No tempo onde as perceções subjetivas e as próprias mentiras tendem a adquirir uma respeitabilidade inquietante, vale a pena continuar a recorrer a Meirieu (2006) e ler um excerto da sua autoria sobre a Escola como instituição da busca da verdade.
“É preciso, de facto, aprender que «as coisas» existem e que «elas são o que são». Não podemos impor-lhes os nossos caprichos. Aprender é respeitar o texto e não fazê-lo dizer o contrário ou algo diferente do que ele diz. Adotar um procedimento científico é tentar ver aquilo em que não tínhamos pensado e não descartar factos que desmentem as nossas hipóteses e limitar-se a considerar o detalhe menor. Fazer uma pesquisa documental é buscar informações sem descartar aquelas que poderiam desestabilizar-nos, é verificar as fontes e desconfiar de interpretações apressadas... É assim que se manifesta no quotidiano das práticas mais banais da sala de aula, a difícil, porém essencial, distinção entre o saber e o crer, entre o dado que se impõe a todos e o que provém da opinião de cada um (...).
É assim que se instala progressivamente no centro da sala de aula uma conduta que faz da exigência de precisão, de justeza, de rigor e de verdade a regra explícita do trabalho coletivo. Aqui, não é quem grita mais alto que tem razão, mas quem demonstra melhor. Não é a intimidação que predomina, mas a argumentação. Não é o espetacular que triunfa, mas a autenticidade de uma palavra que liberta e que reúne as pessoas. Seja em tecnologia, em línguas, em artes plásticas, em mecânica ou em administração, a mesma exigência de faz sentir: ser claro, o máximo possível, o mais próximo possível” (Meirieu, 2006, p. 70 - 71).
Nada tendo contra a área de Cidadania e Desenvolvimento (CD), defendo que não se pode circunscrever a esta área a responsabilidade por contribuir para a educação cidadã dos estudantes. Esta ou é assumida como um compromisso de todas as áreas curriculares ou será um fracasso, mesmo que os projetos em CD fossem concebidos e realizados com a qualidade que se exige. O desenvolvimento do pensamento crítico, da autonomia solidária, da cooperação e da alteridade ou a assunção de compromissos cívicos dizem respeito a cada docente, sem que isso signifique que deixe de ter de assumir as suas responsabilidades curriculares, mas que as assuma em função do modo como se desafia, como se exige, como se interpela, como se congrega, como se apoia, como se oferece outras oportunidades e outras possibilidades dos alunos pensarem e agirem. Tudo depende também do que se avalia e do modo como se avalia.
Referências bibliográficas
Meirieu, Philippe (2006). Carta a um jovem professor. Porto Alegre: Artmed.

