O meu primeiro último dia de aulas
Sei que, no próximo ano, não voltarei à Faculdade de Ciências como professor dos mestrados de ensino, mas só agora, que o escrevo, é que me apercebi verdadeiramente que tinha vivido o meu último dia de aulas naquela instituição.
E agora? Como me irei sentir no próximo mês de setembro, quando não tiver que planear o trabalho, não responder aos e-mails dos estudantes-trabalhadores, não viver o frenesim do início do ano letivo?
Apesar de me sentir realizado com a profissão, reconheço que vivo uma situação paradoxal: sei que hoje sou um professor mais capaz do que era há uns anos atrás, mas também me sinto mais desencantado com o trabalho que realizo. Uma situação que nada tem a ver com os alunos ou com condições de trabalho, mas comigo mesmo. Estou mais velho e, no meu caso, com menos energia. Hoje, careço de ilusões, mesmo daquelas que me foram estorvando o pensamento, a reflexão e a ação. É que sem elas não teria feito o caminho que fiz ou teria investido sequer nalguns dos projetos em que estive empenhado. Não seria quem sou e correria o risco de começar a envelhecer antes do tempo.
Fazendo um balanço, são os momentos bons da minha vida profissional que vão permanecendo na minha memória. O ano de trabalho em Nhala, no centro-sul da Guiné-Bissau, os dois anos de trabalho no Bairro do Aleixo, os anos do «Arbusto», o Projeto de Luta contra a Pobreza e a «Casa do Rio», o Bairro do Lagarteiro, o trabalho na Escola de Enfermagem Cidade do Porto e o Piaget, em Arcozelo e Canelas são etapas inesquecíveis do meu percurso como professor, aos quais tenho de somar os 27 anos vividos na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação (FPCEUP).
No total são 46 anos de trabalho, comemorados no passado dia 18 de janeiro, que se iniciaram em Sande - Marco de Canaveses, numa Telescola e cujo encerramento começou a acontecer no passado dia 16 de dezembro numa sala de aulas da Faculdade de Ciências. Pela frente tenho, ainda, o 2º semestre na FPCEUP e o sentimento agridoce de quem sabe que não pode, nem lhe apetece, continuar, apesar de também saber que, ao não continuar, está a perder, irremediavelmente, os desafios, os momentos de cumplicidade, as pequenas alegrias de quem, como eu, apesar dos fracassos e de todos os desânimos vividos, pôde usufruir de uma profissão onde a participação na construção das histórias dos meus alunos constitui uma parte decisiva e incontornável da construção da minha própria história de vida.

