A Escola e a Literatura
O estatuto das obras literárias de leitura obrigatória
Este é um texto que, mais do que se desviar da denúncia do que tenho vindo a designar por deriva processualista do processo de inovação curricular e pedagógica (temática iniciada neste blogue com o texto «Balas de prata», em 21.03.2026), retoma uma tal denúncia, agora, a pretexto das últimas notícias sobre a possibilidade da obra de José Saramago deixar de fazer parte do conjunto de leituras obrigatórias no Ensino Secundário.
A pobreza e o tom dos debates mostra como carecemos, no campo da educação escolar, de reflexões contextualizadas e informadas sobre os assuntos, não desperdiçando tempo e paciência nem em polémicas estéreis, nem em exercícios sedutores de fuga aos problemas que importa enfrentar.
É uma desgraça quando se discute Saramago e Lobo Antunes como se estivéssemos a confrontar Ronaldo com Messi. É uma desgraça, igualmente, que os critérios para selecionar as obras de leitura obrigatória sejam estranhos quer ao valor literário das obras, quer, concomitantemente, ao seu potencial formativo. A maior desgraça, contudo, é quando se conclui que o pior que pode acontecer a um escritor é quando algumas das suas obras se torna objeto de leitura obrigatória, nas escolas. Diria que Isto é o que verdadeiramente me preocupa e, por isso, é que decidi voltar a recorrer a Daniel Pennac, dado que a reflexão que propõe sobre leitura e literatura nos obriga a pensar de forma mais exigente sobre os desafios pessoais e culturais com que os alunos são confrontados nas escolas, no que à relação com as obras literárias diz respeito,
Quem tiver a paciência de ler o que tenho vindo a escrever neste blogue vai reconhecer que retomo a partitura que tenho andado a tocar, a de que um professor que não compreenda, para além das aparências e dos deveres, o que a Literatura é e pode ser nas nossas vidas, é um professor desarmado para o ser. E depois não nos queixemos de que os alunos, em vez da leitura de Os Maias, se limitem a ler aquela espécie de tutoriais que não só os dispensam de uma tal leitura, como, sobretudo, os habilitam, melhor do que essa leitura lhes permitiria, a responder às questões dos exames sobre essa obra de Eça de Queirós. Veja-se a reflexão de Pennac.
“Nos primeiros dias do ano escolar, me acontece de pedir a meus alunos que descrevam uma biblioteca. Não uma biblioteca municipal, não. O móvel. Aquele onde eu arrumo os meus livros. E é um muro que eles me descrevem. Uma falésia de saber, rigorosamente ordenada, absolutamente impenetrável, uma parede que só se pode contornar.
- E um leitor? Descrevam-me um leitor.
- Um verdadeiro leitor?
- Se vocês assim o quiserem, se bem que eu não saiba o que é que vocês chamam de um verdadeiro leitor.
Os mais «respeitosos» entre eles me descrevem Deus Pai, ele mesmo, uma espécie de eremita antediluviano, sentado desde a eternidade sobre uma montanha de livros dos quais ele teria sugado o sentido até compreender o porquê de todas as coisas. Outros me desenham o retrato de um autista profundo, tão absorvido pelos livros que esbarra contra todas as portas da vida. Outros ainda me fazem o retrato inverso, se apegando a enumerar tudo aquilo que um leitor não é: não é desportivo, não é vivo, não é engraçado, não encara um ‘rango’, nem roupas, nem «máquinas», nem TV, nem amigos... e outros, enfim, com mais estratégia, constroem diante do professor a estátua académica do leitor consciente dos meios postos à sua disposição pelos livros para aumentar o seu saber e aguçar sua lucidez. Alguns misturam esses diferentes registos, mas nenhum, nenhum só, se descreve a si mesmo nem descreve um membro de sua família ou um desses leitores com que eles se cruzam todos os dias no metro.
E quando lhes peço para me descrever um ‘livro’, é um OVNI que pousa na sala: objeto misterioso, praticamente indescritível, dada a inquietante simplicidade de suas formas e a proliferante multiplicidade de suas funções, um «corpo estranho», carregado de todos os poderes e de todos os perigos, objeto sagrado, infinitamente cuidado e respeitado, arrumado com gestos celebrantes nas prateleiras de uma biblioteca impecável, para ser venerada por uma seita de admiradores de olhar enigmático.
O Santo Graal.
Bem.
Tentemos dessacralizar um pouco essa visão do livro que lhe enfiamos na cabeça, com uma descrição mais «realista» da maneira como tratamos nossos livros, nós, os que gostamos de ler” (Pennac, 2008, p. 120-121).
Este é o principal problema e o maior desafio que temos pela frente: o da necessidade de dessacralizar a relação dos alunos com a literatura. Como o poderesmos fazer? Não havendo respostas certas e seguras para o fazer, não havendo respostas à prova de professores e, sobretudo, de alunos, há, também por isso, uma reflexão séria a fazer, depois da qual se poderá discutir de forma mais rigorosa e consequente não só estatuto e a função das obras que deverão ser objeto de leitura obrigatória, como os critérios de seleção curricular e pedagógica a adotar para proceder à seleção das mesmas.
Nos próximos textos, por isso, continuarei com a reflexão que Pennac tem vindo a produzir sobre o domínio em questão, através do decálogo que nos propõe para refletir sobre os direitos dos leitores. Trata-se do meu contributo para uma reflexão à qual não nos podemos furtar, apesar das desilusões e dos desânimos que nos assolam.
Referências bibliográficas
Pennac, Daniel (2008). Como um romance. Porto Alegre: L&PM Editores.

