O direito de ler em qualquer lugar
Este é um outro direito que Pennac enquadra nos direitos do leitor. Fá-lo, partilhando connosco uma história maravilhosa que tem como epicentro a Caserna da Escola de Aplicação da Artilharia, no inverno de 1971. Conta Pennac (2008):
“Na distribuição matinal de tarefas” (idem, p. 143), um determinado soldado apresenta-se “sistematicamente como voluntário para a tarefa menos popular, a mais ingrata, distribuída com frequência a título de punição e que atinge a honra dos mais aguerridos: a lendária, a infamante, a inominável tarefa das latrinas.
Todas as manhãs.
Com o mesmo sorriso (...).
- Tarefa das latrinas?
Ele dá um passo em frente:
- Fulano!
Com a gravidade última que precede o assalto, pega a vassoura de onde pende o pano de chão, como se fosse o estandarte da companhia, e desaparece, para grande alívio da tropa. É um bravo: ninguém o segue. O exército inteiro continua protegido na trincheira das tarefas honrosas.
As horas passam. Acredita-se que ele se perdeu. Quase se esquecem dele. Esquecem-no. Ele reaparece, entretanto, no fim da manhã, batendo os saltos das botas para o relatório, ao sargento da companhia: ‘Latrinas impecáveis, meu sargento!’. (...). O soldado saúda, faz meia volta, retira-se, levando o segredo com ele.
O segredo pesa um bom peso no bolso direito do blusão: 1900 páginas do volume consagrado às obras completas de Nicolai Gogol. Quinze minutos de pano de chão contra uma manhã de Gogol... Cada manhã, faz dois meses de inverno, confortavelmente sentado nas salas dos tronos, fechada com duas voltas, o soldado Fulano voa muito acima das contingências militares. Todo Gogol! Das nostálgicas Noites na fazenda de Dikanke às hilariantes Novelas, passando pelo terrível Taras Bulba e a negra farsa das Almas Mortas, sem esquece o teatro e a correspodência de Gogol, esse incrível Tartufo.
Porque Gogol é o Tartufo que Molière teria inventado, o que o soldado Fulano não teria jamais entendido se tivesse oferecido aquela tarefa a outros” (idem, p. 143-144).
Referências bibliográficas
Pennac, Daniel (2008). Como um romance. Porto Alegre: L&PM Editores.

