<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Encruzilhadas]]></title><description><![CDATA[Espaço de reflexão onde se defende a centralidade da relação entre os alunos e o conhecimento culturalmente validado como o desafio nuclear da Escola, o qual determina o empoderamento humano dos discentes e a afirmação profissional dos docentes.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ghFf!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F542030fc-14c2-474c-b563-512dbc701157_1200x1200.png</url><title>Encruzilhadas</title><link>https://encruzilhadas.pt</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 19 Jun 2026 18:48:42 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://encruzilhadas.pt/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Rui Trindade]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Rui Trindade]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Rui Trindade]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Rui Trindade]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[O MEM como esteio de uma escola democrática e inclusiva]]></title><description><![CDATA[No pr&#243;ximo s&#225;bado dia 20 de junho de 2026, &#224;s 10 h., ter&#225; lugar mais um &#171;S&#225;bado Pedag&#243;gico&#187;, do N&#250;cleo Regional do Porto do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM).]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-mem-como-esteio-de-uma-escola-democratica</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-mem-como-esteio-de-uma-escola-democratica</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 17 Jun 2026 07:55:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7e437a56-6815-4787-b1c7-6f9886dcdccb_447x447.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>No pr&#243;ximo s&#225;bado dia 20 de junho de 2026, &#224;s 10 h., ter&#225; lugar mais um &#171;S&#225;bado Pedag&#243;gico&#187;, do N&#250;cleo Regional do Porto do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM). Como tem sido habitual, tamb&#233;m eu estarei presente como uma comunica&#231;&#227;o intitulada: &#171;O MEM como esteio de uma Escola Democr&#225;tica e inclusiva&#187; que exprime o meu modo de contribuir para a celebra&#231;&#227;o dos 60 anos deste movimento.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi em 1966 que tudo come&#231;ou com a constitui&#231;&#227;o do Grupo de Trabalho de Promo&#231;&#227;o Pedag&#243;gica, do qual faziam parte S&#233;rgio Niza, Isabel Pereira e Rosalina Gomes de Almeida, no &#226;mbito de um dos cursos de Aperfei&#231;oamento Profissional, coordenado por Rui Gr&#225;cio, no Sindicato Nacional de Professores. 10 anos depois, j&#225; em 1976, faz este ano 50 anos, o Movimento da Escola Moderna Portuguesa &#233; formalmente registado como uma associa&#231;&#227;o pedag&#243;gica de professores.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; sobre a hist&#243;ria do MEM que irei falar, aproveitando o facto de, tamb&#233;m este ano, ter sido publicado um livro, o &#171;Esteios&#187; (Trindade, Lopes, Ferreira &amp; Pinto, 2025), onde se homenageiam mulheres e homens que, por via das suas obras e reflex&#245;es, contribu&#237;ram para a democratiza&#231;&#227;o do sistema educativo portugu&#234;s.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nesse livro apresentam-se 82 biografias breves de gente proveniente dos mais diversos campos de atua&#231;&#227;o e &#225;reas do sabe que foram designados como &#8220;esteios&#8221; porque sem eles a nossa vida pessoal e coletiva teria sido certamente diferente. Da&#237; que mais do que um exerc&#237;cio para a constru&#231;&#227;o de uma mem&#243;ria futura, o que se produziu foi um exerc&#237;cio de justi&#231;a hist&#243;rica atrav&#233;s do qual celebramos as vidas daquelas e daqueles que nos mostraram que &#233; poss&#237;vel e necess&#225;rio viver num mundo e numa escola mais democr&#225;ticos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi atrav&#233;s desse livro que me deparei com o facto do MEM se encontrar representado no mesmo atrav&#233;s de catorze biografias. Umas que t&#234;m a ver com figuras de refer&#234;ncia do movimento, outras que dizem respeito a pessoas que foram companheiros de jornada do movimento e outras, ainda, que s&#227;o as biografias de associadas do movimento, as quais contribu&#237;ram que este exista da forma como existe.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que se conclui &#233; que o MEM, s&#243; por si, constitui um esteio que 60 anos depois da sua cria&#231;&#227;o merece e tem de ser celebrado, enquanto movimento pedag&#243;gico que det&#233;m, e uso as palavras de Ant&#243;nio N&#243;voa para o dizer, um dos mais importantes capitais &#8220;de &#8216;reflex&#227;o na pr&#225;tica e sobre a pr&#225;tica&#8217; dispon&#237;vel no sistema educativo&#8221; portugu&#234;s.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sendo a entrada livre, sintam-se convidados para aparecer na Faculdade de Psicologia e de Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o da Universidade do Porto no pr&#243;ximo s&#225;bado, 20 de junho de 2026, &#224;s 10 h.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Trindade, Rui; Lopes, Am&#233;lia; Ferreira, Daniela; Pinto, Daniela (2025). </span><em><span>Esteios. </span></em><span>Porto: UPorto Press</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Em jeito de despedida...]]></title><description><![CDATA[[Partilho este texto que escrevi h&#225; uns anos atr&#225;s.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/em-jeito-de-despedida</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/em-jeito-de-despedida</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 13 Jun 2026 07:39:02 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/68dd0a3b-bfad-4bc7-8252-a5108cf8f7e3_333x336.bmp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>[Partilho este texto que escrevi h&#225; uns anos atr&#225;s. &#201; o texto que vou enviar &#224;s alunas e aos alunos que me acompanharam no ano letivo que agora se encerra, o &#250;ltimo que vivi como professor, j&#225; que os pr&#243;ximos ser&#227;o vividos na condi&#231;&#227;o de av&#244;]</strong></p><p style="text-align: justify;">&#201; pena que em abril, quando iniciarmos a reflex&#227;o sobre a rela&#231;&#227;o pedag&#243;gica como tem&#225;tica estruturante da disciplina de Psicologia da Educa&#231;&#227;o, j&#225; tenhamos esquecido o que se passou em fevereiro, no primeiro dia de aulas. Se f&#244;ssemos capazes de evocar esse primeiro encontro, talvez poup&#225;ssemos muito do tempo que gastamos em conversas sobre o inef&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">A hesita&#231;&#227;o &#224; porta, os olhares que se cruzam, a procura de um lugar resguardado. Recordo-os pela incomodidade que pressinto nas pessoas que v&#227;o entrando. S&#227;o momentos de comunica&#231;&#227;o intensa, tecidos atrav&#233;s de gestos e murm&#250;rios que o ritual da apresenta&#231;&#227;o obscurece. A apresenta&#231;&#227;o do programa de trabalho da disciplina nunca me pareceu suscitar, at&#233; hoje, mais do que uma ou outra quest&#227;o de circunst&#226;ncia ou, quando muito, alguns sinais de assentimento. As rea&#231;&#245;es de oposi&#231;&#227;o t&#233;nue, a existirem, guardam-se para a discuss&#227;o acerca do processo de avalia&#231;&#227;o, sobre as op&#231;&#245;es que t&#234;m ao seu dispor e os crit&#233;rios em fun&#231;&#227;o dos quais ser&#225; julgada a sua presta&#231;&#227;o acad&#233;mica. &#201; este, usualmente, o momento mais tenso do primeiro dia de aulas. Tens&#227;o que julgo ser equivalente ao reconhecimento dos constrangimentos curriculares, pedag&#243;gicos e institucionais a que se encontram sujeitos, os quais, quantas vezes, s&#227;o romanticamente ignorados ou oportunamente entendidos como a express&#227;o da incongru&#234;ncia de uma licenciatura com fama de rousseauniana. O ar surpreendido de alguns dos meus interlocutores parece confirmar a exatid&#227;o desta tese, sobretudo se pertencerem ao grupo daqueles que, nos corredores, possam ter ouvido que n&#227;o se preocupassem muito comigo porque eu era um <em>gajo porreiro</em>. O que, neste caso, tanto pode ser traduzido por um tipo a quem facilmente se d&#225; a volta, como significar, espero, que sou algu&#233;m suficientemente compreensivo, dispon&#237;vel para os aturar e interessado em criar as melhores condi&#231;&#245;es para que todos possam carpinteirar a cadeira que leciono.</p><p style="text-align: justify;">O primeiro dia de aulas n&#227;o &#233;, assim, um dia t&#227;o f&#225;cil como, por vezes, alguns colegas meus d&#227;o a entender. Temos que nos expor, criamos e defraudamos expectativas, nem sempre somos entendidos, nem sempre sabemos fazer-nos entender. N&#227;o tenho, por isso, grandes conselhos a dar sobre os primeiros dias. Resguardem-se? Exponham-se? N&#227;o fa&#231;o ideia. Sei, apenas, que &#233; um dia em que se inicia um jogo que n&#227;o podemos recusar jogar. Professores e alunos. N&#227;o nos conhecemos. N&#227;o nos escolhemos. N&#227;o nos encontramos numa institui&#231;&#227;o e num mundo onde os padr&#245;es relacionais n&#227;o se encontram prefigurados de forma t&#227;o definitiva como alguns tanto desejariam. E ainda bem, acrescento eu, porque nos permite assumir de forma mais plena a nossa condi&#231;&#227;o de seres humanos. Com todos s riscos, devo refor&#231;ar, que s&#227;o inerentes a uma situa&#231;&#227;o, quantas vezes, subavaliada, do ponto de vista das rela&#231;&#245;es de poder em presen&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Anos houve em que costumava ler para os meus alunos, nos nossos primeiros dias de aulas, o c&#233;lebre texto de Sebasti&#227;o da Gama sobre um outro primeiro dia numa escola onde o poeta havia sido professor. Nunca mais voltei a faz&#234;-lo. Aprendi, entretanto, que as salas de aula n&#227;o t&#234;m de ser para&#237;sos terreais. S&#227;o espa&#231;os de a&#231;&#227;o de intera&#231;&#227;o, institucionalmente configurados, e pass&#237;veis de ser humanamente recriados. Para isso, n&#227;o precisamos de ser anjos, mas apenas homens e mulheres dispostos a dialogar, a confrontar-se, a descobrir-se e a trabalhar em conjunto todos os dias que um qualquer primeiro dia, algures, iniciou. N&#227;o temos de nos tornar amigos, mas poderemos usufruir da mutualidade da nossa presen&#231;a. N&#227;o &#233; obrigat&#243;ria a aus&#234;ncia dos conflitos despropositados, mas estes podem acontecer, tal como os mal-entendidos, os julgamentos preconceituosos ou o desprazer em certos momentos passados em comum.</p><p style="text-align: justify;">Tudo isto &#233; poss&#237;vel, se estivermos dispon&#237;veis para reconhecer qual &#233; a nossa quota parte na eclos&#227;o de tais ocorr&#234;ncias e como o ambiente relacional se rarefaz se n&#227;o tentarmos enfrentar os problemas que a cada um e a todos diz respeito, assumindo-se o que se tiver e puder assumir.</p><p style="text-align: justify;">Enfim, n&#227;o h&#225; primeiros dias de aulas decisivos, como se fossem os primeiros dias do resto das nossas vidas. Estes, na verdade, s&#243; acontecem quando cada beb&#233;, chorando a plenos pulm&#245;es, reivindica a sua presen&#231;a no mundo que lhe oferecemos.</p><p style="text-align: justify;">Mas se um primeiro dia de aulas n&#227;o &#233; decisivo, isso n&#227;o significa que &#233; in&#250;til. Foi sempre o come&#231;o de algo que, para mim, que sou professor, l&#225; foi alimentando a minha vida. E &#233; isto que vos quero agradecer, porque sem a vossa presen&#231;a, enquanto estudantes, esta vida n&#227;o seria t&#227;o significativa como, na verdade, o foi, tanto este ano como ao longo de todos os anos em que veti a pele de professor. Obrigado.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Celebrar Camões]]></title><description><![CDATA[50 anos depois do 25 de abril, e apesar de no dia 10 de junho se ter passado a celebrar Cam&#245;es, como um poeta cosmopolita, associando-o &#224; di&#225;spora portuguesa, h&#225; quem continue a associar o poeta ao dia da Ra&#231;a, tal e qual o regime ditatorial, de Salazar e Caetano, o tentou consagrar.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/celebrar-camoes</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/celebrar-camoes</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 10 Jun 2026 09:54:13 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9f4e85d5-e6bf-4cb5-af82-91409a40d9c3_364x599.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h1 style="text-align: justify;">50 anos depois do 25 de abril, e apesar de no dia 10 de junho se ter passado a celebrar Cam&#245;es, como um poeta cosmopolita, associando-o &#224; di&#225;spora portuguesa, h&#225; quem continue a associar o poeta ao dia da Ra&#231;a, tal e qual o regime ditatorial, de Salazar e Caetano, o tentou consagrar.</h1><p style="text-align: justify;">Os Lus&#237;adas nem s&#227;o o livro que olha para os portugueses como o povo eleito, nem t&#227;o pouco podem ser um objeto a equiparar &#224; narrativa lusotropicalista que o antr&#243;pologo brasileiro Gylberto Freire difundiu e que o salazarismo aproveitou.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; muitos anos, para o meu grupo de amigos que ficava a conversar na esquina da Rua Aires Ornelas, antes de cada um dispersar para casa, os Lus&#237;adas eram um supl&#237;cio. T&#237;nhamos de recitar de cor a primeira estrofe, sem nos explicarem sequer o que era a Taprobana, e, acima de tudo, sent&#237;amos que jog&#225;vamos &#224; roleta russa quando &#233;ramos chamados a classificar as ora&#231;&#245;es, o exerc&#237;cio que, para muitos de n&#243;s, seria a &#250;nica (in)utilidade dos Lus&#237;adas.