O que pode ser um bom professor?
O professor Bal era um grande matemático? E no ano seguinte a professora Gi uma extraordinária historiadora? E, quando repeti o meu 12º ano, o professor S. um filósofo fora de série? Suponho que sim, mas a verdade é que o ignoro; o que sei é que estes três docentes eram dominados pela paixão comunicativa da sua matéria. Munidos desta paixão, despertaram-me do fundo do meu desânimo e só me largaram depois de ter os dois pés solidamente implantados nas suas aulas, que vieram a ser a antecâmara da minha vida. Não por se interessarem mais por mim do que pelos outros, não, demonstravam a mesma consideração pelos bons e maus alunos, e sabiam reanimar nos segundos o desejo de aprender. Acompanhavam os nossos esforços passo a passo, regozijavam-se com os nossos progressos, não se impacientavam com a nossa lentidão, nunca consideravam o nosso insucesso uma injúria pessoal e davam mostras a nosso respeito de uma exigência tanto mais rigorosa quanto se baseava na qualidade, na constância e na generosidade do seu próprio trabalho. (...).
Pensando bem estes professores tinham um único ponto em comum: nunca esmoreciam. Não se deixavam impressionar pelas nossas confissões de ignorância (...).
A imagem do gesto que salva do afogamento, a mão que nos puxa a despeito das nossas gesticulações suicidas, a imagem bruta de vida de uma mão solidamente agarrada à gola de um casaco é a primeira coisa que me ocorre quando penso neles. Na sua presença - na matéria que ensinavam - eu nascia para mim mesmo: um eu matemático, se assim se pode dizer, um eu historiador, um eu filósofo, no espaço de uma hora, abandonava-me um pouco, quedava-me entre parêntesis, libertava-me do eu que, até conhecer estes professores, me impedia de me sentir verdadeiramente presente.
Outra coisa, julgo que eles tinham um estilo. Eram artistas na transmissão da matéria. As suas aulas eram sessões de comunicação, sem dúvida, de um saber a tal ponto dominado que quase passava por criação espontânea. O seu à-vontade fazia de cada hora um acontecimento do qual podíamos recordar-nos como tal. Dir-se-ia que a professora Gi ressuscitava a história, que o professor Bal redescobria a matemática, que Sócrates se exprimia pela boca do professor S.! (...).
A sua influência sobre nós acabava ali. A influência aparente, pelo menos. Fora da matéria que encarnavam, não procuravam impressionar-nos. Não eram daqueles professores que se vangloriavam da sua influência sobre um efetivo de adolescentes desprovidos de imagem paternal. (...).
Tinham com certeza outros centros de interesse, uma curiosidade desperta, que devia alimentar a sua força, o que explicava, entre outras coisas, a sua impressionante presença na aula. (...). Não era só saber que partilhava, connosco, era o próprio desejo de saber! (...). Não irei ao ponto de dizer que nos sentíamos estimados por eles, mas respeitados, isso sim sem dúvida (respeitados, diria a juventude dos nossos dias)., consideração que se manifestava na correção dos nossos testes, onde os seus comentários se dirigiam a cada um de nós em particular.
Daniel Pennac (In Mágoas da Escola)
[Este foi o texto que ofereci, no último dia de aulas, aos meus estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, futuros professores de Biologia e Geologia, de Físico-Química, de Informática e de Matemática. Gente nova que, em breve, chegará às nossas escolas e a quem eu desejo toda a sorte do mundo. Por eles e por todos nós]

