A relação entre Escola e Democracia é outra das problemáticas que Meirieu (2006) aborda no seu livro «Carta a um jovem professor». E fá-lo de forma clara, começando por reconhecer uma situação dramática: a de que as escolas se preocupam mais com a possibilidade dos seus alunos serem capazes de participar num debate científico do que em condições de contribuírem para a construção de uma sociedade democrática.
Recusando que estejamos perante propósitos incompatíveis e defendendo eu que a participação capaz e consequente num debate científico é um contributo fundamental de uma educação democrática, vale a pena refletir sobre o que o pedagogo francês diz sobre este assunto, até porque, na verdade, valoriza a cumplicidade que acabei de referir entre aqueles dois propósitos. Para Meirieu
“não é um paradoxo menor da nossa modernidade o desinteresse pelas democracias na sua perenidade. Enquanto que os regimes totalitários, seja qual for a sua ideologia de referência, consagram uma energia considerável a inculcar nas crianças o catecismo que garante a sua submissão futura, as democracias contentam-se em injetar uma hora de educação cívica, aqui ou ali, com tão pouca convicção que todos admitem, à boca pequena, que ela pode ser deixada de lado na primeira oportunidade. Assim, parece que nos resignamos ao culto do individualismo, à supressão das regras da vida coletiva e ao domínio dos comunitarismos...” (idem, p. 73).
Como se verá, para Meirieu, a solução para o problema com o qual nos confronta nem passa por dedicar mais tempo à educação cívica nas escolas nem se resolve impondo de modo autoritário os princípios da vida em democracia. Para ele, a Escola pode assumir um papel significativo, desde que leve a sério
“um duplo trabalho; por um lado, o de ajudar cada aluno a escapar de todas as formas de tribalismo que imponham a conformidade à norma e impeçam qualquer liberdade de pensamento; por outro, o de ensinar cada um, permanentemente, a descentrar-se das suas preocupações imediatas e dos seus interesses pessoais para se associar a outros e caminhar no sentido do universal” (ibidem).
Isto é, fazendo com que a cidadania nas escolas se concretize quando, sem acrescentar nada às oportunidades educativas que aí já são oferecidas, o que passa por aprender a “considerar o ponto de vista dos outros para construir, progressivamente, saberes objetivos” (idem, p. 75), que, como Meirieu (idem) reconhece, corresponde a uma etapa do desenvolvimento da criança que é, ao mesmo tempo, intelectual, social e política. Trata-se de uma maneira de contribuir para que cada estudante aprenda a abordar os desafios que tem pela frente, integrando “outros, além de si mesmo e do seu grupo de origem” (ibidem). Este é, para Meirieu, “o início do processo de criação do bem comum que constitui o princípio da deliberação democrática” (ibidem). É assim que
“a Escola pode, ou deve, levar o aluno a realizar descentrações sucessivas para que se perceba e se compreenda progressivamente como membro de coletivos cada vez mais amplos. Ir à Escola é livrar-se desse atavismo egocêntrico tão arraigado: é passar do seu capricho ou do seu interesse para uma decisão elaborada num pequeno grupo; da consideração da vontade de um grupo para a de uma sala de aula, da sala de aula à escola, da escola ao bairro, do bairro à cidade, da cidade ao país, do país à humanidade. E isso é efetivamente possível no dia a dia: num trabalho de grupo, perceber como um outro aluno compreende as instruções já é uma primeira etapa. Levar em conta as suas objeções e modificar a sua proposição numa correção coletiva de um exercício, é uma forma de renunciar à omnipotência e afastar as suas veleidades narcísicas. Enfrentar-se na resolução comum de um problema aceitando opiniões contraditórias e procurando não recusar nenhuma delas é uma outra maneira de subir mais um degrau na consideração do coletivo. Participar num projeto onde se poderá deparar com o ponto de vista de pessoas até então ignoradas, descobrir que a consideração das diferenças pode ser geradora de progresso para cada um e para todos é ter acesso ao próprio sentido da aspiração democrática. E nós temos a possibilidade de tornar esse procedimento ainda mais visível e eficaz organizando, desde a creche até ao último ano do Ensino Secundário (...), em que cada um possa expressar o seu ponto de vista sobre uma questão referente à organização do trabalho coletivo - da maneira de enfileirar os pincéis depois do atelier de pintura à maneira de rever a prova de filosofia! É assim que um aluno se forma para se tornar cidadão (...)” (idem, p. 75-76).
E, por isso, Meirieu reforça a ideia de que a educação para a cidadania não é um projeto que deva ser estranho à missão e às aspirações dos professores, desde que estes não se contentem “em ensinar a minoria de alunos que já conhece o gosto de saber” (idem, p. 79).
Referências bibliográficas
Meirieu, Philippe (2006). Carta a um jovem professor. Porto Alegre: Artmed.

