O direito de não terminar um livro
“Existem trinta e seis mil razões para se abandonar um livro antes do fim: o sentimento do ‘já lido’, uma história que não nos prende, a nossa desaprovação total pelas teses do autor, um estilo que nos deixa o cabelo em pé ou, ao contrário, uma ausência de narrativa que não compensa ir mais longe...
(...)
No entanto, entre as nossas razões para abandonar uma leitura existe uma que merece que nos detenhamos um pouco mais: o sentimento vago de perda. (...) Reuni meus neurónios, discuti com o texto, mas não adianta, fico com o belo sentimento de que o que está escrito merece ser lido, mas não pego em nada (...), sinto ali um ‘estranhamento’ que não me prende.
Deixo cair.
Ou melhor, deixo de lado. Guardo na minha estante com o vago projeto de voltar um dia. O Petesburgo de Andreï Bielyï, Joice e o seu Ulisses, À sombra do vulcão de Malcom Lowry tiveram de me esperar durante uns anos. Há outros que me esperam ainda, alguns que, provavelmente, não vou recuperar nunca. Isso não é um drama. É assim mesmo. (...) ao contrário das boas garrafas, os bons livros não envelhecem, somos nós que envelhecemos. E quando acreditamos que estamos suficientemente ‘maduros’ para lê-los, atacamos outra vez. Então, das duas uma: ou o reencontro acontece ou é um novo fiasco. Talvez tentemos de novo, talvez não. Mas o certo é que não é por culpa de Thomas Mann se não pude, até hoje, chegar ao cume da sua Montanha Mágica.
(...)
Bem temos a escolha; ou vamos pensar que a culpa é nossa, que temos um parafuso a menos, que somos burros, ou vamos (...) estabelecer cuidadosamente o mapa dos nossos gostos.
É prudente recomendar às nossas crianças esta segunda solução.
Tanto mais que ela pode oferecer esse prazer raro: reler compreendendo por que não gostamos e um outro prazer, igualmente, raro: escutar sem emoção o pretensioso erudito de plantão a berrar aos nossos ouvidos:
- Mas como é que não se pode gostar de Stendhaaaal?
É possível”.
Referências bibliográficas
Pennac, Daniel (2008). Como um romance. Porto Alegre: L&PM Editores.

