A deriva pedagógica processualista e a interdisciplinaridade
Pode considerar-se que, no âmbito do Decreto-Lei nº 55/2018, os «Domínios de Autonomia Curricular» (vulgo DAC), enquanto áreas de confluência de trabalho interdisciplinar e ou de articulação curricular, ocupam um lugar estratégico nesse decreto-lei. A possibilidade das escolas passarem a poder gerir, total ou parcialmente, de forma interdisciplinar os tempos destinados às áreas disciplinares e disciplinas, evidencia a importância de, através dos DAC , se promover uma abordagem interdisciplinar do conhecimento, enquanto condição fundamental da realização de aprendizagens culturalmente significativas.
Trata-se de uma das dimensões mais promissoras das políticas curriculares atuais, mesmo que se reconheça que nos confronta com um dos desafios mais decisivos e complexos que as escolas e os professores têm de realizar e de aprender, ainda, a realizar. Do pouco que se sabe sobre o que tem vindo a ser feito, sabe-se, no entanto, que a deriva processualista, que tenho vindo a denunciar nos últimos textos publicados neste blogue, é um dos problemas que mais afeta a realização de iniciativas relacionadas com os DAC. Estamos, mais uma vez, perante uma situação onde o como ensinar prevalece sobre o que ensinar, derivada da exaltação de um tipo de ativismo inconsequente que se atribui aos alunos para que estes se possam reconciliar, por esta via, com a Escola, mesmo que isso acabe por implicar que seja posta em causa a possibilidade desta instituição educativa se afirmar e construir como um espaço de empoderamento cultural.
Por isso é que neste texto volto à discussão sobre os efeitos nefastos da deriva processualista, debruçando-me sobre as implicações da mesma ao nível dos projetos que valorizam a dimensão interdisciplinar do conhecimento depois de, no texto anterior a este, ter tentado evidenciar as consequências de uma tal deriva no campo do ensino experimental das ciências.
Mais uma vez, o exemplo que tenho para partilhar diz respeito ao 1º CEB e relaciona-se com um conjunto de iniciativas que, tendo como fonte de inspiração o modelo STEM (Science-Technology-Engineering-Mathematics), visa propor experiências académicas que encontram nas TIC e numa abordagem interdisciplinar de algumas daquelas áreas, os eixos em função dos quais se alicerçam as atividades que se propõem, vistas como oportunidade para que os alunos possam realizar aprendizagens culturalmente significativas.
Dessas atividades, selecionei, apenas, uma, designada por: «Itinerários - Da nossa escola até à Sala do Futuro», onde se propõe que as crianças analisem itinerários entre a sua escola e a escola sede do Agrupamento. Trata-se de um projeto que visa articular a área de «Matemática» com a área de «Estudo do Meio», o qual começa com uma discussão prévia sobre aqueles itinerários, depois dos alunos analisarem três itinerários que lhes são propostos, de forma a enunciarem as vantagens e as desvantagens de cada um deles. Após este momento, as crianças vão realizar esses percursos, para verificar se as suas perceções estão corretas, utilizando diferentes instrumentos de medida: (i) um pedómetro (aplicação no tablet); (ii) um odómetro de roda e (iii) um GPS integrado no tablet. Para além disso, sabe-se que nos tablets, os alunos tinham acesso ao Google Forms, para resolverem três problemas de matemática, ao Google Keep, para registar fotografias, e ao Google Earth. Sabe-se também que no decorrer dos percursos estes mesmos alunos tinham tarefas a realizar. No posto da GNR assistiram a uma palestra sobre questões de segurança com elementos da «Escola Segura»; na Biblioteca Municipal tiveram de arrumar 20 livros em 4 prateleiras, de forma a explorar os números fracionários, para além de terem de requisitar, ainda, um livro relacionado com a cidade onde viviam, de forma a identificar datas, figuras e acontecimentos importantes; no campo de futebol, finalmente, tinham de fazer medições e calcular o perímetro do campo. Quando terminassem, retornavam à sala de aula onde teriam de explicar o modo como resolveram os problemas e refletirem sobre as atividades realizadas.
Avaliando-se o conjunto das iniciativas enunciadas pode considerar-se que há momentos pertinentes, do ponto de vista formativo, como é o caso das projeções iniciais sobre os itinerários e o processo posterior de verificação das mesmas, tal como há momentos cujo significado nos escapa, os quais têm a ver com as tarefas que foram realizadas na Biblioteca Municipal ou no campo de futebol,
Em termos da dimensão interdisciplinar da iniciativa, estamos perante um projeto fracassado, uma vez que o que se realiza é, apenas e sobretudo, uma ação de consolidação da capacidade das crianças aplicarem conhecimentos matemáticos, colocando-as perante alguns desafios carentes de sentido. Entre ter se utilizar números fracionários para resolver exercícios do manual ou para arrumar livros nas estantes, parece-me que, apesar de tudo, há mais condições do manual confrontar os alunos com situações matematicamente plausíveis do que face ao exercício realizado na biblioteca. O que se constata é que se sacrifica uma relação consequente entre as crianças e o conhecimento para se propor uma iniciativa que visava, sobretudo, suscitar a sua atividade.
Ainda que se possa alegar que o problema não tem a ver com o desejo de suscitar o protagonismo dos alunos, mas com o facto de se confundir interdisciplinaridade com justaposição disciplinar, o que se verifica é que tanto este equívoco como a valorização da atividade como um fim em si mesmo, exprimem ambos a ausência de uma reflexão epistemológica e concetual cuidada. Se esta tivesse acontecido, provavelmente não estaríamos perante uma iniciativa que se desenvolve, a partir de dado momento, através de exercícios aleatórios e inconsequentes.
E porque é que isso aconteceu? Porque se impõe uma noção de atividade dos alunos que é circunscrita ao exercício tangível de uma ação, como se bastasse às crianças movimentarem-se fora da sala de aula para que a atividade fosse considerada culturalmente significativa. O que importa reter é que nas situações educativas que envolvem crianças, a condição da sua atividade tende a constituir como uma justificação decisiva da deriva processualista, como se qualquer atividade, independentemente do tipo de conhecimento que é mobilizado ou apropriado, garantisse, por si só, às crianças a possibilidade de aprenderem.
No meio disto tudo, salva-se o modo como as aplicações dos tablets são utilizadas. Neste caso, a sua importância e plausibilidade tem a ver com o facto de serem utilizadas como ferramentas. É a sua instrumentalidade que lhes confere sentido, ainda que seja fundamental reconhecer que não são aqueles instrumentos que conferem sentido ao projeto analisado.

