pretexto-de-um-sabado-pedagogico</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/a-pretexto-de-um-sabado-pedagogico</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 20 Jun 2026 13:35:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7d92b5b5-c33c-47b0-ad6f-fee2d18d1e62_318x159.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Estive hoje, como havia anunciado, no &#171;S&#225;bado Pedag&#243;gico&#187; do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM) que teve lugar na Faculdade de Psicologia e de Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o da Universidade do Porto. N&#227;o foi o primeiro, mas foi como se fosse.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Juntarmo-nos para pensar em conjunto sobre o que andamos a fazer como educadores e professores &#233;, s&#243; por si, um prop&#243;sito profundamente subversivo Uns exp&#245;em-se e outros ouvem, mas todos partilham. Pensam, em conjunto, sobre o presente educativo que querem construir. O presente poss&#237;vel sem que isso signifique que se abdica do presente desej&#225;vel. Um presente que se enfrenta sem nos refugiarmos no futuro que, sabemos bem, bate &#224; nossa porta em cada segundo que passa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nos tempos que correm, onde a desgra&#231;a e a descren&#231;a s&#227;o os alimentos que se v&#227;o servindo nas redes sociais e na pr&#243;pria imprensa, necessitamos de s&#225;bados pedag&#243;gicos porque necessitamos de esperan&#231;a. N&#227;o a esperan&#231;a dos crentes, mas a esperan&#231;a tang&#237;vel daqueles que lutam por ela. Uma esperan&#231;a que contrarie a nossa solid&#227;o. Uma esperan&#231;a que contrarie o consumismo das solu&#231;&#245;es f&#225;ceis e imediatas. Uma esperan&#231;a que se constr&#243;i, de forma partilhada, com exig&#234;ncia e com rigor, a partir do trabalho que se realiza e da reflex&#227;o que esse trabalho suscita.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; tudo isto que sinto em cada s&#225;bado pedag&#243;gico e &#233; por isso, tamb&#233;m, que devo muito daquilo que sou profissionalmente ao Movimento da Escola Moderna Portuguesa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para abreviar, diria que foi no MEM que escutei, pela primeira vez, o conceito de isomorfismo pedag&#243;gico e ao qual recorro constantemente como crit&#233;rio de aferi&#231;&#227;o da autenticidade e impacto da forma&#231;&#227;o inicial e cont&#237;nua de docentes, da autenticidade e impacto dos projetos de inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica, da autenticidade e impacto do pr&#243;prio MEM.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que aquele conceito nos exige &#233; que se estabele&#231;a uma rela&#231;&#227;o t&#227;o coerente quanto congruente entre os nossos princ&#237;pios e as nossas pr&#225;ticas, o que est&#225; longe de ser o caso quer nos j&#225; atr&#225;s referidos projetos de forma&#231;&#227;o inicial e cont&#237;nua ou nos projetos de inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica. Diria mesmo que a aus&#234;ncia de isomorfismo pedag&#243;gico &#233; uma das raz&#245;es mais poderosas que permitem explicar que os primeiros n&#227;o contribuem para que se concretize o tipo de forma&#231;&#227;o que dizem pretender concretizar e os segundos n&#227;o s&#227;o, afinal, projetos inovadores. &#201; verdade que sei, sem vacilar, que estamos perante um objetivo muito exigente, sem que com isto esteja a patrocinar a ideia de que &#233; um objetivo inexequ&#237;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E a prova da sua plausibilidade encontro-a no MEM, um movimento de autoforma&#231;&#227;o cooperada de educadores e professores, bem como de outros profissionais de educa&#231;&#227;o, que, a partir das pr&#225;ticas e das reflex&#245;es dos seus membros visa contribuir para que estes possam ser construtores de uma Escola congruente com