Buli Sané
(Para que as quartas feiras sejam pequenos sábados)
Éramos gente comum que, naquele contexto, se defrontava com um desafio incontornável, o de enfrentar os exames orais, em Português, História e Matemática, da responsabilidade de alguns técnicos zelosos que o Ministério mandatara para o efeito.
Tal iniciativa não estava prevista. Informaram-nos que isso ia acontecer dois meses antes do fim do ano letivo e, resignados, lá nos preparamos para enfrentar um tal desafio, naquela escola-internato que o Ministério da Saúde da Guiné-Bissau tutelava. Os estudantes eram homens e mulheres que, como socorristas, tinham sido combatentes do PAIGC durante a guerra colonial e que agora se preparavam, ali, para ingressarem na escola de enfermagem de Bolama.
Desses alunos, um dos mais angustiados era o Buli Sané, por causa da relação que mantinha com a Matemática. As contas de dividir eram o seu ponto fraco, as operações que incluíssem frações, por vezes, confundiam-no e a leitura dos números decimais nem sempre era tão bem sucedida como seria desejável. Para piorar as coisas, as relações com o Júlio, o professor da disciplina, não eram, na altura, as melhores. Situação que acabou por justificar a minha subtil entrada em cena, como responsável por um dos grupos de alunos que necessitava de apoio pedagógico acrescido nesse domínio. Estava em jogo o seu futuro imediato, dele e de todos os outros, depois de um exigente ano de trabalho, feito de muitos dias de arroz com arroz e longe das famílias, que a falta de dinheiro e de transportes não permitia visitar. Desta vez, não havia Djitu ka tem que pudesse resolver o efeito da reprovação num exame oral marcado à pressa.
Por isso, à noite, no alpendre, em frente ao meu quarto, perante um quadro negro e paus de giz na mão, lá íamos fazendo exercício atrás de exercício, rodeados de meia dúzia de garrafas de Cicer, com pavios acesos mergulhados em petróleo, a iluminar em círculo a escuridão de Nhala
E o dia do exame chegou. Ouvi o examinador chamar pelo nome de Buli Sané. O mesmo Buli Sané inquieto que, na noite anterior, me confessava o medo que o assolava quando era obrigado a enfrentar o algoritmo de uma divisão. Vi-o sentar-se, responder às primeiras questões e ler os números que o professor tinha escrito no quadro. Quando se levantou para resolver uma conta de dividir com três cruéis algarismos no divisor levantei-me e foi já encostado à parede, no fundo da sala, que, a pouco e pouco, fui reconhecendo todos os passos e os truques que havíamos meticulosamente ensaiado nas semanas anteriores. Nem a maldita prova dos nove fora dispensada da exibição daquele burocrata investido do poder de examinar. Agora, só faltava ditar o problema. Ditou-o à velocidade da escrita que o Buli imprimia ao giz traçando as letras no quadro. Até se fazer silêncio. Um silêncio longo que, mesmo sem a gravata de elástico do meu exame da 4ª classe, me esganava o pescoço naquela manhã equatorial desse Julho de 1982. Cumprindo o guião estipulado, vi-o sublinhar corretamente, no enunciado do problema, a informação relevante e, no lado esquerdo superior do quadro, enunciar a operação aritmética que tinha que resolver para responder à questão que lhe era colocada. Mais uma divisão que ele resolveu a preceito no lado direito do espaço que lhe restava. Faltava a resposta, por escrito, que não tardou. Sem um erro, longa, formal e completa.
O abraço longo e festivo que nos uniu no terreiro da escola e as lágrimas que nos escorreram pelo rosto são a única coisa que a minha memória conserva. Um gesto que, hoje sei, explica muitos outros gestos. Um gesto que, também sei, muitos outros professores poderiam evocar como seu.
Rui Trindade (adaptado de um texto publicado em a Página da educação, nº 120, Ano 12, Fevereiro de 2003)

