O professor Bal
Basta um professor - um único - para nos salvar e nos levar a esquecer todos os outros.
É esta, pelo menos, a recordação que conservo do professor Bal.
Era nosso professor de matemática no décimo primeiro ano. Do ponto de vista da gestualidade o contrário de Keating [o professor que Robin Williams interpretou no filme «Clube dos Poetas Mortos»]; um professor o menos cinematográfico possível: oval, diria eu, uma voz aguda e nada de especial que atraísse o olhar. Esperava-nos sentado à secretária, saudava-nos amigavelmente, e logo nas primeiras palavras entrávamos na matemática. De que era feita essa hora que tanto nos cativava? Essencialmente da matéria que o professor Bal ensinava e que paracia habitá-lo, o que o tornava um ser curiososamente expressivo, calmo e bondoso. Estranha bondade, nascida do próprio conhecimento, desejo natural de partilhar connosco a «matéria» que lhe deliciava o espírito e que não podia conceber como repulsiva para nós, ou simplesmente estranha. Bal era feito da sua matéria e dos seus alunos. (...).
No dia do nosso encontro, quando os mais ignorantes entre nós se vangloriavam de terem zero como nota, ele respondeu, sorrindo, que não acreditava nos conjuntos vazios. Em seguida fez-nos algumas perguntas muito simples e considerou as nossas respostas elementares como se fossem inestimáveis pepitas, o que muito nos divertiu.. Depois, escreveu o número 12 no quadro, perguntado-nos o que era aquilo.
Os mais descarados atreveram-se a responder:
- Os doze dedos da mão!
- Os doze mandamentos!
Mas a inocência do seu sorriso, era de facto desanimadora:
- É a nota mínima que terão no bac [O «bac» (Baccalauréat) é o exame nacional que em França é necessário para concluir o ensino secundário].
Acrescentou:
- Se deixarem de ter medo.
E mais:
- Aliás, não voltarei a este assunto. Não é do baccaularéat que nos iremos ocupar, é de matemática.
De facto, não voltou a falar uma única vez do bac. Centímetro a centímetro, passou o ano a retirar-nos do abismo da nossa ignorância, divertindo-se a fazê-lo passar pelo próprio poço da ciência; ficava sempre deliciado com o que nós sabíamos, apesar de tudo.
- Pensam que não sabem nada, mas enganam-se, enganam-se, sabem imenso! Olha, Pennacchioni, sabias que sabes isto?
Como é evidente esta maiêutica não bastou para fazer de nós génios da matemática, mas por muito fundo que fosse o nosso poço, o professor Bal elevou-nos a todos ao nível do rebordo do poço: a média no baccaularéat.
E sem fazer alusão, nunca, ao futuro calamitoso que, na opinião de tantos outros professores e há tanto tempo, nos esperava.
Daniel Pennac (In Mágoas da Escola)
Moral da História: Se é decisivo que um docente tenha quer uma formação académica ou científica quer uma formação curricular, pedagógica e didática suficientemente sólidas que, como fui defendendo nos textos anteriores, lhe permita assumir uma relação epistemologicamente não-ingénua com os quadros concetuais e heurísticos da área de saber onde se enquadra, é necessário reconhecer, no entanto, que isto não é suficiente. A esta condição deve acrescer uma outra: a da necessidade de cada um de nós estabelecer uma relação de encantamento com a profissão, a qual nos permita acreditar que, apesar das nossas limitações, podemos fazer a diferença na vida das crianças e dos jovens, mesmo que nem sempre consigamos fazer aquilo que desejaríamos fazer.


Nunca me esqueço de um comentário na aula: aprendemos por causa de um professor, contra um professor ou apesar de um professor.
👍(❁´◡`❁)