Magda
- Ó stôr, eu quero aprender, mas não percebo nada do que está pr’aí a dizer?
Era a Magda, em todo o seu esplendor. Usava a verdade de forma habilidosa, para mostrar que não estava para ali virada. João, o explicador, sorria. Lembrava-se, provavelmente, dos primeiros encontros em que o não me chateie que isso não é para mim, ainda estava longe daquele eu quero aprender. Valesse o que valesse, a muralha tinha sido derrubada, ainda que...
- Ouve Magda, tu não sabes em que continente estamos?
- Continente, o quê? Eu faço compras na loja da Laurinha.
Saí a correr do espaço que partilhávamos para poder rir a bandeiras despregadas.
Não sei como é que a história acabou. Sabia que aquela rapariga, com 14 anos de idade, era o pilar de uma casa. Fazia os biscates a fazer limpezas ou a ajudar no mercado da Sé. Era ela que tentava impor os limites, sabe-se lá como, aos dois irmãos mais novos. Mais uma mulher que não tivera tempo para ser menina.
Tudo isto já foi há muito tempo. Aconteceu nos fins da década de 90, na minha saudosa «Casa do Rio». Um espaço que criamos para, entre outras, responder à indiferença que as escolas nutriam por este tipo de alunos. A escola obrigatória terminava no 9º ano. Não havia teipes, nem preocupações com medidas de natureza socioeducativa. Daí para cá, muita coisa mudou. Se não me custa reconhecer que a vida dos professores é, hoje, mais dura, importa lembrar que isso não se deve só à popularização das redes sociais, dos equívocos existenciais e educativos do que Byung-Chul Han (2014) designa por sociedade do cansaço ou até da erupção do mundo das pós-verdades. Hoje, colocamo-nos perante novos desafios nas escolas e isso pressupõem, também, novas exigências. Se estas nem sempre são compatíveis com os recursos de que dispomos, e sobre a forma como gerimos tais recursos, há uma coisa que eu sei, a de que não podemos desistir, a de termos de contar uns com os outros para não desistir e a de termos de reivindicar, de forma explícita e clara, as condições necessárias para não desistirmos.
Aprendi isto, nesse tempo de trabalho na «Casa do Rio» em que o João, o jovem professor atrás referido que apoiava a Magda nos seus estudos, ainda que tivesse a energia necessária e vivesse o seu trabalho com o encantamento de quem acredita que pode fazer a diferença, nunca esteve sozinho a fazer o que fazia. Havia quem o apoiasse, quem o animasse, quem lhe propusesse outras soluções ou quem reconhecesse o seu valor e profissionalismo. Havia, afinal, cumplicidade e condições para que esta cumplicidade crescesse e se afirmasse.
Referências
Han, Byung-Chul (2014). A sociedade do cansaço. Lisboa: Relógio D’Água.

