<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Encruzilhadas]]></title><description><![CDATA[Espaço de reflexão onde se defende a centralidade da relação entre os alunos e o conhecimento culturalmente validado como o desafio nuclear da Escola, o qual determina o empoderamento humano dos discentes e a afirmação profissional dos docentes.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ghFf!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F542030fc-14c2-474c-b563-512dbc701157_1200x1200.png</url><title>Encruzilhadas</title><link>https://encruzilhadas.pt</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Mon, 03 Aug 2026 21:59:04 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://encruzilhadas.pt/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Rui Trindade]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Rui Trindade]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Rui Trindade]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[encruzilhadas@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Rui Trindade]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Unicórnios]]></title><description><![CDATA[Ainda o 47&#186; Congresso do Movimento da Escola Moderna (MEM)]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/unicornios</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/unicornios</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 31 Jul 2026 10:28:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/49274ae7-859f-435f-8e4f-fbfc06281d7e_738x369.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Os unic&#243;rnios n&#227;o existem, mas eu gosto de os desenhar&#8221;. Este foi o textos, escrito por um aluno no 1&#186; ano de escolaridade, que nos foi apresentado pela Lurdes Castro e a Rita Pacheco, no decurso da comunica&#231;&#227;o que partilharam sobre escrita e leitura, no 47&#186; Congresso do MEM. Uma comunica&#231;&#227;o que &#233; o corol&#225;rio do trabalho que aquelas duas professoras do 1&#186; Ciclo do Ensino B&#225;sico realizaram nas respetivas turmas, envolvendo-se num processo que conduziu a horas de partilha c&#250;mplice e reflex&#227;o exigente que foram acontecendo, para al&#233;m da componente letiva e n&#227;o-letiva que ambas deveriam cumprir.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No ano letivo que agora finda, tanto a Rita como a Lurdes, por trabalharem com crian&#231;as do 1&#186; ano de escolaridade, decidiram envolver-se num projeto de alfabetiza&#231;&#227;o subordinado aos pressupostos de um modelo interativo da apropria&#231;&#227;o da linguagem escrita. Um modelo que se carateriza por recusar as pr&#225;ticas mecanicistas e artificiais de ensino da leitura e da escrita, opondo, em alternativa, a utiliza&#231;&#227;o da escrita como instrumento de comunica&#231;&#227;o t&#227;o aut&#234;ntica quanto plaus&#237;vel e, concomitantemente, como condi&#231;&#227;o da aprendizagem do princ&#237;pio alfab&#233;tico, o qual pressup&#245;e o desenvolvimento, entre outras coisas, da consci&#234;ncia fonol&#243;gica e da consci&#234;ncia fon&#233;mica, da ortografia e das regras da sintaxe. Dito de um outro modo, enquanto para as pr&#225;ticas tradicionais de ensino, o desenvolvimento da literacia, a ser considerada, &#233; um objetivo posterior ao do encerramento da fase da alfabetiza&#231;&#227;o, para o modelo interativo, que a investigadora brasileira Silvia Colello (2010) designa como modelo dial&#243;gico discursivo, a literacia &#233; uma preocupa&#231;&#227;o transversal e constante, desde o momento em que os come&#231;am a escrever as novidades que lhes s&#227;o relatadas, oralmente, pelos seus alunos. Inicia-se assim um percurso em que as crian&#231;as come&#231;am a compreender que a escrita &#233; uma representa&#231;&#227;o da fala e, igualmente, a compreender que atrav&#233;s da escrita descobrem outro modo de comunicar, o qual, ao longo das atividades de escrita e de leitura que ir&#227;o realizar, lhes permitir&#225; aceder a outros modos de pensar e de se relacionar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; neste contexto que surgiu o texto dos unic&#243;rnios com que abro as portas deste texto. Um texto que, para al&#233;m de ser esteticamente estimulante, nos mostra como a Escola para se afirmar como um espa&#231;o de cultura e humanidade n&#227;o pode encerrar os alunos em momentos t&#227;o insensatos e cretinos como s&#227;o aqueles em que &#171;O xerife Xuxu beija a gib&#243;ia&#187; ou em que &#171;O pap&#225; papa a tia&#187;, ou vice-versa, e tudo o que mais houver para papar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Conhecemos as raz&#245;es porque isto acontece, as quais, conv&#233;m recordar, nada t&#234;m a ver com as raz&#245;es hist&#243;rico-epistemol&#243;gicas que justificaram que a escrita se universalizasse nas nossas sociedades. &#201; por via da cren&#231;a que as crian&#231;as n&#227;o s&#227;o capazes, a cren&#231;a que os transforma em alunos a serem resgatados da sua ignor&#226;ncia e incompet&#234;ncia pela a&#231;&#227;o educativa estruturada dos seus professores, que se justifica que tudo comece num </span><em><span>pop&#243;</span></em><span> ou numa </span><em><span>pua</span></em><span>.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nos &#250;ltimos tempos, os argumentos, para continuar a fazer o mesmo, s&#227;o mais sofisticados. Hoje, a raz&#227;o mais utilizada, que um certo cognitivismo tem vindo a difundir, &#233; a import&#226;ncia estrat&#233;gica do desenvolvimento da consci&#234;ncia fonol&#243;gica, em fun&#231;&#227;o do qual se prop&#245;em programas de treino que assentam em dois princ&#237;pios, tidos por pedag&#243;gicos: o primeiro &#233; que se deve evoluir do mais simples para o mais complexo e o segundo que valoriza a ludicidade e o jogo como forma de encontrar um sentido para atividades que n&#227;o t&#234;m de ter qualquer sentido comunicativo ou cultural. &#201; por isso que Ana C. Silva prop&#245;e, para que ocorra o desenvolvimento da consci&#234;ncia fonol&#243;gica, enquanto etapa pr&#233;via da aprendizagem da leitura: (i) jogos de rimas; (ii) jogos de segmenta&#231;&#227;o sil&#225;bica; (iii) jogos de identifica&#231;&#227;o de palavras que partilham a s&#237;laba incial; (iv) jogos de manipula&#231;&#227;o; (v) jogos de s&#237;ntese fon&#233;mica; (vi) jogos de segmenta&#231;&#227;o fon&#233;mica e (vii) jogos de manipula&#231;&#227;o fon&#233;mica (idem). Os textos vir&#227;o depois.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ao contr&#225;rio, para a Lurdes e para a Rita, os textos est&#227;o sempre presentes, mesmo antes das crian&#231;as saberem ler ou escrever, o que n&#227;o significa, contudo, que isso signifique que se desvalorize a import&#226;ncia da consci&#234;ncia fonol&#243;gica. S&#243; que, neste caso, o seu desenvolvimento est&#225; presente n&#227;o como o objeto de uma atividade dissociada da leitura e da escrita aut&#234;ntica e culturalmente significativa de textos produzidos pelas crian&#231;as, mas como resultado do processo de reflex&#227;o a que estes s&#227;o submetidos quando os alunos assinalam, nas palavras, as s&#237;labas que as comp&#245;em de forma invariante, quando descobrem as palavras escondidas (se</span><strong><span>mana</span></strong><span>), quando constroem, na sequ&#234;ncia de tudo isto, quadros sil&#225;bicos que passar&#227;o a usar, escrevendo ou recriando palavras.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#8220;Os unic&#243;rnios n&#227;o existem, mas eu gosto de os desenhar&#8221; &#233; mais do que um texto empolgante. &#201; o resultado de um trabalho intencionalmente pensado e realizado para que os meninos aprendam-a-escrever-e-a-ler, atrav&#233;s de pr&#225;ticas de comunica&#231;&#227;o dial&#243;gicas e funcionais, e n&#227;o por via do treino mec&#226;nico que, em nome da efici&#234;ncia, adia a intelig&#234;ncia, a comunica&#231;&#227;o, a cultura e o humano. &#201; que, como nos mostraram a Lurdes e a Rita, escreve-se e l&#234;-se em fun&#231;&#227;o da necessidade de comunicarmos e de nos constituirmos como sujeitos. N&#243;s os adultos e elas, as crian&#231;as, mesmo que no 1&#186; ano de escolaridade.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Colello, Silvia M. Gasparian (2010). Alfabetiza&#231;&#227;o e letramento: o que ser&#225; que ser&#225;? In Leite, S&#233;rgio; Colello, Silvia; Arantes, Val&#233;ria (Aut.), </span><em><span>Alfabetiza&#231;&#227;o e letramento: Pontos e contrapontos</span></em><span> (75 &#8211; 127). S. Paulo: Summus Editorial.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Silva, Ana Cristina (2021). Consci&#234;ncia fonol&#243;gica e conhecimento das letra. In Alves, Rui; Leite, Isabel (Ed.). </span><em><span>Alfabetiza&#231;&#227;o baseada na Ci&#234;ncia: Manual do Curso ABC (</span></em><span>219 - 243</span><em><span>). </span></em><span>Bras&#237;lia: CAPES.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Utopias]]></title><description><![CDATA[Sobre o 47&#186; Congresso do Movimento da Escola Moderna (MEM)]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/utopias</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/utopias</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 25 Jul 2026 08:48:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/36c55853-0cf9-49d3-8cff-dc10995147e6_565x308.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Sei que envelhe&#231;o &#224; medida que vou perdendo as ilus&#245;es, ainda que saiba que, sem elas, a minha vida teria sido mais pobre e menos significativa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o teria sido professor cooperante na Guin&#233;-Bissau. N&#227;o teria adiado o meu retorno &#224; escola para trabalhar no Projeto de Luta contra a Pobreza, na Zona Hist&#243;rica do Porto. N&#227;o me teria envolvido em projetos que, no fim, nos deixaram a todos com uma m&#227;o cheia de nada e outra com coisa nenhuma.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Valeu a pena?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o fa&#231;o ideia. A &#250;nica coisa que estou certo e seguro &#233; que sem ilus&#245;es n&#227;o teria vivido o que vivi e, por isso, n&#227;o seria a pessoa que sou hoje. Sem ilus&#245;es n&#227;o teria estado envolvido noutras iniciativas que, ao contr&#225;rio daquelas que mencionei atr&#225;s, foram gratificantes e alimentaram a minha esperan&#231;a sobre outras possibilidades de sermos professores e de contribuir para pensar a Escola como um espa&#231;o culturalmente significativo e empoderador em termos pessoais e sociais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>No balan&#231;o de tudo isto, algumas vezes sinto-me ressacado. 46 anos depois de ter iniciado a minha atividade como professor do Ensino Prim&#225;rio, no dia 18 de janeiro de 1980, numa Telescola, em Sande - Marco de Canaveses, olho em retrospetiva. Estou &#224; porta da aposenta&#231;&#227;o e percebo quer que as utopias levam tempo a ser alcan&#231;adas, quer que foi necess&#225;rio ter aprendido a distinguir as utopias das quimeras ou, mais urgente do que isso, a distinguir as utopias das distopias.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Neste momento, com as utopias que me restam, vou ter de me habituar &#224; ideia que n&#227;o verei a sua concretiza&#231;&#227;o, isto se algum dia isso vier a acontecer. Mesmo assim n&#227;o me possa queixar. Assisti ao fim de uma longa ditadura, ao fim da guerra colonial, &#224; n&#227;o aceita&#231;&#227;o do analfabetismo massivo e, entre outras coisas, &#224; n&#227;o aceita&#231;&#227;o silenciosa do machismo e da homofobia, apesar de saber o longo caminho que ainda nos resta percorrer para que uma tal recusa possa pertencer, definitivamente, &#224;s nossas mem&#243;rias mais dolorosas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sem utopias ou n&#227;o haver&#225; futuro (n&#227;o nos esque&#231;amos das altera&#231;&#245;es clim&#225;ticas) ou o futuro ser&#225; algo que n&#227;o desejamos que seja vivido pelos nossos filhos e netos. &#201; em nome de tudo isto que defendo veementemente que as utopias n&#227;o podem ser enterradas. S&#243; que aceitar isso, pode implicar o risco de ter de viver com uma ressaca de vez em quando, tendo de enfrentar desilus&#245;es e resistir &#224; vontade de desistir, persistindo n&#227;o como um cavaleiro andante, mas no &#226;mbito de coletivos, maiores ou menores, que tomam decis&#245;es, avaliam o que fazem ou refletem sobre os desafios e as respostas que decidiram enfrentar, de forma sustentada e consequente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para mim, que estive no &#250;ltimo congresso do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM), o congresso em que esta associa&#231;&#227;o de professores e outros profissionais de educa&#231;&#227;o comemorou os seus 60 anos de exist&#234;ncia, esse &#233; um dos maiores legados do movimento. A concretiza&#231;&#227;o do projeto de uma Escola Democr&#225;tica, porque culturalmente significativa e inclusiva, &#233; uma possibilidade porque a clarifica&#231;&#227;o dos pressupostos que alicer&#231;am um tal projeto, as exig&#234;ncias do mesmo e as solu&#231;&#245;es que se v&#227;o implementando est&#225; dependente da coopera&#231;&#227;o que se vai estabelecendo entre os membros do MEM.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Diria que o modelo pedag&#243;gico deste movimento, bem como as inciativas que as suas associadas e associados v&#227;o desenvolvendo para o implementar s&#227;o a linha do horizonte que permite definir os termos de uma utopia educativa que s&#243; o &#233; porque a dimens&#227;o cultural do trabalho educativo nas escolas continua a ser pobre quando se recusa estabelecer um encontro entre a intelig&#234;ncia e os saberes dos alunos e o conhecimento culturalmente validado, enquanto ponto de partida daquele trabalho educativo. Em salas de aula onde continua a prevalecer, apesar das novas roupagens, o modo de ensino simult&#226;neo, a emula&#231;&#227;o geradora da competi&#231;&#227;o entre alunos ou uma abordagem seletiva do processo de avalia&#231;&#227;o, o trabalho daquelas e daqueles que se encontram vinculados ao MEM evidencia os azimutes da utopia curricular e pedag&#243;gica que, na minha opini&#227;o, temos de continuar a perseguir.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E para se compreender melhor o que quero dizer, limito-me a partilhar, apenas, um momento &#250;nico a que pude assistir numa excelente comunica&#231;&#227;o produzida por uma professora do 1&#186; ciclo, B&#225;rbara Giraldes, que no fim da mesma apresenta um pequeno v&#237;deo. Neste, as crian&#231;as do seu 1&#186; ano explicam &#224;s fam&#237;lias como aprenderam a escrever e a ler. Passo a passo, descreveram as etapas que foram vivendo, recorrendo aos textos que redigiram e ao trabalho que realizaram sobre estes textos e a partir destes textos, identificando o que foram aprendendo e realizando ao longo de todo este processo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; em momentos assim que a minha esperan&#231;a renasce e que, apesar das ressacas, bendigo as utopias.