À espera do comboio na paragem do autocarro
Também fui professor a vida toda, agora estou reformado há uns 12 anos, concordo inteiramente consigo. Quase todos os ministros nunca deram aulas nos 12 anos de escolaridade obrigatória, vieram das ciências da educação. Aquilo é só treta, são aleivosias, de ciência não tem nada, mas dá de comer a gente demais! O ensino começou a descarrilar a partir da introdução da escala de 1 a 5 com a treta da escola inclusiva mais toda a legislação que saiu na mesma altura. Começou a culpabilização dos professores pelo insucesso, etc, etc, até ao caos que é hoje. Nunca mais se investiu em educação, delapidaram- se somas astronómicas e a grande maioria dos alunos do 12° estão muito longe da minha 4° classe em 1957, que equivalia a muitos mestrados de agora.
Anónimo (Público, 15 de novembro de 2025)
Li este desabafo - vou chamar-lhe desabafo - num comentário a um artigo de Pacheco Pereira, intitulado «O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação», e apeteceu-me ignorá-lo.
O que passa pela cabeça de um professor reformado para afirmar publicamente que a sua 4ª classe, concluída em 1957, seria equivalente aos mestrados de hoje?
O meu pai dizia coisas semelhantes sobre o valor inexcedível da 4ª classe que concluiu, mas era um pintor de automóveis. No seu caso, era uma forma enviesada de dizer que tinha sido um aluno capaz e que se tivesse nascido num outro berço poderia ter continuado a estudar. No caso de um professor, a mesma afirmação é, no mínimo, uma manifestação de indigência intelectual que, no mundo de hoje, não só não é penalizada como até tende a ser estimulada, em nome da necessidade de se falar claro, mesmo que uma tal frontalidade corresponda ao desrespeito pela verdade dos factos.
São perceções, dirão alguns de forma condescendente, como se o direito a percecionar validasse o direito de mentir. Isto é, que tornasse legítima a possibilidade de afirmar, por exemplo, que quase todos os ministros da educação vieram das ciências da educação, quando, como nos mostra a Wikipédia, o maior número de ex-ministros do setor é proveniente da área da engenharia: Couto dos Santos, Deus Pinheiro, Diamantino Durão, Fraústo da Silva, Lloyd Braga, Marçal Grilo, Roberto Carneiro e Veiga da Cunha. Mais três que os ministros da área da Economia: Fernando Alexandre, Manuela Ferreira Leite, Margarida Lopes, Maria do Carmo Seabra e Valente de Oliveira e bastante acima do número de ministros que eram militares de carreira: José Emílio Silva, Manuel Rodrigues Carvalho e Vítor Alves ou mesmo dos ministros oriundos do campo da Sociologia, como Augusto Santos Silva, David Justino e Maria de Lurdes Rodrigues. Engenharia, economia, forças armadas e sociologia são as áreas preferenciais onde se recrutaram os ministros da educação no pós-25 de abril, às quais se acrescentam, ainda, os ministros provenientes do campo das Letras: José Augusto Seabra e João Costa, da Filosofia: Isabel Alçada e Sottomayor Cardia, da Química: Júlio Pedrosa e Vítor Crespo ou da área jurídica: Eduardo Correia e Guilherme d’Oliveira Martins. Finalmente, da área da Matemática emergiu Nuno Crato, da Bioquímica Tiago Brandão Rodrigues e da História Vitorino Magalhães Godinho. Das Ciências da Educação houve, apenas, Rui Grácio, ministro durante 6 dias e por delegação de competências, e uma Secretária de Estado, Ana Benavente.
Como se depreende, o desabafo anónimo do Público começou por me irritar, para se ir transformando, pouco e pouco, não em vergonha, mas em dor alheia por um professor que encontrou um sentido para sua vida profissional ao proclamar a pobreza e o vazio dessa vida, como a única solução que lhe resta para continuar a sentir-se gente.
É tarde, Maria, canta Sérgio Godinho. É tarde para aqueles que todas as manhãs acordam “para o que não lhes apetece”. Sobretudo, é tarde para aqueles que preferem esperar pelo “comboio na paragem do autocarro”.