os valores que caraterizam, ou deveriam caraterizar, a vida em sociedades democr&#225;ticas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; este o investimento que os educadores e os professores, associados do MEM, protagonizam. &#201; o reconhecimento da centralidade que atribuem ao isomorfismo pedag&#243;gico como motor da sua a&#231;&#227;o como profissionais que lhes confere credibilidade e sentido ao trabalho que realizam nos seus jardins-de-inf&#226;ncia e escolas, nos s&#225;bados pedag&#243;gicos, nos grupos de trabalho cooperativo em que participam ou nas comunica&#231;&#245;es e na exposi&#231;&#227;o que apresentam em cada um dos seus congressos anuais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; o isomorfismo pedag&#243;gico de inspira&#231;&#227;o pedagogicamente democr&#225;tica que permite que o MEM disponha, hoje, de um legado pedag&#243;gico incontorn&#225;vel que nos permite compreender, de forma mais esclarecida, as possibilidades de afirma&#231;&#227;o de um projeto democr&#225;tico de educa&#231;&#227;o inclusiva, em fun&#231;&#227;o do qual se estabelece a rutura com o modo de ensino simult&#226;neo, para propor as salas de aula como comunidades de aprendizagem, no &#226;mbito da afirma&#231;&#227;o da Escola como um espa&#231;o de empoderamento cultural, condi&#231;&#227;o para que se possa assumir como um espa&#231;o de forma&#231;&#227;o pessoal e de cidadania e onde os professores tenham a oportunidade de se afirmar como construtores do conhecimento profissional.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O MEM como esteio de uma escola democrática e inclusiva]]></title><description><![CDATA[No pr&#243;ximo s&#225;bado dia 20 de junho de 2026, &#224;s 10 h., ter&#225; lugar mais um &#171;S&#225;bado Pedag&#243;gico&#187;, do N&#250;cleo Regional do Porto do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM).]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-mem-como-esteio-de-uma-escola-democratica</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-mem-como-esteio-de-uma-escola-democratica</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 17 Jun 2026 07:55:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7e437a56-6815-4787-b1c7-6f9886dcdccb_447x447.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>No pr&#243;ximo s&#225;bado dia 20 de junho de 2026, &#224;s 10 h., ter&#225; lugar mais um &#171;S&#225;bado Pedag&#243;gico&#187;, do N&#250;cleo Regional do Porto do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM). Como tem sido habitual, tamb&#233;m eu estarei presente como uma comunica&#231;&#227;o intitulada: &#171;O MEM como esteio de uma Escola Democr&#225;tica e inclusiva&#187; que exprime o meu modo de contribuir para a celebra&#231;&#227;o dos 60 anos deste movimento.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi em 1966 que tudo come&#231;ou com a constitui&#231;&#227;o do Grupo de Trabalho de Promo&#231;&#227;o Pedag&#243;gica, do qual faziam parte S&#233;rgio Niza, Isabel Pereira e Rosalina Gomes de Almeida, no &#226;mbito de um dos cursos de Aperfei&#231;oamento Profissional, coordenado por Rui Gr&#225;cio, no Sindicato Nacional de Professores. 10 anos depois, j&#225; em 1976, faz este ano 50 anos, o Movimento da Escola Moderna Portuguesa &#233; formalmente registado como uma associa&#231;&#227;o pedag&#243;gica de professores.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; sobre a hist&#243;ria do MEM que irei falar, aproveitando o facto de, tamb&#233;m este ano, ter sido publicado um livro, o &#171;Esteios&#187; (Trindade, Lopes, Ferreira &amp; Pinto, 2025), onde se homenageiam mulheres e homens que, por via das suas obras e reflex&#245;es, contribu&#237;ram para a democratiza&#231;&#227;o do sistema educativo portugu&#234;s.