Em jeito de despedida...
[Partilho este texto que escrevi há uns anos atrás. É o texto que vou enviar às alunas e aos alunos que me acompanharam no ano letivo que agora se encerra, o último que vivi como professor, já que os próximos serão vividos na condição de avô]
É pena que em abril, quando iniciarmos a reflexão sobre a relação pedagógica como temática estruturante da disciplina de Psicologia da Educação, já tenhamos esquecido o que se passou em fevereiro, no primeiro dia de aulas. Se fôssemos capazes de evocar esse primeiro encontro, talvez poupássemos muito do tempo que gastamos em conversas sobre o inefável.
A hesitação à porta, os olhares que se cruzam, a procura de um lugar resguardado. Recordo-os pela incomodidade que pressinto nas pessoas que vão entrando. São momentos de comunicação intensa, tecidos através de gestos e murmúrios que o ritual da apresentação obscurece. A apresentação do programa de trabalho da disciplina nunca me pareceu suscitar, até hoje, mais do que uma ou outra questão de circunstância ou, quando muito, alguns sinais de assentimento. As reações de oposição ténue, a existirem, guardam-se para a discussão acerca do processo de avaliação, sobre as opções que têm ao seu dispor e os critérios em função dos quais será julgada a sua prestação académica. É este, usualmente, o momento mais tenso do primeiro dia de aulas. Tensão que julgo ser equivalente ao reconhecimento dos constrangimentos curriculares, pedagógicos e institucionais a que se encontram sujeitos, os quais, quantas vezes, são romanticamente ignorados ou oportunamente entendidos como a expressão da incongruência de uma licenciatura com fama de rousseauniana. O ar surpreendido de alguns dos meus interlocutores parece confirmar a exatidão desta tese, sobretudo se pertencerem ao grupo daqueles que, nos corredores, possam ter ouvido que não se preocupassem muito comigo porque eu era um gajo porreiro. O que, neste caso, tanto pode ser traduzido por um tipo a quem facilmente se dá a volta, como significar, espero, que sou alguém suficientemente compreensivo, disponível para os aturar e interessado em criar as melhores condições para que todos possam carpinteirar a cadeira que leciono.
O primeiro dia de aulas não é, assim, um dia tão fácil como, por vezes, alguns colegas meus dão a entender. Temos que nos expor, criamos e defraudamos expectativas, nem sempre somos entendidos, nem sempre sabemos fazer-nos entender. Não tenho, por isso, grandes conselhos a dar sobre os primeiros dias. Resguardem-se? Exponham-se? Não faço ideia. Sei, apenas, que é um dia em que se inicia um jogo que não podemos recusar jogar. Professores e alunos. Não nos conhecemos. Não nos escolhemos. Não nos encontramos numa instituição e num mundo onde os padrões relacionais não se encontram prefigurados de forma tão definitiva como alguns tanto desejariam. E ainda bem, acrescento eu, porque nos permite assumir de forma mais plena a nossa condição de seres humanos. Com todos s riscos, devo reforçar, que são inerentes a uma situação, quantas vezes, subavaliada, do ponto de vista das relações de poder em presença.
Anos houve em que costumava ler para os meus alunos, nos nossos primeiros dias de aulas, o célebre texto de Sebastião da Gama sobre um outro primeiro dia numa escola onde o poeta havia sido professor. Nunca mais voltei a fazê-lo. Aprendi, entretanto, que as salas de aula não têm de ser paraísos terreais. São espaços de ação de interação, institucionalmente configurados, e passíveis de ser humanamente recriados. Para isso, não precisamos de ser anjos, mas apenas homens e mulheres dispostos a dialogar, a confrontar-se, a descobrir-se e a trabalhar em conjunto todos os dias que um qualquer primeiro dia, algures, iniciou. Não temos de nos tornar amigos, mas poderemos usufruir da mutualidade da nossa presença. Não é obrigatória a ausência dos conflitos despropositados, mas estes podem acontecer, tal como os mal-entendidos, os julgamentos preconceituosos ou o desprazer em certos momentos passados em comum.
Tudo isto é possível, se estivermos disponíveis para reconhecer qual é a nossa quota parte na eclosão de tais ocorrências e como o ambiente relacional se rarefaz se não tentarmos enfrentar os problemas que a cada um e a todos diz respeito, assumindo-se o que se tiver e puder assumir.
Enfim, não há primeiros dias de aulas decisivos, como se fossem os primeiros dias do resto das nossas vidas. Estes, na verdade, só acontecem quando cada bebé, chorando a plenos pulmões, reivindica a sua presença no mundo que lhe oferecemos.
Mas se um primeiro dia de aulas não é decisivo, isso não significa que é inútil. Foi sempre o começo de algo que, para mim, que sou professor, lá foi alimentando a minha vida. E é isto que vos quero agradecer, porque sem a vossa presença, enquanto estudantes, esta vida não seria tão significativa como, na verdade, o foi, tanto este ano como ao longo de todos os anos em que veti a pele de professor. Obrigado.


Rui, que bonito texto! Do tamanho da tua grandeza como Professor e como Pessoa. Um beijinho gigante para ti e para a Ariana.
Rui Trindade. Simplesmente você. Grande abraço!!!