Celebrar Camões
50 anos depois do 25 de abril, e apesar de no dia 10 de junho se ter passado a celebrar Camões, como um poeta cosmopolita, associando-o à diáspora portuguesa, há quem continue a associar o poeta ao dia da Raça, tal e qual o regime ditatorial, de Salazar e Caetano, o tentou consagrar.
Os Lusíadas nem são o livro que olha para os portugueses como o povo eleito, nem tão pouco podem ser um objeto a equiparar à narrativa lusotropicalista que o antrópologo brasileiro Gylberto Freire difundiu e que o salazarismo aproveitou.
Há muitos anos, para o meu grupo de amigos que ficava a conversar na esquina da Rua Aires Ornelas, antes de cada um dispersar para casa, os Lusíadas eram um suplício. Tínhamos de recitar de cor a primeira estrofe, sem nos explicarem sequer o que era a Taprobana, e, acima de tudo, sentíamos que jogávamos à roleta russa quando éramos chamados a classificar as orações, o exercício que, para muitos de nós, seria a única (in)utilidade dos Lusíadas.
Até que um dia, o professor de português, Mário Fiúza, nos proibiu de ler o canto IX. Bendita proibição. Diria mesmo, pelo que hoje sei desse professor, que foi uma proibição estratégica, intencional e inteligente. Fora a já referida estrofe, foi a única coisa de «Os Lusíadas» que o grupo de estudos informal de Aires Ornelas se dignou a ler do princípio ao fim. A ilha dos amores e os marinheiros a correr atrás de ninfas nuas, confesso que não tiveram para nós a importância que seria expectável. Para isso, teríamos de ter tido alguém que nos ajudasse a penetrar no poema, a desejá-lo, a compreendê-lo. Só que isso não era possível, não só essas preocupações se encontravam ausentes dos liceus portugueses, como o canto IX era mesmo um canto que os professores estavam proibidos de abordar.
Por sua vez, a lírica camoniana, como de resto toda a literatura que se trabalhava nas escolas, não era coisa que era pensada para nos entusiasmar. Só o filme do Leitão de Barros, que devo ter visto na televisão, sobre o poeta é que teve algum efeito em mim. Apesar de ser uma obra do Estado Novo, com uma marca ideológica que não se dissimulava, mostrou-me, mesmo que essa não fosse a sua intenção, um outro Camões. Aquele a quem Carlos Tê, justamente, se refere, num texto publicado no dia 16 de maio, no JN. Para ele, o Camões que o começou a interessar era o poeta andarilho. O poeta que foi soldado, que esteve em Ceuta, em Macau, nos lugares desconhecidos que tinham acabado de ser cartografados. Escreve ele que foi isso que lhe chamou a atenção, “muito mais do que o Camões da escrita, que então considerava um bocado chata para os padrões que ia seguindo ao nível da poesia, que era o pessoal da Beat Generation. Sendo que o seu peso institucional também me incomodava um bocado, porque Camões teve um peso institucional muito elaborado e muito apropriado pelo Estado Novo. Isso durou bastante tempo até olhar para Camões como outra pessoa, o lado do herói, do vagabundo escritor, uma espécie de Jack Kerouac do século XVI português. Isso interessou-me muito mais do que o Camões que era dado na escola, do qual eu e muita gente fugíamos”.
Por isso é que confessa que “mais do que o seu valor intrínseco literário, apaixonou-me muito mais a figura, o lado recalcitrante, de alguém que está sempre em guerras com o poder, se calhar, muitas vezes, pelas razões erradas”.
É este Camões que, no dia 10 de junho celebro, aquele que Carlos Tê acaba por consagrar, através da música e da voz de Rui Veloso numa canção, «Má Fortuna», que se encontra publicada no álbum «Auto da Pimenta». Nessa canção, sentado no Cabo de Guardafui, o mais oriental do continente africano, Luís Vaz de Camões é posto a refletir sobre a sua vida, pelo poeta e pelo músico.
É aí que confessa que “Só me deu p’ra dizer não / Em tempo de dizer sim / Também na mesma moeda / O mundo me paga a mim” Por isso é que “ando estrada fora / Como um bardo vagabundo / Desisti de ver a hora / De ficar de bem com o mundo”.
É também aí que reconhece, como tanta gente por esse Portugal fora, “Como este Cabo tão triste/ Pedregoso e sem verdura/ Assim minha vida existe/ Marcada p’la desventura”, acabando, então, por perguntar à musa e aos deuses porque que isso acontece, que lhe respondem que “é só Má fortuna e erros mеus”.
Será? Será que os pacotes laborais impostos pelo governo da AD e pelas associações patronais não têm nada a ver com isso?