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nesse livro apresentam-se 82 biografias breves de gente proveniente dos mais diversos campos de atua&#231;&#227;o e &#225;reas do sabe que foram designados como &#8220;esteios&#8221; porque sem eles a nossa vida pessoal e coletiva teria sido certamente diferente. Da&#237; que mais do que um exerc&#237;cio para a constru&#231;&#227;o de uma mem&#243;ria futura, o que se produziu foi um exerc&#237;cio de justi&#231;a hist&#243;rica atrav&#233;s do qual celebramos as vidas daquelas e daqueles que nos mostraram que &#233; poss&#237;vel e necess&#225;rio viver num mundo e numa escola mais democr&#225;ticos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi atrav&#233;s desse livro que me deparei com o facto do MEM se encontrar representado no mesmo atrav&#233;s de catorze biografias. Umas que t&#234;m a ver com figuras de refer&#234;ncia do movimento, outras que dizem respeito a pessoas que foram companheiros de jornada do movimento e outras, ainda, que s&#227;o as biografias de associadas do movimento, as quais contribu&#237;ram que este exista da forma como existe.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que se conclui &#233; que o MEM, s&#243; por si, constitui um esteio que 60 anos depois da sua cria&#231;&#227;o merece e tem de ser celebrado, enquanto movimento pedag&#243;gico que det&#233;m, e uso as palavras de Ant&#243;nio N&#243;voa para o dizer, um dos mais importantes capitais &#8220;de &#8216;reflex&#227;o na pr&#225;tica e sobre a pr&#225;tica&#8217; dispon&#237;vel no sistema educativo&#8221; portugu&#234;s.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sendo a entrada livre, sintam-se convidados para aparecer na Faculdade de Psicologia e de Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o da Universidade do Porto no pr&#243;ximo s&#225;bado, 20 de junho de 2026, &#224;s 10 h.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Trindade, Rui; Lopes, Am&#233;lia; Ferreira, Daniela; Pinto, Daniela (2025). </span><em><span>Esteios. </span></em><span>Porto: UPorto Press</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Em jeito de despedida...]]></title><description><![CDATA[[Partilho este texto que escrevi h&#225; uns anos atr&#225;s.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/em-jeito-de-despedida</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/em-jeito-de-despedida</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 13 Jun 2026 07:39:02 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/68dd0a3b-bfad-4bc7-8252-a5108cf8f7e3_333x336.bmp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>[Partilho este texto que escrevi h&#225; uns anos atr&#225;s. &#201; o texto que vou enviar &#224;s alunas e aos alunos que me acompanharam no ano letivo que agora se encerra, o &#250;ltimo que vivi como professor, j&#225; que os pr&#243;ximos ser&#227;o vividos na condi&#231;&#227;o de av&#244;]</strong></p><p style="text-align: justify;">&#201; pena que em abril, quando iniciarmos a reflex&#227;o sobre a rela&#231;&#227;o pedag&#243;gica como tem&#225;tica estruturante da disciplina de Psicologia da Educa&#231;&#227;o, j&#225; tenhamos esquecido o que se passou em fevereiro, no primeiro dia de aulas. Se f&#244;ssemos capazes de evocar esse primeiro encontro, talvez poup&#225;ssemos muito do tempo que gastamos em conversas sobre o inef&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">A hesita&#231;&#227;o &#224; porta, os olhares que se cruzam, a procura de um lugar resguardado. Recordo-os pela incomodidade que pressinto nas pessoas que v&#227;o entrando. S&#227;o momentos de comunica&#231;&#227;o intensa, tecidos atrav&#233;s de gestos e murm&#250;rios que o ritual da apresenta&#231;&#227;o obscurece. A apresenta&#231;&#227;o do programa de trabalho da disciplina nunca me pareceu suscitar, at&#233; hoje, mais do que uma ou outra quest&#227;o de circunst&#226;ncia ou, quando muito, alguns sinais de assentimento. As rea&#231;&#245;es de oposi&#231;&#227;o t&#233;nue, a existirem, guardam-se para a discuss&#227;o acerca