</p><p style="text-align: justify;">At&#233; que um dia, o professor de portugu&#234;s, M&#225;rio Fi&#250;za, nos proibiu de ler o canto IX. Bendita proibi&#231;&#227;o. Diria mesmo, pelo que hoje sei desse professor, que foi uma proibi&#231;&#227;o estrat&#233;gica, intencional e inteligente. Fora a j&#225; referida estrofe, foi a &#250;nica coisa de &#171;Os Lus&#237;adas&#187; que o grupo de estudos informal de Aires Ornelas se dignou a ler do princ&#237;pio ao fim. A ilha dos amores e os marinheiros a correr atr&#225;s de ninfas nuas, confesso que n&#227;o tiveram para n&#243;s a import&#226;ncia que seria expect&#225;vel. Para isso, ter&#237;amos de ter tido algu&#233;m que nos ajudasse a penetrar no poema, a desej&#225;-lo, a compreend&#234;-lo. S&#243; que isso n&#227;o era poss&#237;vel, n&#227;o s&#243; essas preocupa&#231;&#245;es se encontravam ausentes dos liceus portugueses, como o canto IX era mesmo um canto que os professores estavam proibidos de abordar.</p><p style="text-align: justify;">Por sua vez, a l&#237;rica camoniana, como de resto toda a literatura que se trabalhava nas escolas, n&#227;o era coisa que era pensada para nos entusiasmar. S&#243; o filme do Leit&#227;o de Barros, que devo ter visto na televis&#227;o, sobre o poeta &#233; que teve algum efeito em mim. Apesar de ser uma obra do Estado Novo, com uma marca ideol&#243;gica que n&#227;o se dissimulava, mostrou-me, mesmo que essa n&#227;o fosse a sua inten&#231;&#227;o, um outro Cam&#245;es. Aquele a quem Carlos T&#234;, justamente, se refere, num texto publicado no dia 16 de maio, no JN. Para ele, o Cam&#245;es que o come&#231;ou a interessar era o poeta andarilho. O poeta que foi soldado, que esteve em Ceuta, em Macau, nos lugares desconhecidos que tinham acabado de ser cartografados. Escreve ele que foi isso que lhe chamou a aten&#231;&#227;o, <em>&#8220;muito mais do que o Cam&#245;es da escrita, que ent&#227;o considerava um bocado chata para os padr&#245;es que ia seguindo ao n&#237;vel da poesia, que era o pessoal da Beat Generation. Sendo que o seu peso institucional tamb&#233;m me incomodava um bocado, porque Cam&#245;es teve um peso institucional muito elaborado e muito apropriado pelo Estado Novo. Isso durou bastante tempo at&#233; olhar para Cam&#245;es como outra pessoa, o lado do her&#243;i, do vagabundo escritor, uma esp&#233;cie de Jack Kerouac do s&#233;culo XVI portugu&#234;s. Isso interessou-me muito mais do que o Cam&#245;es que era dado na escola, do qual eu e muita gente fug&#237;amos&#8221;.</em></p><p style="text-align: justify;">Por isso &#233; que confessa que <em>&#8220;mais do que o seu valor intr&#237;nseco liter&#225;rio, apaixonou-me muito mais a figura, o lado recalcitrante, de algu&#233;m que est&#225; sempre em guerras com o poder, se calhar, muitas vezes, pelas raz&#245;es erradas&#8221;.</em></p><p style="text-align: justify;">&#201; este Cam&#245;es que, no dia 10 de junho celebro, aquele que Carlos T&#234; acaba por consagrar, atrav&#233;s da m&#250;sica e da voz de Rui Veloso numa can&#231;&#227;o, &#171;M&#225; Fortuna&#187;, que se encontra publicada no &#225;lbum &#171;Auto da Pimenta&#187;. Nessa can&#231;&#227;o, sentado no Cabo de Guardafui, o mais oriental do continente africano, Lu&#237;s Vaz de Cam&#245;es &#233; posto a refletir sobre a sua vida, pelo poeta e pelo m&#250;sico.</p><p style="text-align: justify;">&#201; a&#237; que confessa que &#8220;<em>S&#243; me deu p&#8217;ra dizer n&#227;o / Em tempo de dizer sim / Tamb&#233;m na mesma moeda / O mundo me paga a mim&#8221; </em>Por isso &#233; que <em>&#8220;ando estrada fora / Como um bardo vagabundo / Desisti de ver a hora / De ficar de bem com o mundo&#8221;. </em><br> &#201; tamb&#233;m a&#237; que reconhece, como tanta gente por esse Portugal fora, <em>&#8220;Como este Cabo t&#227;o triste/ Pedregoso e sem verdura/ Assim minha vida existe/ Marcada p&#8217;la desventura&#8221;, </em>acabando, ent&#227;o, por perguntar &#224; musa e aos deuses porque que isso acontece, que lhe respondem que &#8220;<em>&#233; s&#243; M&#225; fortuna e erros m&#1077;us&#8221;.</em></p><p style="text-align: justify;">Ser&#225;? Ser&#225; que os pacotes laborais impostos pelo governo da AD e pelas associa&#231;&#245;es patronais n&#227;o t&#234;m nada a ver com isso?<br><br><br></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A deriva pedagógica processualista e a interdisciplinaridade]]></title><description><![CDATA[Pode considerar-se que, no &#226;mbito do Decreto-Lei n&#186; 55/2018, os &#171;Dom&#237;nios de Autonomia Curricular&#187; (vulgo DAC), enquanto &#225;reas de conflu&#234;ncia de trabalho interdisciplinar e ou de articula&#231;&#227;o curricular, ocupam um lugar estrat&#233;gico nesse decreto-lei.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/a-deriva-pedagogica-processualista</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/a-deriva-pedagogica-processualista</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 06 Jun 2026 06:05:46 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/497256d5-bb59-413b-9bd2-7c91ffa39310_520x271.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Pode considerar-se que, no &#226;mbito do Decreto-Lei n&#186; 55/2018, os &#171;Dom&#237;nios de Autonomia Curricular&#187; (vulgo DAC), enquanto &#225;reas de conflu&#234;ncia de trabalho interdisciplinar e ou de articula&#231;&#227;o curricular, ocupam um lugar estrat&#233;gico nesse decreto-lei. A possibilidade das escolas passarem a poder gerir, total ou parcialmente, de forma interdisciplinar os tempos destinados &#224;s &#225;reas disciplinares e disciplinas, evidencia a import&#226;ncia de, atrav&#233;s dos DAC , se promover uma abordagem interdisciplinar do conhecimento, enquanto condi&#231;&#227;o fundamental da realiza&#231;&#227;o de aprendizagens culturalmente significativas.</p><p style="text-align: justify;">Trata-se de uma das dimens&#245;es mais promissoras das pol&#237;ticas curriculares atuais, mesmo que se reconhe&#231;a que nos confronta com um dos desafios mais decisivos e complexos que as escolas e os professores t&#234;m de realizar e de aprender, ainda, a realizar. Do pouco que se sabe sobre o que tem vindo a ser feito, sabe-se, no entanto, que a deriva processualista, que tenho vindo a denunciar nos &#250;ltimos textos publicados neste blogue, &#233; um dos problemas que mais afeta a realiza&#231;&#227;o de iniciativas relacionadas com os DAC. Estamos, mais uma vez, perante uma situa&#231;&#227;o onde o<em><strong> como ensinar</strong></em> prevalece sobre <em><strong>o que ensinar</strong></em>, derivada da exalta&#231;&#227;o de um tipo de ativismo inconsequente que se atribui aos alunos para que estes se possam reconciliar, por esta via, com a Escola, mesmo que isso acabe por implicar que seja posta em causa a possibilidade desta institui&#231;&#227;o educativa se afirmar e construir como um espa&#231;o de empoderamento cultural.</p><p style="text-align: justify;">Por isso &#233; que neste texto volto &#224; discuss&#227;o sobre os efeitos nefastos da deriva processualista, debru&#231;ando-me sobre as implica&#231;&#245;es da mesma ao n&#237;vel dos projetos que valorizam a dimens&#227;o interdisciplinar do conhecimento depois de, no texto anterior a este, ter tentado evidenciar as consequ&#234;ncias de uma tal deriva no campo do ensino experimental das ci&#234;ncias.</p><p style="text-align: justify;">Mais uma vez, o exemplo que tenho para partilhar diz respeito ao 1&#186; CEB e relaciona-se com um conjunto de iniciativas que, tendo como fonte de inspira&#231;&#227;o o modelo STEM (Science-Technology-Engineering-Mathematics), visa propor experi&#234;ncias acad&#233;micas que encontram nas TIC e numa abordagem interdisciplinar de algumas daquelas &#225;reas, os eixos em fun&#231;&#227;o dos quais se alicer&#231;am as atividades que se prop&#245;em, vistas como oportunidade para que os alunos possam realizar aprendizagens culturalmente significativas.</p><p style="text-align: justify;">Dessas atividades, selecionei, apenas, uma, designada por: &#171;Itiner&#225;rios - Da nossa escola at&#233; &#224; Sala do Futuro&#187;, onde se prop&#245;e que as crian&#231;as analisem itiner&#225;rios entre a sua escola e a escola sede do Agrupamento. Trata-se de um projeto que visa articular a &#225;rea de &#171;Matem&#225;tica&#187; com a &#225;rea de &#171;Estudo do Meio&#187;, o qual come&#231;a com uma discuss&#227;o pr&#233;via sobre aqueles itiner&#225;rios, depois dos alunos analisarem tr&#234;s itiner&#225;rios que lhes s&#227;o propostos, de forma a enunciarem as vantagens e as desvantagens de cada um deles. Ap&#243;s este momento, as crian&#231;as v&#227;o realizar esses percursos, para verificar se as suas perce&#231;&#245;es est&#227;o corretas, utilizando diferentes instrumentos de medida: (i) um ped&#243;metro (aplica&#231;&#227;o no <em>tablet</em>); (ii) um od&#243;metro de roda e (iii) um GPS integrado no <em>tablet</em>. Para al&#233;m disso, sabe-se que nos <em>tablets</em>, os alunos tinham acesso ao <em>Google Forms</em>, para resolverem tr&#234;s problemas de matem&#225;tica, ao <em>Google Keep</em>, para registar fotografias, e ao <em>Google Earth</em>. Sabe-se tamb&#233;m que no decorrer dos percursos estes mesmos alunos tinham tarefas a realizar. No posto da GNR assistiram a uma palestra sobre quest&#245;es de seguran&#231;a com elementos da &#171;Escola Segura&#187;; na Biblioteca Municipal tiveram de arrumar 20 livros em 4 prateleiras, de forma a explorar os n&#250;meros fracion&#225;rios, para al&#233;m de terem de requisitar, ainda, um livro relacionado com a cidade onde viviam, de forma a identificar datas, figuras e acontecimentos importantes; no campo de futebol, finalmente, tinham de fazer medi&#231;&#245;es e calcular o per&#237;metro do campo. Quando terminassem, retornavam &#224; sala de aula onde teriam de explicar o modo como resolveram os problemas e refletirem sobre as atividades realizadas.</p><p style="text-align: justify;">Avaliando-se o conjunto das iniciativas enunciadas pode considerar-se que h&#225; momentos pertinentes, do ponto de vista formativo, como &#233; o caso das proje&#231;&#245;es iniciais sobre os itiner&#225;rios e o processo posterior de verifica&#231;&#227;o das mesmas, tal como h&#225; momentos cujo significado nos escapa, os quais t&#234;m a ver com as tarefas que foram realizadas na Biblioteca Municipal ou no campo de futebol,</p><p style="text-align: justify;">Em termos da dimens&#227;o interdisciplinar da iniciativa, estamos perante um projeto fracassado, uma vez que o que se realiza &#233;, apenas e sobretudo, uma a&#231;&#227;o de consolida&#231;&#227;o da capacidade das crian&#231;as aplicarem conhecimentos matem&#225;ticos, colocando-as perante alguns desafios carentes de sentido. Entre ter se utilizar n&#250;meros fracion&#225;rios para resolver exerc&#237;cios do manual ou para arrumar livros nas estantes, parece-me que, apesar de tudo, h&#225; mais condi&#231;&#245;es do manual confrontar os alunos com situa&#231;&#245;es matematicamente plaus&#237;veis do que face ao exerc&#237;cio realizado na biblioteca. O que se constata &#233; que se sacrifica uma rela&#231;&#227;o consequente entre as crian&#231;as e o conhecimento para se propor uma iniciativa que visava, sobretudo, suscitar a sua atividade.</p><p style="text-align: justify;">Ainda que se possa alegar que o problema n&#227;o tem a ver com o desejo de suscitar o protagonismo dos alunos, mas com o facto de se confundir interdisciplinaridade com justaposi&#231;&#227;o disciplinar, o que se verifica &#233; que tanto este equ&#237;voco como a valoriza&#231;&#227;o da atividade como um fim em si mesmo, exprimem ambos a aus&#234;ncia de uma reflex&#227;o epistemol&#243;gica e concetual cuidada. Se esta tivesse acontecido, provavelmente n&#227;o estar&#237;amos perante uma iniciativa que se desenvolve, a partir de dado momento, atrav&#233;s de exerc&#237;cios aleat&#243;rios e inconsequentes.</p><p style="text-align: justify;">E porque &#233; que isso aconteceu? Porque se imp&#245;e uma no&#231;&#227;o de atividade dos alunos que &#233; circunscrita ao exerc&#237;cio tang&#237;vel de uma a&#231;&#227;o, como se bastasse &#224;s crian&#231;as movimentarem-se fora da sala de aula para que a atividade fosse considerada culturalmente significativa. O que importa reter &#233; que nas situa&#231;&#245;es educativas que envolvem crian&#231;as, a condi&#231;&#227;o da sua atividade tende a constituir como uma justifica&#231;&#227;o decisiva da deriva processualista, como se qualquer atividade, independentemente do tipo de conhecimento que &#233; mobilizado ou apropriado, garantisse, por si s&#243;, &#224;s crian&#231;as a possibilidade de aprenderem.</p><p style="text-align: justify;">No meio disto tudo, salva-se o modo como as aplica&#231;&#245;es dos tablets s&#227;o utilizadas. Neste caso, a sua import&#226;ncia e plausibilidade tem a ver com o facto de serem utilizadas como ferramentas. &#201; a sua instrumentalidade que lhes confere sentido, ainda que seja fundamental reconhecer que n&#227;o s&#227;o aqueles instrumentos que conferem sentido ao projeto analisado.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O direito de calar]]></title><description><![CDATA[&#8220;O homem constr&#243;i casas porque est&#225; vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-calar</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-calar</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 03 Jun 2026 07:32:01 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a4b63739-c208-410c-bec0-07ec3979e32b_227x344.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;O homem constr&#243;i casas porque est&#225; vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vive em grupo porque &#233; greg&#225;rio, mas l&#234; porque se sabe s&#243;. Essa leitura &#233; para ele uma companhia que n&#227;o ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. Ela n&#227;o lhe oferece qualquer explica&#231;&#227;o definitiva sobre o seu destino, mas tece uma trama cerrada de coniv&#234;ncias entre a vida e ele. &#205;nfimas e secretas coniv&#234;ncias que falam da paradoxal felicidade de viver, enquanto elas mesmas deixam claro o tr&#225;gico absurdo da vida. De tal forma que nossas raz&#245;es para ler s&#227;o t&#227;o estranhas quanto nossas raz&#245;es para viver. E a ningu&#233;m &#233; dado o poder para pedir contas dessa intimidade&#8221; (Pennac, 2008, p. 150).