Contestação e democracia
Falemos de contestação. Durante muito tempo tendia a associar o ato de contestar a um ato de generosidade política, esquecendo-me, por exemplo, da existência das contestações de natureza anti-democrática, talvez por serem minoritárias ou silenciosas.
Como sabemos isso mudou, tal como o triste episódio que opôs o capitão da seleção nacional de futebol, Kylian Mbappé, à deputada paraguaia Celeste Amarilla, tão bem ilustra.
Tudo começou no fim do jogo de futebol entre a França e o Paraguai que a seleção gaulesa venceu, depois de um jogo muito tenso, marcado pela dureza e as provocações dos jogadores paraguaios, o que levou os franceses a recusarem cumprimentar os adversários no fim do jogo e Mbappé a afirmar que a sua equipa também sabia jogar sujo. Foi na sequência destes episódios que Celeste Amarilla acusou o capitão da seleção francesa de não passar de um camaronês colonizado, a tentar fazer-se passar por francês, um ressentido, novo rico, prepotente, feio e inculto que, para além disso, não sabia escrever, já que a coisa mais instruída que ouviu tinham sido os chimpanzés. Se a resposta de Mbappé não se fez esperar, acusando a deputada de ser racista e uma mulher desprezível, indigna do cargo que ocupava, a resposta de Celeste também não, ameaçando-o com o tribunal porque as palavras dele configuravam uma situação de violência de género, um crime que devia ser punido.
Perante tamanha desfaçatez, o que dizer? O que fará o Partido Liberal Radical Autêntico pelo qual foi eleita para o Parlamento paraguaio? Tendo em conta que estamos perante um partido que combateu o regime brutal do ditador Stroessner e que hoje constitui um dos pilares do regime democrático no Paraguai, penso que a expulsão seria a medida mais congruente. Não sei se o fará. O que sei, e o que me preocupa, é não desconhecer que haverá sempre quem me possa acusar de, através deste texto, desrespeitar a liberdade de expressão e de pensamento. O que sei, e o que me preocupa, é ver uma racista, ao ser acusada daquilo que efetivamente é, alegar que foi vítima de violência de género.
O problema é que a violência de género existe. Trata-se de um fenómeno social endémico que tem e deve ser combatido, seja quando ela se faz sentir nas ruas e nas casas deste país e deste mundo, seja quando é invocada para sustentar aleivosias e mentiras. Na primeira situação, a violência gera uma situação humanamente intolerável, enquanto na segunda, a violência consubstancia-se na instrumentalização de uma denúncia tão cínica quanto hipócrita. As duas configuram um atentado à vida que seria suposto viver em sociedades que se afirmam como democráticas.
Moral da história: A contestação, nem sempre corresponde a um ato através do qual se busca mais dignidade, justiça e democracia. Por isso, temos de ser criteriosos e, quando isso é necessário, necessitamos de ter coragem para denunciar e contestar a contestação.