do processo de avalia&#231;&#227;o, sobre as op&#231;&#245;es que t&#234;m ao seu dispor e os crit&#233;rios em fun&#231;&#227;o dos quais ser&#225; julgada a sua presta&#231;&#227;o acad&#233;mica. &#201; este, usualmente, o momento mais tenso do primeiro dia de aulas. Tens&#227;o que julgo ser equivalente ao reconhecimento dos constrangimentos curriculares, pedag&#243;gicos e institucionais a que se encontram sujeitos, os quais, quantas vezes, s&#227;o romanticamente ignorados ou oportunamente entendidos como a express&#227;o da incongru&#234;ncia de uma licenciatura com fama de rousseauniana. O ar surpreendido de alguns dos meus interlocutores parece confirmar a exatid&#227;o desta tese, sobretudo se pertencerem ao grupo daqueles que, nos corredores, possam ter ouvido que n&#227;o se preocupassem muito comigo porque eu era um <em>gajo porreiro</em>. O que, neste caso, tanto pode ser traduzido por um tipo a quem facilmente se d&#225; a volta, como significar, espero, que sou algu&#233;m suficientemente compreensivo, dispon&#237;vel para os aturar e interessado em criar as melhores condi&#231;&#245;es para que todos possam carpinteirar a cadeira que leciono.</p><p style="text-align: justify;">O primeiro dia de aulas n&#227;o &#233;, assim, um dia t&#227;o f&#225;cil como, por vezes, alguns colegas meus d&#227;o a entender. Temos que nos expor, criamos e defraudamos expectativas, nem sempre somos entendidos, nem sempre sabemos fazer-nos entender. N&#227;o tenho, por isso, grandes conselhos a dar sobre os primeiros dias. Resguardem-se? Exponham-se? N&#227;o fa&#231;o ideia. Sei, apenas, que &#233; um dia em que se inicia um jogo que n&#227;o podemos recusar jogar. Professores e alunos. N&#227;o nos conhecemos. N&#227;o nos escolhemos. N&#227;o nos encontramos numa institui&#231;&#227;o e num mundo onde os padr&#245;es relacionais n&#227;o se encontram prefigurados de forma t&#227;o definitiva como alguns tanto desejariam. E ainda bem, acrescento eu, porque nos permite assumir de forma mais plena a nossa condi&#231;&#227;o de seres humanos. Com todos s riscos, devo refor&#231;ar, que s&#227;o inerentes a uma situa&#231;&#227;o, quantas vezes, subavaliada, do ponto de vista das rela&#231;&#245;es de poder em presen&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Anos houve em que costumava ler para os meus alunos, nos nossos primeiros dias de aulas, o c&#233;lebre texto de Sebasti&#227;o da Gama sobre um outro primeiro dia numa escola onde o poeta havia sido professor. Nunca mais voltei a faz&#234;-lo. Aprendi, entretanto, que as salas de aula n&#227;o t&#234;m de ser para&#237;sos terreais. S&#227;o espa&#231;os de a&#231;&#227;o de intera&#231;&#227;o, institucionalmente configurados, e pass&#237;veis de ser humanamente recriados. Para isso, n&#227;o precisamos de ser anjos, mas apenas homens e mulheres dispostos a dialogar, a confrontar-se, a descobrir-se e a trabalhar em conjunto todos os dias que um qualquer primeiro dia, algures, iniciou. N&#227;o temos de nos tornar amigos, mas poderemos usufruir da mutualidade da nossa presen&#231;a. N&#227;o &#233; obrigat&#243;ria a aus&#234;ncia dos conflitos despropositados, mas estes podem acontecer, tal como os mal-entendidos, os julgamentos preconceituosos ou o desprazer em certos momentos passados em comum.</p><p style="text-align: justify;">Tudo isto &#233; poss&#237;vel, se estivermos dispon&#237;veis para reconhecer qual &#233; a nossa quota parte na eclos&#227;o de tais ocorr&#234;ncias e como o ambiente relacional se rarefaz se n&#227;o tentarmos enfrentar os problemas que a cada um e a todos diz respeito, assumindo-se o que se tiver e puder assumir.</p><p style="text-align: justify;">Enfim, n&#227;o h&#225; primeiros dias de aulas decisivos, como se fossem os primeiros dias do resto das nossas vidas. Estes, na verdade, s&#243; acontecem quando cada beb&#233;, chorando a plenos pulm&#245;es, reivindica a sua presen&#231;a no mundo que lhe oferecemos.