Humildade, bondade e educação (II)
No texto anterior propus a tese de que a exigência e o rigor académicos se devem conjugar com uma atitude pedagógica marcada pela humildade e pela bondade, de forma a inverter-se a relação desqualificada entre os alunos e o conhecimento culturalmente validado, a reboque das opções curriculares e pedagógicas instrucionistas que predominam na Escola portuguesa. É a partir de tais opções que se tem vindo a instrumentalizar aquele tipo de conhecimento, quer quando através deste se promove, por um lado, uma “disciplinarização intelectual e atitudinal circunscrita” (Trindade & Cosme, 2024, p. 19) dos alunos, quer quando é mobilizado para que a Escola se afirme como um espaço vocacionado para promover a seleção social e académica.
É neste âmbito que a exigência e o rigor assumem um valor decisivo nos argumentos que se evocam para se promover aquela disciplinarização e legitimar essa seleção. Defende-se, então, que a emulação é condição de aprendizagem, como se o sucesso de uns alunos estivesse dependente do insucesso dos outros e o alegado mérito dos primeiros, tal como o putativo demérito dos segundos, fosse assegurado pelos insuspeitos rigor e exigência dos professores, ao nível das suas decisões curriculares, das suas opções pedagógicas e do modo como se avaliam as aprendizagens.
Em oposição a esta perspetiva afirma-se uma outra que nada tendo a ver com a recusa do rigor e da exigência, como categorias curriculares e pedagógicas incontornáveis, lhes confere um papel decisivo como instrumentos necessários à inclusão académica. É para se compreender melhor um tal processo que se recorre à noção de humildade proposta por Chesterton, a propósito de S. Francisco de Assis, o que, como se evidenciou no texto anterior, é a condição que permite revelar a bondade que existe em nós e nos outros.
Imagino que, neste momento, quem lê este texto, possa estar a perguntar: Este tipo quer prescindir da exigência e do rigor nas escolas para valorizar a bondade e a humildade subjacente aos ditos processos de discriminação positiva? Não, não é o facilitismo pedagógico que eu defendo. Se o fizesse, estaria a utilizar a humildade e a bondade para legitimar a demissão curricular e pedagógica dos docentes, o que, no fim de cada dia de aulas, acabaria por se afirmar como uma ação excludente.
Para mim não é a aceitação a qualquer preço do que o outro faz que carateriza a humildade e a bondade. Ser humilde e bom significa, apenas e sobretudo, que nenhum de nós é a medida de todas as coisas. Oferecer a face direita, depois de nos esbofetearem na face esquerda, mais do que uma manifestação de renúncia face ao que somos, ao que fazemos e ao que pensamos, significa, antes, colocar no centro das nossas preocupações a necessidade radical de dialogar e o reconhecimento de que o outro tem de ser visto, sempre e em quaisquer circunstâncias, como um interlocutor.
A exigência, neste caso, é algo que começa por dizer respeito aos professores, quando se mostram capazes de perguntar se as dificuldades de aprendizagem dos seus alunos não terão a ver com os desafios que lhes são propostos, com as condições que são criadas para que eles os possam enfrentar e, finalmente, com os propósitos, as estratégias e os critérios que presidem à avaliação. Estamos perante uma situação que exige não só uma outra atitude por parte dos docentes, como leituras mais rigorosas acerca das ações que estes protagonizam, capazes de, entre outras coisas, permitem superar lugares-comuns, estereótipos e preconceitos. Por isso é que se pode considerar que a exigência e o rigor académicos dependem do facto de um professor se disponibilizar para reconhecer, como ponto de partida das iniciativas educativas pelas quais é responsável, o potencial dos alunos, em vez de investir na procura e confirmação das suas vulnerabilidades.
É a partir desta conceção de exigência e rigor que a humildade adquire um papel decisivo, porque permite libertar-nos da nossa autossuficiência de mestres e da vocação de semideuses que se sentem capazes de tudo saber, para quem as dúvidas ou os erros assumem um estatuto próximo do pecado. Este é o tipo de humildade que, importa afirmar, não nos visa anular como professores. É ela que nos catapulta para assumir um discernimento curricular e pedagógico que, de outro modo, nos estaria vedado. Uma humildade que nos conduz, então, à bondade, essa qualidade que, despida de qualquer tipo de tentações paternalistas, alimenta a nossa perseverança e expectativas, mesmo quando os dias se tornam azedos, e contraria tanto o nosso pessimismo como a nossa vontade de desistir.
É por esta via que a exigência e o rigor, em vez de impedirem a bondade, a tornam possível quando alimentam a humildade que nos permite compreender que nem tudo o que parece é e que a recusa da inevitabilidade dos factos, em educação, é tanto uma questão de ética como uma questão de rigor.
Referências
Trindade, Rui; Cosme, Ariana (2024). Escola e conhecimento: Uma relação indissociável. Porto: Porto Editora.