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Centros de Formação de Associação de Escolas (CFAE): O que fazer?]]></title><description><![CDATA[Com a den&#250;ncia dos estrangulamentos da a&#231;&#227;o dos CFAE, o tema dos dois &#250;ltimos textos publicados neste blogue, pretendi evidenciar, sobretudo, que estas entidades podiam, e podem, assumir um papel mais relevante no sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua em Portugal e, deste modo, protagonizar um papel mais decisivo no processo de dignifica&#231;&#227;o e valoriza&#231;&#227;o tanto da Escola P&#250;blica como da profiss&#227;o docente.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/centros-de-formacao-de-associacao</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/centros-de-formacao-de-associacao</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 17 Jul 2026 09:48:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/4a24110e-3400-4330-90d5-37fe27c0f89d_213x295.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Com a den&#250;ncia dos estrangulamentos da a&#231;&#227;o dos CFAE, o tema dos dois &#250;ltimos textos publicados neste blogue, pretendi evidenciar, sobretudo, que estas entidades podiam, e podem, assumir um papel mais relevante no sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua em Portugal e, deste modo, protagonizar um papel mais decisivo no processo de dignifica&#231;&#227;o e valoriza&#231;&#227;o tanto da Escola P&#250;blica como da profiss&#227;o docente.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Se &#233; necess&#225;rio reconhecer que a possibilidade de associar a forma&#231;&#227;o cont&#237;nua &#224; concretiza&#231;&#227;o dos projetos educativos e dos planos de atividades das escola &#233; um desafio a longo prazo e dif&#237;cil de concretizar, mesmo que se desenvolvam pol&#237;ticas educativas que o estimulem, &#233; necess&#225;rio reconhecer, no entanto, que a participa&#231;&#227;o dos CFAE como parceiros do MECI na defini&#231;&#227;o dos programas de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua &#233; n&#227;o s&#243; uma op&#231;&#227;o poss&#237;vel como uma op&#231;&#227;o desej&#225;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o se pode negar ao Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o a possibilidade de intervir, atrav&#233;s da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, no sistema educativo portugu&#234;s, exige-se, no entanto, que essa interven&#231;&#227;o se concretize, por um lado, de forma t&#227;o criteriosa, quanto sustentada e, por outro, que ocorra atrav&#233;s do envolvimento dos CFAE no &#226;mbito do processo de concetualiza&#231;&#227;o dos programas, de forma que estas entidades formadoras deixem de ficar circunscritas ao papel de executores dos mesmos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ser&#225; que uma tal op&#231;&#227;o inviabilizaria a concretiza&#231;&#227;o de programas como, por exemplo, o da capacita&#231;&#227;o digital de docentes? N&#227;o necessariamente, ainda que a estrat&#233;gia adotada tivesse de assumir outros contornos. N&#227;o pretendo p&#244;r em causa a interven&#231;&#227;o de especialistas ou desvalorizar a interven&#231;&#227;o que a extinta Dire&#231;&#227;o-Geral da Educa&#231;&#227;o (DGE) assumiu no &#226;mbito desse processo, o que pergunto &#233; porque &#233; que esta entidade, em vez de submeter diretamente a a&#231;&#227;o ao CCPFC, n&#227;o deixou que essa tarefa fosse assumida pelos CFAE? Porque &#233; que n&#227;o se limitou a redigir um documento onde fundamentaria a import&#226;ncia e as raz&#245;es que a conduziram a assumir uma tal iniciativa, onde explicitaria os objetivos que orientavam a mesma e onde faria recomenda&#231;&#245;es metodol&#243;gicas que pudessem servir de refer&#234;ncia &#224;s entidades formadoras, para que estas produzissem as suas propostas de forma&#231;&#227;o? Porque &#233; que a DGE n&#227;o assumiu o papel de consultora e, sobretudo, o papel de avaliadora do impacto da a&#231;&#227;o que, na verdade, n&#227;o foi da responsabilidade de ningu&#233;m? Em vez de uma interven&#231;&#227;o assente numa parceria a desenvolver com os CFAE, a DGE optou por centralizar a conce&#231;&#227;o do programa de forma&#231;&#227;o e atribuiu aos centros de forma&#231;&#227;o a responsabilidade por o executar.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Confrontando as duas op&#231;&#245;es em presen&#231;a e avaliando os riscos e vantagens de cada uma delas, diria que a op&#231;&#227;o centralista permite, na verdade, uma resposta massiva e mais expedita ao n&#237;vel da concretiza&#231;&#227;o dos programas de forma&#231;&#227;o. Em contrapartida, confronta os CFAE com dificuldades s&#233;rias ao n&#237;vel do recrutamento dos formadores, para al&#233;m de n&#227;o poder considerar, tanto quanto seria necess&#225;rio, as especificidades dos formandos e dos contextos de forma&#231;&#227;o. Se &#233; verdade que a sua efici&#234;ncia depende do modo como exerce a tutela sobre os CFAE, pode considerar-se que esta &#233;, igualmente, a sua maior vulnerabilidade.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>A outra estrat&#233;gia formativa, a de atribuir aos CFAE um papel na concetualiza&#231;&#227;o das a&#231;&#245;es, tendo os seus riscos, n&#227;o deixa, na verdade, de possibilitar o desenvolvimento de iniciativas em larga escala, permitindo, para al&#233;m disso, subverter a l&#243;gica homogeneizadora das a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o, decorrente do facto destas serem da responsabilidade exclusiva da Administra&#231;&#227;o Central. Ainda que o n&#250;mero de a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o e de formandos possa diminuir, uma tal estrat&#233;gia pode potenciar, no entanto, o desenvolvimento de rela&#231;&#245;es mais significativas entre as a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o, os contextos de trabalho e os docentes, potenciando-se, deste modo, o impacto do programa de forma&#231;&#227;o. A gest&#227;o dos formadores passa a assumir, igualmente, outros contornos. &#201; que na op&#231;&#227;o massiva de forma&#231;&#227;o, esta vari&#225;vel tende a ser menorizada em fun&#231;&#227;o da necessidade de realizar as a&#231;&#245;es, tendendo as entidades formadoras n&#227;o a procurar os formadores adequados, mas a tentar encontrar os formadores dispon&#237;veis.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Se no caso do programa de Capacita&#231;&#227;o Digital n&#227;o houve problema de maior em encontrar formadores acreditados (o que n&#227;o significa que tenham sido os formadores desejados), esta problem&#225;tica, noutras situa&#231;&#245;es, pode adquirir contornos dram&#225;ticos, como foi o caso, por exemplo, das 30 a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o concebidas e disseminadas pela DGE, relacionadas com a atualiza&#231;&#227;o e o aprofundamento cient&#237;fico-did&#225;tico quer das Orienta&#231;&#245;es Curriculares da Educa&#231;&#227;o Pr&#233;-Escolar quer dos programas das disciplinas (com exce&#231;&#227;o da Matem&#225;tica) que integram os planos de estudo em vigor no sistema educativo portugu&#234;s, desde o Ensino B&#225;sico ao Ensino Secund&#225;rio.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Neste &#226;mbito, o recurso &#224; forma&#231;&#227;o em cascata &#233; uma &#250;ltima problem&#225;tica que &#233; necess&#225;rio abordar, enquanto expediente utilizado pelos minist&#233;rios da educa&#231;&#227;o para massificar as iniciativas formadoras. Sendo uma possibilidade, &#233; necess&#225;rio, contudo, refletir sobre os riscos de uma tal op&#231;&#227;o, sobretudo quando sabemos que h&#225; uma dist&#226;ncia, algumas vezes, incomensur&#225;vel em termos da qualidade da forma&#231;&#227;o, entre o momento da forma&#231;&#227;o de formadores e o momento posterior em que estes passam a trabalhar com os respetivos formandos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nos &#250;ltimos tempos, o exemplo maior dos efeitos nefastos desta op&#231;&#227;o teve a ver com o projeto MAIA que foi amplamente penalizada pelos efeitos da forma&#231;&#227;o em cascata. Uma op&#231;&#227;o que, neste caso, se justificou pela necessidade de apressar a transforma&#231;&#227;o das pr&#225;ticas de avalia&#231;&#227;o pedag&#243;gica das aprendizagens dos professores portugueses, confundindo-se urg&#234;ncia com pressa. Apesar da qualidade e da pertin&#234;ncia daquele projeto, o mesmo acabou por gerar veementes rea&#231;&#245;es de oposi&#231;&#227;o que se explicam quer com a pr&#243;pria amplitude dos desafios curriculares e pedag&#243;gicos em presen&#231;a, quer com a ambi&#231;&#227;o desmedida de uma iniciativa que deveria ter sido desenvolvida como um projeto-piloto circunscrito e n&#227;o como um projeto com a amplitude que o mesmo, sabemo-lo hoje, n&#227;o poderia ter.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Em conclus&#227;o, na forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores, &#233; a transforma&#231;&#227;o da rela&#231;&#227;o entre o Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o e os CFAE que, neste momento, deve constituir a principal preocupa&#231;&#227;o dos decisores pol&#237;ticos e dos diretores daquelas entidades. &#201; que as vantagens em transitar de uma l&#243;gica da tutela para uma l&#243;gica de parceria s&#227;o in&#250;meras, seja do ponto de vista do impacto das a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, seja do ponto de vista do empoderamento daqueles CFAE, os quais, importa reconhecer, exprimem uma das dimens&#245;es mais saud&#225;veis e promissoras do sistema educativo portugu&#234;s.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os Centros de Formação da Associação de Escolas (CFAE) e as suas zonas de estrangulamento (II)]]></title><description><![CDATA[No &#250;ltimo texto publicado neste blogue, aleguei que uma primeira zona de estrangulamento do sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua dizia respeito ao modo como a estrat&#233;gia de financiamento dos CFAE constitu&#237;a um instrumento utilizado pelos governos para transformar estas entidades em executores dos programas de forma&#231;&#227;o concebidos pela Administra&#231;&#227;o Central.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/os-centros-de-formacao-da-associacao-9b3</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/os-centros-de-formacao-da-associacao-9b3</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Fri, 10 Jul 2026 21:23:37 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e37a5460-d0b9-4126-93e9-1933b0d31cb1_3060x4080.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>No &#250;ltimo texto publicado neste blogue, aleguei que uma primeira zona de estrangulamento do sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua dizia respeito ao modo como a estrat&#233;gia de financiamento dos CFAE constitu&#237;a um instrumento utilizado pelos governos para transformar estas entidades em executores dos programas de forma&#231;&#227;o concebidos pela Administra&#231;&#227;o Central. Desde 1992, quando se come&#231;aram a formar os CFAE, esta &#233;, ali&#225;s, uma situa&#231;&#227;o que foi denunciada por todos aqueles que, nessa &#233;poca, realizaram estudos sobre essa tem&#225;tica (Can&#225;rio, 1994; Correia, Caramelo &amp; Vaz, 1997; Barroso &amp; Can&#225;rio, 1999; Silva, 2001).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tal como referi, tamb&#233;m nesse texto, nem os governos do PS, entre 2016 e 2014, alteraram essa estrat&#233;gia, mesmo que tenham sido respons&#225;veis por um dos projetos de pol&#237;tica educativa mais ambiciosos, consequentes e relevantes, relacionado com a autonomia das escolas para, de forma aut&#243;noma, tomarem decis&#245;es curriculares e, neste &#226;mbito, desenvolverem iniciativas educativas singulares. Por isso &#233; que considerei que est&#225;vamos perante uma contradi&#231;&#227;o e um paradoxo. Se as escolas passaram a ter uma maior margem de manobra para tomar decis&#245;es, ent&#227;o porque &#233; que o mesmo princ&#237;pio n&#227;o se aplicou aos CFAE, no dom&#237;nio da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tentando compreender o que estava em jogo, perguntei o que poderia explicar a atitude da j&#225; extinta DGE face aos centros de forma&#231;&#227;o. A necessidade de acelerar, por via da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, a transforma&#231;&#227;o pela qual o Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o ansiava? A desconfian&#231;a face &#224; capacidade dos CFAE assumirem um papel central no processo? A tentativa de condicionar o impacto da l&#243;gica de consumo que poderia afetar as a&#231;&#245;es concebidas por estas entidades, por via da press&#227;o a que alegadamente estes poderiam estar sujeitos para ajustar a sua oferta formativa &#224; progress&#227;o dos docentes na carreira?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>As raz&#245;es podem ser diversas para explicar o peso que a DGE foi assumindo na configura&#231;&#227;o de a&#231;&#245;es de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua que foram sendo concretizadas, em larga medida, pelos CFAE. Deixo para depois a discuss&#227;o sobre o que se poderia ter feito, de forma a discutir n&#227;o tanto a urg&#234;ncia do Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o ou a sua eventual desconfian&#231;a face aos centros de forma&#231;&#227;o, mas o do v&#237;nculo existente entre forma&#231;&#227;o cont&#237;nua e progress&#227;o na carreira, porque, na minha perspetiva, esta &#233; a segunda zona de estrangulamento dos CFAE. Trata-se do sintoma de um problema que &#233; necess&#225;rio enfrentar: o da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua se encontrar dissociada, em geral, dos projetos educativos das escolas, dos seus planos de atividades ou dos seus planos de melhoria.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Enquanto isso acontecer, n&#227;o ser&#225; a mudan&#231;a de legisla&#231;&#227;o, no sentido de alterar aquele v&#237;nculo, que ir&#225; produzir qualquer efeito. O que &#233; necess&#225;rio reconhecer &#233; que o desafio que se tem pela frente &#233; enorme e arriscado porque implica, na verdade, a transforma&#231;&#227;o da cultura organizacional das escolas, transitando-se de uma cultura organizacional taylorista e burocr&#225;tica para um outro tipo de cultura organizacional que permita e estimule a participa&#231;&#227;o dos professores nas decis&#245;es que t&#234;m a ver com as iniciativas educativas que lhes dizem respeito.