Francisco Simões
3.10.1946 - 16.01.2026
Morreu Francisco Simões. Evoco-o aqui, não pela sua obra escultórica, mas enquanto fundador da Escola do Ciclo Preparatório da Ribeira Brava, na Região Autónoma da Madeira. Ainda antes do 25 de abril de 1974, havia sido incumbido de criar aquela escola, numa comunidade onde, ao tempo, só havia uma escola privada. Sem recursos e sem apoios, deitou mãos à obra com os restantes professores, os seus alunos e as famílias, desenvolvendo um projeto sob inspiração da figura de Fernão Capelo Gaivota. Construíram salas, contando com a força da comunidade, plantaram uma horta para abastecer a cantina da escola, assumiram-se como protagonistas de iniciativas curriculares e pedagógicas inéditas e subversivas que visavam contrariar o destino daquelas crianças.
Foi num sábado à tarde que na Escola do Magistério Primário do Porto, há quase 50 anos, nos juntamos, alguns alunos e professores, para o ouvir a narrar aquela incrível aventura pedagógica, onde contra tudo e contra todos nos mostravam que era possível fazer e ser algo mais do que aquilo que julgávamos ser possível fazer e ser.
A primeira vez que fui à ilha, nos fins da década de 80, contei com a generosidade da Rita Pestana que me levou à Escola da Ribeira Brava. Já não era a Escola de Francisco Simões e dos seus alunos, mas ainda pude ver algumas das frases, quase apagadas, retiradas da história de Fernão Capelo Gaivota, que ainda se encontravam pintadas nas paredes da Escola. Mostraram-me uma pequena horta, ocupando uma parte do espaço inicial onde tinha existido a horta original. Li as primeiras atas do Conselho Pedagógico, onde encontrei, imagine-se, as conclusões de uma discussão acerca da obra de Freinet, a Educação do Trabalho.
Nota: Escrevo este texto, prestando homenagem a alguém que merece ser recordado. Faço-o no dia em que comemoro 45 anos em que comecei a trabalhar como professor do Ensino Primário na Telescola, em Sande (Marco de Canaveses).

