Vive la vie
(para que as quartas-feiras sejam pequenos sábados)
Foi há muitos anos. Andávamos no primeiro ano do liceu e vestíamos batas de pano cinzento. Como num asilo. As aula eram mais ou menos todas iguais umas às outras com longas filas de meninas caladas. Umas atrás das outras. Alinhadas. Era um tempo de silêncios. Pelo menos assim me aprece, visto daqui.
Mas nas aulas de Ciências Naturais, as meninas mexiam-se. Acotovelam-se para entrar à frente na sala e poderem desenhar nas grandes vidraças embaciadas, com dedo trémulo, o Sr. Condensação (boneco que lembrava o ‘Santo’, sabem?), a desejar ‘bom dia’ à professora. Fora ela que o desenhara um dia, magricela, a ensinar-nos o que era o fenómeno da condensação. Durante um ano (menos um tristíssimo mês em que, de atestado, a professora fora substituída), organizámos colecções de rochas (ainda conservo muitas delas, por entre os livros, a dizerem-me que estranhamente perfeita é a natureza), fizemos herbários (secar as folhas entre enormes pilhas de jornais é uma tentação que ainda hoje sinto), tocámos, apalpámos texturas, vimos, mexemos, cheirámos as coisas da terra. Organizámos, paralelamente, uma colecção de materiais combustíveis e outra de materiais comburentes. Vimos crescer feijões e criámos bichos da seda. Como foi o ano das terríveis cheias do Ribatejo, recortámos notícias e fizemos (quase trinta anos antes dos concursos do ‘Público na Escola’!) dossiers de imprensa, a partir dos quais falámos em erosão, aluviões e coisas que tais. A professora organizou um concurso sobre a história de uma gota de água. Ainda hoje guardo, numa caixa antiga, o interminável harmónio de cartolina preta onde desenhei e escrevi, com tinta branca, o trabalho que me valeu o 1º prémio: um livrinho francês, chamado ‘Vive la vie’.
É isso. Já sei por que razão nos marcou tanto.
Poucos anos depois, de muitas matérias, apenas recordava nomes estranhos que pela musicalidade dos seus sons se me gravaram na memória sem qualquer correspondência com um sentido ou uma imagem mental: defenestração de Praga, Lei de Boyle-Mariote. Não faço ideia do que tais coisas sejam, nem importa.
Mas aprendi uma relação de respeito e amor, quase franciscana, por tudo o que faz parte da natureza.
Aprendi a amar a vida, mas também as pedras ‘que não são senão pedras’, como escreveu Caeiro, Porque uma professora - Irene Cortesão - nos deixava ir atrás dos pássaros e borboletas, para fora dos muros da escola. Porque há pessoas - são raras, bem sei - que trasnsportam, dentro de si, pedaços irrecusáveis de futuro.
Isabel Margarida Duarte, Nov. 1992
(Publicado no Correio da educação, nº 30, de 21.02.2000)