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sem esta transforma&#231;&#227;o, a forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores continuar&#225; a depender da progress&#227;o da carreira, do voluntarismo de alguns professores ou da implementa&#231;&#227;o de projetos pontuais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Do ponto de vista dos CFAE, criam-se as condi&#231;&#245;es para que estas entidades possam ser o que ainda n&#227;o s&#227;o: inst&#226;ncias respons&#225;veis pela dinamiza&#231;&#227;o local de forma&#231;&#227;o e desenvolvimento profissional dos professores relacionados com um dado territ&#243;rio, a partir das sinergias que podem estabelecer com as escolas associadas. Criam-se as condi&#231;&#245;es para que a rela&#231;&#227;o entre os CFAE e a Administra&#231;&#227;o Central se liberte da atual l&#243;gica da tutela para se desenvolver como uma l&#243;gica de partenariado. Criam-se as condi&#231;&#245;es, finalmente, para que a forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores passe a estar vinculada &#224; avalia&#231;&#227;o de desempenho docente e n&#227;o diretamente &#224; progress&#227;o na carreira.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que sei &#233; que os CFAE t&#234;m uma estrutura e um potencial que lhes permite enfrentar este desafio, do qual depende tanto a credibiliza&#231;&#227;o e dignifica&#231;&#227;o da Escola P&#250;blica, em Portugal, como da pr&#243;pria profiss&#227;o docente.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Can&#225;rio, Rui (1994). Centros de Forma&#231;&#227;o de Associa&#231;&#245;es de Escolas: Que futuro? In Amiguinho, Ab&#237;lio; &amp; Can&#225;rio, Rui (Org.), </span><em><span>Escolas e mudan&#231;a: O papel dos Centros de Forma&#231;&#227;o</span></em><span>. Lisboa: Educa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Correia, Jos&#233; Alberto; Caramelo, Jo&#227;o; Vaz, Henrique (1997). </span><em><span>Forma&#231;&#227;o de Professores: Estudo Tem&#225;tico.</span></em><span> Porto: FPCEUP (texto policopiado).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Barroso, Jo&#227;o; &amp; Can&#225;rio, Rui (1999). </span><em><span>Centros de Forma&#231;&#227;o das Associa&#231;&#245;es de Escolas: Das experi&#234;ncias &#224;s realidades</span></em><span>. Lisboa: IIE.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Silva, Manuel Ant&#243;nio da (2001). </span><em><span>Os diretores dos Centros de Forma&#231;&#227;o das Associa&#231;&#245;es de Escolas.</span></em><span> Lisboa: IIE.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Contestação e democracia]]></title><description><![CDATA[Falemos de contesta&#231;&#227;o.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/contestacao-e-democracia</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/contestacao-e-democracia</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 08 Jul 2026 19:45:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a50e50ba-ace3-4bf9-911f-e50acd549790_300x300.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>Falemos de contesta&#231;&#227;o. Durante muito tempo tendia a associar o ato de contestar a um ato de generosidade pol&#237;tica, esquecendo-me, por exemplo, da exist&#234;ncia das contesta&#231;&#245;es de natureza anti-democr&#225;tica, talvez por serem minorit&#225;rias ou silenciosas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Como sabemos isso mudou, tal como o triste epis&#243;dio que op&#244;s o capit&#227;o da sele&#231;&#227;o nacional de futebol, Kylian Mbapp&#233;, &#224; deputada paraguaia Celeste Amarilla, t&#227;o bem ilustra.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tudo come&#231;ou no fim do jogo de futebol entre a Fran&#231;a e o Paraguai que a sele&#231;&#227;o gaulesa venceu, depois de um jogo muito tenso, marcado pela dureza e as provoca&#231;&#245;es dos jogadores paraguaios, o que levou os franceses a recusarem cumprimentar os advers&#225;rios no fim do jogo e Mbapp&#233; a afirmar que a sua equipa tamb&#233;m sabia jogar sujo. Foi na sequ&#234;ncia destes epis&#243;dios que Celeste Amarilla acusou o capit&#227;o da sele&#231;&#227;o francesa de n&#227;o passar de um camaron&#234;s colonizado, a tentar fazer-se passar por franc&#234;s, um ressentido, novo rico, prepotente, feio e inculto que, para al&#233;m disso, n&#227;o sabia escrever, j&#225; que a coisa mais instru&#237;da que ouviu tinham sido os chimpanz&#233;s. Se a resposta de Mbapp&#233; n&#227;o se fez esperar, acusando a deputada de ser racista e uma mulher desprez&#237;vel, indigna do cargo que ocupava, a resposta de Celeste tamb&#233;m n&#227;o, amea&#231;ando-o com o tribunal porque as palavras dele configuravam uma situa&#231;&#227;o de viol&#234;ncia de g&#233;nero, um crime que devia ser punido.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Perante tamanha desfa&#231;atez, o que dizer? O que far&#225; o Partido Liberal Radical Aut&#234;ntico pelo qual foi eleita para o Parlamento paraguaio? Tendo em conta que estamos perante um partido que combateu o regime brutal do ditador Stroessner e que hoje constitui um dos pilares do regime democr&#225;tico no Paraguai, penso que a expuls&#227;o seria a medida mais congruente. N&#227;o sei se o far&#225;. O que sei, e o que me preocupa, &#233; n&#227;o desconhecer que haver&#225; sempre quem me possa acusar de, atrav&#233;s deste texto, desrespeitar a liberdade de express&#227;o e de pensamento. O que sei, e o que me preocupa, &#233; ver uma racista, ao ser acusada daquilo que efetivamente &#233;, alegar que foi v&#237;tima de viol&#234;ncia de g&#233;nero.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O problema &#233; que a viol&#234;ncia de g&#233;nero existe. Trata-se de um fen&#243;meno social end&#233;mico que tem e deve ser combatido, seja quando ela se faz sentir nas ruas e nas casas deste pa&#237;s e deste mundo, seja quando &#233; invocada para sustentar aleivosias e mentiras. Na primeira situa&#231;&#227;o, a viol&#234;ncia gera uma situa&#231;&#227;o humanamente intoler&#225;vel, enquanto na segunda, a viol&#234;ncia consubstancia-se na instrumentaliza&#231;&#227;o de uma den&#250;ncia t&#227;o c&#237;nica quanto hip&#243;crita. As duas configuram um atentado &#224; vida que seria suposto viver em sociedades que se afirmam como democr&#225;ticas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Moral da hist&#243;ria: A contesta&#231;&#227;o, nem sempre corresponde a um ato atrav&#233;s do qual se busca mais dignidade, justi&#231;a e democracia. Por isso, temos de ser criteriosos e, quando isso &#233; necess&#225;rio, necessitamos de ter coragem para denunciar e contestar a contesta&#231;&#227;o.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os Centros de Formação da Associação de Escolas (CFAE) e as suas zonas de estrangulamento]]></title><description><![CDATA[No passado dia 1 de julho, a Sec&#231;&#227;o da Forma&#231;&#227;o Cont&#237;nua de Profissionais da Educa&#231;&#227;o, da Sociedade Portuguesa de Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o (SPCE), em conjunto com os membros do grupo que dinamiza o projeto Mem&#243;rias dos CFAE, organizou um col&#243;quio intitulado &#171;Forma&#231;&#227;o Cont&#237;nua: Percursos, reflex&#245;es e desafios&#187;, o qual teve lugar no audit&#243;rio do Museu do Mar&#237;timo de &#205;lhavo.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/os-centros-de-formacao-da-associacao</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/os-centros-de-formacao-da-associacao</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 04 Jul 2026 13:45:28 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/38b22fc0-3c9a-43c0-a6d5-de5734ab5630_704x1000.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>No passado dia 1 de julho, a Sec&#231;&#227;o da Forma&#231;&#227;o Cont&#237;nua de Profissionais da Educa&#231;&#227;o, da Sociedade Portuguesa de Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o (SPCE), em conjunto com os membros do grupo que dinamiza o projeto Mem&#243;rias dos CFAE, organizou um col&#243;quio intitulado &#171;Forma&#231;&#227;o Cont&#237;nua: Percursos, reflex&#245;es e desafios&#187;, o qual teve lugar no audit&#243;rio do Museu do Mar&#237;timo de &#205;lhavo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi numa jornada onde se abordaram assuntos decisivos que, por insufici&#234;ncia de espa&#231;o, n&#227;o vou comentar neste texto, sentindo, apenas, a necessidade de afirmar que reforcei a minha cren&#231;a que os CFAE constituem uma das zonas mais saud&#225;veis do nosso sistema educativo.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Dito isto, e aproveitando a interven&#231;&#227;o que partilhei, vou-me ficar pela discuss&#227;o sobre as zonas de estrangulamento que, hoje, afetam a a&#231;&#227;o dos CFAE. Uma dessas zonas diz respeito &#224; l&#243;gica e estrat&#233;gia de financiamento das atividades dos centros de forma&#231;&#227;o, sendo ela que justifica a reda&#231;&#227;o deste texto.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Na minha interven&#231;&#227;o, sobre a an&#225;lise da literatura acad&#233;mica que foi produzida na d&#233;cada de 90 (logo ap&#243;s a promulga&#231;&#227;o, em 1992, do primeiro Regime Jur&#237;dico que regulava a forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores) a problem&#225;tica do financiamento era, para os autores das obras analisadas (Can&#225;rio, 1994; Correia, Caramelo &amp; Vaz, 1997; Barroso &amp; Can&#225;rio, 1999; Silva, 2001; Estrela, 2001), uma problem&#225;tica recorrente. Todos eles referiam estarmos perante um paradoxo: o da cria&#231;&#227;o dos CFAES corresponder a uma decis&#227;o que alegadamente visa incentivar o associativismo docente e promover a descentraliza&#231;&#227;o territorial e funcional da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, ainda que, por via da estrat&#233;gia de financiamento adotada, a atividade daquelas entidades acabe por ser tutelada pela Administra&#231;&#227;o Central.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que &#233; relevante, como objeto de an&#225;lise, &#233; que a l&#243;gica tutelar dessa estrat&#233;gia se perpetuou, mesmo quando, a partir de 2016, atrav&#233;s do Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular, se assumiram decis&#245;es pol&#237;ticas consequentes, com a promulga&#231;&#227;o dos decreto-lei 54/2018 e 55/2018. Pela primeira vez na hist&#243;ria do sistema educativo portugu&#234;s oferecia-se a possibilidade dos agrupamentos escolares e as escolas n&#227;o agrupadas gerirem o curr&#237;culo de forma aut&#243;noma e contextualizada. Porque &#233; que os CFAE n&#227;o beneficiaram de uma autonomia equivalente, assumindo-se, a partir de determinado momento, como executores dos programas de forma&#231;&#227;o concebidos pela Dire&#231;&#227;o-Geral de Educa&#231;&#227;o?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Mais do que produzir uma acusa&#231;&#227;o, interessa-me, sobretudo, chamar a aten&#231;&#227;o para esta alegada contradi&#231;&#227;o pol&#237;tica, enquanto express&#227;o da dificuldade da administra&#231;&#227;o central superar a sua desconfian&#231;a face &#224; capacidade dos professores se poderem assumir como protagonistas, neste caso, das iniciativas de forma&#231;&#227;o que lhes dizem respeito.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Poderia a DGE assumir uma outra postura, sabendo os riscos que iria correr, num sistema de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua onde as necessidades de progress&#227;o na carreira inquinam o potencial transformadora da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Ser&#225; no pr&#243;ximo texto que tentarei responder a esta quest&#227;o, discutindo uma das outras zonas de estrangulamento do sistema portugu&#234;s de forma&#231;&#227;o cont&#237;nua, aquela que diz respeito &#224; dissocia&#231;&#227;o entre as iniciativas formativas e os projetos e planos de interven&#231;&#227;o que se desenham nas escolas.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Can&#225;rio, Rui (1994). Centros de Forma&#231;&#227;o de Associa&#231;&#245;es de Escolas: Que futuro? In Amiguinho, Ab&#237;lio; &amp; Can&#225;rio, Rui (Org.), </span><em><span>Escolas e mudan&#231;a: O papel dos Centros de Forma&#231;&#227;o</span></em><span>. Lisboa: Educa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Correia, Jos&#233; Alberto; Caramelo, Jo&#227;o; Vaz, Henrique (1997). </span><em><span>Forma&#231;&#227;o de Professores: Estudo Tem&#225;tico.</span></em><span> Porto: FPCEUP (texto policopiado).</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Barroso, Jo&#227;o; &amp; Can&#225;rio, Rui (1999). </span><em><span>Centros de Forma&#231;&#227;o das Associa&#231;&#245;es de Escolas: Das experi&#234;ncias &#224;s realidades</span></em><span>. Lisboa: IIE.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Silva, Manuel Ant&#243;nio da (2001). </span><em><span>Os diretores dos Centros de Forma&#231;&#227;o das Associa&#231;&#245;es de Escolas.</span></em><span> Lisboa: IIE.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Estrela, Maria Teresa (2001). Realidade e perspetivas da forma&#231;&#227;o cont&#237;nua de professores. </span><em><span>Revista Portuguesa de Educa&#231;&#227;o</span></em><span>, 14 (1), 27-48.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Magda]]></title><description><![CDATA[- &#211; st&#244;r, eu quero aprender, mas n&#227;o percebo nada do que est&#225; pr&#8217;a&#237; a dizer?]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/magda</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/magda</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 27 Jun 2026 10:52:20 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ade0f7c3-7b39-4d85-b29e-f57617a7456d_250x148.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>- &#211; st&#244;r, eu quero aprender, mas n&#227;o percebo nada do que est&#225; pr&#8217;a&#237; a dizer?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Era a Magda, em todo o seu esplendor. Usava a verdade de forma habilidosa, para mostrar que n&#227;o estava para ali virada. Jo&#227;o, o explicador, sorria. Lembrava-se, provavelmente, dos primeiros encontros em que o n&#227;o me chateie que isso n&#227;o &#233; para mim, ainda estava longe daquele eu quero aprender. Valesse o que valesse, a muralha tinha sido derrubada, ainda que...