Nem tudo o que parece é...
(Nunca mais é sábado)
Albino (nome fictício) era um daqueles estudantes que tanto me irritavam como me faziam sorrir. Circunscrevia-se ao mínimo possível, espalhava charme por tudo quanto era sítio e parecia viver confortável com os lucros da relação simpática e afável que ia mantendo com os outros. Quando o conheci, ainda não sabia que andava à procura de si mesmo. Reprovou por faltas a primeira vez que frequentou a disciplina de Psicologia da Educação, escapando do cerco que eu julgava que lhe tinha montado.
O tempo passou e, por um acaso qualquer, acabamos por nos encontrar no bar da Faculdade numa tarde de julho, quando se contam pelos dedos de uma das mãos aqueles que aí estacionam. Por isso, sem multidões de permeio, não conseguiu fugir à pergunta que eu lhe queria fazer. Porque reprovaste por faltas? Não me lembro da resposta, só da promessa que no próximo ano tudo seria diferente. Cá te espero, pensei. E aguardei. As aulas recomeçaram e um dia aconteceu: Onde está o Albino? O mesmo Albino que eu vira no pátio, sedutor como sempre, uma ilha rodeada de gente. Já volto. Desço as escadas e vejo-o onde o tinha deixado. Aproximo-me e acabo a lembrar-lhe que tinha quebrado uma promessa. Não se deu por achado e seguiu-me, voltando comigo para o seu lugar na sala, o mais longe possível de mim.
Os dias correram e ele nunca mais faltou. Ou melhor, agraciava-nos com a sua presença, mas daquela boca só se via, por vezes, um sorriso a esboçar-se. Só nas discussões em pequeno grupo, é que se vislumbrava uns laivos de participação. Cumprimentava-me, sentava-se e despedia-se. Tentei interpelá-lo, uma e outra vez, mas as respostas eram sempre lacónicas e esquivas. Não desisti dele, mas baixei as expectativas.
Um dia, estava eu a dizer que educar não pode ser sinónimo de constranger, quando o vejo levantar o braço, de forma indolente. Sim? Perguntei, entre o espantado e o curioso. Concordo que educar não é constranger, começou por afirmar, mas não há educação sem constrangimentos. Em casa, não durmo em cima da mesa da sala de jantar, não jogo futebol no quarto, não estudo na casa de banho, não é?... E não ando nú pela rua...
Confesso que fiquei sem fala. Aquele pastel de nata estava a interpelar-me. Fazia-o de forma inteligente, clara e, pior que tudo, deixou-me a gaguejar. Ainda bem que nem tudo o que parece é, porque foi graças a ele que na aula seguinte - só na aula seguinte, estabeleci, pela primeira vez de forma concisa e sem ambiguidades, que educar implica sempre algum tipo de constrangimentos, sem que isso signifique que se possa identificar constranger com condicionar.
Na verdade, não somos nós que decidimos em que língua vamos aprender a falar ou quais as regras ortográficas e sintáticas que iremos respeitar quando escrevemos um texto. O respeito pelas regras não nos conduz, contudo, a falar todos da mesma maneira ou a utilizar a escrita de forma estereotipada. Se as regras balizam o nosso campo de atuação não determinam este mesmo campo. E aula continuou. Uma aula que nunca mais esqueci, porque, na verdade, nem tudo o que brilha é pechisbeque.