</p><p style="text-align: justify;">Mas se um primeiro dia de aulas n&#227;o &#233; decisivo, isso n&#227;o significa que &#233; in&#250;til. Foi sempre o come&#231;o de algo que, para mim, que sou professor, l&#225; foi alimentando a minha vida. E &#233; isto que vos quero agradecer, porque sem a vossa presen&#231;a, enquanto estudantes, esta vida n&#227;o seria t&#227;o significativa como, na verdade, o foi, tanto este ano como ao longo de todos os anos em que veti a pele de professor. Obrigado.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Celebrar Camões]]></title><description><![CDATA[50 anos depois do 25 de abril, e apesar de no dia 10 de junho se ter passado a celebrar Cam&#245;es, como um poeta cosmopolita, associando-o &#224; di&#225;spora portuguesa, h&#225; quem continue a associar o poeta ao dia da Ra&#231;a, tal e qual o regime ditatorial, de Salazar e Caetano, o tentou consagrar.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/celebrar-camoes</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/celebrar-camoes</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 10 Jun 2026 09:54:13 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9f4e85d5-e6bf-4cb5-af82-91409a40d9c3_364x599.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h1 style="text-align: justify;">50 anos depois do 25 de abril, e apesar de no dia 10 de junho se ter passado a celebrar Cam&#245;es, como um poeta cosmopolita, associando-o &#224; di&#225;spora portuguesa, h&#225; quem continue a associar o poeta ao dia da Ra&#231;a, tal e qual o regime ditatorial, de Salazar e Caetano, o tentou consagrar.</h1><p style="text-align: justify;">Os Lus&#237;adas nem s&#227;o o livro que olha para os portugueses como o povo eleito, nem t&#227;o pouco podem ser um objeto a equiparar &#224; narrativa lusotropicalista que o antr&#243;pologo brasileiro Gylberto Freire difundiu e que o salazarismo aproveitou.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; muitos anos, para o meu grupo de amigos que ficava a conversar na esquina da Rua Aires Ornelas, antes de cada um dispersar para casa, os Lus&#237;adas eram um supl&#237;cio. T&#237;nhamos de recitar de cor a primeira estrofe, sem nos explicarem sequer o que era a Taprobana, e, acima de tudo, sent&#237;amos que jog&#225;vamos &#224; roleta russa quando &#233;ramos chamados a classificar as ora&#231;&#245;es, o exerc&#237;cio que, para muitos de n&#243;s, seria a &#250;nica (in)utilidade dos Lus&#237;adas.</p><p style="text-align: justify;">At&#233; que um dia, o professor de portugu&#234;s, M&#225;rio Fi&#250;za, nos proibiu de ler o canto IX. Bendita proibi&#231;&#227;o. Diria mesmo, pelo que hoje sei desse professor, que foi uma proibi&#231;&#227;o estrat&#233;gica, intencional e inteligente. Fora a j&#225; referida estrofe, foi a &#250;nica coisa de &#171;Os Lus&#237;adas&#187; que o grupo de estudos informal de Aires Ornelas se dignou a ler do princ&#237;pio ao fim. A ilha dos amores e os marinheiros a correr atr&#225;s de ninfas nuas, confesso que n&#227;o tiveram para n&#243;s a import&#226;ncia que seria expect&#225;vel. Para isso, ter&#237;amos de ter tido algu&#233;m que nos ajudasse a penetrar no poema, a desej&#225;-lo, a compreend&#234;-lo. S&#243; que isso n&#227;o era poss&#237;vel, n&#227;o s&#243; essas preocupa&#231;&#245;es se encontravam ausentes dos liceus portugueses, como o canto IX era mesmo um canto que os professores estavam proibidos de abordar.