</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Ouve Magda, tu n&#227;o sabes em que continente estamos?</span></p><p style="text-align: justify;"><span>- Continente, o qu&#234;? Eu fa&#231;o compras na loja da Laurinha.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sa&#237; a correr do espa&#231;o que partilh&#225;vamos para poder rir a bandeiras despregadas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>N&#227;o sei como &#233; que a hist&#243;ria acabou. Sabia que aquela rapariga, com 14 anos de idade, era o pilar de uma casa. Fazia os biscates a fazer limpezas ou a ajudar no mercado da S&#233;. Era ela que tentava impor os limites, sabe-se l&#225; como, aos dois irm&#227;os mais novos. Mais uma mulher que n&#227;o tivera tempo para ser menina.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Tudo isto j&#225; foi h&#225; muito tempo. Aconteceu nos fins da d&#233;cada de 90, na minha saudosa &#171;Casa do Rio&#187;. Um espa&#231;o que criamos para, entre outras, responder &#224; indiferen&#231;a que as escolas nutriam por este tipo de alunos. A escola obrigat&#243;ria terminava no 9&#186; ano. N&#227;o havia teipes, nem preocupa&#231;&#245;es com medidas de natureza socioeducativa. Da&#237; para c&#225;, muita coisa mudou. Se n&#227;o me custa reconhecer que a vida dos professores &#233;, hoje, mais dura, importa lembrar que isso n&#227;o se deve s&#243; &#224; populariza&#231;&#227;o das redes sociais, dos equ&#237;vocos existenciais e educativos do que Byung-Chul Han (2014) designa por sociedade do cansa&#231;o ou at&#233; da erup&#231;&#227;o do mundo das p&#243;s-verdades. Hoje, colocamo-nos perante novos desafios nas escolas e isso pressup&#245;em, tamb&#233;m, novas exig&#234;ncias. Se estas nem sempre s&#227;o compat&#237;veis com os recursos de que dispomos, e sobre a forma como gerimos tais recursos, h&#225; uma coisa que eu sei, a de que n&#227;o podemos desistir, a de termos de contar uns com os outros para n&#227;o desistir e a de termos de reivindicar, de forma expl&#237;cita e clara, as condi&#231;&#245;es necess&#225;rias para n&#227;o desistirmos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Aprendi isto, nesse tempo de trabalho na &#171;Casa do Rio&#187; em que o Jo&#227;o, o jovem professor atr&#225;s referido que apoiava a Magda nos seus estudos, ainda que tivesse a energia necess&#225;ria e vivesse o seu trabalho com o encantamento de quem acredita que pode fazer a diferen&#231;a, nunca esteve sozinho a fazer o que fazia. Havia quem o apoiasse, quem o animasse, quem lhe propusesse outras solu&#231;&#245;es ou quem reconhecesse o seu valor e profissionalismo. Havia, afinal, cumplicidade e condi&#231;&#245;es para que esta cumplicidade crescesse e se afirmasse.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Han, Byung-Chul (2014). </span><em><span>A sociedade do cansa&#231;o</span></em><span>. Lisboa: Rel&#243;gio D&#8217;&#193;gua.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Bibó S. João]]></title><description><![CDATA[A v&#233;spera de S.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/bibo-s-joao</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/bibo-s-joao</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Tue, 23 Jun 2026 11:48:25 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7e821721-31aa-4eb0-b57a-08210ec292c1_270x400.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>A v&#233;spera de S. Jo&#227;o, a noite dita mais longa, &#233; um tempo de mangericos, de alhos porro, de cidreira, de sardinhas que se conjugam em fun&#231;&#227;o da palavra fraternidade. &#201; tamb&#233;m o tempo das quadras. Bib&#243; S. Jo&#227;o!!!  </p><p></p><p><span>Mais um ano S. Jo&#227;o,</span></p><p><span>Motivo pr&#8217;a tantas quadras,</span></p><p><span>Para textos e partilhas</span></p><p><span>Neste nosso Encruzilhadas.</span></p><p></p><p><span>H&#225; tanto para contar,</span></p><p><span>H&#225; tanto h&#225; para dizer,</span></p><p><span>H&#225; tanto para ouvir,</span></p><p><span>H&#225; tanto para aprender.</span></p><p></p><p><span>N&#227;o perder a esperan&#231;a,</span></p><p><span>&#201; um desejo decente,</span></p><p><span>Sabendo que na nossa voz</span></p><p><span>H&#225; a voz de muita gente.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A pretexto de um «Sábado Pedagógico»]]></title><description><![CDATA[Estive hoje, como havia anunciado, no &#171;S&#225;bado Pedag&#243;gico&#187; do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM) que teve lugar na Faculdade de Psicologia e de Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o da Universidade do Porto.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/a-pretexto-de-um-sabado-pedagogico</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/a-pretexto-de-um-sabado-pedagogico</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 20 Jun 2026 13:35:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7d92b5b5-c33c-47b0-ad6f-fee2d18d1e62_318x159.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span>Estive hoje, como havia anunciado, no &#171;S&#225;bado Pedag&#243;gico&#187; do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM) que teve lugar na Faculdade de Psicologia e de Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o da Universidade do Porto. N&#227;o foi o primeiro, mas foi como se fosse.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Juntarmo-nos para pensar em conjunto sobre o que andamos a fazer como educadores e professores &#233;, s&#243; por si, um prop&#243;sito profundamente subversivo Uns exp&#245;em-se e outros ouvem, mas todos partilham. Pensam, em conjunto, sobre o presente educativo que querem construir. O presente poss&#237;vel sem que isso signifique que se abdica do presente desej&#225;vel. Um presente que se enfrenta sem nos refugiarmos no futuro que, sabemos bem, bate &#224; nossa porta em cada segundo que passa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nos tempos que correm, onde a desgra&#231;a e a descren&#231;a s&#227;o os alimentos que se v&#227;o servindo nas redes sociais e na pr&#243;pria imprensa, necessitamos de s&#225;bados pedag&#243;gicos porque necessitamos de esperan&#231;a. N&#227;o a esperan&#231;a dos crentes, mas a esperan&#231;a tang&#237;vel daqueles que lutam por ela. Uma esperan&#231;a que contrarie a nossa solid&#227;o. Uma esperan&#231;a que contrarie o consumismo das solu&#231;&#245;es f&#225;ceis e imediatas. Uma esperan&#231;a que se constr&#243;i, de forma partilhada, com exig&#234;ncia e com rigor, a partir do trabalho que se realiza e da reflex&#227;o que esse trabalho suscita.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; tudo isto que sinto em cada s&#225;bado pedag&#243;gico e &#233; por isso, tamb&#233;m, que devo muito daquilo que sou profissionalmente ao Movimento da Escola Moderna Portuguesa.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Para abreviar, diria que foi no MEM que escutei, pela primeira vez, o conceito de isomorfismo pedag&#243;gico e ao qual recorro constantemente como crit&#233;rio de aferi&#231;&#227;o da autenticidade e impacto da forma&#231;&#227;o inicial e cont&#237;nua de docentes, da autenticidade e impacto dos projetos de inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica, da autenticidade e impacto do pr&#243;prio MEM.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que aquele conceito nos exige &#233; que se estabele&#231;a uma rela&#231;&#227;o t&#227;o coerente quanto congruente entre os nossos princ&#237;pios e as nossas pr&#225;ticas, o que est&#225; longe de ser o caso quer nos j&#225; atr&#225;s referidos projetos de forma&#231;&#227;o inicial e cont&#237;nua ou nos projetos de inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica. Diria mesmo que a aus&#234;ncia de isomorfismo pedag&#243;gico &#233; uma das raz&#245;es mais poderosas que permitem explicar que os primeiros n&#227;o contribuem para que se concretize o tipo de forma&#231;&#227;o que dizem pretender concretizar e os segundos n&#227;o s&#227;o, afinal, projetos inovadores. &#201; verdade que sei, sem vacilar, que estamos perante um objetivo muito exigente, sem que com isto esteja a patrocinar a ideia de que &#233; um objetivo inexequ&#237;vel.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>E a prova da sua plausibilidade encontro-a no MEM, um movimento de autoforma&#231;&#227;o cooperada de educadores e professores, bem como de outros profissionais de educa&#231;&#227;o, que, a partir das pr&#225;ticas e das reflex&#245;es dos seus membros visa contribuir para que estes possam ser construtores de uma Escola congruente com os valores que caraterizam, ou deveriam caraterizar, a vida em sociedades democr&#225;ticas.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; este o investimento que os educadores e os professores, associados do MEM, protagonizam. &#201; o reconhecimento da centralidade que atribuem ao isomorfismo pedag&#243;gico como motor da sua a&#231;&#227;o como profissionais que lhes confere credibilidade e sentido ao trabalho que realizam nos seus jardins-de-inf&#226;ncia e escolas, nos s&#225;bados pedag&#243;gicos, nos grupos de trabalho cooperativo em que participam ou nas comunica&#231;&#245;es e na exposi&#231;&#227;o que apresentam em cada um dos seus congressos anuais.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; o isomorfismo pedag&#243;gico de inspira&#231;&#227;o pedagogicamente democr&#225;tica que permite que o MEM disponha, hoje, de um legado pedag&#243;gico incontorn&#225;vel que nos permite compreender, de forma mais esclarecida, as possibilidades de afirma&#231;&#227;o de um projeto democr&#225;tico de educa&#231;&#227;o inclusiva, em fun&#231;&#227;o do qual se estabelece a rutura com o modo de ensino simult&#226;neo, para propor as salas de aula como comunidades de aprendizagem, no &#226;mbito da afirma&#231;&#227;o da Escola como um espa&#231;o de empoderamento cultural, condi&#231;&#227;o para que se possa assumir como um espa&#231;o de forma&#231;&#227;o pessoal e de cidadania e onde os professores tenham a oportunidade de se afirmar como construtores do conhecimento profissional.</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O MEM como esteio de uma escola democrática e inclusiva]]></title><description><![CDATA[No pr&#243;ximo s&#225;bado dia 20 de junho de 2026, &#224;s 10 h., ter&#225; lugar mais um &#171;S&#225;bado Pedag&#243;gico&#187;, do N&#250;cleo Regional do Porto do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM).]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-mem-como-esteio-de-uma-escola-democratica</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-mem-como-esteio-de-uma-escola-democratica</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 17 Jun 2026 07:55:33 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/7e437a56-6815-4787-b1c7-6f9886dcdccb_447x447.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><span>No pr&#243;ximo s&#225;bado dia 20 de junho de 2026, &#224;s 10 h., ter&#225; lugar mais um &#171;S&#225;bado Pedag&#243;gico&#187;, do N&#250;cleo Regional do Porto do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM). Como tem sido habitual, tamb&#233;m eu estarei presente como uma comunica&#231;&#227;o intitulada: &#171;O MEM como esteio de uma Escola Democr&#225;tica e inclusiva&#187; que exprime o meu modo de contribuir para a celebra&#231;&#227;o dos 60 anos deste movimento.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi em 1966 que tudo come&#231;ou com a constitui&#231;&#227;o do Grupo de Trabalho de Promo&#231;&#227;o Pedag&#243;gica, do qual faziam parte S&#233;rgio Niza, Isabel Pereira e Rosalina Gomes de Almeida, no &#226;mbito de um dos cursos de Aperfei&#231;oamento Profissional, coordenado por Rui Gr&#225;cio, no Sindicato Nacional de Professores. 10 anos depois, j&#225; em 1976, faz este ano 50 anos, o Movimento da Escola Moderna Portuguesa &#233; formalmente registado como uma associa&#231;&#227;o pedag&#243;gica de professores.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>&#201; sobre a hist&#243;ria do MEM que irei falar, aproveitando o facto de, tamb&#233;m este ano, ter sido publicado um livro, o &#171;Esteios&#187; (Trindade, Lopes, Ferreira &amp; Pinto, 2025), onde se homenageiam mulheres e homens que, por via das suas obras e reflex&#245;es, contribu&#237;ram para a democratiza&#231;&#227;o do sistema educativo portugu&#234;s.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Nesse livro apresentam-se 82 biografias breves de gente proveniente dos mais diversos campos de atua&#231;&#227;o e &#225;reas do sabe que foram designados como &#8220;esteios&#8221; porque sem eles a nossa vida pessoal e coletiva teria sido certamente diferente. Da&#237; que mais do que um exerc&#237;cio para a constru&#231;&#227;o de uma mem&#243;ria futura, o que se produziu foi um exerc&#237;cio de justi&#231;a hist&#243;rica atrav&#233;s do qual celebramos as vidas daquelas e daqueles que nos mostraram que &#233; poss&#237;vel e necess&#225;rio viver num mundo e numa escola mais democr&#225;ticos.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Foi atrav&#233;s desse livro que me deparei com o facto do MEM se encontrar representado no mesmo atrav&#233;s de catorze biografias. Umas que t&#234;m a ver com figuras de refer&#234;ncia do movimento, outras que dizem respeito a pessoas que foram companheiros de jornada do movimento e outras, ainda, que s&#227;o as biografias de associadas do movimento, as quais contribu&#237;ram que este exista da forma como existe.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>O que se conclui &#233; que o MEM, s&#243; por si, constitui um esteio que 60 anos depois da sua cria&#231;&#227;o merece e tem de ser celebrado, enquanto movimento pedag&#243;gico que det&#233;m, e uso as palavras de Ant&#243;nio N&#243;voa para o dizer, um dos mais importantes capitais &#8220;de &#8216;reflex&#227;o na pr&#225;tica e sobre a pr&#225;tica&#8217; dispon&#237;vel no sistema educativo&#8221; portugu&#234;s.</span></p><p style="text-align: justify;"><span>Sendo a entrada livre, sintam-se convidados para aparecer na Faculdade de Psicologia e de Ci&#234;ncias da Educa&#231;&#227;o da Universidade do Porto no pr&#243;ximo s&#225;bado, 20 de junho de 2026, &#224;s 10 h.</span></p><p style="text-align: justify;"><strong><span>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</span></strong></p><p style="text-align: justify;"><span>Trindade, Rui; Lopes, Am&#233;lia; Ferreira, Daniela; Pinto, Daniela (2025). </span><em><span>Esteios. </span></em><span>Porto: UPorto Press</span></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Em jeito de despedida...]]></title><description><![CDATA[[Partilho este texto que escrevi h&#225; uns anos atr&#225;s.