Ando a colecionar comentários e análises sobre os resultados dos alunos portugueses no PISA 2025. Enquanto isso, decidi partilhar convosco excertos de uma reflexão que Meireiu produz, no livro «Carta a um jovem professor», sobre a exigência como condição educativa. Vale a pena ler, num tempo em que a falta de exigência e de rigor sobre este e outros assuntos começa a constituir-se como a imagem de marca do nosso presente. Um tempo onde uma mentira repetida mil vezes se pode transformar numa verdade.
“Pois a questão está justamente na exigência: o dossiê sobre os rastafáris, o painel sobre os efeitos especiais ou a exposição sobre Harry Potter podem ser uma maneira de abandonar os alunos à mediocridade mediática e de excluí-los de toda a verdadeira cultura... Isso acontece, sem dúvida, quando se permite a apresentação de um simulacro de pesquisa pessoal ou em grupo, quando se transforma a sala de aula num local de exibição para alguns animadores eficazes, e se assiste ao espetáculo limitando-se a avaliá-lo, como cúmplice ou acusador.
Mas não acontece quando se acompanha os alunos mais de perto e de maneira mais exigente, à espreita de questões que se colocam e de possíveis aberturas culturais, atento a esses pequenos detalhes de «forma» que é tão comum considerar como secundários... É preciso utilizar um vocabulário preciso e formar frases corretas. É preciso fazer um apanhado histórico para compreender bem. É preciso estruturar o discurso, utilizar argumentos de peso e exemplos pertinentes para se fazer entender. É preciso, de facto, que a menor palavra, a menor expressão, o menor gesto sejam comandados por um imperativo absoluto de qualidade.
(...). A qualidade aqui não é de modo nenhum, justamente, «uma qualidade» suplementar, uma dimensão estranha à «natureza das coisas» que viria a somar-se às criações dos homens. A qualidade é a intencionalidade do ato levada à incandescência, quando o que se faz alcança uma tal perfeição que isso se impõe como uma evidência. A qualidade é o gesto exato, preciso, de onde se exclui quase tudo. O gesto em si que se basta a si mesmo. O movimento do bailarino, a frase do escritor, a pincelada do pintor, a manipulação do cientista, o cálculo do matemático, assim como o giro do parafuso do mecânico (...).
Existe algo de fundamental para mim num tal reconhecimento, algo que acabei transformando no vetor das nossas atividades profissionais: qualquer atividade humana, desde que seja trabalhada como um exigência máxima, comporta toda a inteligência humana. (...)
E foi assim que cheguei, indiretamente e de certo modo a contragosto, ao nosso ofício de professor. Pois, independentemente de ensinarmos francês ou tecnologia, culinária ou física, conatbilidade ou biologia, eletricidade ou letras clássicas, somos antes de tudo portadores dessa exigência de qualidade sem a qual nenhuma das nossas disciplinas e nenhum saber humano jamais se constituiriam” (Meirieu, 2006, p. 53 - 55).
Acabem-se, por isso, com discussões estéreis e inúteis sobre a exigência como condição educativa a respeitar nalgumas disciplinas, defende Meirieu. É que a
“exigência transcende tudo isso. Ser exigente em tudo e nos menores detalhes, e basta. Exigente em relação a mim tanto quanto aos alunos. Exigente nas tarefas mais banais e quotidianas assim como nos momentos mais excecionais e ritualizados. Exigente no trabalho para o qual tentamos motivar os nossos alunos do mesmo modo que nas atividades que eles escolhem livremente (...) (idem, p. 55).
É que, ao contrário do que alguns propagandeiam, não é a seleção académica que constitui o principal critério para aferir uma ação educativa exigente. A exigência é outra coisa. É ela que nos permite afirmar que o ofício de professor vale a pena, quando contribui para que os seus alunos possam ser o que ainda não são.
Referências bibliográficas
Meirieu, Philippe (2006). Carta a um jovem professor. Porto Alegre: Artmed.