</p><p style="text-align: justify;">Por isso, &#233; que Pennac agradece aos adultos que o pouparam &#224;s perguntas sobre o que ele havia compreendido depois de ler os livros que eles lhe foram oferecendo, mesmo que, como ele pr&#243;prio confessa, a &#8220;esses, claro, eu costumava falar das minhas leituras&#8221; (ibidem). Os mesmos a quem, vivos ou mortos, acabou por dedicar a reflex&#227;o que foi partilhando sobre os direitos do leitor que, ao longo destas semanas, fui aconchegando neste blogue.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Pennac, Daniel (2008). <em>Como um romance</em>. Porto Alegre: L&amp;PM Editores.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[As crianças como cientistas em miniatura: Sobre a deriva curricular e pedagógica processualista]]></title><description><![CDATA[Os &#250;ltimos textos que tenho vindo a publicar neste blogue t&#234;m sido dedicados a mostrar como a deriva pedag&#243;gica processualista tem vindo a afetar negativamente a reflex&#227;o educativa sobre os projetos de inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica no campo da educa&#231;&#227;o escolar.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/as-criancas-como-cientistas-em-miniatura</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/as-criancas-como-cientistas-em-miniatura</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 30 May 2026 07:29:55 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/aa0c9e3b-2cb2-44ab-8c16-78dd3c1470f4_192x205.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os &#250;ltimos textos que tenho vindo a publicar neste blogue t&#234;m sido dedicados a mostrar como a deriva pedag&#243;gica processualista tem vindo a afetar negativamente a reflex&#227;o educativa sobre os projetos de inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica no campo da educa&#231;&#227;o escolar.</p><p style="text-align: justify;">No &#250;ltimo desses textos avan&#231;o, &#224; laia de hip&#243;tese que visa explicar a sedu&#231;&#227;o crescente de uma tal deriva, chamei a aten&#231;&#227;o para a dicotomia insensata que se estabelece entre, por um lado, as preocupa&#231;&#245;es sobre o <em><strong>como</strong></em> <em><strong>ensinar</strong></em> e o <em><strong>que ensinar</strong></em> e, por outro, no facto de se privilegiar &#8220;o <em><strong>como</strong></em> em vez do <em><strong>qu&#234;</strong></em>, como se o <em><strong>como</strong></em> n&#227;o fosse determinado pelo <em><strong>qu&#234;</strong></em>&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">Esta &#233; uma perspetiva com que me deparei, na sua vers&#227;o mais extrema, quando ouvi, h&#225; uns anos, um colega, na altura professor do Ensino Prim&#225;rio, afirmar que n&#227;o lhe interessava se os resultados obtidos pelos seus alunos em Matem&#225;tica estavam, ou n&#227;o, corretos, j&#225; que a sua prioridade era, apenas, a de tentar valorizar o modo como eles raciocinavam. Porque &#233; que as crian&#231;as t&#234;m de raciocinar se &#233; indiferente os resultados que decorrem dessa atividade cognitiva? Foi esta a pergunta que passei a enunciar, sempre que ou&#231;o algu&#233;m menosprezar a import&#226;ncia do conhecimento culturalmente validado como combust&#237;vel que alimenta o ato de pensar.</p><p style="text-align: justify;">Esta perspetiva, a de conferir import&#226;ncia &#224; atividade cognitiva e socioemocional dos alunos como condi&#231;&#227;o subordinante das aprendizagens significativas a realizar nas escolas, &#233; um problema que, hoje, decidi discutir, recorrendo a um estudo realizado por um estudante que eu orientei no &#226;mbito dos trabalhos conducentes &#224; elabora&#231;&#227;o da sua disserta&#231;&#227;o de mestrado. Neste estudo, Diogo Faria, o seu autor, analisou quatro projetos relacionados com o ensino experimental das ci&#234;ncias no 1&#186; ciclo do Ensino B&#225;sico, identificando que a maior preocupa&#231;&#227;o, no dom&#237;nio em causa, se circunscrevia &#224; capacita&#231;&#227;o dos alunos &#8220;para utilizarem os procedimentos heur&#237;sticos pr&#243;prios das &#225;reas ci&#234;ncias&#8221; (Faria, 2022, p. 84). Trata-se de uma tend&#234;ncia que Cachapuz, Praia e Jorge (2002) identificam com o &#171;Modelo de Ensino pela Descoberta&#187;, onde se parte do princ&#237;pio que, para aprender ci&#234;ncias, seria necess&#225;rio, apenas, que os alunos aprendessem a observar, analisar e discutir os fen&#243;menos em estudo. Um modelo que, de acordo com Manuel Rangel, assenta no &#8220;mito da crian&#231;a como &#8216;pequeno cientista&#8217; (Henriques, 1998, p. 22), onde a aprendizagem do m&#233;todo experimental, s&#243; por si, conduziria os alunos &#8220;&#224; &#8216;descoberta e a produzir ci&#234;ncia&#8217; ou seja, a obter resultados equivalentes aos dos cientistas&#8221; (ibidem). Trata-se de um modelo onde, segundo Cachapuz, Praia e Jorge (2002), prevalece &#8220;uma imagem empirista/indutivista do trabalho dos cientistas&#8221; (p. 148), o qual fomenta a ilus&#227;o de que basta respeitar as etapas do m&#233;todo cient&#237;fico para se cumprir um programa de ensino experimental das ci&#234;ncias.</p><p style="text-align: justify;">Como se constata, estamos perante uma perspetiva que evidencia claramente as vulnerabilidades da deriva processualista, no &#226;mbito da qual o desenvolvimento dos procedimentos heur&#237;sticos &#233; visto como uma finalidade independente da apropria&#231;&#227;o dos quadros concetuais de refer&#234;ncia, em fun&#231;&#227;o dos quais se configuram os desafios curriculares relacionados com a &#225;rea das ci&#234;ncias.</p><p style="text-align: justify;">A boa not&#237;cia &#233; que tamb&#233;m h&#225; projetos na mesma &#225;rea que, devido ao maior discernimento epistemol&#243;gico que d&#227;o mostras, oferecem alternativas cred&#237;veis para reconfigurar o protagonismo do alunos como um protagonismo culturalmente consequente e esclarecido. &#201; o caso do Programa de Forma&#231;&#227;o em Ensino Experimental das Ci&#234;ncias (PFEEC) que, n&#227;o se confinando &#224; utiliza&#231;&#227;o exclusiva do m&#233;todo experimental, se carateriza quer pela diversidade de tarefas que os alunos s&#227;o chamados a realizar (trabalhos pr&#225;ticos, trabalhos laboratoriais e trabalhos experimentais), quer pela intencionalidade epistemol&#243;gica e concetual subjacente ao tipo de articula&#231;&#227;o que se estabelece entre estes diferentes tipos de trabalhos, quer pela amplitude e pluralidade das atividades que s&#227;o propostas, relacionadas com a flutua&#231;&#227;o de l&#237;quidos; dissolu&#231;&#227;o em l&#237;quidos; sementes, germina&#231;&#227;o e crescimento; sombras e imagens; l&#226;mpadas, pilhas e circuitos; mudan&#231;as de estado f&#237;sico; sustentabilidade na terra; a complexidade do corpo humano.</p><p style="text-align: justify;">Transita-se de uma iniciativa que rompe com os programas de ensino experimental das ci&#234;ncias centrado em atividades casu&#237;sticas e pensado para que os alunos aprendam a utilizar o m&#233;todo cient&#237;fico, de forma a propor, em alternativa, um programa coerente de atividades que exigem abordagens metodol&#243;gicas diversificadas, com o prop&#243;sito mais amplo de promover o desenvolvimento da literacia cient&#237;fica das crian&#231;as. O papel dos professores altera-se, de uma vis&#227;o facilitadora da atividade docente que, algumas vezes, ainda cai na tenta&#231;&#227;o de confinar as aprendizagens em ci&#234;ncias aos alegados interesses dos alunos, para uma abordagem em que os professores s&#227;o vistos como interlocutores qualificados (Cosme, 2009), cuja intencionalidade formativa n&#227;o s&#243; n&#227;o desvaloriza os alunos como produtores de significados, como, acima de tudo, constitui um contributo para potenciar um tal des&#237;gnio.</p><p style="text-align: justify;">Por isso &#233; que o dissociar o <em><strong>como</strong></em> do <em><strong>qu&#234;</strong></em>, no dom&#237;nio da reflex&#227;o e da a&#231;&#227;o educativas, &#233; um problema que n&#227;o pode ser ignorado e que a abordagem processualista tem de deixar de ser vista como a refer&#234;ncia das iniciativas preocupadas com a inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias</strong></p><p style="text-align: justify;">Cachapuz, Ant&#243;nio, Praia, Jo&#227;o e Jorge, Manuela (2002). <em>Ci&#234;ncia, Educa&#231;&#227;o em Ci&#234;ncia e Ensino das Ci&#234;ncias</em>. Lisboa: Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Cosme, Ariana (2009). <em>Ser professor: A a&#231;&#227;o docente como uma a&#231;&#227;o de interlocu&#231;&#227;o qualficada. </em>Porto: LivPSic</p><p style="text-align: justify;">Faria; Diogo (2022). <em>Literacia cient&#237;fica no 1&#186; CEB: Implica&#231;&#245;es epistemol&#243;gicas, pedag&#243;gicas e pr&#225;ticas</em>. Porto: FPCEUP (disserta&#231;&#227;o de mestrado).</p><p style="text-align: justify;">Henriques, Manuel Rangel (1998). <em>Concep&#231;&#245;es de professores sobre o ensino das &#171;grandezas e medidas&#187; no 1&#186; Ciclo do Ensino B&#225;sico: Contributo para o conhecimento do pensamento profissional dos professores do 1&#186; Ciclo em Portuga</em>l. Aveiro: Universidade de Aveiro: Departamento de Did&#225;ctica e Tecnologia Educativa (disserta&#231;&#227;o de mestrado).</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O direito de ler em voz alta]]></title><description><![CDATA[&#8220;(...) - Em casa, quando voc&#234; era pequena, liam hist&#243;rias em voz alta?]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-ler-em-voz-alta-ace</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-ler-em-voz-alta-ace</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 27 May 2026 09:35:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a04c97a7-6897-4921-bdf8-123ed5812851_259x259.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;(...)</em></p><p><em>- Em casa, quando voc&#234; era pequena, liam hist&#243;rias em voz alta?</em></p><p><em>Ela responde-me:</em></p><p><em>- Nunca. O meu pai estava muitas vezes ausente e a minha ocupada demais.</em></p><p><em>Eu pergunto-lhe:</em></p><p><em>- Ent&#227;o, de onde &#233; que vem esse seu gosto pela leitura em voz alta?</em></p><p><em>- Da escola.</em></p><p><em>Feliz por escutar algu&#233;m algu&#233;m reconhecer um tal m&#233;rito &#224; escola, exclamo, todo contente:</em></p><p><em>- Ah! Afinal...</em></p><p style="text-align: justify;"><em>- Nada disso. A escola nos proibia a leitura em voz alta. Leitura silenciosa, j&#225; era o credo da &#233;poca. Do olho direto ao c&#233;rebro. Transcri&#231;&#227;o instant&#226;nea. Rapidez, efici&#234;ncia. Com um teste de compreens&#227;o a cada dez linhas. A religi&#227;o da an&#225;lise e do coment&#225;rio, sempre! A maior parte das crian&#231;as morria de medo e isso era s&#243; o come&#231;o! Todas as minhas respostas eram boas, se voc&#234; quer saber, mas voltando para casa eu relia tudo em voz alta.</em></p><p style="text-align: justify;"><em>- Porqu&#234;?</em></p><p style="text-align: justify;"><em>- Pelo encantamento. As palavras pronunciadas passavam a existir fora de mim, elas viviam de verdade. E depois, parecia que era um ato de amor. Que era mesmo amor. (...). Deitava as minhas bonecas na cama, no meu lugar, e lia para elas. (...).</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Escuto-a e parece que estou escutando Dylan Thomas, b&#234;bado como o desespero, lendo os seus poemas, com a sua voz de catedral...</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Escuto-a e parece que estou vendo Dickens, ossudo e p&#225;lido, t&#227;o perto da morte, subir para o palco... o seu p&#250;blico de analfabetos, de repente petrificado, silencioso ao ponto de se escutar o livro a abrir... Oliver Twist... a morte de Nancy... &#233; a morte de Nancy que ele vai ler para n&#243;s!</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Escuto-a e ou&#231;o Kafka rir at&#233; &#224;s l&#225;grimas lendo A metamorfose para Max Brod (...) e vejo a pequenina Mary Shelley oferecer grandes fatias do seu Frankstein a Percy aos seus amigos assombrados...</em></p><p style="text-align: justify;"><em>(...)</em></p><p style="text-align: justify;"><em>E Dostoi&#233;vski que n&#227;o se contentava ler em voz alta, mas que escrevia em voz alta... Dostoi&#233;vsky, sem f&#244;lego, depois de ter proferido violentamente a sua acusa&#231;&#227;o contra Raskolnikov (ou Dimitri Karamazov, n&#227;o me lembro)... Dostoi&#233;vski perguntando &#224; sua mulher esten&#243;grafa: &#171;Ent&#227;o, qual o seu veredicto? Hein? Hein?&#187;</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Anna: Condenado!</em></p><p style="text-align: justify;"><em>E o mesmo Dostoi&#233;vski, ap&#243;s lhe ter ditado o discurso da defesa... &#171;Ent&#227;o? Ent&#227;o?&#187;</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Anna: Absolvido!</em></p><p style="text-align: justify;"><em>&#201;...</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Estranho o desaparecimento da leitura em voz alta. (...).</em></p><p style="text-align: justify;"><em>A pessoa que l&#234; de viva voz, exp&#245;e-se totalmente. (...).</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Se ela l&#234; verdadeiramente, p&#245;e nisso todo o seu saber, dominando seu prazer. Se a sua leitura &#233; um ato de simpatia tanto pelo audit&#243;rio como pelo texto e pelo seu autor, consegue fazer entender a necessidade de escrever, acordando as nossas mais obscuras necessidades de compreender. Ent&#227;o os livros se abrem para essa pessoa e a multid&#227;o daqueles que se acreditavam exclu&#237;dos da leitura vai precipitar-se a</em>tr&#225;s dela&#8221;.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Pennac, Daniel (2008). <em>Como um romance</em>. Porto Alegre: L&amp;PM Editores.