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/em-jeito-de-despedida</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/em-jeito-de-despedida</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 13 Jun 2026 07:39:02 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/68dd0a3b-bfad-4bc7-8252-a5108cf8f7e3_333x336.bmp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>[Partilho este texto que escrevi h&#225; uns anos atr&#225;s. &#201; o texto que vou enviar &#224;s alunas e aos alunos que me acompanharam no ano letivo que agora se encerra, o &#250;ltimo que vivi como professor, j&#225; que os pr&#243;ximos ser&#227;o vividos na condi&#231;&#227;o de av&#244;]</strong></p><p style="text-align: justify;">&#201; pena que em abril, quando iniciarmos a reflex&#227;o sobre a rela&#231;&#227;o pedag&#243;gica como tem&#225;tica estruturante da disciplina de Psicologia da Educa&#231;&#227;o, j&#225; tenhamos esquecido o que se passou em fevereiro, no primeiro dia de aulas. Se f&#244;ssemos capazes de evocar esse primeiro encontro, talvez poup&#225;ssemos muito do tempo que gastamos em conversas sobre o inef&#225;vel.</p><p style="text-align: justify;">A hesita&#231;&#227;o &#224; porta, os olhares que se cruzam, a procura de um lugar resguardado. Recordo-os pela incomodidade que pressinto nas pessoas que v&#227;o entrando. S&#227;o momentos de comunica&#231;&#227;o intensa, tecidos atrav&#233;s de gestos e murm&#250;rios que o ritual da apresenta&#231;&#227;o obscurece. A apresenta&#231;&#227;o do programa de trabalho da disciplina nunca me pareceu suscitar, at&#233; hoje, mais do que uma ou outra quest&#227;o de circunst&#226;ncia ou, quando muito, alguns sinais de assentimento. As rea&#231;&#245;es de oposi&#231;&#227;o t&#233;nue, a existirem, guardam-se para a discuss&#227;o acerca do processo de avalia&#231;&#227;o, sobre as op&#231;&#245;es que t&#234;m ao seu dispor e os crit&#233;rios em fun&#231;&#227;o dos quais ser&#225; julgada a sua presta&#231;&#227;o acad&#233;mica. &#201; este, usualmente, o momento mais tenso do primeiro dia de aulas. Tens&#227;o que julgo ser equivalente ao reconhecimento dos constrangimentos curriculares, pedag&#243;gicos e institucionais a que se encontram sujeitos, os quais, quantas vezes, s&#227;o romanticamente ignorados ou oportunamente entendidos como a express&#227;o da incongru&#234;ncia de uma licenciatura com fama de rousseauniana. O ar surpreendido de alguns dos meus interlocutores parece confirmar a exatid&#227;o desta tese, sobretudo se pertencerem ao grupo daqueles que, nos corredores, possam ter ouvido que n&#227;o se preocupassem muito comigo porque eu era um <em>gajo porreiro</em>. O que, neste caso, tanto pode ser traduzido por um tipo a quem facilmente se d&#225; a volta, como significar, espero, que sou algu&#233;m suficientemente compreensivo, dispon&#237;vel para os aturar e interessado em criar as melhores condi&#231;&#245;es para que todos possam carpinteirar a cadeira que leciono.</p><p style="text-align: justify;">O primeiro dia de aulas n&#227;o &#233;, assim, um dia t&#227;o f&#225;cil como, por vezes, alguns colegas meus d&#227;o a entender. Temos que nos expor, criamos e defraudamos expectativas, nem sempre somos entendidos, nem sempre sabemos fazer-nos entender. N&#227;o tenho, por isso, grandes conselhos a dar sobre os primeiros dias. Resguardem-se? Exponham-se? N&#227;o fa&#231;o ideia. Sei, apenas, que &#233; um dia em que se inicia um jogo que n&#227;o podemos recusar jogar. Professores e alunos. N&#227;o nos conhecemos. N&#227;o nos escolhemos. N&#227;o nos encontramos numa institui&#231;&#227;o e num mundo onde os padr&#245;es relacionais n&#227;o se encontram prefigurados de forma t&#227;o definitiva como alguns tanto desejariam. E ainda bem, acrescento eu, porque nos permite assumir de forma mais plena a nossa condi&#231;&#227;o de seres humanos. Com todos s riscos, devo refor&#231;ar, que s&#227;o inerentes a uma situa&#231;&#227;o, quantas vezes, subavaliada, do ponto de vista das rela&#231;&#245;es de poder em presen&#231;a.</p><p style="text-align: justify;">Anos houve em que costumava ler para os meus alunos, nos nossos primeiros dias de aulas, o c&#233;lebre texto de Sebasti&#227;o da Gama sobre um outro primeiro dia numa escola onde o poeta havia sido professor. Nunca mais voltei a faz&#234;-lo. Aprendi, entretanto, que as salas de aula n&#227;o t&#234;m de ser para&#237;sos terreais. S&#227;o espa&#231;os de a&#231;&#227;o de intera&#231;&#227;o, institucionalmente configurados, e pass&#237;veis de ser humanamente recriados. Para isso, n&#227;o precisamos de ser anjos, mas apenas homens e mulheres dispostos a dialogar, a confrontar-se, a descobrir-se e a trabalhar em conjunto todos os dias que um qualquer primeiro dia, algures, iniciou. N&#227;o temos de nos tornar amigos, mas poderemos usufruir da mutualidade da nossa presen&#231;a. N&#227;o &#233; obrigat&#243;ria a aus&#234;ncia dos conflitos despropositados, mas estes podem acontecer, tal como os mal-entendidos, os julgamentos preconceituosos ou o desprazer em certos momentos passados em comum.</p><p style="text-align: justify;">Tudo isto &#233; poss&#237;vel, se estivermos dispon&#237;veis para reconhecer qual &#233; a nossa quota parte na eclos&#227;o de tais ocorr&#234;ncias e como o ambiente relacional se rarefaz se n&#227;o tentarmos enfrentar os problemas que a cada um e a todos diz respeito, assumindo-se o que se tiver e puder assumir.</p><p style="text-align: justify;">Enfim, n&#227;o h&#225; primeiros dias de aulas decisivos, como se fossem os primeiros dias do resto das nossas vidas. Estes, na verdade, s&#243; acontecem quando cada beb&#233;, chorando a plenos pulm&#245;es, reivindica a sua presen&#231;a no mundo que lhe oferecemos.</p><p style="text-align: justify;">Mas se um primeiro dia de aulas n&#227;o &#233; decisivo, isso n&#227;o significa que &#233; in&#250;til. Foi sempre o come&#231;o de algo que, para mim, que sou professor, l&#225; foi alimentando a minha vida. E &#233; isto que vos quero agradecer, porque sem a vossa presen&#231;a, enquanto estudantes, esta vida n&#227;o seria t&#227;o significativa como, na verdade, o foi, tanto este ano como ao longo de todos os anos em que veti a pele de professor. Obrigado.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Celebrar Camões]]></title><description><![CDATA[50 anos depois do 25 de abril, e apesar de no dia 10 de junho se ter passado a celebrar Cam&#245;es, como um poeta cosmopolita, associando-o &#224; di&#225;spora portuguesa, h&#225; quem continue a associar o poeta ao dia da Ra&#231;a, tal e qual o regime ditatorial, de Salazar e Caetano, o tentou consagrar.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/celebrar-camoes</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/celebrar-camoes</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 10 Jun 2026 09:54:13 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9f4e85d5-e6bf-4cb5-af82-91409a40d9c3_364x599.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h1 style="text-align: justify;">50 anos depois do 25 de abril, e apesar de no dia 10 de junho se ter passado a celebrar Cam&#245;es, como um poeta cosmopolita, associando-o &#224; di&#225;spora portuguesa, h&#225; quem continue a associar o poeta ao dia da Ra&#231;a, tal e qual o regime ditatorial, de Salazar e Caetano, o tentou consagrar.</h1><p style="text-align: justify;">Os Lus&#237;adas nem s&#227;o o livro que olha para os portugueses como o povo eleito, nem t&#227;o pouco podem ser um objeto a equiparar &#224; narrativa lusotropicalista que o antr&#243;pologo brasileiro Gylberto Freire difundiu e que o salazarismo aproveitou.</p><p style="text-align: justify;">H&#225; muitos anos, para o meu grupo de amigos que ficava a conversar na esquina da Rua Aires Ornelas, antes de cada um dispersar para casa, os Lus&#237;adas eram um supl&#237;cio. T&#237;nhamos de recitar de cor a primeira estrofe, sem nos explicarem sequer o que era a Taprobana, e, acima de tudo, sent&#237;amos que jog&#225;vamos &#224; roleta russa quando &#233;ramos chamados a classificar as ora&#231;&#245;es, o exerc&#237;cio que, para muitos de n&#243;s, seria a &#250;nica (in)utilidade dos Lus&#237;adas.</p><p style="text-align: justify;">At&#233; que um dia, o professor de portugu&#234;s, M&#225;rio Fi&#250;za, nos proibiu de ler o canto IX. Bendita proibi&#231;&#227;o. Diria mesmo, pelo que hoje sei desse professor, que foi uma proibi&#231;&#227;o estrat&#233;gica, intencional e inteligente. Fora a j&#225; referida estrofe, foi a &#250;nica coisa de &#171;Os Lus&#237;adas&#187; que o grupo de estudos informal de Aires Ornelas se dignou a ler do princ&#237;pio ao fim. A ilha dos amores e os marinheiros a correr atr&#225;s de ninfas nuas, confesso que n&#227;o tiveram para n&#243;s a import&#226;ncia que seria expect&#225;vel. Para isso, ter&#237;amos de ter tido algu&#233;m que nos ajudasse a penetrar no poema, a desej&#225;-lo, a compreend&#234;-lo. S&#243; que isso n&#227;o era poss&#237;vel, n&#227;o s&#243; essas preocupa&#231;&#245;es se encontravam ausentes dos liceus portugueses, como o canto IX era mesmo um canto que os professores estavam proibidos de abordar.</p><p style="text-align: justify;">Por sua vez, a l&#237;rica camoniana, como de resto toda a literatura que se trabalhava nas escolas, n&#227;o era coisa que era pensada para nos entusiasmar. S&#243; o filme do Leit&#227;o de Barros, que devo ter visto na televis&#227;o, sobre o poeta &#233; que teve algum efeito em mim. Apesar de ser uma obra do Estado Novo, com uma marca ideol&#243;gica que n&#227;o se dissimulava, mostrou-me, mesmo que essa n&#227;o fosse a sua inten&#231;&#227;o, um outro Cam&#245;es. Aquele a quem Carlos T&#234;, justamente, se refere, num texto publicado no dia 16 de maio, no JN. Para ele, o Cam&#245;es que o come&#231;ou a interessar era o poeta andarilho. O poeta que foi soldado, que esteve em Ceuta, em Macau, nos lugares desconhecidos que tinham acabado de ser cartografados. Escreve ele que foi isso que lhe chamou a aten&#231;&#227;o, <em>&#8220;muito mais do que o Cam&#245;es da escrita, que ent&#227;o considerava um bocado chata para os padr&#245;es que ia seguindo ao n&#237;vel da poesia, que era o pessoal da Beat Generation. Sendo que o seu peso institucional tamb&#233;m me incomodava um bocado, porque Cam&#245;es teve um peso institucional muito elaborado e muito apropriado pelo Estado Novo. Isso durou bastante tempo at&#233; olhar para Cam&#245;es como outra pessoa, o lado do her&#243;i, do vagabundo escritor, uma esp&#233;cie de Jack Kerouac do s&#233;culo XVI portugu&#234;s. Isso interessou-me muito mais do que o Cam&#245;es que era dado na escola, do qual eu e muita gente fug&#237;amos&#8221;.</em></p><p style="text-align: justify;">Por isso &#233; que confessa que <em>&#8220;mais do que o seu valor intr&#237;nseco liter&#225;rio, apaixonou-me muito mais a figura, o lado recalcitrante, de algu&#233;m que est&#225; sempre em guerras com o poder, se calhar, muitas vezes, pelas raz&#245;es erradas&#8221;.</em></p><p style="text-align: justify;">&#201; este Cam&#245;es que, no dia 10 de junho celebro, aquele que Carlos T&#234; acaba por consagrar, atrav&#233;s da m&#250;sica e da voz de Rui Veloso numa can&#231;&#227;o, &#171;M&#225; Fortuna&#187;, que se encontra publicada no &#225;lbum &#171;Auto da Pimenta&#187;. Nessa can&#231;&#227;o, sentado no Cabo de Guardafui, o mais oriental do continente africano, Lu&#237;s Vaz de Cam&#245;es &#233; posto a refletir sobre a sua vida, pelo poeta e pelo m&#250;sico.</p><p style="text-align: justify;">&#201; a&#237; que confessa que &#8220;<em>S&#243; me deu p&#8217;ra dizer n&#227;o / Em tempo de dizer sim / Tamb&#233;m na mesma moeda / O mundo me paga a mim&#8221; </em>Por isso &#233; que <em>&#8220;ando estrada fora / Como um bardo vagabundo / Desisti de ver a hora / De ficar de bem com o mundo&#8221;. </em><br> &#201; tamb&#233;m a&#237; que reconhece, como tanta gente por esse Portugal fora, <em>&#8220;Como este Cabo t&#227;o triste/ Pedregoso e sem verdura/ Assim minha vida existe/ Marcada p&#8217;la desventura&#8221;, </em>acabando, ent&#227;o, por perguntar &#224; musa e aos deuses porque que isso acontece, que lhe respondem que &#8220;<em>&#233; s&#243; M&#225; fortuna e erros m&#1077;us&#8221;.</em></p><p style="text-align: justify;">Ser&#225;? Ser&#225; que os pacotes laborais impostos pelo governo da AD e pelas associa&#231;&#245;es patronais n&#227;o t&#234;m nada a ver com isso?<br><br><br></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A deriva pedagógica processualista e a interdisciplinaridade]]></title><description><![CDATA[Pode considerar-se que, no &#226;mbito do Decreto-Lei n&#186; 55/2018, os &#171;Dom&#237;nios de Autonomia Curricular&#187; (vulgo DAC), enquanto &#225;reas de conflu&#234;ncia de trabalho interdisciplinar e ou de articula&#231;&#227;o curricular, ocupam um lugar estrat&#233;gico nesse decreto-lei.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/a-deriva-pedagogica-processualista</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/a-deriva-pedagogica-processualista</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 06 Jun 2026 06:05:46 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/497256d5-bb59-413b-9bd2-7c91ffa39310_520x271.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Pode considerar-se que, no &#226;mbito do Decreto-Lei n&#186; 55/2018, os &#171;Dom&#237;nios de Autonomia Curricular&#187; (vulgo DAC), enquanto &#225;reas de conflu&#234;ncia de trabalho interdisciplinar e ou de articula&#231;&#227;o curricular, ocupam um lugar estrat&#233;gico nesse decreto-lei. A possibilidade das escolas passarem a poder gerir, total ou parcialmente, de forma interdisciplinar os tempos destinados &#224;s &#225;reas disciplinares e disciplinas, evidencia a import&#226;ncia de, atrav&#233;s dos DAC , se promover uma abordagem interdisciplinar do conhecimento, enquanto condi&#231;&#227;o fundamental da realiza&#231;&#227;o de aprendizagens culturalmente significativas.</p><p style="text-align: justify;">Trata-se de uma das dimens&#245;es mais promissoras das pol&#237;ticas curriculares atuais, mesmo que se reconhe&#231;a que nos confronta com um dos desafios mais decisivos e complexos que as escolas e os professores t&#234;m de realizar e de aprender, ainda, a realizar. Do pouco que se sabe sobre o que tem vindo a ser feito, sabe-se, no entanto, que a deriva processualista, que tenho vindo a denunciar nos &#250;ltimos textos publicados neste blogue, &#233; um dos problemas que mais afeta a realiza&#231;&#227;o de iniciativas relacionadas com os DAC. Estamos, mais uma vez, perante uma situa&#231;&#227;o onde o<em><strong> como ensinar</strong></em> prevalece sobre <em><strong>o que ensinar</strong></em>, derivada da exalta&#231;&#227;o de um tipo de ativismo inconsequente que se atribui aos alunos para que estes se possam reconciliar, por esta via, com a Escola, mesmo que isso acabe por implicar que seja posta em causa a possibilidade desta institui&#231;&#227;o educativa se afirmar e construir como um espa&#231;o de empoderamento cultural.