Utopias
Sobre o 47º Congresso do Movimento da Escola Moderna (MEM)
Sei que envelheço à medida que vou perdendo as ilusões, ainda que saiba que, sem elas, a minha vida teria sido mais pobre e menos significativa.
Não teria sido professor cooperante na Guiné-Bissau. Não teria adiado o meu retorno à escola para trabalhar no Projeto de Luta contra a Pobreza, na Zona Histórica do Porto. Não me teria envolvido em projetos que, no fim, nos deixaram a todos com uma mão cheia de nada e outra com coisa nenhuma.
Valeu a pena?
Não faço ideia. A única coisa que estou certo e seguro é que sem ilusões não teria vivido o que vivi e, por isso, não seria a pessoa que sou hoje. Sem ilusões não teria estado envolvido noutras iniciativas que, ao contrário daquelas que mencionei atrás, foram gratificantes e alimentaram a minha esperança sobre outras possibilidades de sermos professores e de contribuir para pensar a Escola como um espaço culturalmente significativo e empoderador em termos pessoais e sociais.
No balanço de tudo isto, algumas vezes sinto-me ressacado. 46 anos depois de ter iniciado a minha atividade como professor do Ensino Primário, no dia 18 de janeiro de 1980, numa Telescola, em Sande - Marco de Canaveses, olho em retrospetiva. Estou à porta da aposentação e percebo quer que as utopias levam tempo a ser alcançadas, quer que foi necessário ter aprendido a distinguir as utopias das quimeras ou, mais urgente do que isso, a distinguir as utopias das distopias.
Neste momento, com as utopias que me restam, vou ter de me habituar à ideia que não verei a sua concretização, isto se algum dia isso vier a acontecer. Mesmo assim não me possa queixar. Assisti ao fim de uma longa ditadura, ao fim da guerra colonial, à não aceitação do analfabetismo massivo e, entre outras coisas, à não aceitação silenciosa do machismo e da homofobia, apesar de saber o longo caminho que ainda nos resta percorrer para que uma tal recusa possa pertencer, definitivamente, às nossas memórias mais dolorosas.
Sem utopias ou não haverá futuro (não nos esqueçamos das alterações climáticas) ou o futuro será algo que não desejamos que seja vivido pelos nossos filhos e netos. É em nome de tudo isto que defendo veementemente que as utopias não podem ser enterradas. Só que aceitar isso, pode implicar o risco de ter de viver com uma ressaca de vez em quando, tendo de enfrentar desilusões e resistir à vontade de desistir, persistindo não como um cavaleiro andante, mas no âmbito de coletivos, maiores ou menores, que tomam decisões, avaliam o que fazem ou refletem sobre os desafios e as respostas que decidiram enfrentar, de forma sustentada e consequente.
Para mim, que estive no último congresso do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM), o congresso em que esta associação de professores e outros profissionais de educação comemorou os seus 60 anos de existência, esse é um dos maiores legados do movimento. A concretização do projeto de uma Escola Democrática, porque culturalmente significativa e inclusiva, é uma possibilidade porque a clarificação dos pressupostos que alicerçam um tal projeto, as exigências do mesmo e as soluções que se vão implementando está dependente da cooperação que se vai estabelecendo entre os membros do MEM.
Diria que o modelo pedagógico deste movimento, bem como as inciativas que as suas associadas e associados vão desenvolvendo para o implementar são a linha do horizonte que permite definir os termos de uma utopia educativa que só o é porque a dimensão cultural do trabalho educativo nas escolas continua a ser pobre quando se recusa estabelecer um encontro entre a inteligência e os saberes dos alunos e o conhecimento culturalmente validado, enquanto ponto de partida daquele trabalho educativo. Em salas de aula onde continua a prevalecer, apesar das novas roupagens, o modo de ensino simultâneo, a emulação geradora da competição entre alunos ou uma abordagem seletiva do processo de avaliação, o trabalho daquelas e daqueles que se encontram vinculados ao MEM evidencia os azimutes da utopia curricular e pedagógica que, na minha opinião, temos de continuar a perseguir.
E para se compreender melhor o que quero dizer, limito-me a partilhar, apenas, um momento único a que pude assistir numa excelente comunicação produzida por uma professora do 1º ciclo, Bárbara Giraldes, que no fim da mesma apresenta um pequeno vídeo. Neste, as crianças do seu 1º ano explicam às famílias como aprenderam a escrever e a ler. Passo a passo, descreveram as etapas que foram vivendo, recorrendo aos textos que redigiram e ao trabalho que realizaram sobre estes textos e a partir destes textos, identificando o que foram aprendendo e realizando ao longo de todo este processo.
É em momentos assim que a minha esperança renasce e que, apesar das ressacas, bendigo as utopias.


Excelente!!!👏👏👏😍