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os riscos das abordagens curriculares e pedagógicas processualistas]]></title><description><![CDATA[Os riscos das abordagens curriculares e pedag&#243;gicas processualistas]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/os-riscos-das-abordagens-curriculares</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/os-riscos-das-abordagens-curriculares</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 23 May 2026 04:29:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fc98ba21-a1ea-455a-9cbf-5344daf8b532_300x168.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Os riscos das abordagens curriculares e pedag&#243;gicas processualistas</strong></p><p style="text-align: justify;">No &#250;ltimo texto publicado neste blogue tentei justificar as raz&#245;es que me levam a recusar o que tenho vindo a designar por deriva processualista da reflex&#227;o curricular e pedag&#243;gico. Nesse texto, utilizo, mais uma vez, o estudo de Marta Ara&#250;jo (2025) sobre o modo como a escravatura, a ra&#231;a e o racismo s&#227;o abordados nos manuais de Hist&#243;ria de Portugal, enquanto pretexto que encontrei para poder perguntar porque &#233; que na discuss&#227;o p&#250;blica entre as Metas Curriculares e as Aprendizagens Essenciais se valoriza, sobretudo, as transforma&#231;&#245;es relacionadas com a organiza&#231;&#227;o e gest&#227;o do trabalho pedag&#243;gico e se ignora as altera&#231;&#245;es nas problem&#225;ticas e quadros concetuais em cada uma das disciplinas que integram os planos de estudo dos ensinos B&#225;sico e Secund&#225;rio.</p><p style="text-align: justify;">Excetuando o caso da Matem&#225;tica, onde a dimens&#227;o dos conte&#250;dos &#233; objeto de discuss&#245;es recorrentes entre a APM e a SPM, nem sempre focalizadas na rela&#231;&#227;o entre educa&#231;&#227;o e matem&#225;tica, ou, ainda, as rea&#231;&#245;es iniciais das Associa&#231;&#245;es Pedag&#243;gicas perante aquelas altera&#231;&#245;es, verifica-se que o debate acabou por se centrar, ao n&#237;vel das escolas, entre a gest&#227;o estandartizada do curr&#237;culo que as Metas Curriculares favoreciam e a gest&#227;o flex&#237;vel e contextualizada das decis&#245;es curriculares que as Aprendizagens Essenciais passaram a propor.</p><p style="text-align: justify;">A quest&#227;o adquire maior relev&#226;ncia quando se constata que, na verdade, n&#227;o existe qualquer incompatibilidade refletir-se sobre o que, usualmente, se designa como processos e o que, tamb&#233;m habtualmente, se designa por conte&#250;dos. N&#227;o &#233; esta a op&#231;&#227;o da abordagem processualista que tende a privilegiar os primeiros em detrimento dos segundos, seja quando se promovem reflex&#245;es educativas sobre a Escola, seja quando essas reflex&#245;es se debru&#231;am sobre a inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica.</p><p style="text-align: justify;">Sem pretender esgotar o assunto, diria que o processualismo parece constituir uma tentativa de fugir a debates cuja componente ideol&#243;gica n&#227;o pode ser ignorada, alimentando a ilus&#227;o que a reflex&#227;o acerca da gest&#227;o estandartizada e da gest&#227;o contextualizada e flex&#237;vel do curr&#237;culo &#233; um debate t&#233;cnico, isento de contamina&#231;&#245;es ideol&#243;gicas. N&#227;o &#233;, mas facilmente se aceita que o possa ser. Ao contr&#225;rio, quando nas Metas Curriculares, no caso da disciplina de Hist&#243;ria, por exemplo, se identifica a expans&#227;o quatrocentista com uma oportunidade de encontros culturais entre povos, enquanto nas Aprendizagens Essenciais a relacionam com a submiss&#227;o f&#237;sica e simbolicamente violenta dos mesmos, h&#225; quem fuja a esta problem&#225;tica, alegando que este n&#227;o &#233; um debate acad&#233;mico, mas ideol&#243;gico. Tenta-se, afinal, por esta via, n&#227;o enfrentar uma quest&#227;o decisiva: a de saber se a fun&#231;&#227;o da disciplina de Hist&#243;ria consiste em endoutrinar ou em formar alunos humanamente mais capazes.</p><p style="text-align: justify;">Uma segunda raz&#227;o que pode contribuir para explicar a sedu&#231;&#227;o pelo processualismo relaciona-se com a dicotomia insensata entre, por um lado, o <em><strong>como</strong></em> <em><strong>ensinar</strong></em> e o <em><strong>como</strong></em> <em><strong>aprender</strong></em> e, por outro, entre o <em><strong>que ensinar</strong></em> e o <em><strong>que aprender, </strong></em>a qual configura, hoje, um modo de pensar improdutivo e pernicioso quando a discuss&#227;o se centra sobre as finalidades da Escola. O problema desta dicotomiza&#231;&#227;o agrava-se quando se privilegia &#171;o como&#187; em vez do &#171;qu&#234;&#187;, como se o &#171;como&#187; n&#227;o fosse tamb&#233;m determinado pelo &#171;qu&#234;&#187;. As implica&#231;&#245;es est&#227;o &#224; vista. A inova&#231;&#227;o &#233; pedag&#243;gica e n&#227;o curricular e pedag&#243;gica. A reivindica&#231;&#227;o do protagonismo dos alunos em torno da no&#231;&#227;o de um ativismo epistemol&#243;gico e concetualmente autossuficiente tem gerado quer um conjunto de iniciativas pedag&#243;gicas marginais, ing&#233;nuas, equ&#237;vocas e inconsequentes quer, por rea&#231;&#227;o, o refor&#231;o da cren&#231;a na inevitabilidade do instrucionismo como modo de a&#231;&#227;o pedag&#243;gica. &#201; tamb&#233;m a partir de uma tal dicotomia que se acaba por favorecer e legitimar a entrada em for&#231;a, no campo da educa&#231;&#227;o escolar, das promessas tecnocr&#225;ticas que se t&#234;m vindo a alimentar atrav&#233;s da vis&#227;o redentora dos dispositivos digitais e da IA.</p><p style="text-align: justify;">Por fim, num tempo de massifica&#231;&#227;o dos debates sobre a Escola, tenho de admitir que &#233; mais f&#225;cil ter voz no &#226;mbito da abordagem processualista do que nas abordagens de pendor epistemol&#243;gico e concetual. Estas &#250;ltimas s&#227;o mais exigentes e n&#227;o se exp&#245;em aos riscos do proselitismo curricular e pedag&#243;gico que a abordagem anterior favorece, contribuindo, por essa via, para a afirma&#231;&#227;o de reflex&#245;es educativas pouco pertinentes e enviesadas.</p><p style="text-align: justify;">Se os resultados do estudo de Marta Ara&#250;jo constituem um exemplo esclarecedor de um tal enviesamento, irei abordar, nos pr&#243;ximos textos, duas situa&#231;&#245;es que permitem compreender as implica&#231;&#245;es negativas, em termos das aprendizagens e da forma&#231;&#227;o dos alunos, da deriva processualista. Uma dessas situa&#231;&#245;es diz respeito a um projeto, desenvolvido no 1&#186; Ciclo do Ensino B&#225;sico, que visava estimular o ensino experimental das ci&#234;ncias, enquanto na outra me irei debru&#231;ar sobre uma iniciativa que se desenvolveu sob a &#233;gide do modelo designado por &#171;Ci&#234;ncia-Tecnologia-Engenharia-Artes-Matem&#225;tica&#187; (vulgo STEAM).</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias</strong></p><p style="text-align: justify;">Ara&#250;jo, Marta (2026). &#171;Escravatura, ra&#231;a e racismo: Novas narrativas dos manuais de Hist&#243;ria de Portugal? Oficinas CES, n&#186; 48. https://ces.uc.pt/pt/publicacoes/outras-publicacoes-e-colecoes/oficina-do-ces/numeros/oficina-468</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O direito de ler em qualquer lugar]]></title><description><![CDATA[Este &#233; um outro direito que Pennac enquadra nos direitos do leitor.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-ler-em-qualquer-lugar</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-ler-em-qualquer-lugar</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 20 May 2026 13:08:37 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8c6d8758-5f57-4a9c-82ac-9368f0c5c2fe_228x344.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Este &#233; um outro direito que Pennac enquadra nos direitos do leitor. F&#225;-lo, partilhando connosco uma hist&#243;ria maravilhosa que tem como epicentro a Caserna da Escola de Aplica&#231;&#227;o da Artilharia, no inverno de 1971. Conta Pennac (2008):</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Na distribui&#231;&#227;o matinal de tarefas&#8221; (idem, p. 143), um determinado soldado apresenta-se &#8220;sistematicamente como volunt&#225;rio para a tarefa menos popular, a mais ingrata, distribu&#237;da com frequ&#234;ncia a t&#237;tulo de puni&#231;&#227;o e que atinge a honra dos mais aguerridos: a lend&#225;ria, a infamante, a inomin&#225;vel <em>tarefa das latrinas</em>.</p><p style="text-align: justify;">Todas as manh&#227;s.</p><p style="text-align: justify;">Com o mesmo sorriso (...).</p><p style="text-align: justify;">- Tarefa das latrinas?</p><p style="text-align: justify;">Ele d&#225; um passo em frente:</p><p style="text-align: justify;">- Fulano!</p><p style="text-align: justify;">Com a gravidade &#250;ltima que precede o assalto, pega a vassoura de onde pende o pano de ch&#227;o, como se fosse o estandarte da companhia, e desaparece, para grande al&#237;vio da tropa. &#201; um bravo: ningu&#233;m o segue. O ex&#233;rcito inteiro continua protegido na trincheira das tarefas honrosas.</p><p style="text-align: justify;">As horas passam. Acredita-se que ele se perdeu. Quase se esquecem dele. Esquecem-no. Ele reaparece, entretanto, no fim da manh&#227;, batendo os saltos das botas para o relat&#243;rio, ao sargento da companhia: &#8216;Latrinas impec&#225;veis, meu sargento!&#8217;. (...). O soldado sa&#250;da, faz meia volta, retira-se, levando o segredo com ele.</p><p style="text-align: justify;">O segredo pesa um bom peso no bolso direito do blus&#227;o: 1900 p&#225;ginas do volume consagrado &#224;s obras completas de Nicolai Gogol. Quinze minutos de pano de ch&#227;o contra uma manh&#227; de Gogol... Cada manh&#227;, faz dois meses de inverno, confortavelmente sentado nas salas dos tronos, fechada com duas voltas, o soldado Fulano voa muito acima das conting&#234;ncias militares. Todo Gogol! Das nost&#225;lgicas <em>Noites na fazenda de Dikanke</em> &#224;s hilariantes <em>Novelas</em>, passando pelo terr&#237;vel <em>Taras Bulba</em> e a negra farsa das <em>Almas Mortas</em>, sem esquece o teatro e a correspod&#234;ncia de Gogol, esse incr&#237;vel Tartufo.</p><p style="text-align: justify;">Porque Gogol &#233; o Tartufo que Moli&#232;re teria inventado, o que o soldado Fulano n&#227;o teria jamais entendido se tivesse oferecido aquela tarefa a outros&#8221; (idem, p. 143-144).</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Pennac, Daniel (2008). <em>Como um romance</em>. Porto Alegre: L&amp;PM Editores.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O estudo dos seres vivos na Escola]]></title><description><![CDATA[Sobre a necessidade de se reabilitar a dimens&#227;o epistemol&#243;gica da reflex&#227;o curricular e pedag&#243;gica]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-estudo-dos-seres-vivos-na-escola</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-estudo-dos-seres-vivos-na-escola</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 16 May 2026 07:03:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f97fdeeb-ad7c-4fe6-ac11-aa3d030a3044_225x225.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Participei recentemente numa mesa redonda, organizada pelo Conselho Nacional de Educa&#231;&#227;o, que foi pensada para debater a inova&#231;&#227;o pedag&#243;gica. Num determinado momento, para tentar explicar o que tenho vindo a designar por deriva processualista da inova&#231;&#227;o educativa nas escolas, recorri a ao trabalho de Marta Ara&#250;jo (2025) sobre escravatura, ra&#231;a e racismo nos manuais de Hist&#243;ria de Portugal para colocar uma quest&#227;o que considero decisiva, uma quest&#227;o que coloquei pela primeira vez num texto j&#225; publicado neste blog: <em><strong>Porque &#233; que a discuss&#227;o p&#250;blica entre as Metas Curriculares e as Aprendizagens se situou nos procedimentos e se marginalizou a reflex&#227;o sobre a dimens&#227;o epistemol&#243;gica e concetual dos conte&#250;dos?</strong></em></p><p style="text-align: justify;">Para quem j&#225; se esqueceu ou que n&#227;o tenha lido esse texto, a pergunta tem a ver como facto de Marta Ara&#250;jo ter demonstrado que os manuais de Hist&#243;ria, sob a &#233;gide das Metas Curriculares, perspetivavam a coloniza&#231;&#227;o portuguesa, sobretudo, como um encontro e a miscinegiza&#231;&#227;o de culturas, enquanto os manuais que foram publicados ap&#243;s a promulga&#231;&#227;o das Aprendizagens Essenciais conferiam maior visibilidade &#224; viol&#234;ncia f&#237;sica e simb&#243;lica do colonialismo portugu&#234;s.</p><p style="text-align: justify;">Nesse texto evidenciei que gest&#227;o flex&#237;vel e contextualizada do curr&#237;culo, em Hist&#243;ria, s&#243; por si, n&#227;o impede que os alunos vivam um processo de endoutrina&#231;&#227;o ou que realizem aprendizagens culturalmente desqualificadas. Uma possibilidade que, importa recordar, n&#227;o se confina &#224;s &#225;reas das Ci&#234;ncias Sociais e das Humanidades, tal como pretendo demonstrar agora, partilhando uma reflex&#227;o sobre o estudo dos seres vivos, em Biologia, os quais podem ser objeto de diferentes tipos de abordagens que correspondem a diferentes perspetivas concetuais porque correspondem a diferentes perspetivas epistemol&#243;gicas. Esta &#233; a leitura de Simard (2023) que defende que tais abordagens concetualizam os seres vivos de forma distintas, devido aos sete tipos de op&#231;&#245;es epistemol&#243;gicas que as sustentam: o animismo, o vitalismo, o finalismo, o fixismo, o evolucionismo darwiniano, o determinismo e o interacionismo.