Afectos cruzados
(para que, desta vez, as quintas-feiras sejam pequenos sábados)
De olhar espevitado e língua pronta, a Isabel distraía, a propósito do Francisco, o bonitão do 6º A, a Sara.
- Isabel, repete o que o teu colega estava a dizer! - Interrompi eu.
- Ah... pois... dizia que... desculpe, professor, mas a Inês estava a distrair-me -respondeu-me entre hesitante e decidida a Isabel.
- Pois! Nós sabemos, a Inês distraiu-te! A Inês?
Eu confundira a Inês com a Sara, naquele início de ano lectivo. Sara e Inês, gémeas, de olhos cor de amêndoa iguais, de sorrisos permanentes, tímidas, de cabelos longos e de longa simplicidade confundiam-me por vezes, a mim, seu professor, a outros professores e a alguns dos seus colegas. Lá estavam as fotografias no livro de ponto, da Inês e da Sara, apenas um pouco diferentes no penteado. Afinal, vim a saber depois, as fotografias eram ambas da Sara. Houvera lapso no acto de as colar no livro.
Tudo era muito igual nelas. Só o desempenho, sobretudo a nível da expressão escrita, lhes traía a semelhança, sendo a Inês mais consistente nos resultados escolares.
Agora, dois anos de trabalho e convívio com elas, já as conheço melhor. Pressinto-lhes gestos, atitudes, sorrisos, alegrias, tristezas e desabafos, Sei-as diferentes. Sei-as igualmente capazes de usarem a sua semelhança para proveitos próprios nas aulas. Conheço-lhes a individualidade, os pequenos nadas, indizíveis, que marcam a diferença, ao contrário do que aconteceu, certa vez, com um colega meu. Veio primeiro a Inês à sala pedir-lhe um objecto qualquer. Mais tarde, foi a vez da Sara, ao que o professor retorquiu surpreendido:
- Outra vez? Ainda há pouco mo pediste! Estás a brincar comigo, ou quê?
Vítor Manuel Tavares Martins
(publicado no Correio da educação, nº 60, de 8.01.2001)

