O direito de pular páginas
O segundo direito que Daniel Pennac (2008) anuncia, de forma a que os leitores mais jovens tenham direitos idênticos àqueles que os leitores mais velhos concedem a si próprios, é o direito de pular páginas. Recorda que foi assim que pôde ler os dois imensos volumes de Guerra e Paz, quando tinha treze anos de idade.
“Pulei três quartos do livro porque só me interessava pelo coração de Natacha. Fiquei com pena de Anatole, apesar de tudo, quando lhe amputaram a perna, maldisse aquele idiota do príncipe André, que ficou em pé naquela bomba na batalha de Borodino (...). Interessei-me pelo amor e pelas batalhas, pulei os assuntos de política e estratégia... As teorias de Clausewitz passavam muito acima da minha cabeça (...)... Acompanhei de perto as deceções conjugais de Pedro Bezukhov e Helena, a mulher dele (...) e deixei Tolstoi dissertando sozinho sobre os problemas agrários da Rússia eterna.
Pulei páginas, e daí?
Todos os meninos e todas as meninas deveriam fazer o mesmo. Com a condição de poderem se oferecer muito cedo todas as maravilhas consideradas inacessíveis à sua idade.
Se têm vontade de ler Moby Dick, mas perdem a coragem diante das digressões de Melville sobre o material e as técnicas da caça à baleia, não é preciso que renunciem à leitura, mas que pulem, que pulem por cima dessas páginas e persigam Ahab sem se preocupar com o resto, como ele persegue sua branca razão de viver e de morrer! Se querem conhecer Ivan, Dimitri, Aliocha e o seu incrível pai, que abram e leiam Os irmão Karamazov. É feito para eles, mesmo que seja preciso pular o testamento do starets Zózimo ou a lenda do Grande Inquisidor”.
(...)
E depois, quando nos tornamos «grandes», mesmo que nos recusemos a confessar, ainda acontece pularmos páginas, por razões que só nos interessam a nós e ao livro que estamos lendo. Pode acontecer também que nos proibamos totalmente de fazer isso, nos obriguemos a ler tudo até à última palavra, julgando que aqui o autor se alongou demais, que ele está tocando uma linha de flauta gratuita, que em certos lugares ele se dá à repetição e que, noutros, à idiotice. Seja o que for que digamos, esse aborrecimento teimoso que nos impomos não está na ordem do dever. Ele é uma categoria do nosso prazer de leitor” (idem, 132-134).
Referências bibliográficas
Pennac, Daniel (2008). Como um romance. Porto Alegre: L&PM Editores.