</p><p style="text-align: justify;">Deixando de fora desta reflex&#227;o tanto o animismo como o vitalismo, porque revelam, de acordo com Simard (idem), uma perspetiva m&#225;gica da realidade, come&#231;o por eleger o finalismo e o fixismo como abordagens que permitem ilustrar as conce&#231;&#245;es que, pelo menos, os alunos podem expressar acerca do que s&#227;o seres vivos. Arist&#243;teles, que &#233; primeiro a propor o finalismo como abordagem a considerar, defendia que &#8220;a natureza n&#227;o realizava nada em v&#227;o&#8221; (idem, p. 438), sustentando que as formas e as fun&#231;&#245;es dos organismos seriam determinados pelas finalidades que justificariam a sua exist&#234;ncia. O fixismo, por sua vez, sustenta uma perspetiva que entende a Natureza como algo imut&#225;vel, n&#227;o valorizando &#8220;a dimens&#227;o &#8216;temporal&#8217; da evolu&#231;&#227;o dos organismos vivos&#8221; (idem, p. 438).</p><p style="text-align: justify;">&#201; em oposi&#231;&#227;o ao fixismo que emerge o evolucionismo darwiniano. Uma perspetiva que Simard (ide) descreve, enfatizando o facto de o evolucionismo sustentar que &#8220;a vida tem uma origem &#250;nica, havendo uma ancestralidade comum que &#233; partilhada por todas as esp&#233;cies. Os seres vivos partilham uma hist&#243;ria marcada por adapta&#231;&#245;es e por uma luta pela vida (sobreviver e reproduzir), que as muta&#231;&#245;es aleat&#243;rias e a diversidade gen&#233;tica potenciam&#8221; (p. 438). Para Simard, a afirma&#231;&#227;o de que &#8220;uma esp&#233;cie passa a ser o resultado de um processo de sele&#231;&#227;o natural que promove a sobreviv&#234;ncia dos organismos que melhor se adaptam&#8221; (Ibidem), constitui, assim, a matriz concetual de onde evolui a biologia atual. A partir daqui afirmam-se correntes diversas, nomeadamente as abordagens reducionistas, como aquela que Mendel corporiza atrav&#233;s da defini&#231;&#227;o de leis que se prop&#245;em simplificar a explica&#231;&#227;o da evolu&#231;&#227;o dos seres vivos pela identifica&#231;&#227;o da sua constitui&#231;&#227;o gen&#233;tica (idem) ou o determinismo que, j&#225; presente na perspetiva reducionista, se expande, &#8220;no in&#237;cio da d&#233;cada de 60, com os avan&#231;os da biologia molecular&#8221; (idem, p. 439). Estamos perante uma abordagem epistemol&#243;gica que &#8220;n&#227;o considera os efeitos do ambiente nos seres vivos&#8221; (ibidem), quando valoriza o facto dos seres vivos serem, apenas, o produto da sua constitui&#231;&#227;o gen&#233;tica.</p><p style="text-align: justify;">&#201; em oposi&#231;&#227;o a esta perspetiva que se afirma uma outra abordagem epistemol&#243;gica, identificada por Simard (idem) como interacionista, em fun&#231;&#227;o da qual se defende que as carater&#237;sticas de um organismo resultam da combina&#231;&#227;o entre as suas propriedades gen&#233;ticas e a influ&#234;ncia do ambiente.</p><p style="text-align: justify;">At&#233; que ponto este tipo de mapeamento epistemol&#243;gico &#233; valorizado para identificar as conce&#231;&#245;es pr&#233;vias dos alunos acerca dos organismos vivos? At&#233; que ponto permite balizar os obst&#225;culos epistemol&#243;gicos que dificultam tanto a apropria&#231;&#227;o e utiliza&#231;&#227;o de quadros concetuais e de modos espec&#237;ficos de pensar, por parte dos alunos? Ser&#225; que, de facto, s&#227;o tidos em conta nas atividades que os docentes prop&#245;em para que uma tal apropria&#231;&#227;o e utiliza&#231;&#227;o ocorram?</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o havendo qualquer tipo de incompatibilidade entre este tipo de preocupa&#231;&#245;es e as op&#231;&#245;es metodol&#243;gicas a adotar para se estimular as aprendizagens dos alunos, pergunta-se, outra vez, porque &#233; que a reflex&#227;o sobre inova&#231;&#227;o pedag&#243;gica tem vindo a desprezar aquelas preocupa&#231;&#245;es e se foca, sobretudo, naquelas op&#231;&#245;es?</p><p style="text-align: justify;">Como j&#225; o defendi anteriormente, estamos perante um equ&#237;voco, j&#225; que n&#227;o &#233; tanto a atividade dos alunos que, s&#243; por si, importa salvaguardar, mas a sua atividade situada e balizada pelas exig&#234;ncias concetuais e heur&#237;sticas dos desafios e problemas que a apropria&#231;&#227;o de novos conceitos e modos de pensar e agir justificam.</p><p style="text-align: justify;">Por isso, a reflex&#227;o sobre a Inova&#231;&#227;o Pedag&#243;gica tem de deixar de ser circunscrita &#224; obsess&#227;o com as Metodologias Ativas, o que significa que estamos na hora de discutir se esta mesmas metodologias s&#227;o compat&#237;veis, ou pelo menos se n&#227;o ter&#227;o de ser conformadas, com as metodologias pr&#243;prias de cada &#225;rea do saber, em fun&#231;&#227;o das quais se foi construindo o tipo de conhecimento que constitui o objeto curricular que serve de refer&#234;ncia ao trabalho formativo que tem lugar, pelo menos, em &#225;reas como o Estudo do Meio, no 1&#186; CEB, Ci&#234;ncias Naturais, nos outros ciclos do Ensino B&#225;sico e Biologia e Geologia, no Ensino Secund&#225;rio.</p><p style="text-align: justify;">Tamb&#233;m por isso &#233; que reafirmo que a inova&#231;&#227;o educativa n&#227;o pode ser identificada, apenas, como pedag&#243;gica, mas, antes, como inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias</strong></p><p style="text-align: justify;">Ara&#250;jo, Marta (2026). &#171;Escravatura, ra&#231;a e racismo: Novas narrativas dos manuais de Hist&#243;ria de Portugal? Oficinas CES, n&#186; 48. https://ces.uc.pt/pt/publicacoes/outras-publicacoes-e-colecoes/oficina-do-ces/numeros/oficina-468</p><p style="text-align: justify;">Simard, Catherine (2023). Epistemology and biology teaching: Obstacles to a contemporary conceptualisation of living organisms among future teachers and biologists. <em>Journal of Biological Education</em>, 57:2, 431-451.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O direito ao bovarismo e de uma ler uma frase aqui e outra ali]]></title><description><![CDATA[Estes s&#227;o os sexto e o oitavo direitos dos leitores, na vers&#227;o de Daniel Pennac.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-ao-bovarismo-e-de-uma-ler</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-ao-bovarismo-e-de-uma-ler</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 13 May 2026 13:48:47 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c4807c06-bfe6-42d0-89bb-bcc81530fbcc_170x255.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Estes s&#227;o os sexto e o oitavo direitos dos leitores, na vers&#227;o de Daniel Pennac. O primeiro que este autor designa por &#8220;doen&#231;a textualmente transmiss&#237;vel&#8221; (Pennac, 2008, p. 141) corresponde a obter atrav&#233;s da leitura, a &#8220;satisfa&#231;&#227;o imediata e exclusiva das nossas sensa&#231;&#245;es: a imagina&#231;&#227;o incha, os nervos vibram, embala o cora&#231;&#227;o, a adrenalina jorra, a identifica&#231;&#227;o opera em todas as dire&#231;&#245;es e o c&#233;rebro troca (momentaneamente) os bal&#245;es do cotidiano pelas lanternas do romanesco&#8221; (ibidem).</p><p style="text-align: justify;">Confesso que, hoje, este direito n&#227;o me diz muito, ainda que tenha havido momentos da minha vida como leitor em que vivi absolutamente dependente de uma rela&#231;&#227;o desta natureza com os livros. Foi assim que li clandestinamente o &#171;Crime do Padre Amaro&#187; (uma hist&#243;ria maravilhosa que um dia irei partilhar) e que saudades tenho dos in&#250;meros momentos em que me fechava na casa de banho. </p><p style="text-align: justify;">Nesta categoria de direitos, insere-se o direito de, em vez de ler um livro, nos limitarmos a ler uma frase aqui e uma frase ali. Para Pennac, trata-se de uma &#8220;autoriza&#231;&#227;o que nos concedemos de pegar em qualquer volume da nossa biblioteca, de o abrir em qualquer lugar e de mergulharmos nele por um momento&#8221; (idem, p. 145).</p><p style="text-align: justify;">Deste modo, pode abrir-se um livro de &#8220;Proust, Shakespeare ou a Correspond&#234;ncia de Raymond Chandler em qualquer lugar, colher aqui e ali, sem o menor risco de se ficar dececionado&#8221; (ibidem).</p><p style="text-align: justify;">Quem nunca o fez que atire a primeira pedra. Se nunca o fez, tamb&#233;m n&#227;o &#233; isso que assegura a entrada direta e sem passaporte no c&#233;u, ao feliz contemplado.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Pennac, Daniel (2008). <em>Como um romance</em>. Porto Alegre: L&amp;PM Editores.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[As aprendizagens essenciais e a formação de leitores na Escola]]></title><description><![CDATA[No passado dia 27 de abril, li um artigo de Regina dos Santos Duarte, ex- Comiss&#225;ria do Plano Nacional de Leitura, publicado no jornal &#171;P&#250;blico&#187;, intitulado &#171;Como (n&#227;o) formar leitores: O que as aprendizagens essenciais prometem e n&#227;o cumprem&#187;, onde se partilhava uma das reflex&#245;es mais pertinentes que me foi dada a ler sobre as responsabilidades curriculares da Escola, em termos do seu contributo para a forma&#231;&#227;o de alunos leitores.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/as-aprendizagens-essenciais-e-a-formacao</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/as-aprendizagens-essenciais-e-a-formacao</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 09 May 2026 08:10:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/aaeb9efa-a6e7-4ed0-8399-a1aa7a76829e_900x900.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No passado dia 27 de abril, li um artigo de Regina dos Santos Duarte, ex- Comiss&#225;ria do Plano Nacional de Leitura, publicado no jornal &#171;P&#250;blico&#187;, intitulado <strong>&#171;Como (n&#227;o) formar leitores: O que as aprendizagens essenciais prometem e n&#227;o cumprem&#187;</strong>, onde se partilhava uma das reflex&#245;es mais pertinentes que me foi dada a ler sobre as responsabilidades curriculares da Escola, em termos do seu contributo para a forma&#231;&#227;o de alunos leitores.</p><p style="text-align: justify;">Como se infere da leitura do t&#237;tulo do texto, a autora mostra-se bastante cr&#237;tica face &#224; possibilidade das Aprendizagens Essenciais poderem mudar o que quer que seja no que diz respeito &#224; forma&#231;&#227;o de leitores. Reconhecendo que a <em>&#8220;leitura surge como um objetivo desej&#225;vel&#8221;</em> e que a proposta <em>&#8220;tem qualidades evidentes: &#233; um documento s&#233;rio, trabalhado, e incorpora avan&#231;os relevantes&#8221;</em>, reconhece, igualmente, que o problema est&#225; no facto de n&#227;o haver <em>&#8220;uma ideia clara do que se pretende alcan&#231;ar&#8221;</em>. Por isso, n&#227;o havendo <em>&#8220;um caminho desenhado, nem forma de garantir que ele est&#225; a ser percorrido&#8221;</em>, a forma&#231;&#227;o de leitores, como finalidade formativa, <em>&#8220;aparece como um princ&#237;pio geral, mas n&#227;o como um trabalho intencional, continuado e cumulativo&#8221;</em>.</p><p style="text-align: justify;">Para Regina Duarte, as <em>&#8220;inten&#231;&#245;es s&#227;o claras; o caminho para as concretizar n&#227;o &#233;. &#201; neste ponto que se torna mais vis&#237;vel uma outra aus&#234;ncia: a de uma orienta&#231;&#227;o clara sobre como ensinar a ler&#8221;</em>. O que se pretende?</p><p style="text-align: justify;">&#201; esta indefini&#231;&#227;o que a conduz a concluir que as novas Aprendizagens Essenciais, <em>&#8220;ao aumentar o n&#250;mero de leituras obrigat&#243;rias e ao manter um n&#237;vel de an&#225;lise textual exigente, frequentemente mais pr&#243;ximo de um especialista em literatura do que de um aluno em forma&#231;&#227;o&#8221;</em>, n&#227;o contribuem para resolver o problema e, pior do que isso, acabam por agrav&#225;-lo.</p><p style="text-align: justify;">O diagn&#243;stico &#233; claro: <em>&#8220;Sem reduzir o volume de conte&#250;dos, sem simplificar a terminologia e, sobretudo, sem criar tempo real na sala de aula para ler, discutir e pensar os textos, torna-se dif&#237;cil perceber como se poder&#225; alterar o cen&#225;rio que o pr&#243;prio pa&#237;s reconhece: o de uma popula&#231;&#227;o com h&#225;bitos de leitura fr&#225;geis.</em> <em>A mesma falta de clareza atravessa a pr&#243;pria estrutura do documento. Nas introdu&#231;&#245;es, afirma-se a import&#226;ncia de formar leitores, de promover o gosto de ler e de criar h&#225;bitos. Nos quadros que organizam o curr&#237;culo, apresentam-se listas de conhecimentos, capacidades e atitudes, descritas de forma t&#233;cnica e fragmentada. O que falta &#233; a liga&#231;&#227;o entre estes dois n&#237;veis&#8221;.</em></p><p style="text-align: justify;">Diria que esta n&#227;o &#233; uma situa&#231;&#227;o in&#233;dita. Faz-se sentir noutras &#225;reas do saber, derivando de uma atitude curricular e pedag&#243;gica que tanto tem a ver com a aus&#234;ncia de uma reflex&#227;o epistemol&#243;gica clarividente, capaz de alicer&#231;ar um projeto mais preocupado com uma forma&#231;&#227;o cultural e humana dos alunos exigente, rigorosa e pertinente do que com o que se presume que seja uma forma&#231;&#227;o especializada nas diferentes &#225;reas de saber.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o ser&#225;, ent&#227;o, por acaso que Regina Duarte denuncia que, ao longo do documento surjam <em>&#8220;ideias que v&#234;m de diferentes formas de pensar a leitura. Em alguns momentos, fala-se de flu&#234;ncia, de compreens&#227;o e de estrat&#233;gias, conceitos ligados &#224; investiga&#231;&#227;o sobre como se aprende a ler. Noutros, privilegia-se a an&#225;lise dos elementos do texto (narrador, estrutura, recursos expressivos). H&#225; ainda refer&#234;ncias &#224; leitura como experi&#234;ncia pessoal e cultural, associada &#224; descoberta do outro e &#224; forma&#231;&#227;o individual. E atravessa tudo isto uma organiza&#231;&#227;o por tipos de textos e g&#233;neros. Nenhuma destas perspetivas &#233;, por si, problem&#225;tica. O problema &#233; que aparecem lado a lado, sem que se explique como se articulam. O curr&#237;culo n&#227;o diz claramente que abordagem privilegia, nem como devem os professores gerir estas diferentes exig&#234;ncias no trabalho di&#225;rio. O resultado &#233; que essa decis&#227;o &#233; deixada a cada professor. Numa aula, deve dar prioridade &#224; compreens&#227;o do texto ou &#224; sua an&#225;lise? Deve parar para explicar vocabul&#225;rio ou avan&#231;ar para a interpreta&#231;&#227;o? Deve centrar-se no que o texto diz ou na forma como est&#225; constru&#237;do?