</p><p style="text-align: justify;">Por isso &#233; que neste texto volto &#224; discuss&#227;o sobre os efeitos nefastos da deriva processualista, debru&#231;ando-me sobre as implica&#231;&#245;es da mesma ao n&#237;vel dos projetos que valorizam a dimens&#227;o interdisciplinar do conhecimento depois de, no texto anterior a este, ter tentado evidenciar as consequ&#234;ncias de uma tal deriva no campo do ensino experimental das ci&#234;ncias.</p><p style="text-align: justify;">Mais uma vez, o exemplo que tenho para partilhar diz respeito ao 1&#186; CEB e relaciona-se com um conjunto de iniciativas que, tendo como fonte de inspira&#231;&#227;o o modelo STEM (Science-Technology-Engineering-Mathematics), visa propor experi&#234;ncias acad&#233;micas que encontram nas TIC e numa abordagem interdisciplinar de algumas daquelas &#225;reas, os eixos em fun&#231;&#227;o dos quais se alicer&#231;am as atividades que se prop&#245;em, vistas como oportunidade para que os alunos possam realizar aprendizagens culturalmente significativas.</p><p style="text-align: justify;">Dessas atividades, selecionei, apenas, uma, designada por: &#171;Itiner&#225;rios - Da nossa escola at&#233; &#224; Sala do Futuro&#187;, onde se prop&#245;e que as crian&#231;as analisem itiner&#225;rios entre a sua escola e a escola sede do Agrupamento. Trata-se de um projeto que visa articular a &#225;rea de &#171;Matem&#225;tica&#187; com a &#225;rea de &#171;Estudo do Meio&#187;, o qual come&#231;a com uma discuss&#227;o pr&#233;via sobre aqueles itiner&#225;rios, depois dos alunos analisarem tr&#234;s itiner&#225;rios que lhes s&#227;o propostos, de forma a enunciarem as vantagens e as desvantagens de cada um deles. Ap&#243;s este momento, as crian&#231;as v&#227;o realizar esses percursos, para verificar se as suas perce&#231;&#245;es est&#227;o corretas, utilizando diferentes instrumentos de medida: (i) um ped&#243;metro (aplica&#231;&#227;o no <em>tablet</em>); (ii) um od&#243;metro de roda e (iii) um GPS integrado no <em>tablet</em>. Para al&#233;m disso, sabe-se que nos <em>tablets</em>, os alunos tinham acesso ao <em>Google Forms</em>, para resolverem tr&#234;s problemas de matem&#225;tica, ao <em>Google Keep</em>, para registar fotografias, e ao <em>Google Earth</em>. Sabe-se tamb&#233;m que no decorrer dos percursos estes mesmos alunos tinham tarefas a realizar. No posto da GNR assistiram a uma palestra sobre quest&#245;es de seguran&#231;a com elementos da &#171;Escola Segura&#187;; na Biblioteca Municipal tiveram de arrumar 20 livros em 4 prateleiras, de forma a explorar os n&#250;meros fracion&#225;rios, para al&#233;m de terem de requisitar, ainda, um livro relacionado com a cidade onde viviam, de forma a identificar datas, figuras e acontecimentos importantes; no campo de futebol, finalmente, tinham de fazer medi&#231;&#245;es e calcular o per&#237;metro do campo. Quando terminassem, retornavam &#224; sala de aula onde teriam de explicar o modo como resolveram os problemas e refletirem sobre as atividades realizadas.</p><p style="text-align: justify;">Avaliando-se o conjunto das iniciativas enunciadas pode considerar-se que h&#225; momentos pertinentes, do ponto de vista formativo, como &#233; o caso das proje&#231;&#245;es iniciais sobre os itiner&#225;rios e o processo posterior de verifica&#231;&#227;o das mesmas, tal como h&#225; momentos cujo significado nos escapa, os quais t&#234;m a ver com as tarefas que foram realizadas na Biblioteca Municipal ou no campo de futebol,</p><p style="text-align: justify;">Em termos da dimens&#227;o interdisciplinar da iniciativa, estamos perante um projeto fracassado, uma vez que o que se realiza &#233;, apenas e sobretudo, uma a&#231;&#227;o de consolida&#231;&#227;o da capacidade das crian&#231;as aplicarem conhecimentos matem&#225;ticos, colocando-as perante alguns desafios carentes de sentido. Entre ter se utilizar n&#250;meros fracion&#225;rios para resolver exerc&#237;cios do manual ou para arrumar livros nas estantes, parece-me que, apesar de tudo, h&#225; mais condi&#231;&#245;es do manual confrontar os alunos com situa&#231;&#245;es matematicamente plaus&#237;veis do que face ao exerc&#237;cio realizado na biblioteca. O que se constata &#233; que se sacrifica uma rela&#231;&#227;o consequente entre as crian&#231;as e o conhecimento para se propor uma iniciativa que visava, sobretudo, suscitar a sua atividade.</p><p style="text-align: justify;">Ainda que se possa alegar que o problema n&#227;o tem a ver com o desejo de suscitar o protagonismo dos alunos, mas com o facto de se confundir interdisciplinaridade com justaposi&#231;&#227;o disciplinar, o que se verifica &#233; que tanto este equ&#237;voco como a valoriza&#231;&#227;o da atividade como um fim em si mesmo, exprimem ambos a aus&#234;ncia de uma reflex&#227;o epistemol&#243;gica e concetual cuidada. Se esta tivesse acontecido, provavelmente n&#227;o estar&#237;amos perante uma iniciativa que se desenvolve, a partir de dado momento, atrav&#233;s de exerc&#237;cios aleat&#243;rios e inconsequentes.</p><p style="text-align: justify;">E porque &#233; que isso aconteceu? Porque se imp&#245;e uma no&#231;&#227;o de atividade dos alunos que &#233; circunscrita ao exerc&#237;cio tang&#237;vel de uma a&#231;&#227;o, como se bastasse &#224;s crian&#231;as movimentarem-se fora da sala de aula para que a atividade fosse considerada culturalmente significativa. O que importa reter &#233; que nas situa&#231;&#245;es educativas que envolvem crian&#231;as, a condi&#231;&#227;o da sua atividade tende a constituir como uma justifica&#231;&#227;o decisiva da deriva processualista, como se qualquer atividade, independentemente do tipo de conhecimento que &#233; mobilizado ou apropriado, garantisse, por si s&#243;, &#224;s crian&#231;as a possibilidade de aprenderem.</p><p style="text-align: justify;">No meio disto tudo, salva-se o modo como as aplica&#231;&#245;es dos tablets s&#227;o utilizadas. Neste caso, a sua import&#226;ncia e plausibilidade tem a ver com o facto de serem utilizadas como ferramentas. &#201; a sua instrumentalidade que lhes confere sentido, ainda que seja fundamental reconhecer que n&#227;o s&#227;o aqueles instrumentos que conferem sentido ao projeto analisado.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O direito de calar]]></title><description><![CDATA[&#8220;O homem constr&#243;i casas porque est&#225; vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-calar</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-calar</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 03 Jun 2026 07:32:01 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a4b63739-c208-410c-bec0-07ec3979e32b_227x344.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;O homem constr&#243;i casas porque est&#225; vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vive em grupo porque &#233; greg&#225;rio, mas l&#234; porque se sabe s&#243;. Essa leitura &#233; para ele uma companhia que n&#227;o ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. Ela n&#227;o lhe oferece qualquer explica&#231;&#227;o definitiva sobre o seu destino, mas tece uma trama cerrada de coniv&#234;ncias entre a vida e ele. &#205;nfimas e secretas coniv&#234;ncias que falam da paradoxal felicidade de viver, enquanto elas mesmas deixam claro o tr&#225;gico absurdo da vida. De tal forma que nossas raz&#245;es para ler s&#227;o t&#227;o estranhas quanto nossas raz&#245;es para viver. E a ningu&#233;m &#233; dado o poder para pedir contas dessa intimidade&#8221; (Pennac, 2008, p. 150).</p><p style="text-align: justify;">Por isso, &#233; que Pennac agradece aos adultos que o pouparam &#224;s perguntas sobre o que ele havia compreendido depois de ler os livros que eles lhe foram oferecendo, mesmo que, como ele pr&#243;prio confessa, a &#8220;esses, claro, eu costumava falar das minhas leituras&#8221; (ibidem). Os mesmos a quem, vivos ou mortos, acabou por dedicar a reflex&#227;o que foi partilhando sobre os direitos do leitor que, ao longo destas semanas, fui aconchegando neste blogue.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Pennac, Daniel (2008). <em>Como um romance</em>. Porto Alegre: L&amp;PM Editores.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[As crianças como cientistas em miniatura: Sobre a deriva curricular e pedagógica processualista]]></title><description><![CDATA[Os &#250;ltimos textos que tenho vindo a publicar neste blogue t&#234;m sido dedicados a mostrar como a deriva pedag&#243;gica processualista tem vindo a afetar negativamente a reflex&#227;o educativa sobre os projetos de inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica no campo da educa&#231;&#227;o escolar.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/as-criancas-como-cientistas-em-miniatura</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/as-criancas-como-cientistas-em-miniatura</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 30 May 2026 07:29:55 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/aa0c9e3b-2cb2-44ab-8c16-78dd3c1470f4_192x205.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os &#250;ltimos textos que tenho vindo a publicar neste blogue t&#234;m sido dedicados a mostrar como a deriva pedag&#243;gica processualista tem vindo a afetar negativamente a reflex&#227;o educativa sobre os projetos de inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica no campo da educa&#231;&#227;o escolar.</p><p style="text-align: justify;">No &#250;ltimo desses textos avan&#231;o, &#224; laia de hip&#243;tese que visa explicar a sedu&#231;&#227;o crescente de uma tal deriva, chamei a aten&#231;&#227;o para a dicotomia insensata que se estabelece entre, por um lado, as preocupa&#231;&#245;es sobre o <em><strong>como</strong></em> <em><strong>ensinar</strong></em> e o <em><strong>que ensinar</strong></em> e, por outro, no facto de se privilegiar &#8220;o <em><strong>como</strong></em> em vez do <em><strong>qu&#234;</strong></em>, como se o <em><strong>como</strong></em> n&#227;o fosse determinado pelo <em><strong>qu&#234;</strong></em>&#8221;.</p><p style="text-align: justify;">Esta &#233; uma perspetiva com que me deparei, na sua vers&#227;o mais extrema, quando ouvi, h&#225; uns anos, um colega, na altura professor do Ensino Prim&#225;rio, afirmar que n&#227;o lhe interessava se os resultados obtidos pelos seus alunos em Matem&#225;tica estavam, ou n&#227;o, corretos, j&#225; que a sua prioridade era, apenas, a de tentar valorizar o modo como eles raciocinavam. Porque &#233; que as crian&#231;as t&#234;m de raciocinar se &#233; indiferente os resultados que decorrem dessa atividade cognitiva? Foi esta a pergunta que passei a enunciar, sempre que ou&#231;o algu&#233;m menosprezar a import&#226;ncia do conhecimento culturalmente validado como combust&#237;vel que alimenta o ato de pensar.</p><p style="text-align: justify;">Esta perspetiva, a de conferir import&#226;ncia &#224; atividade cognitiva e socioemocional dos alunos como condi&#231;&#227;o subordinante das aprendizagens significativas a realizar nas escolas, &#233; um problema que, hoje, decidi discutir, recorrendo a um estudo realizado por um estudante que eu orientei no &#226;mbito dos trabalhos conducentes &#224; elabora&#231;&#227;o da sua disserta&#231;&#227;o de mestrado. Neste estudo, Diogo Faria, o seu autor, analisou quatro projetos relacionados com o ensino experimental das ci&#234;ncias no 1&#186; ciclo do Ensino B&#225;sico, identificando que a maior preocupa&#231;&#227;o, no dom&#237;nio em causa, se circunscrevia &#224; capacita&#231;&#227;o dos alunos &#8220;para utilizarem os procedimentos heur&#237;sticos pr&#243;prios das &#225;reas ci&#234;ncias&#8221; (Faria, 2022, p. 84). Trata-se de uma tend&#234;ncia que Cachapuz, Praia e Jorge (2002) identificam com o &#171;Modelo de Ensino pela Descoberta&#187;, onde se parte do princ&#237;pio que, para aprender ci&#234;ncias, seria necess&#225;rio, apenas, que os alunos aprendessem a observar, analisar e discutir os fen&#243;menos em estudo. Um modelo que, de acordo com Manuel Rangel, assenta no &#8220;mito da crian&#231;a como &#8216;pequeno cientista&#8217; (Henriques, 1998, p. 22), onde a aprendizagem do m&#233;todo experimental, s&#243; por si, conduziria os alunos &#8220;&#224; &#8216;descoberta e a produzir ci&#234;ncia&#8217; ou seja, a obter resultados equivalentes aos dos cientistas&#8221; (ibidem). Trata-se de um modelo onde, segundo Cachapuz, Praia e Jorge (2002), prevalece &#8220;uma imagem empirista/indutivista do trabalho dos cientistas&#8221; (p. 148), o qual fomenta a ilus&#227;o de que basta respeitar as etapas do m&#233;todo cient&#237;fico para se cumprir um programa de ensino experimental das ci&#234;ncias.</p><p style="text-align: justify;">Como se constata, estamos perante uma perspetiva que evidencia claramente as vulnerabilidades da deriva processualista, no &#226;mbito da qual o desenvolvimento dos procedimentos heur&#237;sticos &#233; visto como uma finalidade independente da apropria&#231;&#227;o dos quadros concetuais de refer&#234;ncia, em fun&#231;&#227;o dos quais se configuram os desafios curriculares relacionados com a &#225;rea das ci&#234;ncias.</p><p style="text-align: justify;">A boa not&#237;cia &#233; que tamb&#233;m h&#225; projetos na mesma &#225;rea que, devido ao maior discernimento epistemol&#243;gico que d&#227;o mostras, oferecem alternativas cred&#237;veis para reconfigurar o protagonismo do alunos como um protagonismo culturalmente consequente e esclarecido. &#201; o caso do Programa de Forma&#231;&#227;o em Ensino Experimental das Ci&#234;ncias (PFEEC) que, n&#227;o se confinando &#224; utiliza&#231;&#227;o exclusiva do m&#233;todo experimental, se carateriza quer pela diversidade de tarefas que os alunos s&#227;o chamados a realizar (trabalhos pr&#225;ticos, trabalhos laboratoriais e trabalhos experimentais), quer pela intencionalidade epistemol&#243;gica e concetual subjacente ao tipo de articula&#231;&#227;o que se estabelece entre estes diferentes tipos de trabalhos, quer pela amplitude e pluralidade das atividades que s&#227;o propostas, relacionadas com a flutua&#231;&#227;o de l&#237;quidos; dissolu&#231;&#227;o em l&#237;quidos; sementes, germina&#231;&#227;o e crescimento; sombras e imagens; l&#226;mpadas, pilhas e circuitos; mudan&#231;as de estado f&#237;sico; sustentabilidade na terra; a complexidade do corpo humano.