Silka
Silka é o título de um livro da autoria de Ilse Losa com ilustrações de Manuela Bacelar. É, igualmente, um pretexto para que, através deste texto, se possa discutir como a literatura e a leitura nas escolas portuguesas merece um outro tipo de reflexões e debates. Um texto escrito há muitos anos atrás e que, infelizmente, continua atual, o qual foi escrito para evidenciar que a leitura na Escola pode constituir uma ampla oportunidade de comunicação dos indivíduos com os outros, consigo mesmo e com a cultura de um tempo, permitindo-lhe alargar o campo dos recursos que dispõem para compreender e interferir no mundo.
É verdade que quando este texto foi escrito ainda não existia um projeto tão decisivo como é aquele que a Rede de Bibliotecas Escolares tem vindo a animar. Isso temos de reconhecer e valorizar, tal como temos de reconhecer que não faz sentido discutir a leitura obrigatória nas nossas escolas criando um ranking de autores, cujos critérios pouco têm a ver com a educação literária dos alunos, contribuindo,antes, para penalizar as possibilidades da mesma ocorrer.
Nisto os meus olhos caíram sobre um grupo de quatro árvores que naquele lugar ermo, sem mais nenhuma vegetação, faziam o efeito de terem sido expulsas para o deserto. Eram Silka e os filhos, soubemo-lo no fim da história. Um cipreste, um choupo e um pinheiro, protegidos por uma faia de folhas vermelhas. O professor olhou para o grupo. Reconheceu as lágrimas lentas no rosto da Joana e fechou o livro. E agora ? Talvez esperassem que ele lhes propusesse um trabalho. Não o fez, não lhe apeteceu, nem achou conveniente fazê-lo. Aquele silêncio falava por si. Sabia que havia gente que, nos próximos dias, não o largaria por causa da história. Sabia que outros se limitaram, apenas, a gozar o momento. A Rita lembrar-se-ia, certamente, da necessidade de convidar Ilse Losa a ir à escola. Como se iriam esquecer da Manuela Bacelar, ele teria que lhes lembrar que estavam a ser injustos para a ilustradora. Como sempre, discutiriam isso e muito mais.
Tinham quase duas semanas a ler-lhes o livro. Um capítulo por dia, nos quinze minutos a seguir à vinda do recreio. Há muito que deixara de ouvir os mas que seca professor. Sabia, no entanto, que o estranho bicho, meio cobra, meio peixe, dum azul transparente como o das pedras-marinhas não tinha despertado o mesmo entusiasmo em todos eles. O capítulo sobre os casamenteiros não fora nada de especial. O seguinte ia pelo mesmo caminho. Salvara-o, no fim, a determinação de Silka, afirmando que ia cumprir a promessa que fizera à criatura. Mas ela vai casar com o bicho? Teve que impôr ordem na sala. Na segunda-feira alguém propôs que se começasse o dia com a leitura da história. Acedeu, deixando-os descobrir “Os Magníficos”, essa gente que o mar acolhera para os abrigar da intolerância e da inveja dos outros homens. Quando, por fim, leu a última fala de Silka, sabia que não era só a personagem do livro que estava feliz. O próximo capítulo deixara-os apreensivos e no sexto capítulo, estranhamente, só se referiram à belíssima ilustração da página 33. A confusão reinou ao longo da sessão em que o nome de Reinaldo, aquele que não podia ser revelado, afinal - e como se temia - o foi. Houve mesmo quem não aguentasse a ansiedade e, por isso, exigisse a leitura imediata do capítulo seguinte, o último. Aquele em que se soube do grito de Silka, um grito tão agudo e de tanta mágoa que foi ouvido nas aldeias mais distantes.
Ariana Cosme e Rui Trindade (adaptado)