&#8221;</em></p><p>Uma outra den&#250;ncia relaciona-se com as <em>&#8220;solu&#231;&#245;es propostas para promover a leitura aut&#243;noma. Nos anos finais do ensino secund&#225;rio, surge a recomenda&#231;&#227;o de 60 minutos di&#225;rios de leitura, deslocando para o espa&#231;o dom&#233;stico uma responsabilidade que o pr&#243;prio curr&#237;culo n&#227;o organiza nem sustenta dentro da escola&#8221;</em>. Da&#237; que Regina Duarte defenda estarmos perante uma op&#231;&#227;o, no m&#237;nimo discut&#237;vel. &#8220;<em>Em vez de criar condi&#231;&#245;es reais para a leitura no contexto escolar (tempo protegido, regular e acompanhado, desde os primeiros anos), transfere-se essa responsabilidade para fora da escola, como se todos os alunos tivessem as mesmas condi&#231;&#245;es para ler&#8221;. Como lembra a autora, estamos perante uma escolha que &#8220;tende a beneficiar quem j&#225; tem livros em casa e h&#225;bitos de leitura, ao mesmo tempo que penaliza aqueles para quem a escola deveria ser, precisamente, o principal espa&#231;o de acesso &#224; leitura&#8221;</em>. Deste modo, <em>&#8220;em vez de reduzir desigualdades, corre-se o risco de as agravar&#8221;.<br></em><br>PS: No dia 5 de maio de 2026, um comunicado do MECI anunciava o refor&#231;o do estudo de autores de l&#237;ngua portuguesa da CPLP nos Ensinos B&#225;sico e Secund&#225;rio. Trata-se de uma medida que sa&#250;do de forma veemente, quer pelo significado pol&#237;tico da mesma, quer pelo seu significado cultural. Agora, &#233; necess&#225;rio come&#231;ar a discutir o que neste texto se discute: a necessidade de encontrar uma estrat&#233;gia produtiva e consequente de formar leitores.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os direitos de reler e de poder ler qualquer coisa]]></title><description><![CDATA[O quarto direito do leitor para Pennac (2008) &#233; o direito de]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/os-direitos-de-reler-e-de-poder-ler</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/os-direitos-de-reler-e-de-poder-ler</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 06 May 2026 09:17:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ba67d287-09c7-49d8-a4ed-e6f16defdd97_227x344.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O quarto direito do leitor para Pennac (2008) &#233; o direito de</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Reler o que se tinha uma vez rejeitado, reler sem pular, reler sob um outro &#226;ngulo, reler para verificar, sim... n&#243;s nos concedemos todos esses direitos.</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Mas relemos, sobretudo, gratuitamente, pelo prazer da repeti&#231;&#227;o, a alegria dos reencontros, para p&#244;r &#224; prova a intimidade.</em></p><p style="text-align: justify;"><em>&#171;Mais&#187;, &#171;mais&#187;, dizia a crian&#231;a que fomos...</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Nossas releituras adultas t&#234;m muito desse desejo: encantar-nos com a sensa&#231;&#227;o de perman&#234;ncia e encontr&#225;-las, em cada outro momento, sempre ricas em novos encantamentos&#8221;</em> (p. 137).</p><p style="text-align: justify;">Um outro direito do leitor, o quinto, &#233; o direito de ler qualquer coisa, sabendo-se que h&#225; <em>&#8220;os &#8216;bons&#8217; e os &#8216;maus&#8217; romances&#8221;</em> (idem, 139). Romances esses que se misturam nos nossos percursos de leitores.</p><p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Sai-se de Guerra e Paz para se voltar a mergulhar em livros de aventuras. Passa-se de Sabrina e J&#250;lia (hist&#243;rias de belos doutores e de louv&#225;veis enfermeiras) a Boris Pasternak e ao seu Doutor Jivago - um belo doutor, ele tamb&#233;m, uma enfermeira, &#243; qu&#227;o louv&#225;vel!&#8221;</em> (idem, p. 139-140).</p><p style="text-align: justify;">Pennac acredita que, <em>&#8220;um dia, &#233; Pasternak quem ganha&#8221;</em> (idem, p. 140), j&#225; eu n&#227;o tenho tanto a certeza, o que n&#227;o me inibe de acreditar que se a Escola fizer o que tem fazer, h&#225; sempre a possibilidade anunciada por Pennac: <em>&#8220;a de ver um aluno bater sozinho &#224; porta da f&#225;brica best-seller para subir e respirar na casa do amigo Balzac&#8221;</em> (ibidem).</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Pennac, Daniel (2008). <em>Como um romance</em>. Porto Alegre: L&amp;PM Editores.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Viva o 1º de Maio]]></title><description><![CDATA[Breve reflex&#227;o sobre o movimento sindical docente]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/viva-o-1-de-maio</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/viva-o-1-de-maio</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Thu, 30 Apr 2026 23:56:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/529aea3a-a7b7-4095-a417-28ed2a137223_259x194.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Passei a manh&#227; do dia 25 de Abril de 2026 numa mesa redonda, em conjunto com a Ariana e o Pedro Barreiros, organizada pelo Sindicato de Professores da Zona Norte (SPZN).</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o &#233; tanto a mesa redonda e o debate que se foi estabelecendo que justifica a escrita deste texto, mas o cartaz que servia de mote ao encontro e o confronto com um outro cartaz que, h&#225; j&#225; alguns anos, foi exibido por esse Portugal fora, onde se exigia a demiss&#227;o do ent&#227;o ministro da Educa&#231;&#227;o, Jo&#227;o Costa.</p><p style="text-align: justify;">Trata-se de um confronto que exprime porque &#233; que, por um lado, acredito na for&#231;a e na import&#226;ncia do movimento sindical docente e, por outro, porque desespero com algumas das suas iniciativas e, sobretudo, com a deriva corporativista que vulnerabiliza tanto a Escola P&#250;blica como a pr&#243;pria profiss&#227;o.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xab3!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F59f52d46-0755-44df-82eb-6b4b36a93295_284x177.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xab3!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F59f52d46-0755-44df-82eb-6b4b36a93295_284x177.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xab3!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F59f52d46-0755-44df-82eb-6b4b36a93295_284x177.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xab3!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F59f52d46-0755-44df-82eb-6b4b36a93295_284x177.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xab3!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F59f52d46-0755-44df-82eb-6b4b36a93295_284x177.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xab3!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F59f52d46-0755-44df-82eb-6b4b36a93295_284x177.jpeg" width="284" height="177" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/59f52d46-0755-44df-82eb-6b4b36a93295_284x177.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:177,&quot;width&quot;:284,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:11597,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://encruzilhadas.pt/i/196058912?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F59f52d46-0755-44df-82eb-6b4b36a93295_284x177.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xab3!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F59f52d46-0755-44df-82eb-6b4b36a93295_284x177.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xab3!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F59f52d46-0755-44df-82eb-6b4b36a93295_284x177.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xab3!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F59f52d46-0755-44df-82eb-6b4b36a93295_284x177.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!xab3!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F59f52d46-0755-44df-82eb-6b4b36a93295_284x177.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div></div></div></a></figure></div><p>No cartaz do SPZN, o cravo a despontar da ponta do l&#225;pis e a afirma&#231;&#227;o que &#233; desta ponta que floresce a liberdade exprime como os professores s&#227;o decisivos para que a democracia subsista e se consolide. Num tempo em que est&#225; em curso a discuss&#227;o sobre um novo estatuto da carreira docente, aquela mensagem e aquele texto correspondem a uma compromisso e a uma reivindica&#231;&#227;o: os docentes t&#234;m de ser valorizados e reconhecidos pelo trabalho que fazem porque s&#227;o fazedores de presentes e de futuros. O trabalho de um professor &#233; imprescind&#237;vel para podermos viver num mundo menos injusto e mais democr&#225;tico. Neste sentido, em vez de se reivindicar a partir, exclusivamente, da exposi&#231;&#227;o das nossas desgra&#231;as e feridas, temos de exigir que nos deixem ser os art&#237;ficies de uma escola culturalmente mais significativa, mais humana e mais inclusiva. Devem-nos pedir isso e terem em conta que uma tal exig&#234;ncia obriga a reconhecer as contrapartidas que aquele novo estatuto tem de validar e favorecer. &#201; esta a mensagem que subjaz &#224;quele cartaz e que, ali&#225;s, foi tornada p&#250;blica nas interven&#231;&#245;es de Pedro Barreiros, naquele encontro, enquanto dirigente do SPZN e da FNE.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!beBW!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff3d4046-e147-4cb1-a1bc-57af24fba6d6_211x225.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!beBW!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff3d4046-e147-4cb1-a1bc-57af24fba6d6_211x225.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!beBW!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff3d4046-e147-4cb1-a1bc-57af24fba6d6_211x225.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!beBW!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff3d4046-e147-4cb1-a1bc-57af24fba6d6_211x225.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!beBW!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff3d4046-e147-4cb1-a1bc-57af24fba6d6_211x225.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!beBW!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff3d4046-e147-4cb1-a1bc-57af24fba6d6_211x225.jpeg" width="211" height="225" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ff3d4046-e147-4cb1-a1bc-57af24fba6d6_211x225.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:225,&quot;width&quot;:211,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:11673,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:false,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://encruzilhadas.pt/i/196058912?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff3d4046-e147-4cb1-a1bc-57af24fba6d6_211x225.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!beBW!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff3d4046-e147-4cb1-a1bc-57af24fba6d6_211x225.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!beBW!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff3d4046-e147-4cb1-a1bc-57af24fba6d6_211x225.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!beBW!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff3d4046-e147-4cb1-a1bc-57af24fba6d6_211x225.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!beBW!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fff3d4046-e147-4cb1-a1bc-57af24fba6d6_211x225.jpeg 1456w" sizes="100vw"></picture><div></div></div></a></figure></div><p>No outro cartaz, onde se exige a demiss&#227;o de um ministro, e que o STOP andou a passear pelas ruas deste pa&#237;s, afirma-se, pelo contr&#225;rio, o tipo de sindicalismo populista que conduz os professores para becos sem sa&#237;da e que, por isso, tanto os penaliza como penaliza a pr&#243;pria Escola P&#250;blica. N&#227;o &#233; a reivindica&#231;&#227;o da demiss&#227;o do ministro que eu contesto, mas o modo como a mesma foi proposta. Utilizar um l&#225;pis como um instrumento de agress&#227;o brutal &#233; um gesto que nenhuma organiza&#231;&#227;o representativa de professores deveria patrocinar. &#201; que um l&#225;pis &#233; um artefacto que amplia os nossos encontros, permite revelar as nossas alegrias e as nossas dores, permite a den&#250;ncia, permite que nos transcendamos. Um l&#225;pis, afinal, contribui para que possamos ser mais do que aquilo que j&#225; somos.</p><p>Por isso, &#233; que me sinto t&#227;o gratificado com o cartaz do SPZN, enquanto manifesta&#231;&#227;o de clarivid&#234;ncia moral e estrat&#233;gica de um sindicato que conhece os v&#237;nculos profundos entre o l&#225;pis e a atividade docente, entre um l&#225;pis e a luta tanto contra a barb&#225;rie como contra a indiferen&#231;a perante a barb&#225;rie. A barb&#225;rie que tanto pode ser alimentada por todos aqueles que exortame lucram com a guerra, como por um cartaz sindical onde, atrav&#233;s de um l&#225;pis, se perpreta uma mutila&#231;&#227;o.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O direito de não terminar um livro]]></title><description><![CDATA[&#8220;Existem trinta e seis mil raz&#245;es para se abandonar um livro antes do fim: o sentimento do &#8216;j&#225; lido&#8217;, uma hist&#243;ria que n&#227;o nos prende, a nossa desaprova&#231;&#227;o total pelas teses do autor, um estilo que nos deixa o cabelo em p&#233; ou, ao contr&#225;rio, uma aus&#234;ncia de narrativa que n&#227;o compensa ir mais longe...]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-nao-terminar-um-livro</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-nao-terminar-um-livro</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 29 Apr 2026 07:28:31 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4e51a80d-d7a0-4df8-9620-371b28dc56e6_235x344.