Uma cadeira de rodas
(Nunca mais é sábado)
Tinha um olhar ávido e brilhante. Oito anos de vida, dois de escola e uma cadeira de rodas por companhia. Era tetraplégico e vivia com a avó. Entrava-lhes todos os dias pela porta dentro ao colo de um bombeiro, enquanto a cadeira ficava lá em baixo, no átrio, esperando que um dos colegas a fosse buscar. Numa turma já constituída há dois anos, aquele desconhecido fora para todos eles e durante algum tempo um acontecimento insólito. Às perguntas iniciais dos colegas respondia com a timidez de um sorriso que, apesar da simpatia que irradiava, pouco caminho conseguia desbravar. No recreio, esse lugar de encontros, o seu estatuto de observador atento, se bem que divertido, também pouco ajudava a entabular relações. Na sala de aula iniciava, mais uma vez, a aprendizagem da leitura. Uma máquina de escrever fora o melhor que a professora arranjara para o apoiar na escrita dos textos.
Os pedidos de ajuda constantes, sempre que os dedos lhe ficavam entalados entre as teclas, depressa demonstraram que não era aquele o caminho a seguir, enquanto a falta de pontaria das mãos trémulas e desajeitadas do miúdo, levando-o constantemente a imprimir o Z em vez do A, a faziam pensar se havia mesmo um caminho a seguir.
Uma máquina de escrever elétrica foi a solução encontrada. Permitia toques rápidos e precisos, não tinha frinchas onde os dedos ficassem presos e, sobretudo, possibilitava o uso de um mecanismo de correção que o autonomizava face à professora ou aos colegas mobilizados para o ajudar. As dúvidas que sentia face à possibilidade de ser útil para aquele rapazinho só a assaltavam, agora, nos dias em que não havia máquina de escrever que resistisse, calculador multibásico que ajudasse ou tesoura de canhoto que cortasse o que havia para cortar com a perfeição necessária e suficiente.
Até no recreio as coisas tinham melhorado de forma quase milagrosa. Por isso, é que ia fazendo vista grossa àquelas brincadeiras com a cadeira de rodas. Via-o rir nas escadas, enquanto a cadeira emprestada levava o feliz contemplado para onde ele supostamente não pretendia ir. E mesmo quando se sentia na obrigação de parar com a balbúrdia, ouvia invariavelmente a mesma resposta.
- Ó professora, olhe que ele não se importa nada. Pois não, Alfredo?
E o Alfredo, sorrindo, lá lhe dizia que não. E ela, ingénua, explicava-lhes com bonomia porque é que não podiam fazer o que andavam a fazer com a cadeira, ainda sem saber que lhe estava a estragar o negócio. É que cada voltinha na cadeira valia, pelo menos, cinco escudos ao seu dono, coisa que viria a descobrir, um dia, quando se preparava para se zangar com um matulão da Escola Profissional com quem repartiam o edifício e o recreio.
- Ó senhora professora mas pergunte-lhe lá se eu paguei, ou não, a volta que andei a dar?
Bendita cadeira aquela que, nesse Carnaval, se transformara na garrida cabeça do longo dragão chinês a serpentear por entre os bancos e as árvores do Jardim da Cordoaria, perante a incredulidade dos traseuntes.
Ariana Cosme e Rui Trindade (a Página da educação nº 125, ano 12, julho de 2003)

