Feliz Natal!
Alegre esperança, minha força, não me desampares!
O calabouço ocupava a parte enterrada no solo, a cave (..).
A mobília da cela consistia por junto na tarimba de casquinha, em plano inclinado, muito lisa, que tomava bem um quarto da superfície, e ao canto o infalível caneco das prisões portuguesas. Chão de betumilha, tecto de betumilha com uma viga de ferro ao meio, todas as frestas sem vidros, o vento podia entrar e bailar.
- Aqui tem o seu palácio...
Cama, roupa, água, cadeiras, dera-as Deus. Os cães tinha melhor. A única misericórdia havida pelo preso, para não ter de alongar o corpo no frio pavimento, era aquele estrado de pinho.
«Tenho que largar daqui custe o que custar - foi o pensamento que imediatamente me veio à cabeça. - Como há-de ser?»
(...) A suprema aspiração do cativo, que não sabe o que o espera e ama a liberdade acima de tudo, é evadir-se. (...). Compreende-se que me ocupasse desde logo com um plano de fuga, desenvolvendo a minúcia e a porfia que um charadista põe a solucionar o seu logógrifo. (...).
Essa noite de 24 de Dezembro, noite boa, em vez das filhós da Consoada foi esperança o meu alimento de alegria. E na parede registei um hossana inebriado sem ter bebido vinho:
«Laeta spes fortitudo mea, evohe!»
Aquilino Ribeiro
(Um escritor confessa-se)