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Existem trinta e seis mil raz&#245;es para se abandonar um livro antes do fim: o sentimento do &#8216;j&#225; lido&#8217;, uma hist&#243;ria que n&#227;o nos prende, a nossa desaprova&#231;&#227;o total pelas teses do autor, um estilo que nos deixa o cabelo em p&#233; ou, ao contr&#225;rio, uma aus&#234;ncia de narrativa que n&#227;o compensa ir mais longe...</p><p style="text-align: justify;">(...)</p><p style="text-align: justify;">No entanto, entre as nossas raz&#245;es para abandonar uma leitura existe uma que merece que nos detenhamos um pouco mais: o sentimento vago de perda. (...) Reuni meus neur&#243;nios, discuti com o texto, mas n&#227;o adianta, fico com o belo sentimento de que o que est&#225; escrito merece ser lido, mas n&#227;o pego em nada (...), sinto ali um &#8216;estranhamento&#8217; que n&#227;o me prende.</p><p style="text-align: justify;">Deixo cair.</p><p style="text-align: justify;">Ou melhor, deixo de lado. Guardo na minha estante com o vago projeto de voltar um dia. O <em>Petesburgo</em> de Andre&#239; Biely&#239;, Joice e o seu <em>Ulisses, &#192; sombra do vulc&#227;o </em>de Malcom Lowry tiveram de me esperar durante uns anos. H&#225; outros que me esperam ainda, alguns que, provavelmente, n&#227;o vou recuperar nunca. Isso n&#227;o &#233; um drama. &#201; assim mesmo. (...) ao contr&#225;rio das boas garrafas, os bons livros n&#227;o envelhecem, somos n&#243;s que envelhecemos. E quando acreditamos que estamos suficientemente &#8216;maduros&#8217; para l&#234;-los, atacamos outra vez. Ent&#227;o, das duas uma: ou o reencontro acontece ou &#233; um novo fiasco. Talvez tentemos de novo, talvez n&#227;o. Mas o certo &#233; que n&#227;o &#233; por culpa de Thomas Mann se n&#227;o pude, at&#233; hoje, chegar ao cume da sua Montanha M&#225;gica.</p><p style="text-align: justify;">(...)</p><p style="text-align: justify;">Bem temos a escolha; ou vamos pensar que a culpa &#233; nossa, que temos um parafuso a menos, que somos burros, ou vamos (...) estabelecer cuidadosamente o mapa dos nossos gostos.</p><p style="text-align: justify;">&#201; prudente recomendar &#224;s nossas crian&#231;as esta segunda solu&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Tanto mais que ela pode oferecer esse prazer raro: reler compreendendo por que n&#227;o gostamos e um outro prazer, igualmente, raro: escutar sem emo&#231;&#227;o o pretensioso erudito de plant&#227;o a berrar aos nossos ouvidos:</p><p style="text-align: justify;">- Mas como &#233; que n&#227;o se pode gostar de Stendhaaaal?</p><p style="text-align: justify;">&#201; poss&#237;vel&#8221;.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Pennac, Daniel (2008). <em>Como um romance</em>. Porto Alegre: L&amp;PM Editores.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Inovar no Ensino da História: uma dimensão subentendida]]></title><description><![CDATA[Tive acesso, atrav&#233;s do Ant&#243;nio Teodoro, a um trabalho de Marta Ara&#250;jo, intitulado &#171;Escravatura, ra&#231;a e racismo: Novas narrativas dos manuais de Hist&#243;ria de Portugal?&#187; que merecendo uma leitura mais atenta por parte de quem esteja interessado nesta problem&#225;tica, &#233; referido, neste texto, enquanto pretexto para uma reflex&#227;o que tem estado subentendida quando o foco do debate &#233; a inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/inovar-no-ensino-da-historia-uma</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/inovar-no-ensino-da-historia-uma</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 25 Apr 2026 07:46:00 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a3aa17ef-a2c7-40f4-8332-b29add317a35_212x237.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Tive acesso, atrav&#233;s do Ant&#243;nio Teodoro, a um trabalho de Marta Ara&#250;jo, intitulado &#171;Escravatura, ra&#231;a e racismo: Novas narrativas dos manuais de Hist&#243;ria de Portugal?&#187; que merecendo uma leitura mais atenta por parte de quem esteja interessado nesta problem&#225;tica, &#233; referido, neste texto, enquanto pretexto para uma reflex&#227;o que tem estado subentendida quando o foco do debate &#233; a inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o &#233; a primeira vez que abordo o assunto neste blogue e se o volto a fazer &#233; para interpelar a tend&#234;ncia processualista que, no campo dos Estudos do Curr&#237;culo, se afirma atrav&#233;s da valoriza&#231;&#227;o dos processos que enformam as decis&#245;es curriculares e, no campo da Pedagogia, se centra, exclusivamente, na organiza&#231;&#227;o e gest&#227;o do trabalho pedag&#243;gico. N&#227;o pretendendo p&#244;r em causa a necessidade de se pensar sobre processos e metodologias, discuto, no entanto, os riscos quanto ao modo como aquela tend&#234;ncia processualista ignora os fundamentos epistemol&#243;gicos, concetuais e heur&#237;sticos que alicer&#231;am as estrat&#233;gias e os procedimentos curriculares e pedag&#243;gicos.</p><p style="text-align: justify;">Tudo isto vem a prop&#243;sito do trabalho de Marta Ara&#250;jo que, a partir da an&#225;lise dos manuais de Hist&#243;ria, estabelece um confronto entre as Metas Curriculares, introduzidas por Nuno Crato em 2013, e as Aprendizagens Essenciais que foram promulgadas, a partir de 2018, durante o mandato de Tiago Brand&#227;o Rodrigues. Perante a leitura do texto, dei-me conta que a reflex&#227;o curricular que teve lugar em Portugal sobre aqueles documentos ignorou as tens&#245;es epistemol&#243;gicas e concetuais que aquela autora identifica e explora no estudo que subscreve, privilegiando-se, antes, a reflex&#227;o acerca dos sentidos das op&#231;&#245;es metodol&#243;gicas que as Metas Curriculares e as Aprendizagens Essenciais corporizam. A principal preocupa&#231;&#227;o de uma tal reflex&#227;o limitou-se a mostrar como atrav&#233;s daquelas Metas se exprimia uma vis&#227;o centralista e prescritiva do curr&#237;culo, enquanto nas Aprendizagens Essenciais se favoreceria a possibilidade dos professores assumirem decis&#245;es curriculares contextualizadas. N&#227;o se podendo afirmar que esta &#233; uma discuss&#227;o irrevelante, torna-se necess&#225;rio, todavia, reconhecer que &#233; uma discuss&#227;o excessivamente circunscrita.</p><p style="text-align: justify;">&#201; na sequ&#234;ncia desta reflex&#227;o que o trabalho de Marta Ara&#250;jo assume uma import&#226;ncia decisiva, n&#227;o s&#243; por causa do tema que aborda, como porque acaba por evidenciar as limita&#231;&#245;es da abordagem de teor processualista. O que nos mostra esse trabalho?</p><p style="text-align: justify;">Confronta-nos com os conte&#250;dos que se difundem nas Metas Curriculares e nas Aprendizagens Essenciais, relacionados com a escravatura, a viol&#234;ncia, a ra&#231;a e o racismo e a resist&#234;ncia dos escravizados.</p><p style="text-align: justify;">Nas Metas Curriculares, &#8220;a escravatura era apresentada como um processo hist&#243;rico natural ou inevit&#225;vel e n&#227;o como uma op&#231;&#227;o por um sistema de trabalho baseado na explora&#231;&#227;o, opress&#227;o e viol&#234;ncia&#8221; (Ara&#250;jo, 2026, p. 6), propondo-se &#8220;tr&#234;s f&#243;rmulas narrativas&#8221; (ibidem), a saber: &#8220;a objectifica&#231;&#227;o da figura do escravo&#8221; (ibidem), visto como um produto, e n&#227;o como uma pessoa, que se comercializa; a &#8220;trivializa&#231;&#227;o da escravatura&#8221;, associada &#224;s raz&#245;es econ&#243;micas da Expans&#227;o, sem se discutir a viol&#234;ncia exercida e a dor sentida pelas pessoas escravizadas (idem. p.7); a banaliza&#231;&#227;o do esclavagismo, quando se enfatiza &#8220;a exist&#234;ncia da escravatura em &#193;frica antes do contacto com os europeus e o envolvimento dos africanos e dos &#225;rabes no tr&#225;fico&#8221; (ibidem). No mesmo estudo, a ra&#231;a e o racismo tendem a ser objeto de um processo de invisibiliza&#231;&#227;o, quando os contactos culturais e a miscinegiza&#231;&#227;o entre europeus e africanos s&#227;o evocados para atenuar uma rela&#231;&#227;o que se carateriza pela sua viol&#234;ncia f&#237;sica e simb&#243;lica ou quando se menospreza a relev&#226;ncia das ideologias e governamentalidades raciais&#8221; (ibidem) que, a partir do s&#233;culo XV, caraterizaram a Expans&#227;o portuguesa, comparando-a com as pr&#225;ticas mais lesivas do colonialismo franc&#234;s e brit&#226;nico.</p><p style="text-align: justify;">Para al&#233;m disto, as Metas Curriculares enfatizam, tamb&#233;m, o facto de a luta contra a escravatura e o racismo ser apresentada como uma vit&#243;ria moral de europeus progressistas, omitindo-se &#8220;a capacidade de ac&#231;&#227;o e a resist&#234;ncia dos escravizados&#8221; (idem, p. 8) e ignorando-se o facto de os Direitos do Homem exclu&#237;rem os &#8220;s&#250;bditos coloniais e as pessoas escravizadas&#8221; (ibidem).</p><p style="text-align: justify;">Mesmo que M. Ara&#250;jo reconhe&#231;a que com as Aprendizagens Essenciais, os manuais continuem a propor &#8220;esquemas narrativos que podem contribuir para uma certa banaliza&#231;&#227;o do tema&#8221; (idem, p.9) e que se ignore a escravatura no territ&#243;rio portugu&#234;s metropolitano (em Lisboa, entre os s&#233;culos XVI e XVII, cerca de 10% da popula&#231;&#227;o era negra e a larga maioria escravizada (idem), verifica-se que se passa a atribuir maior visibilidade ao violento sistema de explora&#231;&#227;o em que assentava na escravatura e que h&#225; refer&#234;ncias &#224; exist&#234;ncia de imp&#233;rios e de reinos anteriores ao contacto colonial.</p><p style="text-align: justify;">A viol&#234;ncia inerente ao sistema de escravatura &#8220;&#233; talvez a dimens&#227;o que mais mudan&#231;as registou e que decorrer&#225; das altera&#231;&#245;es nas directizes curriculares introduzidas em 2018 (idem, p. 11), Neste caso, os manuais referem-se aos maus tratos f&#237;sicos, &#224; acultura&#231;&#227;o e &#224; cristianiza&#231;&#227;o for&#231;adas, bem como as condi&#231;&#245;es brutais das viagens transatl&#226;nticas, os efeitos das doen&#231;as levadas pelos europeus ou &#8220;a viol&#234;ncia sexual na hist&#243;ria colonial portuguesa&#8221; (idem, p. 12). De um modo geral, este tipo de viol&#234;ncia deixa de estar circunscrita, apenas, ao imp&#233;rio espanhol e passam a utilizar-se express&#245;es como domina&#231;&#227;o, explora&#231;&#227;o e submiss&#227;o dos povos.</p><p style="text-align: justify;">No que diz respeito &#224; ra&#231;a e ao racismo n&#227;o estamos perante mudan&#231;as t&#227;o substantivas. Apesar de o racismo passar ser um pouco mais destacado, a maioria dos manuais &#8220;n&#227;o estabelece uma rela&#231;&#227;o entre as estruturas legais e sociopol&#237;ticas herdadas da hist&#243;ria da escravatura e as desigualdades raciais na atualidade&#8221; (idem, p. 15). Quanto &#224; resist&#234;ncia das popula&#231;&#245;es subjugadas, &#8220;s&#227;o descritas formas de fuga e evas&#227;o da escravatura, algo que anteriormente estava ausente&#8221; (ibidem).</p><p style="text-align: justify;">Perante estes dados, imp&#245;e-se uma quest&#227;o: Porque &#233; que a discuss&#227;o p&#250;blica entre as Metas Curriculares e as Aprendizagens se situou nos procedimentos e se marginalizou este tipo de reflex&#227;o sobre as trasforma&#231;&#245;es ao n&#237;vel dos conte&#250;dos? Porque &#233; que o confronto se situou, preferencialmente, entre a gest&#227;o estandartizada do curr&#237;culo, em nome da necessidade de um ensino mais estruturado, e a gest&#227;o flex&#237;vel e contextualizada do curr&#237;culo? N&#227;o havendo qualquer incompatibilidade entre estabelecer um tal confronto e a reflex&#227;o sobre as decis&#245;es epistemol&#243;gicas e concetuais subjacentes a ambos os documentos, questiona-se porque &#233; que nesse mesmo confronto se ignorou esta reflex&#227;o. Ser&#225; este o tema do pr&#243;ximo texto.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias:</strong></p><p style="text-align: justify;">Ara&#250;jo, Marta (2026). &#171;Escravatura, ra&#231;a e racismo: Novas narrativas dos manuais de Hist&#243;ria de Portugal? Oficinas CES, n&#186; 48.</p><p style="text-align: justify;">https://ces.uc.pt/pt/publicacoes/outras-publicacoes-e-colecoes/oficina-do-ces/numeros/oficina-468</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Abril]]></title><description><![CDATA[Jant&#225;vamos.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/abril</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/abril</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 22 Apr 2026 12:54:11 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/eed9b35f-54d9-48b5-8f40-496157063bae_200x252.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Jant&#225;vamos. A conversa flu&#237;a em fun&#231;&#227;o dos acasos do dia. Do deixas-me ir ao cinema no Domingo, pretexto para uma negocia&#231;&#227;o adiada, acabamos por ir parar a uma pergunta h&#225; j&#225; algum tempo artilhada:</p><p style="text-align: justify;">- Queres escrever um texto sobre o 25 de Abril?</p><p style="text-align: justify;">O n&#227;o quase imediato que obtivemos como resposta era mais ou menos esperado. Por isso fomos explicando-lhe, &#224; vez, que est&#225;vamos interessados em saber como &#233; que os filhos de pessoas para as quais o 25 de Abril constituiu, e constitui, uma refer&#234;ncia maior das suas vidas, olhavam, hoje, para essa data memor&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">- N&#227;o estou interessada em fazer isso. O 25 de Abril foi muito importante mas n&#227;o tenho nada a dizer.</p><p style="text-align: justify;">E sem dar tempo a um previs&#237;vel contra-interrogat&#243;rio rematou:</p><p style="text-align: justify;">- ... se ainda fosse sobre a revolu&#231;&#227;o cubana!...</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o valia a pena insistir, apesar da irrita&#231;&#227;o que, mais tarde reconhecer&#237;amos, o epis&#243;dio nos suscitara.