</p><p style="text-align: justify;">Por sua vez, a l&#237;rica camoniana, como de resto toda a literatura que se trabalhava nas escolas, n&#227;o era coisa que era pensada para nos entusiasmar. S&#243; o filme do Leit&#227;o de Barros, que devo ter visto na televis&#227;o, sobre o poeta &#233; que teve algum efeito em mim. Apesar de ser uma obra do Estado Novo, com uma marca ideol&#243;gica que n&#227;o se dissimulava, mostrou-me, mesmo que essa n&#227;o fosse a sua inten&#231;&#227;o, um outro Cam&#245;es. Aquele a quem Carlos T&#234;, justamente, se refere, num texto publicado no dia 16 de maio, no JN. Para ele, o Cam&#245;es que o come&#231;ou a interessar era o poeta andarilho. O poeta que foi soldado, que esteve em Ceuta, em Macau, nos lugares desconhecidos que tinham acabado de ser cartografados. Escreve ele que foi isso que lhe chamou a aten&#231;&#227;o, <em>&#8220;muito mais do que o Cam&#245;es da escrita, que ent&#227;o considerava um bocado chata para os padr&#245;es que ia seguindo ao n&#237;vel da poesia, que era o pessoal da Beat Generation. Sendo que o seu peso institucional tamb&#233;m me incomodava um bocado, porque Cam&#245;es teve um peso institucional muito elaborado e muito apropriado pelo Estado Novo. Isso durou bastante tempo at&#233; olhar para Cam&#245;es como outra pessoa, o lado do her&#243;i, do vagabundo escritor, uma esp&#233;cie de Jack Kerouac do s&#233;culo XVI portugu&#234;s. Isso interessou-me muito mais do que o Cam&#245;es que era dado na escola, do qual eu e muita gente fug&#237;amos&#8221;.</em></p><p style="text-align: justify;">Por isso &#233; que confessa que <em>&#8220;mais do que o seu valor intr&#237;nseco liter&#225;rio, apaixonou-me muito mais a figura, o lado recalcitrante, de algu&#233;m que est&#225; sempre em guerras com o poder, se calhar, muitas vezes, pelas raz&#245;es erradas&#8221;.</em></p><p style="text-align: justify;">&#201; este Cam&#245;es que, no dia 10 de junho celebro, aquele que Carlos T&#234; acaba por consagrar, atrav&#233;s da m&#250;sica e da voz de Rui Veloso numa can&#231;&#227;o, &#171;M&#225; Fortuna&#187;, que se encontra publicada no &#225;lbum &#171;Auto da Pimenta&#187;. Nessa can&#231;&#227;o, sentado no Cabo de Guardafui, o mais oriental do continente africano, Lu&#237;s Vaz de Cam&#245;es &#233; posto a refletir sobre a sua vida, pelo poeta e pelo m&#250;sico.</p><p style="text-align: justify;">&#201; a&#237; que confessa que &#8220;<em>S&#243; me deu p&#8217;ra dizer n&#227;o / Em tempo de dizer sim / Tamb&#233;m na mesma moeda / O mundo me paga a mim&#8221; </em>Por isso &#233; que <em>&#8220;ando estrada fora / Como um bardo vagabundo / Desisti de ver a hora / De ficar de bem com o mundo&#8221;. </em><br> &#201; tamb&#233;m a&#237; que reconhece, como tanta gente por esse Portugal fora, <em>&#8220;Como este Cabo t&#227;o triste/ Pedregoso e sem verdura/ Assim minha vida existe/ Marcada p&#8217;la desventura&#8221;, </em>acabando, ent&#227;o, por perguntar &#224; musa e aos deuses porque que isso acontece, que lhe respondem que &#8220;<em>&#233; s&#243; M&#225; fortuna e erros m&#1077;us&#8221;.</em></p><p style="text-align: justify;">Ser&#225;? Ser&#225; que os pacotes laborais impostos pelo governo da AD e pelas associa&#231;&#245;es patronais n&#227;o t&#234;m nada a ver com isso?<br><br><br></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A deriva pedagógica processualista e a interdisciplinaridade]]></title><description><![CDATA[Pode considerar-se que, no &#226;mbito do Decreto-Lei n&#186; 55/2018, os &#171;Dom&#237;nios de Autonomia Curricular&#187; (vulgo DAC), enquanto &#225;reas de conflu&#234;ncia de trabalho interdisciplinar e ou de articula&#231;&#227;o curricular, ocupam um lugar estrat&#233;gico nesse decreto-lei.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/a-deriva-pedagogica-processualista</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/a-deriva-pedagogica-processualista</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 06 Jun 2026 06:05:46 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/497256d5-bb59-413b-9bd2-7c91ffa39310_520x271.