A proibição da IA no Ensino Superior
Foi publicado, em meados deste mês, um manifesto intitulado «Por um Ensino Superior humanizado – Manifesto contra o uso da “inteligência” artificial generativa que é assinado, entre outros, por gente por quem nutro respeito cívico e admiração intelectual, como é o caso de Elísio Estanque, João Teixeira Lopes, Luís Souta, Manuel Carlos Silva ou Viriato Soromenho-Marques.
Na resposta ao mesmo, Nelson Zagalo, num artigo que escreveu no «Público» em 25.01.2026, defende que “os autores do manifesto têm razão numa parte do diagnóstico”, recordando, no entanto, que a “IA generativa não é um objeto que se deixa à porta da universidade, como um telemóvel numa caixa”. Se um estudante a quiser utilizar pode fazê-lo “em casa, no telemóvel, no trabalho, às três da manhã. Nenhum regulamento consegue entrar nesse espaço. Pode escrever-se a proibição, mas não se consegue garantir o cumprimento nem verificá-lo fora da sala de aula. Proibir a IA no ensino superior é um ato de fé regulatória: escreve-se numa norma aquilo que já não se controla na prática”. Prossegue Zagalo que “a proibição que o manifesto reclama é um fantasma. Produz barulho, conforto moral e sensação de controlo. Mas não tem efeito prático nem consequência real. Os estudantes continuarão a usar IA, apenas o farão às escondidas, sem enquadramento, sem literacia e sem ética”.
Esta é uma perspetiva que não se pode ignorar, quer porque é de alguém que sabe do que fala (N. Zagalo é professor catedrático da Universidade de Aveiro, relacionado com o domínio dos media digitais e a interação entre os humanos e os computadores), quer porque não constitui a expressão de um tipo de discurso ultraliberal, hoje, tão em voga sobre o digital e a IA que recusa, por princípio, a possibilidade de se empreenderem ações regulatórias neste domínio. É, igualmente, uma reflexão pertinente quando se desloca de um debate de natureza tecnológica para um debate de natureza pedagógica.
Por isso faço minhas as preocupações de Zagalo, para quem “a questão não é se devemos proibir a IA no ensino superior. A questão, bem mais incómoda, é outra: estamos dispostos a mudar o modo como ensinamos e avaliamos, agora que a IA tornou impossível esconder o que já não funcionava?” E lembra que “se um aluno consegue fazer um trabalho inteiro copiando respostas de um modelo de linguagem, o problema não é a IA, é o desenho da avaliação. Se fosse possível um estudante terminar uma licenciatura a papaguear textos que não percebe, a pergunta séria não seria “o que é que a IA está a fazer à universidade”, mas “que universidade construímos para que isso fosse possível?”.
Daí que para Zagalo, e já agora para mim, o “desafio não é afastar a IA, é ensinar a usá-la. Ensinar a desconfiar das respostas, a comparar com fontes, a explicitar o que foi feito pela máquina e o que foi feito pela pessoa. Usar a IA como espelho devolutivo do pensamento: pedir ao estudante que mostre o prompt, critique o output, reescreva, explique por escrito onde concorda, onde discorda e porquê. Se quisermos, a IA pode ser um laboratório de pensamento crítico. Se a proibirmos, será apenas mais uma fonte de atalho silencioso”.
É que proibir pode ser visto como “o gesto mais fácil. Não por cinismo, mas por exaustão e falta de condições para redesenhar práticas. Permite declarar um território simbólico de pureza (“na minha cadeira ainda se pensa a sério”), sem tocar no que realmente custa: rever métodos de avaliação, reformular enunciados, aceitar trabalho mais processual e menos industrial. A IA, aqui, aparece como bode expiatório daquilo que não queremos, ou já não conseguimos, mudar” (Zagalo, 2026).
Referências
Zagalo, Nelson (2026). Mas proibir o quê? Resposta ao manifesto pela proibição de IA no ensino superior. Público, 25.01.2026


Excelente ponderação que me fez repensar o modus operandi face a questão. Levanta o véu sobre o que é preciso mudar na universidade para lá do confronto com a IA. E quem diz na universidade diz noutros locus do conhecimento.