</p><p style="text-align: justify;">Como &#233; que se consegue explicar, hoje, a uma adolescente desempoeirada, as raz&#245;es da perplexidade de uma outra garota com treze anos, em 1974, quando uma amiga mais velha lhe telefonou sobressaltada a inquirir se o pai dela n&#227;o se importaria de emprestar os discos do Zeca Afonso para serem tocados na r&#225;dio local?</p><p style="text-align: justify;">Ser&#225; poss&#237;vel explicar-lhe como essa garota, j&#225; uma jovem rec&#233;m-casada, viveu o seu retorno a &#193;frica, a uma Guin&#233; onde aprendeu que para se ser professora &#233; necess&#225;rio conseguir-se tecer cumplicidades com os alunos, com os outros professores, seus colegas, com uma comunidade e um projeto que n&#227;o &#233; explic&#225;vel, apenas, em fun&#231;&#227;o da sua dimens&#227;o pedag&#243;gica?</p><p style="text-align: justify;">Como &#233; que a nossa filha poder&#225; compreender a constela&#231;&#227;o de sentimentos, feita de alegria, de espanto e de desconfian&#231;a, sentida por um rapaz de dezassete anos quando junto &#224; Igreja da Lapa come&#231;ou a ouvir um abaixo a guerra colonial, gritado em un&#237;ssono por milhares de manifestantes junto ao Quartel-General, sem que a pol&#237;cia de choque aparecesse para os reprimir selvaticamente?</p><p style="text-align: justify;">Que palavras &#233; que existem para lhe explicar o que esse rapaz, hoje seu pai, aprendeu nas noites de Albernoa, &#224; porta da tasca da aldeia, gravando modas alentejanas e ouvindo as hist&#243;rias de uma opress&#227;o impens&#225;vel ?</p><p style="text-align: justify;">E as mem&#243;rias da Escola do Magist&#233;rio Prim&#225;rio, como narr&#225;-las ? Como conseguir expressar por palavras o que vivemos, o que aprendemos, o que sentimos ? Como dizer-lhe que a escola podia ser um espa&#231;o, mais do que consentido, com sentidos ? Um espa&#231;o de di&#225;logos, e tamb&#233;m de confrontos. Um espa&#231;o, que apesar de imperfeito, nos permitiu encontrar gente t&#227;o importante e decisiva como foram para n&#243;s, o Bento, o Pedro Mesquita, a Fernanda Figueira, o Chico Beja, o Felizes, ou a Rosalina?</p><p style="text-align: justify;">Acabamos assim, e inevitavelmente, por nos perdermos no labirinto das nossas mem&#243;rias, voltando a escutar os murm&#250;rios de um tempo que nos legou, tamb&#233;m e como heran&#231;a, a inconformidade que as palavras e os gestos da nossa filha exprimiam quando, sem hipocrisias, reconhecia que o Che era um personagem bem mais significativo para ela do que Otelo, o capit&#227;o. Pelo menos n&#227;o confunde o 25 de Abril com o 5 de Outubro, rematou ironicamente um de n&#243;s, talvez em jeito de consola&#231;&#227;o. Cresceu, afinal limitou-se a crescer. Cresceu num pa&#237;s onde j&#225; ningu&#233;m se sente obrigado a escrever, e a cantar, que a vida sem viver &#233; mais segura. Cresceu num pa&#237;s onde, apesar de tudo, j&#225; n&#227;o somos pastoreados como um rebanho perseguido pelo medo, como cantava Jos&#233; M&#225;rio Branco atrav&#233;s das palavras de O&#8217;Neil. Um pa&#237;s onde ela p&#244;de aprender que possui uma voz e um corpo, enquanto n&#243;s, na sua idade, nos limit&#225;vamos a adivinhar que era poss&#237;vel e desej&#225;vel ter essa voz e esse corpo. Um pa&#237;s onde a felicidade &#233; um desejo t&#227;o humano quanto poss&#237;vel, enquanto que no Portugal salazarista deveria ser uma esp&#233;cie de sonho pecaminoso e interdito. A adolesc&#234;ncia dela n&#227;o &#233; mais f&#225;cil do que foi a nossa, mas poder&#225; ser mais promissora. Sobretudo se compreendermos que vinte e cinco anos depois do 25 de Abril continuamos a depender de n&#243;s, da nossa capacidade de organiza&#231;&#227;o e de reflex&#227;o, do nosso empenho e dos nossos atos, para concretizar o que ent&#227;o soubemos sonhar: viver num pa&#237;s onde seja poss&#237;vel viver e crescer de uma forma digna e decente.</p><p style="text-align: justify;">Por isso, que se erga o sol do Ver&#227;o, n&#243;s continuamos a ser os seus cantores...</p><p style="text-align: justify;"><strong>Ariana Cosme e Rui Trindade</strong> (Texto publicado em a <em>P&#225;gina da educa&#231;&#227;o h&#225; 26 anos)</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O direito de pular páginas]]></title><description><![CDATA[O segundo direito que Daniel Pennac (2008) anuncia, de forma a que os leitores mais jovens tenham direitos id&#234;nticos &#224;queles que os leitores mais velhos concedem a si pr&#243;prios, &#233; o direito de pular p&#225;ginas.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-pular-paginas</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-pular-paginas</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 18 Apr 2026 07:58:19 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/5b81db0b-b832-4753-94c0-4cf17c68bf81_130x200.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>O segundo direito que Daniel Pennac (2008) anuncia, de forma a que os leitores mais jovens tenham direitos id&#234;nticos &#224;queles que os leitores mais velhos concedem a si pr&#243;prios, &#233; o direito de pular p&#225;ginas. Recorda que foi assim que p&#244;de ler os dois imensos volumes de <em>Guerra e Paz, </em>quando tinha<em> </em>treze anos de idade.</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Pulei tr&#234;s quartos do livro porque s&#243; me interessava pelo cora&#231;&#227;o de Natacha. Fiquei com pena de Anatole, apesar de tudo, quando lhe amputaram a perna, maldisse aquele idiota do pr&#237;ncipe Andr&#233;, que ficou em p&#233; naquela bomba na batalha de Borodino (...). Interessei-me pelo amor e pelas batalhas, pulei os assuntos de pol&#237;tica e estrat&#233;gia... As teorias de Clausewitz passavam muito acima da minha cabe&#231;a (...)... Acompanhei de perto as dece&#231;&#245;es conjugais de Pedro Bezukhov e Helena, a mulher dele (...) e deixei Tolstoi dissertando sozinho sobre os problemas agr&#225;rios da R&#250;ssia eterna.</p><p style="text-align: justify;">Pulei p&#225;ginas, e da&#237;?</p><p style="text-align: justify;">Todos os meninos e todas as meninas deveriam fazer o mesmo. Com a condi&#231;&#227;o de poderem se oferecer muito cedo todas as maravilhas consideradas inacess&#237;veis &#224; sua idade.</p><p style="text-align: justify;">Se t&#234;m vontade de ler <em>Moby Dick</em>, mas perdem a coragem diante das digress&#245;es de Melville sobre o material e as t&#233;cnicas da ca&#231;a &#224; baleia, n&#227;o &#233; preciso que renunciem &#224; leitura, mas que pulem, que pulem por cima dessas p&#225;ginas e persigam Ahab sem se preocupar com o resto, como ele persegue sua branca raz&#227;o de viver e de morrer! Se querem conhecer Ivan, Dimitri, Aliocha e o seu incr&#237;vel pai, que abram e leiam <em>Os irm&#227;o Karamazov</em>. &#201; feito para eles, mesmo que seja preciso pular o testamento do <em>starets Z&#243;zimo</em> ou a lenda do Grande Inquisidor&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">(...)</p><p style="text-align: justify;">E depois, quando nos tornamos &#171;grandes&#187;, mesmo que nos recusemos a confessar, ainda acontece pularmos p&#225;ginas, por raz&#245;es que s&#243; nos interessam a n&#243;s e ao livro que estamos lendo. Pode acontecer tamb&#233;m que nos proibamos totalmente de fazer isso, nos obriguemos a ler tudo at&#233; &#224; &#250;ltima palavra, julgando que aqui o autor se alongou demais, que ele est&#225; tocando uma linha de flauta gratuita, que em certos lugares ele se d&#225; &#224; repeti&#231;&#227;o e que, noutros, &#224; idiotice. Seja o que for que digamos, esse aborrecimento teimoso que nos impomos n&#227;o est&#225; na ordem do <em>dever</em>. Ele &#233; uma categoria do nosso prazer de leitor&#8221; (idem, 132-134).</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Pennac, Daniel (2008). <em>Como um romance</em>. Porto Alegre: L&amp;PM Editores.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A parábola do canalizador]]></title><description><![CDATA[Escola para que te quero?]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/a-parabola-do-canalizador</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/a-parabola-do-canalizador</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 15 Apr 2026 11:03:04 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4ec66dc5-dab0-4c02-b19e-2655769a70aa_294x172.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Um aluno que acaba a escolaridade prim&#225;ria completa - ou mesmo o ensino secund&#225;rio geral - parece-se um pouco com um canalizador que chamamos a casa porque o lava-loi&#231;as est&#225; estragado. Ele chega com uma caixa de ferramentas extraordin&#225;ria, formid&#225;vel, do mais moderno que h&#225;. Abre a caixa de ferramentas, demora-se, manuseia algumas delas, mas ao receber a ordem para reparar o lava-loi&#231;as acaba por dizer:</p><p style="text-align: justify;">- Pois, sim! Mas isso n&#227;o posso fazer.</p><p style="text-align: justify;">E o dono da casa replica:</p><p style="text-align: justify;">- Mas o senhor tem um martelo, uma chave de fendas, os diversos materiais, tudo o que necessita...</p><p style="text-align: justify;">- Sim, &#233; certo. Mas do martelo posso contar-lhe a hist&#243;ria desde as origens aos nossos dias; a chave de fendas posso desenhar-lha na escala 1,7 em papel milim&#233;trico... Tudo isso me ensinaram. Agora, utiliz&#225;-los para resolver o seu problema...</p><p style="text-align: justify;">Philippe Meirieu</p><p style="text-align: justify;">[<em>Extra&#237;do do texto: Alves, Jos&#233; Matias (2020). As metamorfoses do ensino profissional - din&#226;micas para a sua afirma&#231;&#227;o social, escolar e empresarial. In Santos, Maria Em&#237;lia Brederode (Dir.). Estado da Educa&#231;&#227;o 2019 (454-459). Lisboa: CNE</em>]</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O direito de não ler]]></title><description><![CDATA[&#8220;(...), mais instrutivas que as nossas maneiras de tratar os livros, s&#227;o as nossas maneiras de l&#234;-los. Em mat&#233;ria de leitura, n&#243;s, os leitores, nos concedemos todos os direitos, a come&#231;ar pelos que recusamos a essa gente jovem que pretendemos iniciar na leitura&#8221; (Pennac, 2008, p. 126).]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-nao-ler</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-nao-ler</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 11 Apr 2026 07:33:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/200db1c4-6211-4d9a-870b-f8e4a6f754d7_275x183.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;(...), mais instrutivas que as nossas maneiras de tratar os livros, s&#227;o as <em>nossas maneiras de l&#234;-los</em>. Em mat&#233;ria de leitura, n&#243;s, os leitores, nos concedemos todos os direitos, a come&#231;ar pelos que recusamos a essa gente jovem que pretendemos iniciar na leitura&#8221; (Pennac, 2008, p. 126).</p><p style="text-align: justify;">&#201; a partir desta afirma&#231;&#227;o que Daniel Pennac enuncia o dec&#225;logo dos direitos do leitor, o qual passa por reconhecer que &#8220;se quisermos que filho, filha, que os jovens leiam, &#233; urgente conceder-lhes os direitos que proporcionarmos a n&#243;s mesmos&#8221; (ibidem).</p><p style="text-align: justify;">O primeiro desses direitos &#233; o &#8220;direito de n&#227;o ler&#8221; (ibidem), uma vez que estamos perante uma ocorr&#234;ncia poss&#237;vel na vida de todos n&#243;s, nomeadamente daqueles que leem e gostam de ler. Da&#237; que Pennac nos recorde que &#8220;entre um bom livre e um mau telefilme, o segundo muitas vezes ganha, mesmo que prefer&#237;ssemos confessar que optamos pelo primeiro. Al&#233;m disso, n&#227;o lemos continuamente. Nossos per&#237;odos de leitura alternam muitas vezes com dietas (...)&#8221; (idem, p. 129).</p><p style="text-align: justify;">Para al&#233;m disso, afirma Pennac, &#8220;estamos cercados por uma quantidade de pessoas respeit&#225;veis, &#224;s vezes diplomadas, &#224;s vezes &#8216;eminentes&#8217; - entre as quais algumas que possuem belas bibliotecas - mas que n&#227;o leem, ou leem t&#227;o pouco que n&#227;o nos viria jamais &#224; ideia de lhes oferecer um livro. Elas n&#227;o leem. Seja porque n&#227;o sintam necessidade, seja porque tenham coisas demais para fazer (...), seja porque alimentem um outro amor e o vivenciam de maneira absolutamente exclusiva&#8221; (ibidem).</p><p style="text-align: justify;">Segundo Pennac, essas pessoas &#8220;s&#227;o t&#227;o humanas quanto n&#243;s, &#8220;perfeitamente sens&#237;veis &#224;s desgra&#231;as do mundo, atentas aos &#171;direitos humanos&#187; e preocupadas em respeit&#225;-los dentro da sua esfera de influ&#234;ncia poss&#237;vel, o que j&#225; &#233; muito. Mas elas n&#227;o leem. Direito delas&#8221; (idem, p. 130).</p><p style="text-align: justify;">Se a &#8220;ideia de que a leitura &#8216;humaniza o homem&#8217; &#233; justa no seu todo, mesmo se ela padece de algumas deprimentes exce&#231;&#245;es&#8221; (ibidem), defende Pennac que se deve evitar &#8220;vincular a esse teorema o corol&#225;rio segundo o qual todo o indiv&#237;duo que n&#227;o l&#234; poderia ser considerado, em princ&#237;pio, como um bruto em potencial ou um absoluto cretino&#8221; (ibidem).</p><p style="text-align: justify;">Significa que se deve desprezar a leitura como uma finalidade que a Escola dever&#225; assumir como sua?</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o &#233; isto que Pennac defende. Para ele, o dever de educar consiste, tamb&#233;m, em &#8220;ensinar as crian&#231;as a ler, iniciando-as na Literatura, fornecendo-lhes meios de julgar livremente se elas sentem ou n&#227;o a &#8216;necessidade dos livros&#8217;. Porque, se podemos admitir que um individuo rejeite a leitura, &#233; intoler&#225;vel que ele seja rejeitado por ela. &#201; uma tristeza imensa, uma solid&#227;o dentro da solid&#227;o, ser exclu&#237;do dos livros - inclusive daqueles que n&#227;o nos interessam&#8221;.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Pennac, Daniel (2008). <em>Como um romance</em>. Porto Alegre: L&amp;PM Editores.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>