Os alunos maravilhosos
(Nunca mais é sábado)
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Uma onda de comoção, um sobressalto. De espanto, de ternura. Um nó na garganta, uma lágrima. Furtiva, insistente. Quase um soluço. Ana Patrícia. No fim de um percurso, a certeza que é bom ser professor. Mesmo quando o cansaço e a desilusão se desenham no horizonte. É bom ser professor, quando o ser vibra e uma relação luminosa exalta a passagem do tempo. Tempo contraditório, tempo infernal. Mas também tempo de esperança. A certeza de que o mais importante que acontece nas aulas está nos pequenos momentos de humanidade, na relação exigente e fraterna, na compaixão. Sofrer com os que sofrem, alegrar-se com os que estão felizes. A certeza de que é preciso dar voz aos que não têm voz, escutar os silêncios e as palavras entreditas, celebrar a liberdade de pensar e de escrever muito para além dos conteúdos programáticos, ensinar, muitas vezes, o que não se sabe. A quase certeza que o professor deixou de ser necessário. De que o discípulo já sabe andar sozinho. Esta é uma profissão dos soluços atravessados na garganta. Trabalhar para se tornar dispensável, trabalhar para se sentir inútil. Implicar-se totalmente numa relação com os saberes e com os outros e saber que se trabalha para o seu fim. Eterno recomeço, terno entretecer de novas viagens.
Já o disse e muitas vezes o senti. Às vezes, é bom ser professor. É bom ser professor quando há o reconhecimento de uma dádiva, uma gratidão, um afecto, uma ternura. E sobretudo (e isto é paradoxal) quando se vê que o aluno já não precisa de nós. Quando se vê que sabe sentir, sabe pensar, sabe escutar, sabe discorrer. Quando se vê uma consciência acesa e um compromisso com o tempo.
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José Matias Alves (Correio da educação nº 83, 25 de junho de 2001)

