Os direitos humanos
[Este é um texto que constitui um pretexto para homenagear a Noémia Peres que, em fins da década de 90, era a coordenadora do Núcleo de Educadores de Infância da Escola de Gondomar, bem como as educadoras do Jardim de Infância da Escola do Taralhão, em S. Cosme - Gondomar, a Ana Maria, a Luísa, a Lucília e a dona Orquídea que contribuíram para que o meu filho mais novo pudesse aprender a ser gente]
Naquele fim de tarde, ainda mal pusera o pé na soleira da porta, quando o João Guilherme empunhando um papel me gritou:
- Tens de responder a isto.
Beijei-o. Retirei-lhe o papel da mão e li a mensagem nele contida. Uma pergunta, redigida numa letra excecionalmente legível, que nos minutos mais próximos me ia dar água pela barba: O que são os Direitos Humanos?
Já não me lembro como lhe respondi. Não tenho a certeza se ele compreendeu exatamente o que lhe dissera. Sei que, dias mais tarde, quando me calhou em sorte levá-lo ao Jardim de Infância, pude apreciar um painel dedicado ao tema dos Direitos Humanos que as crianças tinham vindo a encher de desenhos, à medida das respostas que, certamente, iam obtendo dos adultos com quem viviam. Apreciei o trabalho, achei piada à ideia e congratulei-me novamente com o facto do meu filho, um rapazinho com 5 anos de idade, poder frequentar aquele espaço educativo que ele, aliás, adora.
E tudo acabaria por aqui, não fosse ocorrer um episódio em que o nosso quotidiano de pais e de mães é fértil. O João teria, provavelmente, feito uma qualquer asneira e eu, mais pela força do instinto do que pela realidade do hábito, devo tê-lo ameaçado com um queres que te dê uma palmada, de forma mais ou menos ríspida. Foi nesse instante que da resposta segura e fulminante eu aprendi a lição que me faltava:
- Não podes. É contra os Direitos Humanos.
Rui Trindade (excerto de um texto publicado, em 1999, na Revista Murmúrios, do Núcleo de Educadores de Infância do concelho de Gondomar)

