Balas de prata
Como explicava João Miguel Tavares, numa das suas crónicas habituais, no jornal «Público», a “bala de prata (...) é a única que mata lobisomens e outras espécies maléficas”, lembrado que ela acabou por se tornar numa “metáfora para designar as soluções simples que resolvem problemas complexos com falsa rapidez e eficácia”.
É o caso da educação que constitui um dos terrenos mais férteis que eu conheço para a proliferação das balas de prata.
Os exames e as reprovações pertencem ao grupo de balas de prata mais utilizadas no campo da Educação. Seriam eles que, em conjunto com um ensino estruturado, garantiriam a concretização de mais e melhores aprendizagens, bem como o retomar da paz e dos conflitos nas escolas. Os professores passariam a ser outra vez respeitados e tudo voltaria a entrar nos eixos.
Mais recentemente, e de um outro quadrante, propõem-se as metodologias ativas como o antídoto a ser utilizado para motivar os alunos a trabalhar e a aprender. Acabaríamos, assim, com o inestimável apoio dos dispositivos digitais e da IA, com o divórcio que se aprofunda entre os estudantes e as escolas. Há mesmo quem se atreva a proclamar que esta é a nossa oportunidade de aceder na terra ao paraíso pedagógico, quando cada um de nós puder aprender o que quiser, como quiser e quando quiser.
Por fim, temos as capacidades socioemocionais como a bala de prata mais recente. Que se cuidem os Trumps, os Nethanyaus, os Putins, os Órbans ou os Khameneis desta vida. Os seus dias estão contados, tal como os dias de manipulação dos Musk, dos Zuckeberg ou dos Bezos. A pobreza, as injustiças e o sofrimento deixar-nos-ão de nos preocupar porque a nossa resiliência será exponenciada ao ponto de, apesar de pobres, vítimas da injustiça ou sofredores, nos mostrarmos capazes de lidar com tudo isso.
A lista poderia ser mais longa e incluir, ainda, algumas miragens educativas, como é o caso da visão insular de Cidadania e Desenvolvimento, cujo estatuto de pudim instantâneo, relacionado com a promoção da formação cidadã das crianças e dos jovens, é uma das mentiras mais beatas que hoje percorre as nossas escolas.
Ao lado desta miragem, perfila-se uma outra, menos vistosa, mas, igualmente, ilusória. Falo do modelo STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics) e do seu sucedâneo, o STEAM (Science, Technology, Engineering, Arts and Mathematics). Não está em causa o potencial formativo destes modelos, o que proponho é que se analise, avalie e discuta se a aplicação dos mesmos não tende a frustrar as intenções subjacentes à glorificação da visão interdisciplinar que o anima. Não se podendo propor afirmações perentórias neste âmbito, constato, todavia, que há projetos sob a inspiração do modelo STEM/STEAM que não passam de caricaturas do conhecimento científico, subordinadas à valorização do ativismo dos alunos, entretidos a realizar tarefas sem significado e sem sentido cultural credível, onde se designa por interdisciplinar o que não passa de uma justaposição curricular canhestra e vista como um fim em si mesmo. Não é por acaso que isto ocorre. Acontece quando se acredita que é possível dispensar a reflexão epistemológica, enquanto componente da reflexão curricular e pedagógica, para, assim, se poderem aplicar algoritmos pedagógicos universalizantes, cujas implicações, mais do que nulas, prejudicam os alunos e a sua formação concetual e heurística.
Em suma, quando a esmola é grande os pobres têm de desconfiar, porque as balas de prata, justamente porque não resolvem qualquer problema, permitem que os problemas se avolumem e que não os tentemos resolver de forma séria e consequente.
Referências
“Adolescência e a tentação da bala de prata que tudo explica” de João Miguel Tavares (Público, 5/4/2025)

