Unicórnios
Ainda o 47º Congresso do Movimento da Escola Moderna (MEM)
“Os unicórnios não existem, mas eu gosto de os desenhar”. Este foi o textos, escrito por um aluno no 1º ano de escolaridade, que nos foi apresentado pela Lurdes Castro e a Rita Pacheco, no decurso da comunicação que partilharam sobre escrita e leitura, no 47º Congresso do MEM. Uma comunicação que é o corolário do trabalho que aquelas duas professoras do 1º Ciclo do Ensino Básico realizaram nas respetivas turmas, envolvendo-se num processo que conduziu a horas de partilha cúmplice e reflexão exigente que foram acontecendo, para além da componente letiva e não-letiva que ambas deveriam cumprir.
No ano letivo que agora finda, tanto a Rita como a Lurdes, por trabalharem com crianças do 1º ano de escolaridade, decidiram envolver-se num projeto de alfabetização subordinado aos pressupostos de um modelo interativo da apropriação da linguagem escrita. Um modelo que se carateriza por recusar as práticas mecanicistas e artificiais de ensino da leitura e da escrita, opondo, em alternativa, a utilização da escrita como instrumento de comunicação tão autêntica quanto plausível e, concomitantemente, como condição da aprendizagem do princípio alfabético, o qual pressupõe o desenvolvimento, entre outras coisas, da consciência fonológica e da consciência fonémica, da ortografia e das regras da sintaxe. Dito de um outro modo, enquanto para as práticas tradicionais de ensino, o desenvolvimento da literacia, a ser considerada, é um objetivo posterior ao do encerramento da fase da alfabetização, para o modelo interativo, que a investigadora brasileira Silvia Colello (2010) designa como modelo dialógico discursivo, a literacia é uma preocupação transversal e constante, desde o momento em que os começam a escrever as novidades que lhes são relatadas, oralmente, pelos seus alunos. Inicia-se assim um percurso em que as crianças começam a compreender que a escrita é uma representação da fala e, igualmente, a compreender que através da escrita descobrem outro modo de comunicar, o qual, ao longo das atividades de escrita e de leitura que irão realizar, lhes permitirá aceder a outros modos de pensar e de se relacionar.
É neste contexto que surgiu o texto dos unicórnios com que abro as portas deste texto. Um texto que, para além de ser esteticamente estimulante, nos mostra como a Escola para se afirmar como um espaço de cultura e humanidade não pode encerrar os alunos em momentos tão insensatos e cretinos como são aqueles em que «O xerife Xuxu beija a gibóia» ou em que «O papá papa a tia», ou vice-versa, e tudo o que mais houver para papar.
Conhecemos as razões porque isto acontece, as quais, convém recordar, nada têm a ver com as razões histórico-epistemológicas que justificaram que a escrita se universalizasse nas nossas sociedades. É por via da crença que as crianças não são capazes, a crença que os transforma em alunos a serem resgatados da sua ignorância e incompetência pela ação educativa estruturada dos seus professores, que se justifica que tudo comece num popó ou numa pua.
Nos últimos tempos, os argumentos, para continuar a fazer o mesmo, são mais sofisticados. Hoje, a razão mais utilizada, que um certo cognitivismo tem vindo a difundir, é a importância estratégica do desenvolvimento da consciência fonológica, em função do qual se propõem programas de treino que assentam em dois princípios, tidos por pedagógicos: o primeiro é que se deve evoluir do mais simples para o mais complexo e o segundo que valoriza a ludicidade e o jogo como forma de encontrar um sentido para atividades que não têm de ter qualquer sentido comunicativo ou cultural. É por isso que Ana C. Silva propõe, para que ocorra o desenvolvimento da consciência fonológica, enquanto etapa prévia da aprendizagem da leitura: (i) jogos de rimas; (ii) jogos de segmentação silábica; (iii) jogos de identificação de palavras que partilham a sílaba incial; (iv) jogos de manipulação; (v) jogos de síntese fonémica; (vi) jogos de segmentação fonémica e (vii) jogos de manipulação fonémica (idem). Os textos virão depois.
Ao contrário, para a Lurdes e para a Rita, os textos estão sempre presentes, mesmo antes das crianças saberem ler ou escrever, o que não significa, contudo, que isso signifique que se desvalorize a importância da consciência fonológica. Só que, neste caso, o seu desenvolvimento está presente não como o objeto de uma atividade dissociada da leitura e da escrita autêntica e culturalmente significativa de textos produzidos pelas crianças, mas como resultado do processo de reflexão a que estes são submetidos quando os alunos assinalam, nas palavras, as sílabas que as compõem de forma invariante, quando descobrem as palavras escondidas (semana), quando constroem, na sequência de tudo isto, quadros silábicos que passarão a usar, escrevendo ou recriando palavras.
“Os unicórnios não existem, mas eu gosto de os desenhar” é mais do que um texto empolgante. É o resultado de um trabalho intencionalmente pensado e realizado para que os meninos aprendam-a-escrever-e-a-ler, através de práticas de comunicação dialógicas e funcionais, e não por via do treino mecânico que, em nome da eficiência, adia a inteligência, a comunicação, a cultura e o humano. É que, como nos mostraram a Lurdes e a Rita, escreve-se e lê-se em função da necessidade de comunicarmos e de nos constituirmos como sujeitos. Nós os adultos e elas, as crianças, mesmo que no 1º ano de escolaridade.
Referências bibliográficas
Colello, Silvia M. Gasparian (2010). Alfabetização e letramento: o que será que será? In Leite, Sérgio; Colello, Silvia; Arantes, Valéria (Aut.), Alfabetização e letramento: Pontos e contrapontos (75 – 127). S. Paulo: Summus Editorial.
Silva, Ana Cristina (2021). Consciência fonológica e conhecimento das letra. In Alves, Rui; Leite, Isabel (Ed.). Alfabetização baseada na Ciência: Manual do Curso ABC (219 - 243). Brasília: CAPES.