</p><p style="text-align: justify;">Transita-se de uma iniciativa que rompe com os programas de ensino experimental das ci&#234;ncias centrado em atividades casu&#237;sticas e pensado para que os alunos aprendam a utilizar o m&#233;todo cient&#237;fico, de forma a propor, em alternativa, um programa coerente de atividades que exigem abordagens metodol&#243;gicas diversificadas, com o prop&#243;sito mais amplo de promover o desenvolvimento da literacia cient&#237;fica das crian&#231;as. O papel dos professores altera-se, de uma vis&#227;o facilitadora da atividade docente que, algumas vezes, ainda cai na tenta&#231;&#227;o de confinar as aprendizagens em ci&#234;ncias aos alegados interesses dos alunos, para uma abordagem em que os professores s&#227;o vistos como interlocutores qualificados (Cosme, 2009), cuja intencionalidade formativa n&#227;o s&#243; n&#227;o desvaloriza os alunos como produtores de significados, como, acima de tudo, constitui um contributo para potenciar um tal des&#237;gnio.</p><p style="text-align: justify;">Por isso &#233; que o dissociar o <em><strong>como</strong></em> do <em><strong>qu&#234;</strong></em>, no dom&#237;nio da reflex&#227;o e da a&#231;&#227;o educativas, &#233; um problema que n&#227;o pode ser ignorado e que a abordagem processualista tem de deixar de ser vista como a refer&#234;ncia das iniciativas preocupadas com a inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias</strong></p><p style="text-align: justify;">Cachapuz, Ant&#243;nio, Praia, Jo&#227;o e Jorge, Manuela (2002). <em>Ci&#234;ncia, Educa&#231;&#227;o em Ci&#234;ncia e Ensino das Ci&#234;ncias</em>. Lisboa: Minist&#233;rio da Educa&#231;&#227;o.</p><p style="text-align: justify;">Cosme, Ariana (2009). <em>Ser professor: A a&#231;&#227;o docente como uma a&#231;&#227;o de interlocu&#231;&#227;o qualficada. </em>Porto: LivPSic</p><p style="text-align: justify;">Faria; Diogo (2022). <em>Literacia cient&#237;fica no 1&#186; CEB: Implica&#231;&#245;es epistemol&#243;gicas, pedag&#243;gicas e pr&#225;ticas</em>. Porto: FPCEUP (disserta&#231;&#227;o de mestrado).</p><p style="text-align: justify;">Henriques, Manuel Rangel (1998). <em>Concep&#231;&#245;es de professores sobre o ensino das &#171;grandezas e medidas&#187; no 1&#186; Ciclo do Ensino B&#225;sico: Contributo para o conhecimento do pensamento profissional dos professores do 1&#186; Ciclo em Portuga</em>l. Aveiro: Universidade de Aveiro: Departamento de Did&#225;ctica e Tecnologia Educativa (disserta&#231;&#227;o de mestrado).</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O direito de ler em voz alta]]></title><description><![CDATA[&#8220;(...) - Em casa, quando voc&#234; era pequena, liam hist&#243;rias em voz alta?]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-ler-em-voz-alta-ace</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-ler-em-voz-alta-ace</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 27 May 2026 09:35:53 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a04c97a7-6897-4921-bdf8-123ed5812851_259x259.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;(...)</em></p><p><em>- Em casa, quando voc&#234; era pequena, liam hist&#243;rias em voz alta?</em></p><p><em>Ela responde-me:</em></p><p><em>- Nunca. O meu pai estava muitas vezes ausente e a minha ocupada demais.</em></p><p><em>Eu pergunto-lhe:</em></p><p><em>- Ent&#227;o, de onde &#233; que vem esse seu gosto pela leitura em voz alta?</em></p><p><em>- Da escola.</em></p><p><em>Feliz por escutar algu&#233;m algu&#233;m reconhecer um tal m&#233;rito &#224; escola, exclamo, todo contente:</em></p><p><em>- Ah! Afinal...</em></p><p style="text-align: justify;"><em>- Nada disso. A escola nos proibia a leitura em voz alta. Leitura silenciosa, j&#225; era o credo da &#233;poca. Do olho direto ao c&#233;rebro. Transcri&#231;&#227;o instant&#226;nea. Rapidez, efici&#234;ncia. Com um teste de compreens&#227;o a cada dez linhas. A religi&#227;o da an&#225;lise e do coment&#225;rio, sempre! A maior parte das crian&#231;as morria de medo e isso era s&#243; o come&#231;o! Todas as minhas respostas eram boas, se voc&#234; quer saber, mas voltando para casa eu relia tudo em voz alta.</em></p><p style="text-align: justify;"><em>- Porqu&#234;?</em></p><p style="text-align: justify;"><em>- Pelo encantamento. As palavras pronunciadas passavam a existir fora de mim, elas viviam de verdade. E depois, parecia que era um ato de amor. Que era mesmo amor. (...). Deitava as minhas bonecas na cama, no meu lugar, e lia para elas. (...).</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Escuto-a e parece que estou escutando Dylan Thomas, b&#234;bado como o desespero, lendo os seus poemas, com a sua voz de catedral...</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Escuto-a e parece que estou vendo Dickens, ossudo e p&#225;lido, t&#227;o perto da morte, subir para o palco... o seu p&#250;blico de analfabetos, de repente petrificado, silencioso ao ponto de se escutar o livro a abrir... Oliver Twist... a morte de Nancy... &#233; a morte de Nancy que ele vai ler para n&#243;s!</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Escuto-a e ou&#231;o Kafka rir at&#233; &#224;s l&#225;grimas lendo A metamorfose para Max Brod (...) e vejo a pequenina Mary Shelley oferecer grandes fatias do seu Frankstein a Percy aos seus amigos assombrados...</em></p><p style="text-align: justify;"><em>(...)</em></p><p style="text-align: justify;"><em>E Dostoi&#233;vski que n&#227;o se contentava ler em voz alta, mas que escrevia em voz alta... Dostoi&#233;vsky, sem f&#244;lego, depois de ter proferido violentamente a sua acusa&#231;&#227;o contra Raskolnikov (ou Dimitri Karamazov, n&#227;o me lembro)... Dostoi&#233;vski perguntando &#224; sua mulher esten&#243;grafa: &#171;Ent&#227;o, qual o seu veredicto? Hein? Hein?&#187;</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Anna: Condenado!</em></p><p style="text-align: justify;"><em>E o mesmo Dostoi&#233;vski, ap&#243;s lhe ter ditado o discurso da defesa... &#171;Ent&#227;o? Ent&#227;o?&#187;</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Anna: Absolvido!</em></p><p style="text-align: justify;"><em>&#201;...</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Estranho o desaparecimento da leitura em voz alta. (...).</em></p><p style="text-align: justify;"><em>A pessoa que l&#234; de viva voz, exp&#245;e-se totalmente. (...).</em></p><p style="text-align: justify;"><em>Se ela l&#234; verdadeiramente, p&#245;e nisso todo o seu saber, dominando seu prazer. Se a sua leitura &#233; um ato de simpatia tanto pelo audit&#243;rio como pelo texto e pelo seu autor, consegue fazer entender a necessidade de escrever, acordando as nossas mais obscuras necessidades de compreender. Ent&#227;o os livros se abrem para essa pessoa e a multid&#227;o daqueles que se acreditavam exclu&#237;dos da leitura vai precipitar-se a</em>tr&#225;s dela&#8221;.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Pennac, Daniel (2008). <em>Como um romance</em>. Porto Alegre: L&amp;PM Editores.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Os riscos das abordagens curriculares e pedagógicas processualistas]]></title><description><![CDATA[Os riscos das abordagens curriculares e pedag&#243;gicas processualistas]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/os-riscos-das-abordagens-curriculares</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/os-riscos-das-abordagens-curriculares</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 23 May 2026 04:29:40 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/fc98ba21-a1ea-455a-9cbf-5344daf8b532_300x168.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><strong>Os riscos das abordagens curriculares e pedag&#243;gicas processualistas</strong></p><p style="text-align: justify;">No &#250;ltimo texto publicado neste blogue tentei justificar as raz&#245;es que me levam a recusar o que tenho vindo a designar por deriva processualista da reflex&#227;o curricular e pedag&#243;gico. Nesse texto, utilizo, mais uma vez, o estudo de Marta Ara&#250;jo (2025) sobre o modo como a escravatura, a ra&#231;a e o racismo s&#227;o abordados nos manuais de Hist&#243;ria de Portugal, enquanto pretexto que encontrei para poder perguntar porque &#233; que na discuss&#227;o p&#250;blica entre as Metas Curriculares e as Aprendizagens Essenciais se valoriza, sobretudo, as transforma&#231;&#245;es relacionadas com a organiza&#231;&#227;o e gest&#227;o do trabalho pedag&#243;gico e se ignora as altera&#231;&#245;es nas problem&#225;ticas e quadros concetuais em cada uma das disciplinas que integram os planos de estudo dos ensinos B&#225;sico e Secund&#225;rio.</p><p style="text-align: justify;">Excetuando o caso da Matem&#225;tica, onde a dimens&#227;o dos conte&#250;dos &#233; objeto de discuss&#245;es recorrentes entre a APM e a SPM, nem sempre focalizadas na rela&#231;&#227;o entre educa&#231;&#227;o e matem&#225;tica, ou, ainda, as rea&#231;&#245;es iniciais das Associa&#231;&#245;es Pedag&#243;gicas perante aquelas altera&#231;&#245;es, verifica-se que o debate acabou por se centrar, ao n&#237;vel das escolas, entre a gest&#227;o estandartizada do curr&#237;culo que as Metas Curriculares favoreciam e a gest&#227;o flex&#237;vel e contextualizada das decis&#245;es curriculares que as Aprendizagens Essenciais passaram a propor.</p><p style="text-align: justify;">A quest&#227;o adquire maior relev&#226;ncia quando se constata que, na verdade, n&#227;o existe qualquer incompatibilidade refletir-se sobre o que, usualmente, se designa como processos e o que, tamb&#233;m habtualmente, se designa por conte&#250;dos. N&#227;o &#233; esta a op&#231;&#227;o da abordagem processualista que tende a privilegiar os primeiros em detrimento dos segundos, seja quando se promovem reflex&#245;es educativas sobre a Escola, seja quando essas reflex&#245;es se debru&#231;am sobre a inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica.</p><p style="text-align: justify;">Sem pretender esgotar o assunto, diria que o processualismo parece constituir uma tentativa de fugir a debates cuja componente ideol&#243;gica n&#227;o pode ser ignorada, alimentando a ilus&#227;o que a reflex&#227;o acerca da gest&#227;o estandartizada e da gest&#227;o contextualizada e flex&#237;vel do curr&#237;culo &#233; um debate t&#233;cnico, isento de contamina&#231;&#245;es ideol&#243;gicas. N&#227;o &#233;, mas facilmente se aceita que o possa ser. Ao contr&#225;rio, quando nas Metas Curriculares, no caso da disciplina de Hist&#243;ria, por exemplo, se identifica a expans&#227;o quatrocentista com uma oportunidade de encontros culturais entre povos, enquanto nas Aprendizagens Essenciais a relacionam com a submiss&#227;o f&#237;sica e simbolicamente violenta dos mesmos, h&#225; quem fuja a esta problem&#225;tica, alegando que este n&#227;o &#233; um debate acad&#233;mico, mas ideol&#243;gico. Tenta-se, afinal, por esta via, n&#227;o enfrentar uma quest&#227;o decisiva: a de saber se a fun&#231;&#227;o da disciplina de Hist&#243;ria consiste em endoutrinar ou em formar alunos humanamente mais capazes.</p><p style="text-align: justify;">Uma segunda raz&#227;o que pode contribuir para explicar a sedu&#231;&#227;o pelo processualismo relaciona-se com a dicotomia insensata entre, por um lado, o <em><strong>como</strong></em> <em><strong>ensinar</strong></em> e o <em><strong>como</strong></em> <em><strong>aprender</strong></em> e, por outro, entre o <em><strong>que ensinar</strong></em> e o <em><strong>que aprender, </strong></em>a qual configura, hoje, um modo de pensar improdutivo e pernicioso quando a discuss&#227;o se centra sobre as finalidades da Escola. O problema desta dicotomiza&#231;&#227;o agrava-se quando se privilegia &#171;o como&#187; em vez do &#171;qu&#234;&#187;, como se o &#171;como&#187; n&#227;o fosse tamb&#233;m determinado pelo &#171;qu&#234;&#187;. As implica&#231;&#245;es est&#227;o &#224; vista. A inova&#231;&#227;o &#233; pedag&#243;gica e n&#227;o curricular e pedag&#243;gica. A reivindica&#231;&#227;o do protagonismo dos alunos em torno da no&#231;&#227;o de um ativismo epistemol&#243;gico e concetualmente autossuficiente tem gerado quer um conjunto de iniciativas pedag&#243;gicas marginais, ing&#233;nuas, equ&#237;vocas e inconsequentes quer, por rea&#231;&#227;o, o refor&#231;o da cren&#231;a na inevitabilidade do instrucionismo como modo de a&#231;&#227;o pedag&#243;gica. &#201; tamb&#233;m a partir de uma tal dicotomia que se acaba por favorecer e legitimar a entrada em for&#231;a, no campo da educa&#231;&#227;o escolar, das promessas tecnocr&#225;ticas que se t&#234;m vindo a alimentar atrav&#233;s da vis&#227;o redentora dos dispositivos digitais e da IA.</p><p style="text-align: justify;">Por fim, num tempo de massifica&#231;&#227;o dos debates sobre a Escola, tenho de admitir que &#233; mais f&#225;cil ter voz no &#226;mbito da abordagem processualista do que nas abordagens de pendor epistemol&#243;gico e concetual. Estas &#250;ltimas s&#227;o mais exigentes e n&#227;o se exp&#245;em aos riscos do proselitismo curricular e pedag&#243;gico que a abordagem anterior favorece, contribuindo, por essa via, para a afirma&#231;&#227;o de reflex&#245;es educativas pouco pertinentes e enviesadas.</p><p style="text-align: justify;">Se os resultados do estudo de Marta Ara&#250;jo constituem um exemplo esclarecedor de um tal enviesamento, irei abordar, nos pr&#243;ximos textos, duas situa&#231;&#245;es que permitem compreender as implica&#231;&#245;es negativas, em termos das aprendizagens e da forma&#231;&#227;o dos alunos, da deriva processualista. Uma dessas situa&#231;&#245;es diz respeito a um projeto, desenvolvido no 1&#186; Ciclo do Ensino B&#225;sico, que visava estimular o ensino experimental das ci&#234;ncias, enquanto na outra me irei debru&#231;ar sobre uma iniciativa que se desenvolveu sob a &#233;gide do modelo designado por &#171;Ci&#234;ncia-Tecnologia-Engenharia-Artes-Matem&#225;tica&#187; (vulgo STEAM).</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias</strong></p><p style="text-align: justify;">Ara&#250;jo, Marta (2026). &#171;Escravatura, ra&#231;a e racismo: Novas narrativas dos manuais de Hist&#243;ria de Portugal? Oficinas CES, n&#186; 48. https://ces.uc.pt/pt/publicacoes/outras-publicacoes-e-colecoes/oficina-do-ces/numeros/oficina-468</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O direito de ler em qualquer lugar]]></title><description><![CDATA[Este &#233; um outro direito que Pennac enquadra nos direitos do leitor.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-ler-em-qualquer-lugar</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-de-ler-em-qualquer-lugar</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 20 May 2026 13:08:37 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8c6d8758-5f57-4a9c-82ac-9368f0c5c2fe_228x344.