Faz, neste outubro, 50 anos que entrei, entrámos, na Escola do Magistério Primário do Porto (EMPP). Foi em 1976 que, depois de termos sido aprovados nos exames de acesso, aí fomos admitido para frequentar o Curso de Professor do Ensino Primário, o qual, a partir do ano letivo anterior, tinha passado a ter a duração de três anos.
É sobre essa escola que quero escrever e que convido outros a partilhar, neste blogue, os seus escritos. Se temos à nossa disposição textos, de natureza académica, onde se reflete, entre outras coisas, tanto sobre a especificidades e o potencial dos projetos de formação que tiveram lugar nas escolas do Magistério Primário no período subsequente ao 25 de abril de 1974, parece-me que faltam os textos das pessoas que viveram na primeira pessoa, de corpo e alma, o que nós todos ali pudemos viver e aprender.
Celebrar os 50 anos da nossa entrada na EMPP pode ser, assim, o pretexto para evocarmos as nossas próprias experiências como estudantes. Não é uma manifestação nostálgica, idealizadora de um passado que se efabula, que pretendo recriar. É antes um exercício de reflexão sobre as escolas vocacionadas para promover a formação inicial de professores, onde é necessário cuidar do modo como se ensina e, igualmente, do modo como se permite que os estudantes, futuros docentes, possam aprender e terem oportunidade de viver experiências pessoais e sociais significativas.
É verdade que os tempos são outros. São outros, também, os desafios e as exigências, mas há dimensões formativas às quais convém prestar atenção. É neste âmbito que a experiência que vivemos, há 50 anos, pode ser valiosa para discutir algumas dessas dimensões, conferindo-lhes visibilidade e pertinência.
Eu comprometo-me a começar. Não sei se começarei pela luta contra a Helena Araújo ou se recordo o espaço de formação que fomos criando no café Corsário. Não sei, ainda, se me atrevo a falar de histórias sobre desgostos de amor, sobre processos disciplinares ou sobre o estatuto do «Água leva o regadinho» no nosso quotidiano. Não sei. Há histórias do estágio, histórias de noites de estudo, histórias trágico-cómicas e histórias de solidariedade. Todas elas, por alguma razão, inolvidáveis. Há histórias incríveis sobre lutas e projetos que as associações de estudantes das diferentes escolas do Magistério Primário empreenderam. Histórias de acontecimentos que contribuíram, de algum modo, para ser quem somos porque, em larga medida, o fizemos juntos, convictamente, e, muitas vezes, de forma refletida. A nossa inquietação era uma força tão incomensurável quanto solidária, porque acreditávamos, como cantava Zeca Afonso, que podíamos ser os cantores daquele Sol de verão que se ergueria também por via da força das nossas convicções e ações. Mais do que saber se cumprimos o prometido, interessa-me saber que o desejo de o fazer nos animou a ir mais longe, não esperando que alguém fizesse por nós, o que nós sabíamos que só nós poderíamos fazer.
Por isso é que na placa de metal que afixamos no átrio principal da Escola (hoje Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo), recorremos ao refrão do Coro da Primavera para o dizer, 25 anos depois de termos partido daquele porto seguro.
Apesar de tudo, das ilusões, das desilusões e do que cada foi construindo, vale a pena falar desse tempo, enquanto pretexto e condição para pensar o presente e os desafios com que este nos confronta.
Aguardo, por isso, os textos de todos aqueles e aquelas que quiserem partilhar comigo, neste blogue, os seus testemunhos sobre os anos vividos na Escola do Magistério Primário do Porto. Enviem-mos, por favor, para o e-mail: trindade@fpce.up.pt.
Será, assim, a partir de 6 de fevereiro de 2027 que neste blogue, com as nossas histórias, iremos comemorar os 50 anos da nossa entrada na EMPP.

