Escola e influenciadores: Pretexto para uma reflexão sobre as Associações de Estudantes
Tornou-se um lugar comum afirmar que estamos num mundo mais perigoso, incerto e insensato. Vemos os Trumps, os Netanyahu e os Putins a fazerem descaradamente o que querem e como querem. Devasta-se Gaza e semicerram-se os olhos, assobia-se para o lado perante a colonização da Cisjordânia e transforma-se o Irão no único problema a resolver no Médio Oriente. A guerra contra a Ucrânia continua sem fim à vista. Na Venezuela, o presidente é raptado, mas o regime ditatorial mantém-se de vento em popa. Pior, ainda, é não saber o que ainda está para vir.
Se estes são alguns dos problemas sérios que não podemos ignorar, há outros, mais à mão, que nos afetam também quotidianamente e que convinha que nos dispuséssemos a enfrentar porque dependem mais de nós do que da ONU ou da Comissão Europeia.
Falo, neste caso, da participação de personagens, que se intitulam influenciadores, nas campanhas eleitorais relacionadas com as eleições dos corpos gerentes das Associações de Estudantes de escolas do Ensino Básico e do Ensino Secundário, a qual foi denunciada numa repostagem do jornal «Público». Abordo o mesmo, mais para refletir sobre o que está em jogo, do que para acusar quem quer que seja, ainda que defenda que não estamos perante um problema difícil de resolver. Aceitando que compete às direções das escolas tomar decisões sobre este assunto, também sei que tais decisões não podem deixar de ter como referência a Lei de Bases do Sistema Educativo, a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória ou o Estatuto do Aluno e Ética Escolar, os quais balizam os Projetos Educativos, os Regulamentos Internos e os Planos de Atividades que regulam a vida de cada uma das escolas. Daí que não me pareça ser necessário a promulgação de mais um conjunto de normativos para que nestas não se legitime nem se pactue com a pimbalhice e a barbárie.
Mais complexo é o desenvolvimento de ações que permitam reabilitar o contributo do movimento associativo de estudantes para a afirmação de espaços escolares mais democráticos, já que, como se pode constatar, esta tem sido uma face desprezada do debate público que a reportagem do «Público» acabou por suscitar. Na verdade, muito do que tem vindo a acontecer resulta do facto de se pensar as associações de estudantes, em muitas escolas do Ensino Básico e do Ensino Secundário, como organizações periféricas que, ao serem toleradas no seu papel de comissões de festas, são vistas de forma tão complacente como displicente.
As consequências estão à vista quando se veem as escolas a serem cúmplices de campanhas eleitorais que mimetizam o pior das iniciativas eleitorais que os partidos políticos organizam; quando essas mesmas escolas deixam os seus alunos, num tempo em que são responsáveis por eles, entregues à sua sorte; quando, finalmente, se constata que tais escolas pactuam com a boçalidade, a misoginia e a selvajaria que, na verdade, têm de impedir e contrariar.
O problema é que esta atitude das direções das escolas face às associações de estudantes, não só favorece esse tipo de experiências indesejáveis, como acaba por revelar, em si mesmo, o desperdício de uma oportunidade educativa: a de estimular a participação dos estudantes na vida das respetivas escolas, através da criação dos estímulos e das oportunidades para que eles, de facto, o possam fazer e, deste modo, sentirem-se parte integrante e corresponsável por muitas das coisas que aí se fazem e acontecem.
O que temos de compreender é que isto não é uma proposta utópica. Conheço agrupamentos e escolas onde as associações de estudantes constituem organizações que são valorizadas como instrumentos de participação e de formação. É que só se aprende a participar, participando, o que depende das condições que se criam e da existência de uma cultura organizacional que favoreça um tal propósito.
E não me venham dizer que a função da Escola não é a de educar, mas a de instruir, porque eu sei, todos sabemos, que instruir é uma forma de educar. Uma forma pobre de educar, provavelmente a forma de educar que explica porque é que os ditos influenciadores podem realizar, no interior das escolas, espetáculos tão pimba e degradantes
Combater os Trumps, os Netanyahu e os Putins, entre muitos outros, faz-se, também e em larga medida, quando nos assumimos quotidianamente como educadores não-indiferentes. Aqueles que não precisam de se armar em deuses para fazer aquilo que sabem que podem e devem fazer.

