A pretexto de um «Sábado Pedagógico»
Estive hoje, como havia anunciado, no «Sábado Pedagógico» do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM) que teve lugar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Não foi o primeiro, mas foi como se fosse.
Juntarmo-nos para pensar em conjunto sobre o que andamos a fazer como educadores e professores é, só por si, um propósito profundamente subversivo Uns expõem-se e outros ouvem, mas todos partilham. Pensam, em conjunto, sobre o presente educativo que querem construir. O presente possível sem que isso signifique que se abdica do presente desejável. Um presente que se enfrenta sem nos refugiarmos no futuro que, sabemos bem, bate à nossa porta em cada segundo que passa.
Nos tempos que correm, onde a desgraça e a descrença são os alimentos que se vão servindo nas redes sociais e na própria imprensa, necessitamos de sábados pedagógicos porque necessitamos de esperança. Não a esperança dos crentes, mas a esperança tangível daqueles que lutam por ela. Uma esperança que contrarie a nossa solidão. Uma esperança que contrarie o consumismo das soluções fáceis e imediatas. Uma esperança que se constrói, de forma partilhada, com exigência e com rigor, a partir do trabalho que se realiza e da reflexão que esse trabalho suscita.
É tudo isto que sinto em cada sábado pedagógico e é por isso, também, que devo muito daquilo que sou profissionalmente ao Movimento da Escola Moderna Portuguesa.
Para abreviar, diria que foi no MEM que escutei, pela primeira vez, o conceito de isomorfismo pedagógico e ao qual recorro constantemente como critério de aferição da autenticidade e impacto da formação inicial e contínua de docentes, da autenticidade e impacto dos projetos de inovação curricular e pedagógica, da autenticidade e impacto do próprio MEM.
O que aquele conceito nos exige é que se estabeleça uma relação tão coerente quanto congruente entre os nossos princípios e as nossas práticas, o que está longe de ser o caso quer nos já atrás referidos projetos de formação inicial e contínua ou nos projetos de inovação curricular e pedagógica. Diria mesmo que a ausência de isomorfismo pedagógico é uma das razões mais poderosas que permitem explicar que os primeiros não contribuem para que se concretize o tipo de formação que dizem pretender concretizar e os segundos não são, afinal, projetos inovadores. É verdade que sei, sem vacilar, que estamos perante um objetivo muito exigente, sem que com isto esteja a patrocinar a ideia de que é um objetivo inexequível.
E a prova da sua plausibilidade encontro-a no MEM, um movimento de autoformação cooperada de educadores e professores, bem como de outros profissionais de educação, que, a partir das práticas e das reflexões dos seus membros visa contribuir para que estes possam ser construtores de uma Escola congruente com os valores que caraterizam, ou deveriam caraterizar, a vida em sociedades democráticas.
É este o investimento que os educadores e os professores, associados do MEM, protagonizam. É o reconhecimento da centralidade que atribuem ao isomorfismo pedagógico como motor da sua ação como profissionais que lhes confere credibilidade e sentido ao trabalho que realizam nos seus jardins-de-infância e escolas, nos sábados pedagógicos, nos grupos de trabalho cooperativo em que participam ou nas comunicações e na exposição que apresentam em cada um dos seus congressos anuais.
É o isomorfismo pedagógico de inspiração pedagogicamente democrática que permite que o MEM disponha, hoje, de um legado pedagógico incontornável que nos permite compreender, de forma mais esclarecida, as possibilidades de afirmação de um projeto democrático de educação inclusiva, em função do qual se estabelece a rutura com o modo de ensino simultâneo, para propor as salas de aula como comunidades de aprendizagem, no âmbito da afirmação da Escola como um espaço de empoderamento cultural, condição para que se possa assumir como um espaço de formação pessoal e de cidadania e onde os professores tenham a oportunidade de se afirmar como construtores do conhecimento profissional.

