Já lhe dei uns abanões
A miudagem começava a sair. Eu arrumava as minhas coisas.
- Posso entrar, Sr. Professor?
Olhei, e num canto da porta aberta, vi um rosto desconhecido.
- Sou o pai do Manel.
O Manel era um daqueles putos traquinas que nos mói a paciência, mesmo sem querer. O que nele mais me incomodava era o modo violento como se relacionava com os colegas, sobretudo nos intervalos. Já tínhamos tido várias conversas sobre o assunto na Assembleia de Turma, mas o rapaz, mesmo que prometesse este mundo e o outro, era de pavio curto. Foi na sequência de uma dessas crises que a Laura, prima e vizinha, tinha ido contar a cena à mãe. Que eu me tinha zangado, que ele andava à porrada por tudo e por nada, que toda a gente fazia queixa dele.
No dia seguinte, logo de manhãzinha, tinha a progenitora à minha espera.
- Sr. Professor, estou aqui para lhe dizer que esse meu filho só lá vai à porrada. Não lhas poupe que ele é manhoso.
O moço tinha os seus defeitos. Atirar a pedra e esconder a mão não era um deles, mas não valia a pena continuar a conversa.
Passei a ter uma presença mais assídua no recreio. Passei a arbitrar os jogos de futebol e a coisa melhorou, sobretudo porque, mais do que o apito, o meu calma tonitruante lá conseguia ter um efeito suficientemente dissuasor.
Passei, por isso, a ser o único professor de plantão no recreio, o que, confesso, me começou a cansar. Em nome da pedagogia, nem lanchava, nem conversava. O que fazer?
Acabei por nomear três árbitros, para poder três intervalos descansado. Um deles foi o Manel. Arranjei cartões para cada um deles e discutimos como é que eles deviam ser usados. Se tivessem de usar um cartão vermelho tinham de me ir chamar, o pequeno truque que inventei para inibir a amostragem do dito.
O meu espanto foi quando no jornal de Parede, na coluna do «Gosto», apareceu escrito que o Manel era o melhor árbitro da sala. Melhor do que eu próprio, explicava o autor da frase, porque comigo todos se portavam bem por ser eu o professor. Com ele, era diferente, portavam-se bem porque ele era justo. Dos três era o que menos gostava de mostrar cartões amarelos e quando mostrava explicava porque o tinha feito,
Foi na sequência deste acontecimento que, transbordando de entusiasmo maçarico, lhe disse que gostava de falar com o pai dele.
- Ele que me diga quando é que pode vir falar comigo.
E o pai, como já o anunciei, lá veio, começando a conversa por me perguntar o que é que ele tinha deito desta vez. Contei-lhe a descoberta que queria partilhar com ele.
- Ainda bem, Sr. Professor. Quando lhe disse que me queria ver, já lhe dei uns abanões.
Sorriu e concluiu:
- Não se preocupe, com ele só se perdem as que caem fora.
Moral da história:
A partir desse dia, quando queria falar com alguém da família dos meus alunos passei-o a fazer por escrito, explicando porque precisávamos de reunir.