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Pode considerar-se que, no &#226;mbito do Decreto-Lei n&#186; 55/2018, os &#171;Dom&#237;nios de Autonomia Curricular&#187; (vulgo DAC), enquanto &#225;reas de conflu&#234;ncia de trabalho interdisciplinar e ou de articula&#231;&#227;o curricular, ocupam um lugar estrat&#233;gico nesse decreto-lei. A possibilidade das escolas passarem a poder gerir, total ou parcialmente, de forma interdisciplinar os tempos destinados &#224;s &#225;reas disciplinares e disciplinas, evidencia a import&#226;ncia de, atrav&#233;s dos DAC , se promover uma abordagem interdisciplinar do conhecimento, enquanto condi&#231;&#227;o fundamental da realiza&#231;&#227;o de aprendizagens culturalmente significativas.</p><p style="text-align: justify;">Trata-se de uma das dimens&#245;es mais promissoras das pol&#237;ticas curriculares atuais, mesmo que se reconhe&#231;a que nos confronta com um dos desafios mais decisivos e complexos que as escolas e os professores t&#234;m de realizar e de aprender, ainda, a realizar. Do pouco que se sabe sobre o que tem vindo a ser feito, sabe-se, no entanto, que a deriva processualista, que tenho vindo a denunciar nos &#250;ltimos textos publicados neste blogue, &#233; um dos problemas que mais afeta a realiza&#231;&#227;o de iniciativas relacionadas com os DAC. Estamos, mais uma vez, perante uma situa&#231;&#227;o onde o<em><strong> como ensinar</strong></em> prevalece sobre <em><strong>o que ensinar</strong></em>, derivada da exalta&#231;&#227;o de um tipo de ativismo inconsequente que se atribui aos alunos para que estes se possam reconciliar, por esta via, com a Escola, mesmo que isso acabe por implicar que seja posta em causa a possibilidade desta institui&#231;&#227;o educativa se afirmar e construir como um espa&#231;o de empoderamento cultural.</p><p style="text-align: justify;">Por isso &#233; que neste texto volto &#224; discuss&#227;o sobre os efeitos nefastos da deriva processualista, debru&#231;ando-me sobre as implica&#231;&#245;es da mesma ao n&#237;vel dos projetos que valorizam a dimens&#227;o interdisciplinar do conhecimento depois de, no texto anterior a este, ter tentado evidenciar as consequ&#234;ncias de uma tal deriva no campo do ensino experimental das ci&#234;ncias.</p><p style="text-align: justify;">Mais uma vez, o exemplo que tenho para partilhar diz respeito ao 1&#186; CEB e relaciona-se com um conjunto de iniciativas que, tendo como fonte de inspira&#231;&#227;o o modelo STEM (Science-Technology-Engineering-Mathematics), visa propor experi&#234;ncias acad&#233;micas que encontram nas TIC e numa abordagem interdisciplinar de algumas daquelas &#225;reas, os eixos em fun&#231;&#227;o dos quais se alicer&#231;am as atividades que se prop&#245;em, vistas como oportunidade para que os alunos possam realizar aprendizagens culturalmente significativas.</p><p style="text-align: justify;">Dessas atividades, selecionei, apenas, uma, designada por: &#171;Itiner&#225;rios - Da nossa escola at&#233; &#224; Sala do Futuro&#187;, onde se prop&#245;e que as crian&#231;as analisem itiner&#225;rios entre a sua escola e a escola sede do Agrupamento. Trata-se de um projeto que visa articular a &#225;rea de &#171;Matem&#225;tica&#187; com a &#225;rea de &#171;Estudo do Meio&#187;, o qual come&#231;a com uma discuss&#227;o pr&#233;via sobre aqueles itiner&#225;rios, depois dos alunos analisarem tr&#234;s itiner&#225;rios que lhes s&#227;o propostos, de forma a enunciarem as vantagens e as desvantagens de cada um deles. Ap&#243;s este momento, as crian&#231;as v&#227;o realizar esses percursos, para verificar se as suas perce&#231;&#245;es est&#227;o corretas, utilizando diferentes instrumentos de medida: (i) um ped&#243;metro (aplica&#231;&#227;o no <em>tablet</em>); (ii) um od&#243;metro de roda e (iii) um GPS integrado no <em>tablet</em>. Para al&#233;m disso, sabe-se que nos <em>tablets</em>, os alunos tinham acesso ao <em>Google Forms</em>, para resolverem tr&#234;s problemas de matem&#225;tica, ao <em>Google Keep</em>, para registar fotografias, e ao <em>Google Earth</em>. Sabe-se tamb&#233;m que no decorrer dos percursos estes mesmos alunos tinham tarefas a