Viva o 1º de Maio
Breve reflexão sobre o movimento sindical docente
Passei a manhã do dia 25 de Abril de 2026 numa mesa redonda, em conjunto com a Ariana e o Pedro Barreiros, organizada pelo Sindicato de Professores da Zona Norte (SPZN).
Não é tanto a mesa redonda e o debate que se foi estabelecendo que justifica a escrita deste texto, mas o cartaz que servia de mote ao encontro e o confronto com um outro cartaz que, há já alguns anos, foi exibido por esse Portugal fora, onde se exigia a demissão do então ministro da Educação, João Costa.
Trata-se de um confronto que exprime porque é que, por um lado, acredito na força e na importância do movimento sindical docente e, por outro, porque desespero com algumas das suas iniciativas e, sobretudo, com a deriva corporativista que vulnerabiliza tanto a Escola Pública como a própria profissão.
No cartaz do SPZN, o cravo a despontar da ponta do lápis e a afirmação que é desta ponta que floresce a liberdade exprime como os professores são decisivos para que a democracia subsista e se consolide. Num tempo em que está em curso a discussão sobre um novo estatuto da carreira docente, aquela mensagem e aquele texto correspondem a uma compromisso e a uma reivindicação: os docentes têm de ser valorizados e reconhecidos pelo trabalho que fazem porque são fazedores de presentes e de futuros. O trabalho de um professor é imprescindível para podermos viver num mundo menos injusto e mais democrático. Neste sentido, em vez de se reivindicar a partir, exclusivamente, da exposição das nossas desgraças e feridas, temos de exigir que nos deixem ser os artíficies de uma escola culturalmente mais significativa, mais humana e mais inclusiva. Devem-nos pedir isso e terem em conta que uma tal exigência obriga a reconhecer as contrapartidas que aquele novo estatuto tem de validar e favorecer. É esta a mensagem que subjaz àquele cartaz e que, aliás, foi tornada pública nas intervenções de Pedro Barreiros, naquele encontro, enquanto dirigente do SPZN e da FNE.
No outro cartaz, onde se exige a demissão de um ministro, e que o STOP andou a passear pelas ruas deste país, afirma-se, pelo contrário, o tipo de sindicalismo populista que conduz os professores para becos sem saída e que, por isso, tanto os penaliza como penaliza a própria Escola Pública. Não é a reivindicação da demissão do ministro que eu contesto, mas o modo como a mesma foi proposta. Utilizar um lápis como um instrumento de agressão brutal é um gesto que nenhuma organização representativa de professores deveria patrocinar. É que um lápis é um artefacto que amplia os nossos encontros, permite revelar as nossas alegrias e as nossas dores, permite a denúncia, permite que nos transcendamos. Um lápis, afinal, contribui para que possamos ser mais do que aquilo que já somos.
Por isso, é que me sinto tão gratificado com o cartaz do SPZN, enquanto manifestação de clarividência moral e estratégica de um sindicato que conhece os vínculos profundos entre o lápis e a atividade docente, entre um lápis e a luta tanto contra a barbárie como contra a indiferença perante a barbárie. A barbárie que tanto pode ser alimentada por todos aqueles que exortame lucram com a guerra, como por um cartaz sindical onde, através de um lápis, se perpreta uma mutilação.



