Professor: Oleiro ou jardineiro?
Vivi entre 1976 e 1979 uma experiência formativa na Escola do Magistério Primário do Porto única e fascinante. Foi um tempo em que as cumplicidades que formos capazes de construir, a generosidade e o entusiasmo se alicerçavam na crença de que era necessário mudar o país em termos políticos, culturais e educativos e que nós tínhamos um papel a desempenhar numa tal mudança.
Olhando, em retrospetiva, para esses acontecimentos, diria que a recusa firme em nos afirmarmos como professores oleiros, em função da qual se fazia sentir a necessidade de nos assumirmos como professores jardineiros, é capaz de exprimir de forma razoavelmente fidedigna o espírito de um tempo e de um projeto de formação que acabou por marcar os nossos destinos.
A figura do oleiro é a figura daquele que modela o barro. É a partir da sua exclusiva vontade e da sua mestria técnica que, daquela massa argilosa inerte, se criam os objetos e as figuras que a sua imaginação vai ditando. Utilizar uma tal figura para caraterizar o trabalho do professor é aceitar que os alunos são o barro e que a sua função é moldá-los até eles virem a ser o que o educador decida aquilo que eles terão de ser. Não admira que esta fosse uma metáfora a recusar. Para nós, as crianças não podiam ser vistas como seres incapazes, sem vontade, sem saberes e sem uma experiência de vida. Por isso, é que aderimos a uma outra parábola, a do professor jardineiro. Aquele que reconhece em cada criança a força da vida que é necessário preservar e respeitar.
Tal como as plantas que, contêm, desde logo e em si, o poder da vida, não podíamos fazer mais do que cuidar delas, regá-las ou mondar, mudar e adubar a terra que as acolhia. Na educação das crianças, estes cuidados, ensinava-nos Montessori, obrigava-nos a reconhecer, para aprender a respeitar, tanto os seus períodos sensíveis, sobre os quais “o adulto do exterior não tem qualquer influência” (Montessori, 1969, p. 77), como os instintos-guia que, ao contribuírem para a conservação da espécie, constituiriam, por isso, fatores incontornáveis quando se aborda o processo educativo das crianças (idem). Se isso não fosse feito, advertia a pedagoga italiana, corria-se o risco de perder , para sempre, “a oportunidade de uma conquista natural” (idem, p. 77).
Não posso falar por todos aquelas e aqueles que estiveram comigo nesses anos mágicos da Escola do Magistério, nem quero, ou posso, ser o seu porta-voz. O que escrevo sobre este assunto, só a mim diz respeito e corresponde a uma confissão sobre o quanto sofri até vir a perceber, enquanto professor, que um jardineiro também pode realizar ações tão intrusivas como a poda de uma árvore e, através de enxertos, produzir uma nova planta quando une tecidos de duas outras plantas diferentes que, deste modo, passam a crescer como um novo organismo singular. Foi quando percebi isso que compreendi como o recurso ao trabalho do jardineiro, para definir o trabalho do professor, pode ser uma metáfora ambígua e perigosa. Não significa isto que me perturbe considerar que os ato de regar, mondar e adubar podem servir de referência à atividade educativa docente, desde que não se elida desta atividade os atos de podar e de enxertar.
Só quando se compreende a verdadeira amplitude do trabalho do jardineiro, bem como os desafios e as exigências que a este se associam, é que se torna possível continuar a utilizar esse trabalho como metáfora do trabalho do professor. Só neste momento é que estamos em condições de perceber que, como qualquer bom jardineiro, um professor tem de saber quando se poda e como se poda ou quando se justifica um enxerto e como é que este pode ser feito.
Por isso, é necessário ou termos cuidado na utilização das metáforas ou, em última instância, recusarmos a linguagem metafórica quer para definirmos quem somos quer para definirmos o que os outros são.
Referências
Montessori, Maria (1969). A criança. Lisboa: Portugália Editora.