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Este &#233; um outro direito que Pennac enquadra nos direitos do leitor. F&#225;-lo, partilhando connosco uma hist&#243;ria maravilhosa que tem como epicentro a Caserna da Escola de Aplica&#231;&#227;o da Artilharia, no inverno de 1971. Conta Pennac (2008):</p><p style="text-align: justify;">&#8220;Na distribui&#231;&#227;o matinal de tarefas&#8221; (idem, p. 143), um determinado soldado apresenta-se &#8220;sistematicamente como volunt&#225;rio para a tarefa menos popular, a mais ingrata, distribu&#237;da com frequ&#234;ncia a t&#237;tulo de puni&#231;&#227;o e que atinge a honra dos mais aguerridos: a lend&#225;ria, a infamante, a inomin&#225;vel <em>tarefa das latrinas</em>.</p><p style="text-align: justify;">Todas as manh&#227;s.</p><p style="text-align: justify;">Com o mesmo sorriso (...).</p><p style="text-align: justify;">- Tarefa das latrinas?</p><p style="text-align: justify;">Ele d&#225; um passo em frente:</p><p style="text-align: justify;">- Fulano!</p><p style="text-align: justify;">Com a gravidade &#250;ltima que precede o assalto, pega a vassoura de onde pende o pano de ch&#227;o, como se fosse o estandarte da companhia, e desaparece, para grande al&#237;vio da tropa. &#201; um bravo: ningu&#233;m o segue. O ex&#233;rcito inteiro continua protegido na trincheira das tarefas honrosas.</p><p style="text-align: justify;">As horas passam. Acredita-se que ele se perdeu. Quase se esquecem dele. Esquecem-no. Ele reaparece, entretanto, no fim da manh&#227;, batendo os saltos das botas para o relat&#243;rio, ao sargento da companhia: &#8216;Latrinas impec&#225;veis, meu sargento!&#8217;. (...). O soldado sa&#250;da, faz meia volta, retira-se, levando o segredo com ele.</p><p style="text-align: justify;">O segredo pesa um bom peso no bolso direito do blus&#227;o: 1900 p&#225;ginas do volume consagrado &#224;s obras completas de Nicolai Gogol. Quinze minutos de pano de ch&#227;o contra uma manh&#227; de Gogol... Cada manh&#227;, faz dois meses de inverno, confortavelmente sentado nas salas dos tronos, fechada com duas voltas, o soldado Fulano voa muito acima das conting&#234;ncias militares. Todo Gogol! Das nost&#225;lgicas <em>Noites na fazenda de Dikanke</em> &#224;s hilariantes <em>Novelas</em>, passando pelo terr&#237;vel <em>Taras Bulba</em> e a negra farsa das <em>Almas Mortas</em>, sem esquece o teatro e a correspod&#234;ncia de Gogol, esse incr&#237;vel Tartufo.</p><p style="text-align: justify;">Porque Gogol &#233; o Tartufo que Moli&#232;re teria inventado, o que o soldado Fulano n&#227;o teria jamais entendido se tivesse oferecido aquela tarefa a outros&#8221; (idem, p. 143-144).</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Pennac, Daniel (2008). <em>Como um romance</em>. Porto Alegre: L&amp;PM Editores.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O estudo dos seres vivos na Escola]]></title><description><![CDATA[Sobre a necessidade de se reabilitar a dimens&#227;o epistemol&#243;gica da reflex&#227;o curricular e pedag&#243;gica]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-estudo-dos-seres-vivos-na-escola</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-estudo-dos-seres-vivos-na-escola</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Sat, 16 May 2026 07:03:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f97fdeeb-ad7c-4fe6-ac11-aa3d030a3044_225x225.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Participei recentemente numa mesa redonda, organizada pelo Conselho Nacional de Educa&#231;&#227;o, que foi pensada para debater a inova&#231;&#227;o pedag&#243;gica. Num determinado momento, para tentar explicar o que tenho vindo a designar por deriva processualista da inova&#231;&#227;o educativa nas escolas, recorri a ao trabalho de Marta Ara&#250;jo (2025) sobre escravatura, ra&#231;a e racismo nos manuais de Hist&#243;ria de Portugal para colocar uma quest&#227;o que considero decisiva, uma quest&#227;o que coloquei pela primeira vez num texto j&#225; publicado neste blog: <em><strong>Porque &#233; que a discuss&#227;o p&#250;blica entre as Metas Curriculares e as Aprendizagens se situou nos procedimentos e se marginalizou a reflex&#227;o sobre a dimens&#227;o epistemol&#243;gica e concetual dos conte&#250;dos?</strong></em></p><p style="text-align: justify;">Para quem j&#225; se esqueceu ou que n&#227;o tenha lido esse texto, a pergunta tem a ver como facto de Marta Ara&#250;jo ter demonstrado que os manuais de Hist&#243;ria, sob a &#233;gide das Metas Curriculares, perspetivavam a coloniza&#231;&#227;o portuguesa, sobretudo, como um encontro e a miscinegiza&#231;&#227;o de culturas, enquanto os manuais que foram publicados ap&#243;s a promulga&#231;&#227;o das Aprendizagens Essenciais conferiam maior visibilidade &#224; viol&#234;ncia f&#237;sica e simb&#243;lica do colonialismo portugu&#234;s.</p><p style="text-align: justify;">Nesse texto evidenciei que gest&#227;o flex&#237;vel e contextualizada do curr&#237;culo, em Hist&#243;ria, s&#243; por si, n&#227;o impede que os alunos vivam um processo de endoutrina&#231;&#227;o ou que realizem aprendizagens culturalmente desqualificadas. Uma possibilidade que, importa recordar, n&#227;o se confina &#224;s &#225;reas das Ci&#234;ncias Sociais e das Humanidades, tal como pretendo demonstrar agora, partilhando uma reflex&#227;o sobre o estudo dos seres vivos, em Biologia, os quais podem ser objeto de diferentes tipos de abordagens que correspondem a diferentes perspetivas concetuais porque correspondem a diferentes perspetivas epistemol&#243;gicas. Esta &#233; a leitura de Simard (2023) que defende que tais abordagens concetualizam os seres vivos de forma distintas, devido aos sete tipos de op&#231;&#245;es epistemol&#243;gicas que as sustentam: o animismo, o vitalismo, o finalismo, o fixismo, o evolucionismo darwiniano, o determinismo e o interacionismo.</p><p style="text-align: justify;">Deixando de fora desta reflex&#227;o tanto o animismo como o vitalismo, porque revelam, de acordo com Simard (idem), uma perspetiva m&#225;gica da realidade, come&#231;o por eleger o finalismo e o fixismo como abordagens que permitem ilustrar as conce&#231;&#245;es que, pelo menos, os alunos podem expressar acerca do que s&#227;o seres vivos. Arist&#243;teles, que &#233; primeiro a propor o finalismo como abordagem a considerar, defendia que &#8220;a natureza n&#227;o realizava nada em v&#227;o&#8221; (idem, p. 438), sustentando que as formas e as fun&#231;&#245;es dos organismos seriam determinados pelas finalidades que justificariam a sua exist&#234;ncia. O fixismo, por sua vez, sustenta uma perspetiva que entende a Natureza como algo imut&#225;vel, n&#227;o valorizando &#8220;a dimens&#227;o &#8216;temporal&#8217; da evolu&#231;&#227;o dos organismos vivos&#8221; (idem, p. 438).</p><p style="text-align: justify;">&#201; em oposi&#231;&#227;o ao fixismo que emerge o evolucionismo darwiniano. Uma perspetiva que Simard (ide) descreve, enfatizando o facto de o evolucionismo sustentar que &#8220;a vida tem uma origem &#250;nica, havendo uma ancestralidade comum que &#233; partilhada por todas as esp&#233;cies. Os seres vivos partilham uma hist&#243;ria marcada por adapta&#231;&#245;es e por uma luta pela vida (sobreviver e reproduzir), que as muta&#231;&#245;es aleat&#243;rias e a diversidade gen&#233;tica potenciam&#8221; (p. 438). Para Simard, a afirma&#231;&#227;o de que &#8220;uma esp&#233;cie passa a ser o resultado de um processo de sele&#231;&#227;o natural que promove a sobreviv&#234;ncia dos organismos que melhor se adaptam&#8221; (Ibidem), constitui, assim, a matriz concetual de onde evolui a biologia atual. A partir daqui afirmam-se correntes diversas, nomeadamente as abordagens reducionistas, como aquela que Mendel corporiza atrav&#233;s da defini&#231;&#227;o de leis que se prop&#245;em simplificar a explica&#231;&#227;o da evolu&#231;&#227;o dos seres vivos pela identifica&#231;&#227;o da sua constitui&#231;&#227;o gen&#233;tica (idem) ou o determinismo que, j&#225; presente na perspetiva reducionista, se expande, &#8220;no in&#237;cio da d&#233;cada de 60, com os avan&#231;os da biologia molecular&#8221; (idem, p. 439). Estamos perante uma abordagem epistemol&#243;gica que &#8220;n&#227;o considera os efeitos do ambiente nos seres vivos&#8221; (ibidem), quando valoriza o facto dos seres vivos serem, apenas, o produto da sua constitui&#231;&#227;o gen&#233;tica.</p><p style="text-align: justify;">&#201; em oposi&#231;&#227;o a esta perspetiva que se afirma uma outra abordagem epistemol&#243;gica, identificada por Simard (idem) como interacionista, em fun&#231;&#227;o da qual se defende que as carater&#237;sticas de um organismo resultam da combina&#231;&#227;o entre as suas propriedades gen&#233;ticas e a influ&#234;ncia do ambiente.</p><p style="text-align: justify;">At&#233; que ponto este tipo de mapeamento epistemol&#243;gico &#233; valorizado para identificar as conce&#231;&#245;es pr&#233;vias dos alunos acerca dos organismos vivos? At&#233; que ponto permite balizar os obst&#225;culos epistemol&#243;gicos que dificultam tanto a apropria&#231;&#227;o e utiliza&#231;&#227;o de quadros concetuais e de modos espec&#237;ficos de pensar, por parte dos alunos? Ser&#225; que, de facto, s&#227;o tidos em conta nas atividades que os docentes prop&#245;em para que uma tal apropria&#231;&#227;o e utiliza&#231;&#227;o ocorram?</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o havendo qualquer tipo de incompatibilidade entre este tipo de preocupa&#231;&#245;es e as op&#231;&#245;es metodol&#243;gicas a adotar para se estimular as aprendizagens dos alunos, pergunta-se, outra vez, porque &#233; que a reflex&#227;o sobre inova&#231;&#227;o pedag&#243;gica tem vindo a desprezar aquelas preocupa&#231;&#245;es e se foca, sobretudo, naquelas op&#231;&#245;es?</p><p style="text-align: justify;">Como j&#225; o defendi anteriormente, estamos perante um equ&#237;voco, j&#225; que n&#227;o &#233; tanto a atividade dos alunos que, s&#243; por si, importa salvaguardar, mas a sua atividade situada e balizada pelas exig&#234;ncias concetuais e heur&#237;sticas dos desafios e problemas que a apropria&#231;&#227;o de novos conceitos e modos de pensar e agir justificam.</p><p style="text-align: justify;">Por isso, a reflex&#227;o sobre a Inova&#231;&#227;o Pedag&#243;gica tem de deixar de ser circunscrita &#224; obsess&#227;o com as Metodologias Ativas, o que significa que estamos na hora de discutir se esta mesmas metodologias s&#227;o compat&#237;veis, ou pelo menos se n&#227;o ter&#227;o de ser conformadas, com as metodologias pr&#243;prias de cada &#225;rea do saber, em fun&#231;&#227;o das quais se foi construindo o tipo de conhecimento que constitui o objeto curricular que serve de refer&#234;ncia ao trabalho formativo que tem lugar, pelo menos, em &#225;reas como o Estudo do Meio, no 1&#186; CEB, Ci&#234;ncias Naturais, nos outros ciclos do Ensino B&#225;sico e Biologia e Geologia, no Ensino Secund&#225;rio.</p><p style="text-align: justify;">Tamb&#233;m por isso &#233; que reafirmo que a inova&#231;&#227;o educativa n&#227;o pode ser identificada, apenas, como pedag&#243;gica, mas, antes, como inova&#231;&#227;o curricular e pedag&#243;gica.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias</strong></p><p style="text-align: justify;">Ara&#250;jo, Marta (2026). &#171;Escravatura, ra&#231;a e racismo: Novas narrativas dos manuais de Hist&#243;ria de Portugal? Oficinas CES, n&#186; 48. https://ces.uc.pt/pt/publicacoes/outras-publicacoes-e-colecoes/oficina-do-ces/numeros/oficina-468</p><p style="text-align: justify;">Simard, Catherine (2023). Epistemology and biology teaching: Obstacles to a contemporary conceptualisation of living organisms among future teachers and biologists. <em>Journal of Biological Education</em>, 57:2, 431-451.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O direito ao bovarismo e de uma ler uma frase aqui e outra ali]]></title><description><![CDATA[Estes s&#227;o os sexto e o oitavo direitos dos leitores, na vers&#227;o de Daniel Pennac.]]></description><link>https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-ao-bovarismo-e-de-uma-ler</link><guid isPermaLink="false">https://encruzilhadas.pt/p/o-direito-ao-bovarismo-e-de-uma-ler</guid><dc:creator><![CDATA[Rui Trindade]]></dc:creator><pubDate>Wed, 13 May 2026 13:48:47 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/c4807c06-bfe6-42d0-89bb-bcc81530fbcc_170x255.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Estes s&#227;o os sexto e o oitavo direitos dos leitores, na vers&#227;o de Daniel Pennac. O primeiro que este autor designa por &#8220;doen&#231;a textualmente transmiss&#237;vel&#8221; (Pennac, 2008, p. 141) corresponde a obter atrav&#233;s da leitura, a &#8220;satisfa&#231;&#227;o imediata e exclusiva das nossas sensa&#231;&#245;es: a imagina&#231;&#227;o incha, os nervos vibram, embala o cora&#231;&#227;o, a adrenalina jorra, a identifica&#231;&#227;o opera em todas as dire&#231;&#245;es e o c&#233;rebro troca (momentaneamente) os bal&#245;es do cotidiano pelas lanternas do romanesco&#8221; (ibidem).</p><p style="text-align: justify;">Confesso que, hoje, este direito n&#227;o me diz muito, ainda que tenha havido momentos da minha vida como leitor em que vivi absolutamente dependente de uma rela&#231;&#227;o desta natureza com os livros. Foi assim que li clandestinamente o &#171;Crime do Padre Amaro&#187; (uma hist&#243;ria maravilhosa que um dia irei partilhar) e que saudades tenho dos in&#250;meros momentos em que me fechava na casa de banho. </p><p style="text-align: justify;">Nesta categoria de direitos, insere-se o direito de, em vez de ler um livro, nos limitarmos a ler uma frase aqui e uma frase ali. Para Pennac, trata-se de uma &#8220;autoriza&#231;&#227;o que nos concedemos de pegar em qualquer volume da nossa biblioteca, de o abrir em qualquer lugar e de mergulharmos nele por um momento&#8221; (idem, p. 145).</p><p style="text-align: justify;">Deste modo, pode abrir-se um livro de &#8220;Proust, Shakespeare ou a Correspond&#234;ncia de Raymond Chandler em qualquer lugar, colher aqui e ali, sem o menor risco de se ficar dececionado&#8221; (ibidem).</p><p style="text-align: justify;">Quem nunca o fez que atire a primeira pedra. Se nunca o fez, tamb&#233;m n&#227;o &#233; isso que assegura a entrada direta e sem passaporte no c&#233;u, ao feliz contemplado.</p><p style="text-align: justify;"><strong>Refer&#234;ncias bibliogr&#225;ficas</strong></p><p style="text-align: justify;">Pennac, Daniel (2008). <em>Como um romance</em>. Porto Alegre: L&amp;PM Editores.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>