realizar. No posto da GNR assistiram a uma palestra sobre quest&#245;es de seguran&#231;a com elementos da &#171;Escola Segura&#187;; na Biblioteca Municipal tiveram de arrumar 20 livros em 4 prateleiras, de forma a explorar os n&#250;meros fracion&#225;rios, para al&#233;m de terem de requisitar, ainda, um livro relacionado com a cidade onde viviam, de forma a identificar datas, figuras e acontecimentos importantes; no campo de futebol, finalmente, tinham de fazer medi&#231;&#245;es e calcular o per&#237;metro do campo. Quando terminassem, retornavam &#224; sala de aula onde teriam de explicar o modo como resolveram os problemas e refletirem sobre as atividades realizadas.</p><p style="text-align: justify;">Avaliando-se o conjunto das iniciativas enunciadas pode considerar-se que h&#225; momentos pertinentes, do ponto de vista formativo, como &#233; o caso das proje&#231;&#245;es iniciais sobre os itiner&#225;rios e o processo posterior de verifica&#231;&#227;o das mesmas, tal como h&#225; momentos cujo significado nos escapa, os quais t&#234;m a ver com as tarefas que foram realizadas na Biblioteca Municipal ou no campo de futebol,</p><p style="text-align: justify;">Em termos da dimens&#227;o interdisciplinar da iniciativa, estamos perante um projeto fracassado, uma vez que o que se realiza &#233;, apenas e sobretudo, uma a&#231;&#227;o de consolida&#231;&#227;o da capacidade das crian&#231;as aplicarem conhecimentos matem&#225;ticos, colocando-as perante alguns desafios carentes de sentido. Entre ter se utilizar n&#250;meros fracion&#225;rios para resolver exerc&#237;cios do manual ou para arrumar livros nas estantes, parece-me que, apesar de tudo, h&#225; mais condi&#231;&#245;es do manual confrontar os alunos com situa&#231;&#245;es matematicamente plaus&#237;veis do que face ao exerc&#237;cio realizado na biblioteca. O que se constata &#233; que se sacrifica uma rela&#231;&#227;o consequente entre as crian&#231;as e o conhecimento para se propor uma iniciativa que visava, sobretudo, suscitar a sua atividade.</p><p style="text-align: justify;">Ainda que se possa alegar que o problema n&#227;o tem a ver com o desejo de suscitar o protagonismo dos alunos, mas com o facto de se confundir interdisciplinaridade com justaposi&#231;&#227;o disciplinar, o que se verifica &#233; que tanto este equ&#237;voco como a valoriza&#231;&#227;o da atividade como um fim em si mesmo, exprimem ambos a aus&#234;ncia de uma reflex&#227;o epistemol&#243;gica e concetual cuidada. Se esta tivesse acontecido, provavelmente n&#227;o estar&#237;amos perante uma iniciativa que se desenvolve, a partir de dado momento, atrav&#233;s de exerc&#237;cios aleat&#243;rios e inconsequentes.</p><p style="text-align: justify;">E porque &#233; que isso aconteceu? Porque se imp&#245;e uma no&#231;&#227;o de atividade dos alunos que &#233; circunscrita ao exerc&#237;cio tang&#237;vel de uma a&#231;&#227;o, como se bastasse &#224;s crian&#231;as movimentarem-se fora da sala de aula para que a atividade fosse considerada culturalmente significativa. O que importa reter &#233; que nas situa&#231;&#245;es educativas que envolvem crian&#231;as, a condi&#231;&#227;o da sua atividade tende a constituir como uma justifica&#231;&#227;o decisiva da deriva processualista, como se qualquer atividade, independentemente do tipo de conhecimento que &#233; mobilizado ou apropriado, garantisse, por si s&#243;, &#224;s crian&#231;as a possibilidade de aprenderem.</p><p style="text-align: justify;">No meio disto tudo, salva-se o modo como as aplica&#231;&#245;es dos tablets s&#227;o utilizadas. Neste caso, a sua import&#226;ncia e plausibilidade tem a ver com o facto de serem utilizadas como ferramentas. &#201; a sua instrumentalidade que lhes confere sentido, ainda que seja fundamental reconhecer que n&#227;o s&#227;o aqueles instrumentos que conferem sentido ao projeto analisado.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>